Destino:
Solidão
by Ana Claudia dos Santos
Capítulo 11 - Más notícias
Naquela noite, durante o jantar, ele recebeu a tão esperada carta de Tia Soraya. Parecia que estava com sorte! Lilovena deixou uma carta para Sisudus também. Normalmente, Severus nunca abriria uma carta diante de estranhos, mas sua ansiedade era tanta que ele não resistiu. Suas mãos tremiam ligeiramente ao abrir o envelope e se deparar com a letra redonda da tia.
"Querido Severus,
Peço desculpas pela demora na resposta, sinto muito, não sei nem como escrever sobre isso, mas o fato é que seu pai está adoentado há alguns dias. Desde que você e Sisudus foram para Hogwarts seu pai começou a sentir tonturas e falta de ar. Rigorosus teve uma briga violenta com o pai e resolveu sair de casa, o que agravou mais ainda o seu problema. Você sabia que Rigorosus tinha uma namorada? Eu, não. Pois bem, ele fugiu de casa para se casar com a moça, parece que o pai dela era contra o namoro. Desculpa se estou enchendo você de problemas, mas acho que você já é bem maduro para a idade. Também estou mandando notícias para Sisudus.
Não se preocupe, querido, seu pai está sendo tratado pelos melhores médicos-bruxos de Londres. Ontem mesmo ele começou a tomar uma poção nova e já apresenta melhoras. E quanto a seu irmão, andei me informando e soube que ele e a mulher foram morar em Bath, enquanto os pais dela não os acolherem, o que acho que vai acontecer em breve.
Você me perguntou sobre o nome do meio de sua mãe. Sinto lhe dizer, mas eu não tenho a menor idéia se Helena tinha ou não um nome do meio. Só me lembro que ela insistiu em conservar o sobrenome de solteira depois de casada (acrescentando Snape no final).
Estou morrendo de saudades. Fiquei tão feliz ao ler sua cartinha! Mande logo outra!!!
Abraços,
Soraya Snape"
O desapontamento em não saber o nome completo de sua mãe só não foi maior porque as notícias eram as piores possíveis. Severus sentiu pena do pai, mais uma vez o velho lhe inspirava piedade. Imaginou o pai sem nenhum dos filhos em casa, sozinho com a irmã, sofrendo com problemas de saúde. E Rigorosus, quem diria, fugir para casar!!! Será que Sisudus sabia do envolvimento do irmão com uma garota?
Sisudus terminou de ler sua carta e olhou espantado para Severus.
- Papai está doente!
- Você sabia que Rigorosus tinha uma namorada?
Sisudus fez uma careta.
- Claro que sim. É Sabrina Lewis. Os pais dela eram contra o namoro deles.
- E por que ninguém nunca me falou nada?
- E quem é que tem que dar satisfação para pirralho? - resmungou Sisudus. - Tome logo sua sopa que vai esfriar.
Severus tentou se controlar. Que droga!!! O pai doente, o irmão casado com sei-lá-quem, e ele sem saber o nome do meio da mãe. Para seu espanto sua sopa de letrinhas começou a formar palavras. A seu lado, Melissa dava risadinhas.
- Olha, está funcionando...
Ele olhou espantado para o prato que formava as seguintes palavras: "Coma logo snão vai sfriar".
- Está faltando o "e" - falou Narcisa, por cima do ombro de Melissa.
- Olha! - gritou Melissa. - Agora está formando outra frase.
Severus não queria acreditar. Todos passaram a olhar para seu prato, que era o único que ainda continha muitas letrinhas.
- Fui eu - disse Carter. - Eu enfeiticei sua sopa. Aproveitei que você estava distraído, pode deixar que vou desfaz...
- Não! - gritou Severus. No momento a frase lhe dizia: "Procur na bibliotca".
Imediatamente Severus embaralhou a frase com a colher, sobressaltado. Carter desfez o feitiço mas o menino já havia perdido a fome. Mal beliscou o peixe com ervas e a salada de batatas. Estava nervoso demais para comer. Seu coração batia rápido enquanto raciocinava. Procurar o quê na biblioteca? O nome de sua mãe? Mas como o nome de sua mãe iria parar na biblioteca?
Quando a sobremesa chegou - pudim de claras - Severus entregou seu pedaço para Melissa, que adorava doces, e correu para a biblioteca. Ainda não sabia direito o que procurar, mas tinha a impressão de que se olhasse para os livros poderia ter uma inspiração.
Madame Pince, sempre alerta, encontrava-se, infelizmente, a postos. Severus pegou um inocente livro de transfiguração e enquanto o folheava seu pensamento corria longe. Pensou no pai, na tia, no irmão, na carta misteriosa que recebera da mãe... De vez em quando seu olhar percorria os livros. Será que aquela frase tinha mesmo algum significado?
Já estava lá há mais de vinte minutos quando Madame Pince deu uma saidinha, deixando uma moça da Corvinal no lugar. Era tudo que Severus precisava.
- Er... Olha só... - ele não sabia muito bem o que dizer mas tomou coragem ao perceber que a moça era simpática. - Eu... Estou procurando um livro mas esqueci o nome.
- Esqueceu o nome do que, do título ou do autor?
- Bom, na verdade eu estou procurando o nome de uma pessoa.
- Ex-aluno?
- Isso! O nome de um ex-aluno! - ele respirou aliviado.
- Você sabe em que ano ele se formou?
Severus se sentiu com se um balde de água fria caísse sobre ele.
- N-não...
- Hã... Se você soubesse era só procurar nos álbuns de formatura. Você não tem nem idéia do ano em que esse aluno se formou?
Era isso! Os álbuns de formatura! Ele se sentiu tão feliz que poderia pular de alegria. Mas sabia que tinha de ser rápido pois Madame Pince poderia voltar a qualquer momento.
- Bom... deixa eu ver... Acho que em 1944/45, mas pode ser um pouquinho antes. Ou depois...
A mocinha sorriu, prestativa, e pediu para Severus se sentar que ela já iria lhe trazer os livros. E em poucos minutos lá estava ele com dez álbuns, de 1940 a 1949, repleto de fotos que se movimentavam. Todas tinham o nome completo do aluno embaixo de cada foto, e continham também um resumo de sua personalidade. Severus foi ficando nervoso ao perceber que poderia dar de cara com uma foto de sua mãe. Pela primeira vez ele veria uma foto da mãe! Folheava os álbuns com a mão trêmula. Madame Pince retornou e deu a ele uma olhadela zangada, como se achasse que o menino estava fazendo algo errado. Isso só deixou Severus mais nervoso.
E então, no álbum de 1943, na parte que cabia à Sonserina, ele a viu.
Lá estava sua mãe, aos dezoito anos, cabelos cacheados e volumosos, olhos brilhantes e o sorriso mais lindo que ele já vira. Ela virava o rosto de um lado para outro, como se brincasse com o fotógrafo. Severus reconheceu seus próprios olhos naquele retrato. Uma grossa lágrima escorria em seu rosto, quando Madame Pince gritou:
- Não vá danificar os álbuns! Essas fotos antigas são muito frágeis...
Ele
enxugou as lágrimas. Embaixo da foto, os dizeres:
"Helena Elizabeth Burnell. Nascida em 13 de Junho de 1925, em Brighton,
Inglaterra. Foi a melhor aluna dos anos de 1939-40 e 1940-41. Apanhadora, foi
responsável pela vitória da Sonserina durante os quatro anos consecutivos em
que a Casa recebeu a Taça de Quadribol."
Um
desejo de se apoderar da foto de sua mãe tomou conta do menino. Mas a bibliotecária
estava de olho nele. Tentou recompor-se e olhar o resto do álbum. De repente
deu de cara com uma foto de um rapaz estranho, de cabelos negros. O que havia de
estranho era o olhar do rapaz, era como se ele o estivesse observando. Severus
leu os dizeres embaixo da foto:
"Tom Servoleo Riddle. Nascido em 10 de Abril de 1925, em Little Hangleton,
Inglaterra. Monitor da Sonserina, Tom foi o melhor aluno dos anos de 1936-37,
1937-38, 1941/42 e 1942/43. Aluno inteligente e dedicado, recebeu um Prêmio por
Serviços Especiais no ano de 1942."
Severus pensou que talvez estivesse imaginando coisas ao achar que o rapaz estivesse observando-o. Voltou a olhar para a mãe, que arrumava os cabelos e parara de sorrir. Séria, seu rosto ficava um pouco diferente, e sua expressão parecia mais dura, e mais astuta também. Mas isso durou menos de dois segundos, logo a moça já sorria novamente e parecia muito alegre. Como não havia meios de Severus furtar a foto, voltou a observar os outros alunos das outras casas. Não foi surpresa ver a foto da professora Stratas na Corvinal, mas Severus não pode deixar de notar que quando moça a professora era até bonita.
- Já está na hora da biblioteca fechar - falou Madame Pince, se dirigindo principalmente a ele, Severus.
- Mas ainda são nove horas - resmungou uma menina da Lufa-Lufa.
- Aos domingos a biblioteca fecha às nove, mocinha.
Severus relutou em deixar Madame Pince levar o álbum. Durante um tempo ficou parado no corredor sem saber o que fazer. Deveria correr e tentar abrir a carta, é claro. Sentia seus olhos pesados, sua cabeça pesava também. Mas precisava tentar abrir a carta. Durante um tempo ficou parado, sentado em uma poltrona da sala comunal da Sonserina. Os outros alunos passavam e olhavam para ele com pena, provavelmente achando que ele pensava em seu pai doente (a notícia se espalhara pela Sonserina graças a Sisudus). Somente quando todos foram dormir, Severus se aventurou a entrar no dormitório. Pegou cuidadosamente sua varinha, os frascos com água da chuva e a carta, escondeu tudo nos bolsos do pijama e se encaminhou resoluto para um dos banheiros que ficavam no corredor. Corria o risco de ser pego, mas não poderia realizar o feitiço no quarto, correria mais riscos se algum dos alunos ainda estivesse acordado.
Chegando no banheiro, um pouco trêmulo, ele colocou o envelope em cima de uma das pias, molhou-o com o conteúdo de um dos frascos e repetiu três vezes o nome de casada de sua mãe, apontando a varinha. Era sua esperança que a mãe não tivesse mesmo a intenção de abandonar o pai, ao escrever a carta. Tentou abrir o envelope. Em vão. Tentou então, mais uma vez, um pouco surpreso ao reparar que o envelope continuava seco, fazendo tudo novamente. Dessa vez, pronunciou o nome de solteira de sua mãe, Helena Elizabeth Burnell. Algo aconteceu dessa vez. Uma fumacinha clara parecia sair do envelope, como se estivesse quente. Pouco depois o envelope, totalmente seco, abriu-se sozinho.
Tremendo,
Severus abriu a carta, que estava dobrada em quatro. E o que sentiu ao ler as
primeiras linhas foi um misto de espanto, raiva e desânimo.