Destino: Solidão
by Ana Claudia dos Santos

Capítulo 10 - Um domingo de sol

A primeira aula de Defesa Contra as Artes das Trevas, ao contrário do que todos esperavam, foi chata e monótona. O professor Walden MacNair parecia estranhamente contido. Sisudus dizia que MacNair era um professor ranzinza, meio estúpido, sempre de mau-humor, e que ensinava técnicas um tanto controvertidas para acabar com certas criaturas das trevas, às vezes com requintes de crueldade. Mas naquela aula ele tinha se comportado de maneira bastante burocrática. Talvez fosse assim mesmo no primeiro ano, pensou Severus, bastante desapontado. O bruxo diretor da Sonserina, ao seu ver, parecia um brucutu metido a sabe-tudo.

Nas sextas eles tinham a segunda parte da tarde livre. Dois dias antes, Severus estaria ansioso para saber o que Lílian e Sarah iriam fazer nesse tempo. Mas depois do episódio da carta, duas coisas não saíam de sua cabeça: conseguir um pouco de água de chuva colhida em domingo de sol e descobrir o nome completo de solteira de sua mãe. Quanto à chuva, teria que aguardar o próximo domingo, e o outro, e o outro, até o quase-milagre acontecer. Os dias estavam até bem amenos, vez por outra o sol abria, mas não havia umidade no ar. E Severus sabia que assim que começasse a chover, os dias de sol seriam mais raros. É verdade que no verão alguns dias amanheciam ensolarados e mais tarde chovia. Mas estavam em setembro, e o tempo só tendia a piorar de agora em diante. Sentiu um calafrio ao pensar que talvez só no ano seguinte pudesse conseguir a tal água.

O problema do segundo nome de sua mãe era mais fácil. Infelizmente, ao acordar, Severus não tinha a menor noção do que tinha sonhado. Ele sempre soube o sobrenome da família de sua mãe, que era o mesmo de sua avó, pois guardava consigo sua certidão de nascimento (havia uma superstição em sua casa, que dizia que quem detivesse a certidão de nascimento de outra pessoa poderia fazer o feitiço do desaparecimento perpétuo apenas com a posse do pergaminho; isso nunca foi comprovado mas não custava nada não facilitar...). Após o almoço ele ficou vários minutos olhando sua certidão. Ali estava a data de seu nascimento (31 de outubro de 1955 às 7 da manhã), o nome de sua mãe, Helena Burnell Snape, e o de seu pai, Petrucius John Snape, os de seus avós paternos e de sua avó materna (seu avô paterno era desconhecido).

Uma dúvida lhe veio à mente. Se quando a mãe escreveu a carta, já era casada com seu pai, seu nome do meio era Burnell. Mas quando uma bruxa abandonava o lar, perdia o direito de usar o nome do marido, devendo voltar ao nome de solteira. "Ai!!! Agora mais essa!!!" pensou Severus, desconsolado. Teria a mãe escrito a carta já com intenção de ir embora? Ou enquanto ela escrevia ainda se considerava casada? Bom, ele poderia fazer o feitiço duas vezes, era só respingar outra vez a carta com a tal água e tentar novamente.

Resolveu escrever para sua tia Soraya. Estava mesmo devendo notícias a ela. Usaria a coruja da casa, Lilovena, que ficava sob os cuidados de Sisudus. Como quem não quer nada, perguntaria o nome do meio de sua mãe. Era arriscado, a tia poderia até conhecer o contra-feitiço (ou outros feitiços para os quais o nome completo era necessário), mas Severus tinha recebido a carta de boa-vontade, e a carta tinha sido endereçada a ele, nada mais justo que ele quisesse abri-la. Pegou um pedaço de pergaminho e escreveu uma longa carta, contando sobre os professores, os outros alunos, mencionou de leve Lílian, e perguntou se a tia sabia no nome completo de solteira de sua mãe. Olhou para a carta com orgulho. Tinha se saído muito bem, quando mencionou o fato de ele, Severus, não ter nome do meio, enquanto toda a família de seu pai tinha. Parecia então, mera casualidade o fato de perguntar se sua mãe possuía, quando solteira, um nome do meio.

Após alimentar Lilovena e colocar a carta em seu bico, Severus pediu para a coruja entregar a carta sem que seu pai a visse. O velho poderia ficar zangado em não receber notícias, enquanto Soraya recebia uma carta. Lilovena fez um barulhinho que parecia um "sim" e alçou vôo. Severus ficou olhando a coruja desaparecer no céu, quando ouviu um miado. Era Fuligem. O gatinho parecia um pouco enciumado, mas após receber carinhos e um pouco de leite, ficou mais contentinho.

 

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O tempo estava realmente bom naquela tarde, e ele tinha ouvido dizer que alguns alunos iam treinar quadribol, embora ainda não estivesse em época de treino das casas. Severus foi verificar, encaminhando-se ao campo.

Era a primeira vez que andava por aquelas bandas. Notou logo que os feitiços de proteção que circundavam Hogwarts pareciam mais fracos por ali. Talvez quanto mais afastado do castelo, menos enfeitiçado o lugar, pensou.

Realmente, alguns alunos do segundo, terceiro e quinto anos estavam jogando, sem compromisso. Entre eles, Veronica Smethley, toda orgulhosa em cima de sua Silver Arrow. Melissa estava na arquibancada também. Ao seu lado, Narcisa, e uma outra menina da Sonserina, Mirna Waty. Tiago Potter, agora usando uns esquisitos óculos redondos, e Sirius Black, também estavam assistindo ao jogo.

- Ei, Severus, vem se sentar aqui com a gente - gritou Melissa.

Severus deu uma olhadinha em direção a Tiago Potter.

- Não, não, obrigado, já estou de saída...

- Ahhh... - murmurou, desapontada, Melissa. Narcisa, a seu lado, empinou mais o nariz e virou a cara. Parecia contrariada.

Severus caminhou em direção ao lago, e, à medida em que se aproximava de lá, ia percebendo um som, como de uma harpa. Chegando mais perto ele se tocou que se tratava daquele instrumento, o violão, e seu coração deu um pulo ao ver que era Lílian que tocava para um grupinho. Lá estavam Lupin e seu irmão gêmeo, Rômulo, da Corvinal. E também Pettigrew, o baixinho que agora vivia na cola de Lupin. Alguns alunos da Lufa-lufa também ouviam a melodia alegre que Lílian tocava.

Mas ele não quis participar do grupo. Preferiu ficar só observando, de longe. Não sentia vontade de fazer parte de nada, não queria conversar, trocar idéias. Ficou triste ao ver como Lílian já estava popular em tão pouco tempo.

Após alguns minutos, deu meia-volta e foi para a biblioteca estudar.

 

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Os dias se passaram e nada da resposta à sua carta chegar. Severus achou aquilo muito estranho. Lilovena também sumira, o que deixou Sisudus irritado, pois teve que usar uma coruja da escola para mandar uma carta para seu "penpal". O amigo de Sisudus era Dinamarquês mas eles se comunicavam em inglês. Sisudus tinha esperança de fazer um intercâmbio no ano seguinte, ou pelo menos passear pela Dinamarca quando se formasse.

As aulas continuavam iguais, com exceção da aula de vôo, na qual Severus descobriu que Tiago Potter tinha talento para voar. Ele, Severus, nunca havia visto algo assim. Sua raiva só aumentou ao ouvir os elogios de Madame Hooch. Outra que voava muito bem, quase tão bem quanto ele, Severus, era Narcisa. Lucius também não fazia feio, mas Narcisa era melhor.

A professora Stratas também continuava igual, pegando no pé de Severus sempre que podia.

No comecinho de outubro, quando já quase nem lembrava da carta, o milagre aconteceu. O domingo tinha começado bastante ensolarado, porém, no final da tarde, começou a cair uma chuvinha fina, exatamente como no dia anterior. Do lado de fora do castelo, munido de dois pequenos frascos, pois já tinha esperança de que isso acontecesse, ele conseguiu, discretamente, coletar a água.

- Sol e chuva, casamento de viúva - disse alto Dumbledore, sorrindo para Severus.

O coração do menino deu um pulo. Será que o diretor tinha visto ele coletar chuva nos frasquinhos?

- Err... Desculpa senhor, estava só me refrescando, já vou entrar.

- Ora, não se incomode. Eu também aprecio muito uma chuvinha fina e gelada no rosto - disse Dumbledore, sorrindo.

Severus não sabia o que falar.

- Vou pedir para o jantar ser sopa de letrinhas. Há muito tempo que não servimos essa sopa aqui. É realmente uma delícia, não acha?

Severus não sabia se levava a sério ou não. Dumbledore era muito esquisito.

- Nunca provei.

- Nunca?

- Minha tia só faz sopa de legumes - explicou o menino, com uma careta.

O diretor também fez uma careta.

- Sua tia precisa de mais imaginação.

Mas Adelmus, o velho zelador, estava chamando por Dumbledore. Severus respirou aliviado e foi correndo esconder os dois frascos dentro de seu malão. "Agora só falta Tia Soraya me responder e vou conseguir abrir a carta", pensou.

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