Destino:
Solidão
by Ana Claudia dos Santos
Capítulo 13 - O dia das Bruxas
Festa de dia das bruxas já era legal. Naquele ano, então, que caía num sábado, tinha tudo para ser maravilhosa, a decoração começaria cedo e o "clima" de festas começaria logo no café-da-manhã, além do tradicional passeio para Hogsmeade, que infelizmente era vedado aos alunos do primeiro e do segundo ano. Esse era o comentário de nove entre dez grupinhos animados durante a sexta-feira, dia 30. Ele também estava contente. Seu pai tinha melhorado um pouco (o amigo australiano parecia ter sido eficiente), e ele já tinha um plano para entrar na Floresta.
Severus sempre gostara do dia das bruxas. Primeiro: era seu aniversário. Como ninguém na sua casa tinha festa de aniversário, o dele caindo no dia das bruxas era sempre um acontecimento que ninguém esquecia. Era quase como se a festa, em todo canto do mundo bruxo, fosse para ele. Segundo: era um dia forte. Ele sabia que tudo podia acontecer no Hallowe'en, e diziam alguns que era um dia mágico. E em terceiro lugar era porque, no fundo, no fundo, ele até que gostava de festas, apesar de sempre afirmar o contrário.
À
noite, ele pensou bastante em seu plano. Se desse certo, e se encontrasse o que
achava que iria encontrar, em mais ou menos três dias estaria testando o
encantamento da poção.
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Não foi surpresa para Severus, Steve, Lucius, David e Edward, acordar com
cheirinho de abóbora no ar. Os meninos ficaram excitadíssimos e, ao que
parecia, Narcisa e suas seguidoras também estavam ansiosas para ver a decoração
de Hallowe'en. Mas ao chegarem no Salão Principal constataram que só mesmo à
noite a decoração estaria totalmente pronta. Mirna Waty e Melissa foram as
primeiras a dar os parabéns a Severus, que agradeceu de maneira fria. Sisudus,
Wickman e Avery, animados com a ida a Hogsmeade, deram parabéns e prometeram
comprar coisas gostosas para Severus na Dedosdemel. Veronica lhe mandou uma
coruja com um cartão mágico, cheios de "estrelinhas portáteis", que
era a última novidade, e lhe acenou da mesa da Corvinal, contente. Os outros
foram sabendo aos poucos e dando desculpas por não comprar nenhum presente.
Severus deu um sorrisinho cínico. O único presente que ele realmente queria
era que seu plano desse certo. Aliás, já tinha que começar com a estorinha de
seu plano.
- Vocês viram Fuligem? - perguntou, com cara de tristeza, para Narcisa e June Zabini. As meninas responderam que não, claro.
- Ele sumiu... - sussurrou ele, mas elas não lhe deram muita bola. Mal podiam esperar para a festa à noite.
Lilovena despejou, cansada, um pacote remetido por Soraya e seu pai. Dentro havia dois bolos de laranja e uma pena enfeitiçada para melhorar a caligrafia, presentes da tia, e dois livros, um de contos inacabados, que toda vez que se lia tinham um final diferente, e outro repleto de biografias de bruxos famosos, este autografado pelo pai, pois era de sua autoria. Severus se censurou por não gostar dos presentes enviados pelo pai.
Ele ouviu passos atrás de si. Era Lílian.
- Oi. Feliz aniversário!!!
Dessa vez ele conseguiu sorrir ao agradecer. Lílian lhe entregou um pacote.
- Isso é pra você.
- N-não precisava.
- Claro que precisava - respondeu ela, feliz. Os olhos verdes pareciam maiores do que nunca. - Você sempre foi tão gentil comigo...
Snape sentiu-se empalidecer. "Se ela soubesse com o que eu ando metido...".
- Olhem, os morceguinhos!!!! - gritou June, animada.
Era verdade, alguns morcegos, que provavelmente seriam parte da decoração, escaparam da gaiola de Hagrid, e voavam pelo Salão. Um deles pousou no ombro de Severus.
- Nictus... - falou Severus, baixinho, os olhos repentinamente cheios de lágrimas.
Lílian parecia encantada.
- Você conhece esse morcego?
- Era meu... - respondeu ele, ainda emocionado, segurando Nictus com o dedo. - É muita coincidência, no dia do meu aniversário, eu encontrá-lo...
- Só maluco é que cria morcego, morcegos são nojentos - resmungou Narcisa, olhando feio para Severus.
- E só maluco é que consegue ficar olhando para você sem passar mal - rebateu Severus, enquanto Melissa mexia com Nictus. Lílian franziu a testa, parecia não entender aquela briga. Narcisa se levantou, de nariz empinado, e foi sentar-se no outro canto da mesa, ao lado das garotas do quinto ano.
- Nictus é um morcego encantado, você sabe, animais encantados vivem mais do que os outros e são mais saudáveis. E... ele é bem educado, juro - disse, constrangido.
Lílian parecia não se importar com a aparência de Nictus.
- Vá, Severus, abra logo o presente, se você não gostar não tem importância, eu troco.
Ele abriu. Era um livro. Um dicionário de hábitos, utensílios e modo de vida de trouxas, cheio de ilustrações, e um pacotinho de "estrelinhas portáteis".
- Achei interessante para você conhecer melhor o mundo dos trouxas... quero dizer... o meu mundo. Sarah achou num catálogo de reembolso-coruja - explicou Lílian, sorrindo.
- Adorei - respondeu ele, sinceramente. - E estava louco para ganhar dessas estrelinhas, obrigado...
- O que é que aquela menina tem? - perguntou Lílian, apontando o queixo para a direção de Narcisa, que continuava de nariz empinado.
- Nada. Ela só me odeia, só isso. E eu a odeio também.
Mas Lílian não parecia convencida.
- Ela é bonita, não? Será que usa algum feitiço nos cabelos? São tão sedosos e brilhantes...
- Bonita por fora, mas horrorosa por dentro - resmungou. Se sentindo um pouco culpado por ter que enganar Lílian também, ele prosseguiu com sua "estorinha".
- Eu... eu não vejo Fuligem desde ontem à noite, por acaso você o viu?
- Não... Mas ele deve estar por aí, não é mesmo? Gatos adoram passear.
Severus fez uma cara desanimada. Ela tentou animá-lo:
- Não se preocupa. Eu vou perguntar a Remus. Quem sabe ele o viu. Ah, não diga pra ele, mas eu acho que Remus comprou alguma coisa para você também. Ele andou adoentado, sabe? Mas já está melhor. Deixa eu ir. Sarah já está me chamando.
Severus
olhou na direção da mesa da Grifinória e viu Remus, com uma aparência
bastante cansada, lhe acenando de leve, como se não quisesse que Black e Potter
o notassem.
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Durante todo o dia ele ficou daquele jeito, ansioso e preocupado, e nem
conseguiu aproveitar as preparações da festa. Pensava e repensava no que iria
fazer, e no que deixaria de fazer, para se embrenhar na Floresta. Se Hogwarts não
estivesse protegida contra poções "decoreba", que sempre desandaram
quando ele tentara preparar, ele poderia ter decorado as anotações, e não
seria necessário levar o pedaço de pergaminho consigo. Teria que tomar todo o
cuidado...
Ao que tudo indicava, a festa seria esplendorosa. Centenas de abóboras estavam sendo deslocadas para o Salão Principal e da cozinha vinha um cheiro delicioso. Hagrid conseguira convencer Nictus a participar da festa e desgrudar do antigo dono. Severus passou a tarde toda no dormitório da Sonserina, brincando com suas estrelinhas portáteis (o cartão de Veronica, com as mesmas estrelinhas, ficou de lado em um canto). Lia também uma boa parte do dicionário de hábitos e utensílios trouxas, e de vez em quando levantava os olhos para a parte de cima de sua cama, que brilhava com várias estrelinhas de todos os tamanhos e intensidade. Ao ler o livro, ficava imaginando Lílian dentro de um carro, Lílian passando aspirador na casa, indo ao cinema, ouvindo música em uma vitrola... Encheu a boca de bolo de laranja, e deu uma olhada mais atenta ao calendário mágico que Remus lhe dera. Era um calendário bastante sofisticado, mostrava todos os dias de todos os meses de todos os anos até 3300, com fases da lua, e até mesmo as conjunções, trígonos e quadraturas astrais de cada dia. De repente ele se deu conta de que estava feliz, o que o deixou mais calmo em relação a seu plano.
Às seis e meia, ele começou a se preparar. Pegou Fuligem, que escondera com um feitiço atrás do espelho do banheiro do dormitório, alimentou-o com um pouco de leite misturado com poção do sono, tomando cuidado para que ninguém o visse, e escondeu-o dentro de suas vestes, magicamente ampliadas por dentro. Guardou o pedaço de pergaminho (que apelidara de "mapa da mina") e encaminhou-se para o Salão Principal. Como ele previra, todos estavam tão atarefados e ocupados com a festa, que ele pode facilmente realizar um feitiço complexo que aprendera nos livros. Seria a primeira vez que o realizaria, e não tinha muita certeza de que daria certo. Era o Feitiço de Presença, que faria com que todos achassem que ele estivera durante algum tempo na festa. Se tudo desse certo, quem perguntasse por ele ouviria: "mas ele estava aqui agora mesmo, não entendo...".
Severus certificou-se de que Dumbledore ainda não havia chegado. O diretor era meio estranho, Severus poderia jurar que ele lia seus pensamentos. Andando de um lado para outro, ele movimentou levemente a varinha e murmurou: Falsa Praesentia! Torcendo para que seu feitiço funcionasse, ele saiu de fininho, e, andando como quem não quer nada, passou por alguns alunos deslumbrados vindos de Hogsmeade, misturou-se a um grupinho de sextanistas na porta do castelo, esbarrou com alguns jogadores de Quadribol, da Lufa-Lufa, vindo de um treino informal, e foi se encaminhando para a Floresta Proibida.
Estava muito escuro pois era lua nova e de repente um medo lhe invadiu. E se não conseguisse voltar? Sabia de cor o feitiço "corta-trilhas", mas o medo foi aumentando à medida em que a floresta ia se aproximando. Fuligem ameaçou colocar o focinho para fora, e assim que ele entrou na floresta ele permitiu que o gatinho, ainda meio entorpecido, ficasse em seu colo. Fuligem tinha crescido bastante desde agosto e estava mais pesado. De tanto olhar o mapa ele quase o sabia de cor, mas teve o cuidado de acender sua varinha e segurar o pergaminho em sua outra mão - a que sustentava o gato - dando mais uma olhada no mapa. Era por ali mesmo. "Apagou" a varinha (não queria chamar atenção de lobisomens ou de centauros) e fez o tal feitiço de trilhas. Imediatamente surgiram pontos luminosos atrás dele, e conforme ele andava, os pontos iam aparecendo por onde caminhara. Já sem medo de se perder, mas um pouco receoso de que os pontos fossem visíveis a mais alguém (ele não lembrara desse detalhe), Severus foi seguindo por onde o mapa indicava. Agora já estava mais acostumado com o escuro. Sentia medo de acender a varinha e chamar atenção dos bichos da floresta, mas não teve jeito, tinha que verificar se o caminho estava certo. Ali estava o círculo de pedras e logo adiante parecia estar o tal laguinho. Já estava quase lá. Atravessou o laguinho sem se preocupar com a água que batia em seus joelhos pois havia impermeabilizado suas roupas e a veste com um feitiço. Finalmente chegou no ponto em que o mapa marcava o "x" vermelho. E acendendo novamente sua varinha ele quase desmaiou ao ver, escondido por vários arbustos de urtiga-das-trevas, um pé cheio de frutinhas, verdes ainda, mas facilmente reconhecíveis. Ele abaixou-se e apanhou um punhado de skinberries e guardou-as no bolso. Foi então que ouviu um berro tenebroso, como se alguém, ou melhor, algo, estivesse sendo torturado e sentindo muita dor.