Coração de Gelo Por: Vanessa SnapeLupin
Capítulo 4-Começando a se entender
Amy corria esbaforida pelo castelo, carregando desajeitadamente uns livros e pergaminhos soltos. Se dirigia à aula de Poções da tarde. Isso é, se conseguisse chegar a tempo.
Ela estava feliz, pois aquele dia estava sendo produtivo nos seus planos, pelo menos até ali.
Passara o café da manhã jogando pedacinhos de bacon e torrada no professor de Poções, quando ele não estava olhando pra ela. Ninguém no salão percebera, mas Snape ficou irritado o suficiente para deixá-la satisfeita e fazê-la rir pelo resto da manhã.
À hora do almoço, Snape estava de vigília, esperando a gracinha que Amy faria dessa vez. Porém, a menina comeu normalmente, conversando com todos, sem nem olhar pra ele. Mais aliviado, ele parou de se preocupar e também conseguiu ter um almoço tranquilo.
Somente quando ia saindo do salão é que o professor percebeu alguns floquinhos caindo no chão, à medida que ele andava, e teve de admitir que Amy fora genialmente discreta ao enfeitiçar grãozinhos de arroz e fazê-los pousar nos seus cabelos sem se mostrar culpada.
Agora Amy estava à porta da masmorra onde já havia começado a aula de Poções. Estava estrategicamente atrasada, mas não tinha tanta certeza se conseguiria entrar atrasada sem tomar uma detenção ou perder pontos para sua casa.
Respirando fundo, Amy abriu vagarosamente a porta da masmorra e colocou a cabeça pra dentro, espiando curiosamente a classe.
Snape, ao perceber sua presença, virou-se para a porta.
- Está atrasada, senhorita Lawnder. - ralhou com sua voz letal.
- Eu sei, né? Se não estivesse já estaria aí dentro há muito tempo. - ela respondeu cinicamente com um sorrisinho.
- E porque se atrasou? - Snape não se deixaria levar pelas gracinhas de Amy tão facilmente.
- Ah, é que.. - a menina deu um ar artificialmente tapado ao seu rosto - eu fiquei desenhando no salão comunal e esqueci da vida, sabe como é.. - e sorriu novamente.
- Dez pontos a menos para a Grifinória. Agora sente-se e fique quieta.
Com exasperação, Amy entrou na masmorra rebocando seus livros, papéis, tinteiro e penas, rusticamente equilibrados. Quando estava passando na frente da escrivaninha onde Snape se encontrava sentado, a garota tropeçou grosseiramente numa pedra lascada do chão. Com um gritinho muito agudo e engraçado, ela despencou com tudo no chão, desaparecendo da vista do professor que a observava por cima do tampo da mesa.
Seu material todo se espalhou pela sala, papéis voaram por toda a parte. Acompanhando as gargalhadas dos alunos da Sonserina, Amy se levantou de um salto. Snape se assustou ao vê-la aparecer de supetão do outro lado da escrivaninha.
- Silêncio!! Senhorita Lawder, pegue seu material e sente-se antes que eu lhe dê uma detenção!
- Já tô indo, calminha aí!
Assim, passeando preguiçosamente pela masmorra ela foi catando suas coisas, enquanto sussurrava, propositalmente alto para que Snape a ouvisse, maldições como "Quem mandou deixar esse buracão no meio da sala?" e "Se depender da qualidade desse lugar, eu saio daqui toda estourada", entre outras.
Depois de vários minutos assim, Amy se sentou e arrumou seu material, sorrindo alegremente para o professor que a olhava intrigado.
Durante a aula, Amy se comportou bem, a não ser pela bile de tatu e pelo pó de asfódelo derrubados, que causaram uma poça e uma névoa branca que encheu por meio tempo a masmorra de escorregões, tosses, risadas e gritos de Snape.
Saindo da sala de aula aos pulinhos, Amy deixou Snape sozinho, organizando com acenos de varinha a bagunça feita por ela.
Percorrendo a sala procurando por mais "rastros de Amy", Snape viu atrás de sua mesa um pergaminho jeitosamente selado. Pensando que poderia ser uma de suas fórmulas de poções, ele pegou e abriu o papel. Mas o que havia na folha era uma pintura de uma paisagem muito bela, um lago, que corria por um campo limpo e verde, e montanhas ao fundo. No campo, perto do lago, havia o desenho de uma mulher, com um longo vestido vermelho e preto. Ela segurava uma sombrinha e seus cabelos negros esvoaçavam, como a saia e as fitas do vestido.
De início, Snape achou a figura comum e sem graça, como todas as outras, mas à medida que observava os belos detalhes do desenho, começava a achar a pintura cada vez mais bonita e delicada. Depois de muito tempo olhando a beleza do desenho, Snape ficou curioso para saber quem o havia feito. Examinando o pergaminho, encontrou atrás dele o nome "Lawnder, L.".
Então a pintura era de Lawnder, mas não havia sido feita por Amy. Ela devia tê-la deixado cair quando tomou aquele tombo. Enrolando o pergaminho, o professor guardou-o nas vestes, para devolver à dona na hora do jantar.
Em seu quarto, Amy se vestia para o jantar. Havia guardado seu material e organizado suas vestes para o dia seguinte. Quando terminou de arrumar sua cama, ouviu a porta do quarto se abrindo e viu Hermione entrar no dormitório.
Sentando-se na cama, Mione ofegou, enquanto passava a mão no cabelo fofo.
- Puxa, hoje o dia foi pesado, não? Estou exausta, estive até agora pesquisando aquele trabalho do Binns. Harry e Rony não fizeram nada, ficaram jogando cartas, aqueles bobos. No dia da entrega dos trabalhos, eles vão estar desesperados atrás de mim, tentando copiar o meu.
Sorrindo, Amy se sentou na sua cama, de frente para a amiga.
- Bom, pra falar a verdade, eu também nem comecei a pesquisar. Você ouviu quando eu disse pro Snape que cheguei atrasada na aula porque estava desenhando no salão..Passei a tarde toda lá..
- Em falar nisso, que aula a de hoje, hein?
- Qual, a do Snape?
- É. Você realmente sabe como tirar a paciência do professor, embora isso não seja muito difícil. - riu Mione.
- É, eu adoro zoar com ele. Ele tem aquela pose de sério e bravo, mas quando eu faço alguma gracinha, ele fica todo sem graça, coitado.. - Amy riu também.
- Mas o estranho é que ele nunca faz nada com você. Ele nunca mais te deu detenção, e acho que ele já desistiu de tirar pontos da Grifinória por sua causa..Por que será?
- Bom...eu acho que ele já notou que eu não tenho medo dele, e que nunca vou parar de zoar com a cara dele. Ele já sabe que não adianta me punir, que nada me corrige.
- Mas, Amy..você não tem medo dele mesmo? Todo mundo que entra aqui morre de medo do Snape, logo que o conhece..mas você só teve medo no começo, e depois começou a brincar com ele, sem se importar com nada. Por que você insiste em mexer com ele? Por que não o ignora de uma vez?
- Ah, é que..bom, quando eu vi o professor Snape pela primeira vez, eu realmente não acreditei que ele fosse um professor mau e injusto. Mas depois da primeira aula dele, eu achei que ele era mesmo uma pessoa tirana. Mas eu acho que..que depois daquela detenção, minha opinião em relação a ele mudou. Eu comecei a pensar que talvez ele fosse triste e solitário, e que fosse mal com as pessoas por raiva de ser sozinho..Então eu pensei que, se eu estivesse sempre pegando no pé dele, ele não se sentisse tão solitário, e não seria tão mal com as pessoas..eu acho que está funcionando, não?
- Amy, mas por que você acha que ele vai se sentir menos sozinho se você pegar no pé dele? Que absurdo! E como você diz que está funcionando? Ele continua sendo injusto com todos nas aulas!
- Bom, ele parou de tentar me punir, não é? Já não é uma espécie de "entrega dos pontos"? Hein?
Vendo a cara de Mione, que mostrava que sua opinião oscilava entre o sim e o não, Amy prosseguiu com sua explicação.
- E também, como é que você queria que eu fizesse ele se sentir menos sozinho? O que você faria para realizar uma façanha dessas?
- Bem, eu.. - Mione parecia agora uma tonta ao lado do raciocínio complexo (e meio estapafúrdio) de Amy. - eu não sei, acho que nem teria coragem de fazer algo..bom, se você acha que está conseguindo resultados, e está se divertindo com isso - as duas trocaram risadinhas - continue, pelo menos está tornando as nossas aulas mais engraçadas..
- É..mas eu gostaria que o professor fosse uma pessoa normal, sabe, alguém com quem se pode conversar, conhecer pacificamente..eu queria saber por que ele é assim, todo malvado. Com certeza ele sofreu algum trauma, você não acha, Mione?
- Ah, eu não faço idéia, Amy, mas acho que Snape tem feito coisas tão injustas e cruéis para Harry e os outros alunos...que é muito difícil a gente querer se dar ao trabalho de parar pra pensar no problema dele...
- É por isso mesmo, se ninguém pára pra pensar nele, eu vou tentar fazer isso.. Se eu já consegui até arrancar risadas do meu bravíssimo antigo professor de História da Magia, porque não consiguiria fazer o Snape mudar esse jeito dele?
- Tomara que consiga, Amy.. para o bem de toda Hogwarts..
- Mas eu acho que não devo pegar tão pesado nas gracinhas com ele..ele não parece ser do tipo que goste de dar uma boa risada.. ("Não mesmo!" - acrescentou Mione, rindo.) Sei lá, vou tentar ser mais simpática com ele, quem sabe eu consiga ser sua amiga...
- Mas você quer?
- Claro, como eu já disse, no fundo ele deve ter alguma coisa de legal..eu só gostaria de descobrir como chegar a "esse fundo" mais rápido..
Ainda rindo do jeito como Amy tinha que pôr uma piada em cada frase que dizia, Hermione se levantou, já pronta, e foi abrindo a porta do quarto para sair com Amy. As duas desceram até o salão ainda conversando sobre Snape.Estavam quase alcançando a porta de entrada, e Amy estava dizendo a última frase que encerraria o assunto das duas:
- Sei lá, Mione...o Snape...eu tenho muita pena dele..
- Pena de quem, Lawnder?
- Ah!! - com um gritinho, Amy se jogou para trás, saindo do alcance de Snape, que não parecia bravo, apenas "sem paciência". - Que susto, "fessô"! Se quiser entrar, é só pedir licença, viu? Não é pra ficar ouvindo conversa dos outros que é feio!
- Ora, sua menina atrevida, não vim pra ouvir conversinhas, e sim pra lhe devolver isso! - entregando o pergaminho rapidamente a Amy, que não tinha reação alguma. - A senhorita deixou-o cair na minha sala, naquele seu maravilhoso tombo..
- Ah..."brigada, fessô", eu nem sabia que tinha perdido isso mas tudo bem.."valeus aí".. - e erguendo o polegar para o professor envergonhado, com a cara enfiada na pintura, como se a estivesse avaliando minuciosamente, Amy entrou devagarinho no salão, com Mione atrás. Alguns passos depois, Amy vira-se para trás e dá de cara ainda com Snape, andando atrás delas.
- Ei, que que cê tá seguindo a gente, hein? Eu não vou te dar gorjeta, não!! Sai do pé, chulé!
- Eu não estou seguindo a senhorita, sua petulante, só preciso seguir esse caminho pra chegar à mesa dos funcionários..e a senhorita ainda não me disse de quem é essa pintura..
- É minha, oras, não notou ainda não, burrinho?
Revirando os olhos, Snape se segurou para não dar uma detenção para a menina. Ainda mais que ele não sabia o que era pior, dar ou não a detenção..
- É claro que é sua, eu quero saber quem é que a fez, e burrinha é a senhorita!
Mione segurou a risada com um ronco. Essa briguinha já estava ficando ridícula.
- Ah, sim! Então por que não perguntou antes? Foi a minha mamãe que fez, Lucy Lawnder, para sua informação..
- E por que anda com isso pela escola, com risco de perder? Deveria ter deixado em casa..
Snape agora se sentara no banquinho da mesa da Grifinória, num cantinho deserto da mesa. Amy se sentou ao seu lado.
- Bom, é que.. isso é da minha mãe..Ah, isso eu já disse! Hihihi!
Snape revirou os olhos outra vez. Resolveu mordiscar um bolinho, já que a conversa pretendia perdurar.
- Não, agora é sério..é que a minha mãe morreu quando eu era pequena, e ela fazia pinturas muito bonitas..o meu pai me deu essa antes de ir embora e me pediu pra guardar bem..é uma lembrança que tenho da minha família..
- Mas.. ir embora? Pra onde? - Snape falava baixo e num tom falsamente desinteressado. Encarava a mesa, ignorando os olhos dos alunos que os fitavam, surpresos de verem Snape conversando com uma aluna, ou melhor, conversando com alguém.
- Ah, ele e meu irmão foram em uma viagem de caça aos Comensais da Morte..
Snape estremeceu ao ouvir essas palavras.
- Aos.. Comensais? Eles são Aurors?
- Sim, meu pai era Auror e acabou ensinando tudo ao meu irmão também. Ele me prometeu que quando eu crescesse um pouco mais ele iria me preparar para ser Auror também.
- Eu..não recomendaria que a senhorita se tornasse uma Auror.
- Porquê?
- É um trabalho exaustivo..conviver com Comensais, correr tanto perigo, ver tantas mortes, sangue, duelos..
- Nossa, professor, como você sabe de tudo isso? Já foi Auror?
- Não, mas..já vi alguns confrontos..sei como é.
- Então..será que meu pai e meu irmão estão nessa situação também? - Amy agora tinha o rosto muito sério e até meio triste.
- Provavelmente, estão..
- Ah, você anima a gente, hein? Valeu!
- Não, é sério..Não se pode esconder a verdade..
- Mas..meu pai e meu irmão são muito fortes! Eu tenho certeza que eles vão voltar! - Snape percebeu com tristeza que a voz da menina estava embargada, então resolveu deixar o assunto de lado.
- É claro, se eles são fortes vão voltar..e você vai voltar para Beauxbatons?
- Ah, não, eu não quero, vou pedir pro papai me deixar estudar aqui. Já me acostumei com essa escola..sem contar que o meu pai acha que aqui é mais seguro, pra eu estar protegida contra Voldemort..Dumbledore é o único que ele teme..
- V-Voldemort?
- Sim, porquê?
- Por nada, é estranho uma menina estar falando o nome dele sem medo algum..mas é bom, você tem coragem.
- É..acho que sim.. - Amy estava vermelha quando sorriu para o professor, deixando-o vermelho também.
- E..o seu pai e seu irmão? Como se chamam?
- Meu pai se chama Jonas, e meu irmão é Andrew..
- Jonas Lawnder..já ouvi falar dele. O ministério o considera um dos melhores Aurors que existe. Acho até que já o vi..mas não sei em que circunstâncias..
- Que bom.. - Amy sorria, olhando o professor, como se conversassem assim há anos.
- Er..senhorita Lawnder? Eu posso lhe fazer uma pergunta?
- Claro, professor..
- Porque a senhorita..não têm..medo de mim?
- Deveria ter?
- Bom, todos os alunos dessa escola têm, não é?
- É..sim, mas eu não. Sei lá, eu não consigo odiar o senhor, nem ter medo.. O senhor me dá até.. uma certa segurança.
- É estranho você sentir segurança comigo.. os outros alunos sentem o contrário..
- Sabe, eu não consigo acreditar que você é malvado assim de verdade..
- Bem, talvez esse não seja realmente eu. Sabe..às vezes a vida transforma as pessoas..muda sua personalidade, assim como muda sua imagem.. e às vezes..muda de uma forma irreversível..você pode conhecer milhares de pessoas na sua vida..mas pouquíssimas conhecerão você como você realmente é.
- Professor..
Amy se levantava da mesa. Haviam conversado por todo o jantar, e acabaram comendo na mesa da Grifinória mesmo. Pondo a pintura no bolso, antes de ir para o seu dormitório, a menina pôs a mão no ombro do professor, sorrindo calorosamente.
- Bem, eu espero um dia poder conhecer o senhor de verdade..espero mesmo.