Coração de Gelo   Por: Vanessa SnapeLupin

Capítulo 5- Sobe e Desce

Severo Snape acordou naquela manhã bastante intrigado. Na noite anterior, passara todo o jantar conversando com Amy, uma aluna atrevida e que adorava pegar no seu pé. E o mais estranho de tudo, ele se sentiu bem em falar com aquela menina, em saber um pouco mais sobre ela, em lhe contar um pouquinho dos seus pensamentos. 
Amy lhe disse que queria um dia conhecê-lo de verdade, como ele realmente era. Mas, será que ele ainda era capaz de mostrar sua verdadeira face, de dividir com alguém que não fosse ele mesmo as tristezas e sofrimentos da sua vida? 
Ele mesmo duvidava que ainda existisse alguma coisa boa no fundo daquela alma vazia e gelada. Mas o jeito como ele esqueceu toda a sua falsa maldade, sua crueldade e frieza ao falar com Amy.. Talvez ele não tivesse vontade alguma de ser cruel com aquela menina tão linda, tão corajosa, que mesmo com tristezas e dificuldades na vida, ainda sabe ser alegre e sincera..
Ele deveria se espelhar nela. Havia perdido há muito tempo a alegria, a vontade de viver. Vivia como se a sua alma tivesse sido sugada por um dementador. Num mundo triste, vazio, escuro, calado..Já tinha se esquecido de sorrir. Não sabia como era a alegria, a pura e simples felicidade. Nunca tivera sonhos, sonhos que por mais difíceis de se realizar, nunca podiam ser esquecidos.
Mas Amy..ela lhe trouxe um pouquinho de alegria naqueles momentos em que falou com ele. Com a sua voz doce e suave, com a sua sinceridade.. Ela não tinha medo dele, disse até que se sentia segura com ele.. mas Snape também tinha a impressão de se sentir seguro ao lado dela. Ele sabia que perto dela não havia raiva, tristeza, vazio.. era como se as suas palavras enchessem o seu corpo de um calor muito agradável..
Ele queria vê-la naquele dia, queria conversar mais com ela, contar-lhe mais sobre si, ouvir mais sobre ela.. 

Ainda estava absorto em pensamentos enquanto saía do seu quarto e rumava ao salão comunal. Pretendia arranjar alguma desculpa para falar com a aluna à noite, uma feliz chance de ver Amy, e de tentar conversar com ela.

Sentado na mesa dos professores, se servindo de chá de amoras e pãezinhos com geléia, Severo procurava Amy na mesa da Grifinória. Não demorou muito a localizá-la, rindo e falando animada com Pottter e os outros amigos. Ao perceber a presença do professor no salão, Amy levantou-se e correu até o lugar de Snape na mesa principal. Chegou muito sorridente ao lado dele.
- Bom dia, professor Snape!
- Hum...bom...dia.. - Snape estava meio encabulado de ter uma aluna de pé ao seu lado, saltitando feliz, e evitou os olhares dos outros professores.
- E aí?Amanhã tem aula de Poções, né? Vai ser no último horário, às seis, não é?
- Sim..por que? Você não olhou seu horário?
- Bem..é que eu perdi meu horário, sabe como é. Um pedacinho de papel tão pequenininho, pedindo para ser perdido.. - Amy, agora com os braços apoiados na mesa, não notou o pequeno sorriso que Snape tinha no rosto. Estava ocupada examinando os bolinhos.
- Esse bolinho aqui é de quê, hein?
- Eu não.. - Antes que Snape pudesse terminar de dizer, Amy já havia surrupiado dois bolinhos do seu prato. 
- Falou, "fessô", mais tarde a gente se fala! 
Com um bolinho em cada mão, Amy se curvou um pouco e deu um beijinho bem na bochecha do professor.
Atochando um terceiro bolinho na boca, ela se afastou, deixando para trás Snape, com o rosto totalmente rubro de vergonha. 

À hora do almoço, Amy apareceu de novo ao seu lado, toda sorridente.
- E aí, tio, como é que foras as aulas?
- Bem..como sempre..
- Ah... Fessô? - A voz de Amy estava novamente abafada, pois ela havia acabado de abocanhar uma batata do prato do professor.
- Sim?
- Er..sabe aquele dever de Poções, que a gente tinha que entregar amanhã?
- Sei.. - Snape já começava a desconfiar que ela ia pedir pra não ter que entregar.
- É que eu não entendi muito bem aquilo que você pediu, a pesquisa sobre os usos do pó de folhas de ibisco, eu não faço nem idéia, nem sei onde achar.. E eu.. queria saber se você pode me ajudar a fazer hoje à noite..se não estiver ocupado.
- Como é que a senhorita pede para um professor lhe ajudar a fazer o dever, senhorita Lawnder?
- Ah..é que.. os outros já fizeram o dever...e quase todos copiaram da Hermione. E eu não quero copiar de ninguém, eu quero aprender. E se eu pedir ajuda pra Mione ela vai falar a noite toda de um assuntinho de dois minutos..e me trazer uns trinta livros, se eu precisar de só um..
Snape não pôde deixar de dar razão aos argumentos da aluna. Fazer o dever com Granger deve ser realmente algo muito exaustivo e exigir paciência. E ele não queria que ela copiasse.
Além do mais, seria uma boa chance para eles conversarem mais. 
- Está bem, senhorita Lawnder, está bem. Vou ajudá-la, mas só dessa vez, hein? 
Entre gritinhos e pulinhos de Amy, os dois combinaram de se encontrar na masmorra de Poções depois do jantar.

As horas daquela tarde se arrastaram como lesmas. Severo mal se aguentava em pé durante todas as aulas que transcorreram. Ainda estava meio zonzo, com a expectativa de estar a sós com Amy aquela noite.. ainda estava fresca em sua memória a hora em que Amy o beijara.. Não por ter sido um beijo, necessariamente..mas foi um beijo especial, de carinho, amizade..
E é claro que Snape nunca havia ganhado um beijo de aluno algum, nem mesmo um aperto de mão. Era uma sensação totalmente nova pra ele, saber que aquela menina de certa forma gostava dele, confiava nele, não tremia de terror nem se afastava sempre que o via..
Aquele bilhete de desculpas que ele havia mandado a Amy quando quebrara o braço dela numa trombada, tinha valido a pena. Ela devia ter começado a mudar seus pensamentos em relação ao professor depois de ver que ele era capaz de assumir um erro e se desculpar. Isso era bom. 
Snape pensava que aquela semana deveria ter sido a mais agitada de sua vida. Em apenas quatro dias de aula, Amy brigou com o professor, tomou detenção, deu uma trombada com ele, quebrou o braço, encheu sua paciência com gracinhas e agora demostrava um carinho por ele que o deixava incapaz de fazer qualquer coisa de ruim com ela. 
Mas...e se ela estivesse fazendo tudo para conseguir imunidade com o professor?
Isso ele teria que descobrir depois. Por enquanto deveria se segurar para não se entregar completamente à nova amizade, até a confiança entre eles estar completamente sólida. 
Enquanto isso, ele curtia aquela pequena alegria que lha dava uma gostosa sensação de ser jovem de novo..

À noite, Snape já estava em sua masmorra, esperando Amy. Havia acabado de tomar banho, estava vestido de preto, como sempre, e os cabelos estavam penteados. 
Estava olhando alguns livros que separara para o dever de Amy, quando ouviu umas batidinhas na porta.
Levantou-se e abriu a porta devagar, quando viu a carinha feliz de Amy entrando sem rodeios, carregando alguns livros e pergaminhos.
- Boa noite, professor! Hum..como você tá cheiroso!
- Er..hum.. sente-se.
Amy se sentou na escrivaninha e Snape ao seu lado. O professor começou explicando a matéria mais uma vez, e mostrando a Amy alguns livros de referência. A menina, atenta, fazia perguntas e anotava os tópicos mais importantes. Depois, começaram a pesquisar juntos os usos do pó de folha de ibisco em diversos livros. Snape ia lendo o assunto, e Amy resumia, escrevendo e fazendo mais uma pilha de perguntas, que Snape respondia pacientemente.
Depois de duas horas e meia de estudos, Amy estava cansada, mas terminara o dever. Já eram onze horas. Enquanto Amy juntava seu material, Snape se levantou e começou a preparar um poção, dizendo que era poção pra dormir, que seu estoque havia acabado. 
O professor voltou a responder as inúmeras perguntas de Amy sobre a preparação dessa poção, enquanto a menina preparava um chá para os dois.
Depois de muita conversa, e Snape encher as garrafinhas com a poção pronta, os dois se sentaram para tomar chá com bolinhos de chuva que Amy cismou de mostrar que sabia fazer.
- Er..professor?
- O quê?
- Por que o senhor prepara tanta poção pra dormir? Você toma todo dia?
- Sim, eu preciso delas pra conseguir dormir..
- Por que? Tem insônia?
- Não, eu.. tenho o sono muito agitado, é isso..
- Ah... Professor, você sabe se uma coruja demora muito pra chegar da França até aqui?
- Bom, eu creio que uma semana, no máximo..por que?
- É que.. desde que o meu pai e meu irmão viajaram, eles não me mandaram nenhuma coruja..e eu..eu estou com medo que tenha acontecido alguma coisa com eles..
- Ora, mas..deve ter acontecido algum imprevisto, eles devem estar muito ocupados. Mais tarde você vai ver como vão começar a chegar as corujas deles. Talvez realmente demore mais para uma carta chegar de lá.
- Eu espero que você esteja certo, professor..
- É claro, não se preocupe.
- Professor?
- Uhn?
- O que foi que o senhor quis dizer quando me disse que.. que todos julgam o senhor mal?
- O quê?
- Lembra, quando eu cortei a mão na detenção, você me ajudou e eu disse que o julguei mal? Então, depois você me disse que todos fazem isso.. 
- Ah, sim..mas é a verdade. Eu sou uma pessoa ruim com os outros, mas eu..não gostaria realmente de ser..
- Mas..olha, eu sei que o senhor tem fama de tirano e cruel em todo o colégio. Todos os alunos te odeiam, e os professores...eu noto que eles também não têm muita simpatia com o senhor. Eu acho que isso é errado da parte deles, já que o senhor é tão legal.. - Snape sentiu seu rosto corar mais uma vez.
- Olhe, Lawnder, aconteceram muitas coisas comigo que.. bem, que me fizeram mudar o meu jeito de ser. Como eu havia lhe dito antes, a vida muda as pessoas. E eu sei que o meu jeito de ser, de agir, não é o jeito que eu penso. Eu simplesmente..não consigo agir por minha própria vontade, é como se eu tivesse que seguir um modelo pré-feito de mim mesmo..
- Ah, sim..é a máscara de maldade que o senhor tem que pôr sobre si mesmo para impedir as pessoas de se aproximarem do senhor..porque o senhor é uma pessoa legal, mas a vida, ou o que aconteceu nela que te fez mudar, não permite que o senhor seja si mesmo.. 
- Mas..mas..como é que você sabe de tudo isso?
- Ah.. eu é que cheguei a essa conclusão, pensando um pouco sobre o senhor, observando-o... o senhor não é um caso difícil, existem muitos como você por aí, presos em um mundo criado apenas para eles..sem poder sair nem colocar ninguém lá dentro..você se sente assim, não é?
- Sim.. Lawnder, a senhorita é muito inteligente..a senhorita tem raciocínios que eu nunca pensaria em ter..
- É que talvez o senhor nunca tenha tido coragem de parar para pensar em si mesmo..
- É verdade, você tem razão..mas o que me aconteceu.. isso tudo me tirou totalmente a força e a coragem..
- Professor, afinal o que foi que aconteceu com o senhor que te fez mudar tanto? O que houve de tão horrível, que lhe trouxe tanta tristeza e sofrimento, e te impede de ser quem o senhor quer ser?
- Eu.. preferiria não falar sobre isso..já faz muito tempo, eu prefiro não me lembrar..
- Mas...
- Lawnder, eu fico muito agradecido..que a senhorita tenha gastado seu tempo pensando em mim, e por tentar me ajudar.. mas a minha vida é um erro no qual eu não posso voltar atrás, e tento esquecer.. por isso..eu gostaria que..se a senhorita pudesse apenas me conceder um pouco da sua companhia..da sua amizade..- Amy notava que os olhos de Snape agora estavam cheios de um profunda tristeza. - É tudo o que eu peço, se a senhorita quiser me ajudar.. 
- É claro, professor, eu quero ser sua amiga, quero te conhecer melhor..quem sabe um dia o senhor queira me contar o que aconteceu..eu vou estar sempre com o senhor, sim, pode contar comigo.
- Muito obrigado, Lawnder.. - Snape agora se levantava com um sorriso no rosto triste. - É melhor a senhorita ir, já é quase uma hora..
- Tudo bem, professor.. Ah, e obrigada por me ajudar com o dever, fico te devendo essa..
- Não, eu é que te devo..por ter vindo me fazer compania essa noite...muito obrigado pela ajuda. E não se preocupe com seu pai e seu irmão, o nome Lawnder é famoso entre os Aurors, e eu tenho certeza que eles vão honrá-lo com muita coragem.. 
- Obrigada, professor.. amanhã se o senhor quiser eu venho para te fazer companhia, está bem?
- Certo, mas..eu queria que a senhorita não me chamasse mais de senhor. Me chame por você, ou Severo..
- Só se me chamar de Amy..
- Tudo bem..
- Bom..boa noite, Severo..
- Boa noite, Amy..ah, e não diga sobre nossa amizade a ninguém, está certo? Os outros não têm tendência a confiar muito em mim..
- Tudo bem, eu não falo nada.. até amanhã..
Snape foi andando devagarinho até a porta que se fechava e a trancou. Agora sentia seu coração flutuar de alegria. Ele tinha alguém que gostava dele. Tinha alguém que confiava nele. Ele tinha uma amiga, como nunca havia tido em toda a sua vida..
Começando a sentir o cansaço do dia agitado, Severo se sentou numa poltrona, pegando o Profeta Vespertino, que havia sido entregue em sua sala e ele não tinha lido.
Abrindo na primeira página, o professor se assustou com o que viu.

Ministério da Magia fecha o cerco ao redor dos Comensais da Morte

Depois da fuga de Sirius Black, assassino e seguidor de Você-sabe-quem, o Ministério da Magia resolve tomar medidas drásticas para capturar bruxos das trevas ativos, e extinguir definitivamente a seita de Você-sabe-quem do mundo mágico e não-mágico.
Sob ordens do atual Ministro da Magia, Cornélio Fudge, os antigos Comensais presos em Azkaban serão novamente interrogados, e todos os nomes suspeitos e denunciados, sejam pelos presos ou por denúncias anônimas, serão procurados para interrogatório. Os suspeitos que não puderem apresentar provas de inocência, serão detidos na prisão do Ministério, em Londres, até que se faça o seu julgamento.
Os antigos denunciados e inocentados também terão seu nome na lista de busca, e aqueles que se declaram ex-Comensais, deverão apresentar sua nova defesa.
Os Aurors estão partindo em buscas por todo o mundo, à procura de seitas ativas, e em combate com os Comensais que optam por enfrentar as ordens do Ministério.
Os Aurors também darão nomes de suspeitos que sejam Comensais por seu conhecimento, e farão rondas de espionagem, para não permitir a liberdade de nenhum Comensal que consiga enganar o Ministério e provar sua falsa inocência.
Alegações de testemunhos apenas não serão aceitas. Os Aurors têm métodos de espionagem dentro do próprio círculo dos Comensais, e a presença dos suspeitos entre os bruxos das trevas também será pesquisada internamente.
Os suspeitos em breve receberão uma intimação do Ministério e devem preparar sua defesa, assim como os que puderem dar seu testemunho.
O Ministério pede desculpas antecipadas aos que receberem a intimação e tiverem sua inocência provada, mas alega a urgência da ação direta , do contrário a situação entre o povo mágico, trouxa, e os Comensais pode chegar a níveis incontroláveis de violência.


Snape não conseguiu ler o resto do artigo, que não trazia mais nenhuma informação importante. O jornal escorregou de seus dedos trêmulos. Afundando na poltrona, os olhos cheios de lágrimas, sentiu subitamente seu corpo gelado pelo pânico.

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