Destino: Solidão
by Ana Claudia dos Santos

Capítulo 12 - O Enigma

Mas o que era aquilo? Não parecia realmente uma carta, mas um embaralhado estranhíssimo, anotações, desenhos, a maior parte anotada de qualquer jeito e num idioma diferente... Nervoso, Severus tentou se acalmar, respirando fundo. A luz de sua varinha era muito fraca, era melhor ele observar a carta num ambiente mais claro. Resolveu voltar para o dormitório, não sem antes jogar um feitiço no envelope e nos frascos, fazendo-os ficar do tamanho de uma formiga, e jogando-os fora no ralo da pia.

Apertando muito forte a carta em sua mão, que já parecia uma bolota de pergaminho, e segurando sua varinha "acesa", ele foi-se esgueirando pelo corredor, morto de medo de ser pego por Adelmus. Mas respirou aliviado ao chegar à parede de pedra.

- Língua de gato - sussurrou.

A porta abriu-se e ele deslizou para dentro da sala comunal. A lareira já estava apagada, e todos os sonserinos já estavam em seus dormitórios. Severus sentia a carta queimando em sua mão. O que faria agora? Tinha vontade de gritar e acordar toda Hogwarts. Tanto trabalho para uma brincadeira de mau gosto. Reprimindo toda a sua raiva, ele aboletou-se em sua cama, tomando cuidado em fechar as cortinas, e pôs-se a examinar mais uma vez a carta, agora toda amassada e suada. A luz da varinha era fraca, sim, mas não havia dúvida que o texto contido no pergaminho era em uma língua que Severus não conhecia. E o desenho parecia... O desenho era um mapa!!! E as anotações, pareciam uma receita de encantamento.

Assustado, nervoso, deprimido, muito chateado, e agora muito curioso, Severus guardou a carta debaixo do travesseiro, abriu uma caixinha que sua tia havia lhe dado, retirando de dentro um vidro com um conta-gotas. Era uma poção de dormir. Pingou três gotas na língua, deitou-se e tentou relaxar. Ele iria dar um jeito de decifrar a carta, custasse o que custasse....

 

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Todos pareceram notar o estado lastimável em que Severus se encontrava naqueles dias. Professores e alunos tentavam ser gentis e dizer coisas amáveis, desejando a rápida recuperação de seu pai. "Idiotas", pensava ele, que desde a manhã de segunda-feira, só pensava em uma coisa: decifrar aquele enigma que sua mãe tinha lhe deixado. O texto ele deixara para depois... Algo lhe dizia que era a parte mais difícil do problema. Quanto às notas ao redor do papel, que era a única parte que não estava no idioma estranho, consultando seus livros de magia negra ele descobriu pouca coisa, mas o suficiente para saber que se tratava realmente de encantamentos, e daqueles que precisam ser pronunciados ao tomar uma poção. Talvez no corpo da carta houvesse uma receita. Isso ele deduzia porque havia números no meio do texto, e mais embaixo também, perto do final. O mapa (agora ele tinha realmente certeza que era um mapa) era de um lugar nos arredores de Hogwarts, pois Hogwarts aparecia como um castelo ao lado dos pontos marcados. Mas aonde?

- SNAPE!!! Sua poção está borbulhando, e está clara, quando deveria estar escura e sem bolhas - vociferou a professora Stratas.

- Menos cinco pontos para a Sonserina - concluiu ela, com voz meiga, ao ver a cara de espanto dele. - E se continuar no mundo da lua durante o resto da aula: detenção.

Nada... mas nada... faria Severus dar o gostinho de uma detenção tão facilmente para Stratas. Tratou de ficar atento.

- Então... Para a próxima lição quero que estudem as propriedades da skinberry, e aquele que conseguir para mim uma amostra da frutinha ganha dois pontos na média.

Os alunos ficaram alvoroçados.

- E nada de se aventurarem na Floresta Proibida. Já não existem mais skinberries por lá há mais de vinte e cinco anos.

- Ué... Então onde poderíamos achar a fruta? - perguntou Sarah.

- Em lugar nenhum. Por isso eu daria dois pontos na média - sibilou a professora, feliz, provavelmente porque havia tirado cinco pontos da Sonserina.

Sarah fechou a cara, enquanto Lílian dava uma risadinha.

- Essa era uma aula que o velho professor Miller deveria dar, mas parece que ele não quer mais essa lição em seu currículo...

Ela parou, com uma expressão curiosa no rosto. - E estão dispensados...

Um pensamento começou a se formar na mente de Severus. Alguma coisa que a professora falou... hum... a floresta... O mapa poderia facilmente ser um mapa da floresta. Se ao menos pudesse decifrar em que língua aqueles rabiscos estavam escritos.

Sobressaltou-se quando viu Lucius Malfoy na sua frente, com Narcisa ao lado.

- A gente vai ver o treino de quadribol. Tá a fim de ir também?

- Ah? Não, não... Outro dia, Lucius.

Malfoy deu de ombros e foi andando, mas Narcisa continuou ali de pé.

- O que foi? - perguntou o menino.

- Você anda muito esquisito - disse ela, com seu olhar petulante de sempre.

- Eu sou esquisito - respondeu Severus, e foi embora, deixando a menina com cara de tacho.

 

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Ele já consultara todos os livros da biblioteca relativos a idiomas, e nada. Para piorar seu ânimo, recebera outra carta da tia, e seu pai tivera outra recaída. Ninguém sabia ao certo o que seu pai tinha. Mas Severus não podia deixar de pensar que tivera sorte por seu pai ter adoecido justo agora. Era um pensamento horrível, é verdade, mas era o álibi perfeito para sua falta de atenção nas aulas e seu desleixo com os estudos. O único que parecia não sentir pena dele, quer dizer, tirando a chata da Stratas, era Dumbledore. O diretor parecia ler seus pensamentos, e tinha um ar curioso quando o olhava, como agora, por exemplo, durante o café. Severus o achava meio maluco, mas tinha que agradecer a idéia da sopa de letrinhas. Graças a Dumbledore, ele pelo menos já estava com a carta na mão. E tinha que agradecer a Steve Carter também...

Severus parou de comer por um instante, olhando para Carter à sua frente, falando sem parar com a boca cheia de pão.

Era isso! Como podia ter sido tão imbecil e tapado?

- Eu... eu estou me sentindo mal - resmungou, teatral, para Melissa e David Weil, que estavam a seu lado na mesa.

- Severus... é melhor procurar Madame Pomfrey...

- É... - disse ele, com a voz baixa. - Vou fazer isso...

E sem olhar para trás, fingindo estar enjoado, ele atravessou o salão e correu para o dormitório, onde a carta o esperava dentro do ursinho. Bastou uma olhadela na carta para Severus respirar, feliz, e imediatamente procurar em seus livros um feitiço desembaralhador. Era tão simples... Ele agira esse tempo todo como um idiota. Enquanto perseguia o feitiço nos livros, tremendo, ele pensava o que diriam aquelas anotações, para serem tão protegidas daquela maneira. Tinha pouco tempo, alguns minutos apenas. Em breve os alunos voltariam a circular pela sala comunal, pelos dormitórios, em todos os lugares... Finalmente achou, e segurando a carta, manejando sua varinha com cuidado, para que ninguém o surpreendesse, pronunciou baixinho: Elucidate.

Em menos de um segundo todos os dizeres na carta faziam sentido. O coração de Severus deu um pulo ao notar que o texto continha instruções, e uma receita de poção. Ele tinha acertado também no mapa, era realmente o mapa de uma parte da Floresta Proibida. Ao começar a ler o texto, porém, Severus notou o tom impessoal com que fora escrito. Aquilo não havia sido escrito para ele, especificamente. Parecia que várias anotações foram feitas, em ocasiões diferentes, numa folha de pergaminho, uma folha de diário, e apenas foi repassada a ele.

Um pouco menos alegre, porém mais tranqüilo, ele começou a entender. Sua mãe não tinha tido tempo nem ocasião de lhe escrever nada. Apenas passara adiante alguma "relíquia", como Eddie, o ursinho. Mas parecia que tudo ali estava ligado: o mapa, a poção, os encantamentos. Havia um ponto vermelho no mapa, como um tesouro. Severus teve apenas tempo de ler alguns dos ingredientes da poção antes de ouvir vozes no dormitório. Imediatamente ele guardou a carta e deitou-se, fazendo cara de enjôo.

Na verdade, estava enjoado mesmo. Um dos ingredientes da poção era justamente a tal fruta que a Stratas havia mencionado, a skinberry...

 

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- É uma fruta curiosíssima - começou Tiago Potter, incubido de expor as características da skinberry. - Tem uma cor alaranjada, mas o gosto é parecido com a da blueberry, só que é mais ácida. Serve para várias coisas, uma delas é que ela é capaz de neutralizar os efeitos do Feitiço Cascudus, em que a pessoa vai ficando com a pele bastante espessa e ressecada, e vai trocando de pele, como uma cobra.

Lílian fez uma careta, e Lucius aproveitou para bocejar.

- Espero - sussurrou a professora Stratas na direção de Lucius, - que todos os senhores tenham pesquisado sobre a skinberry... O trabalho vale pontos.

Lucius adorava uma provocação, mas Severus sabia que ele não tinha pesquisado coisa nenhuma.

- Snape, continue.

Ele já esperava por isso, tudo que Malfoy fazia, era ele quem pagava.

- B-bom... hã... como disse o Potter, ela é importante para uma série de coisas, para neutralizar efeitos de feitiços que atinjam a pele, por exemplo. Misturada com olhos de lagartos e folhas de erva-do-druida, vira uma receita infalível para depressão.

A professora ainda não parecia satisfeita. Continuava a olhar para ele como quem queria mais.

- Hã... elas têm essa coloração alaranjada aqui na Grã-Bretanha, já no Canadá elas são rosadas.

Não era suficiente? Quanto tempo ele teria de falar? E os outros alunos?

- Continue, Snape.

- É... o único problema é que ela está em extinção e é praticamente impossível arrumar sementes ou mesmo uma frutinha que seja. Aqui em Hogwarts, antigamente, era possível encontrar skinberries na Floresta Proibida, mas hoje em dia, é como procurar agulha num palheiro.

Stratas parecia ainda descontente.

- Prossiga.

- Acho que acabei, professora - respondeu, ele, contrariado.

- Você é muito atrevido, garoto. Sei que sabe mais sobre a skinberry.

É claro que ele sabia, passara a semana inteira pesquisando. Mas nunquinha que ele ia deixar transparecer isso.

- Digamos... - continuou Stratas, fuzilando Severus com seu olhar azul piscina. - Por que é que elas se extinguiram?

Lílian levantou a mão.

- Evans?

- Na verdade elas foram exterminadas de propósito, professora - disse Lílian com sua vozinha clara e cristalina. - Descobriu-se, há algum tempo, que tinha propriedades não tão inocentes, passando a ser usada em poções de magia negra, e dizem que tem propriedades alucinógenas.

Stratas sorriu satisfeita, e imediatamente fitou Severus de maneira fria, como se achasse que quem deveria ter dado essa informação à turma era ele. O menino fez o possível para fazer cara de bobo, como quem nunca tivesse ouvido falar das propriedades "malignas" da fruta.

Ele estava com sorte pois nenhum ponto foi tirado da Sonserina, e ao sair da aula ainda recebeu um sorriso de Lílian, juntamente com algumas palavras de ânimo:

- Eu sei que você anda atormentado com a doença do seu pai, não sei como a Stratas consegue tratar você desse jeito sabendo por tudo que você está passando. Ele está melhor?

Severus baixou os olhos. Durante todo aquele tempo ele mal se preocupara com o pai.

- As últimas notícias que recebi não foram muito boas... Parece que um médico muito bom, um bruxo australiano, vai vir para cá só para vê-lo. Ele foi amigo do meu pai há muito tempo.

- Nossa, tomara que dê certo...

- É... - Severus não sabia o que responder.

- Seu aniversário está chegando, não é?

- Como você sabe? - perguntou, espantado. Devia estar com cara de bobo, pois Black e Potter, logo adiante, pareciam estar rindo da cara dele.

- Remus me falou. Parece que você comentou com ele que fazia aniversário no dia das bruxas.

Sarah se aproximou deles.

- Lílian, a gente vai se atrasar para assistir ao treino de quadribol da Grifinória...

- Ah, tá. Bom, Severus, a gente se encontra por aí.

- Tá - respondeu ele. Era incrível mas só agora ele tinha reparado que Remus mais uma vez não estava na aula da Stratas. E também fazia alguns dias que ele não o via às refeições.

Balançou a cabeça. Já tinha muito com que se preocupar. O principal, ele pensou, sentindo um friozinho na barriga, era achar um jeito de se embrenhar, sem ser visto, na Floresta Proibida...


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