Coração de Gelo   Por: Vanessa SnapeLupin

Capítulo 3- Confusões

Na manhã do dia seguinte, Amy acordou cedo e sentou-se na cama, pensativa. Ainda estavam frescas em sua cabeça as lembranças da noite anterior. Ela tinha ido cumprir uma detenção na masmorra de Snape. Por acidente, fez um grave corte na mão com uma faca. 
E...ela ainda não conseguia acreditar..Snape a ajudou?? Depois do jeito que ela falou com ele na sua aula, depois de todo aquele ódio transmitido entre os dois - apesar daquele ser seu segundo dia de aula? Depois do que Harry e os outros disseram sobre Snape? 
Ele era um monstro, cruel, maléfico, sem coração..como ele poderia ter ajudado Amy, se ele demonstrava estar querendo apenas prejudicá-la? 
Amy tentou pensar que talvez Snape estivera tentando ajudá-la apenas para não ser prejudicado em seu emprego. Mas não conseguia pensar assim. 
Algo estava tentando lhe dizer que Snape era uma pessoa boa, no fundo ("Mas bem lá no fundo mesmo!", ela acrescentou aos seus pensamentos, com um sorriso), mas usava uma máscara de maldade para se manter isolado de tudo e todos. Mas o porquê ela não fazia idéia. 
Amy pensou nos momentos que viveu em seus dois dias em Hogwarts. Adorou a escola, os professores ("Snape era um caso à parte", ela pensou mais uma vez, sorrindo de novo)...até que uma idéia lhe ocorreu à cabeça. Ela se lembrou que só estava tímida e calada porque era novata e não conhecia ninguém em Hogwarts. Mas esse não era seu jeito realmente de ser.
Ela se lembrou dos seus anos em Beaxbatons, quando corria pelos corredores do palácio, rindo e falando alto com suas amigas. Esse era seu verdadeiro jeito de ser: alegre, bem humorada, e até meio cara de pau, com suas gracinhas.. 
Amy sempre gostou de fazer piadas, dar risada, se divertir, sem se importar com o que as pessoas pensavam dela. 
Então ela teve uma idéia. Talvez Snape estivesse querendo mostrar a ela o quanto ele tinha autoridade sobre os seus alunos. Apenas para inibí-la ainda mais, para que ela nem pensasse em fazer amizades e continuasse tímida, nas mãos dele. Então, talvez se ela o tratasse de seu verdadeiro jeito de ser, se ela fosse irreverente (sem vergonha, no caso dela) e devolvesse as provocações dele com seu famoso humor, talvez ela conseguisse deixá-lo sem graça e desarmado na frente de todos.
Era isso que ela iria fazer, a partir daquele momento. Amy jurou para si mesma que iria derrubar a muralha que isolava Snape das outras pessoas e dos sentimentos bons. Ela ia conseguir. Nem que fosse à força. E um dia ele ainda iria lhe agradecer..


Snape acordou e se arrumou para as aulas do dia com a cabeça fervilhando de pensamentos estranhos. Amy prevalecia em todos eles. Como aquela garota conseguiu por um breve momento fazer com que ele esquecesse de todo o seu fingimento para parecer cruel e frio, para afastar as pessoas dele? Porque ele ficara tão "embasbacado" (essa era a palavra certa) quando segurou as mãos dela na noite anterior? Parecia ter sido hipnotizado, não pensava em nada, só queria ficar ali, segurando as mãos suaves e macias daquela menina tão linda, talvez dizer a ela que ele era uma pessoa comum, que tinha sentimentos e tristezas encondidos.. Ele queria dizer a ela o quanto ele se sentia sozinho nas suas noites, em sua masmorra fria e escura. 
Mas ele não conseguiu. Só ficou ali, parado, segurando firmemente aquelas mãos, até notar o tempo que ficara imóvel ali...e Amy se foi, deixando-o sozinho em seus pensamentos novamente..
Aquela experiência lhe dera uma vontade enorme de descobrir mais sobre aquela garota. Queria conhecê-la, estar perto dela mais uma vez, para descobrir porque ficara tão fascinado com aquela bela presença. Ele iria descobrir. Mas tinha que manter seu disfarce, não podia se aproximar de repente de uma garota e conquistar a amizade dela só porque ela o deixara intrigado. 
Não queria amizade com ela, talvez isso fosse deixá-lo mais preso e perdido que já estava.. 
Snape, enfim, saiu de seu quarto e se dirigiu ao salão comunal, decidido a não deixar Amy em paz tão facilmente. Iria perseguí-la e provocá-la até que ela deixasse de desafiá-lo.... E ai dela se aprontasse na suas aulas mais uma vez....

No salão comunal, Amy tomava café à mesa da Grifinória, enquanto contava aos amigos o que havia acontecido na detenção de Snape. Ele ainda não chegara à mesa dos professores.
- O quê, Snape ajudou você??? - Harry quase se engasgou com os ovos mexidos.
- Depois de tentar encher sua cara de furúnculos? - Rony estava com uma tira de bacon pendurada na boca, o que lhe dava um ar cômico, combinado com sua cara de espanto.
- Sim, isso mesmo.. - Amy mantinha os olhos na mesa dos professores e na porta do salão. Não queria ser pega por Snape falando dele de novo - Ele me deu uma poção e curou meu corte totalmente. - Ele não mencionou os minutos em que Snape segurara suas mãos fortemente.
Enquanto os garotos se entretinham com a conversa, Snape entrou no salão. Parecia um pouco cansado, com olheiras. Sentou-se à mesa dos professores e conferiu com um ohar se Amy estava à mesa da Grifinória. 
Os olhos de Amy também focalizavam o professor, e seus olhares se encontraram. Amy deu um sorriso cínico de simpatia, e Snape, corando levemente, baixou os olhos para o seu prato, que se enchia de torradas e bacon.

Enquanto comia, Cuidadosamente, Snape observava-a conversar alegremente com os amigos e dar risadas altas. Num momento, ele notou que ela se virava totalmente para ele. Sorrindo inocentemente , a menina lhe mostrou uma torrada na qual ela havia desenhado uma carinha sorridente com geléia.
O professor, totalmente sem graça, tornou a desviar o olhar, enquanto Amy ria-se por dentro e virou-se de novo para o seu prato, mordendo a torrada com força.
Até o fim da refeição os dois não voltaram a se olhar. Snape levantou-se e se encaminhou às masmorras, enquanto Amy e os outros alunos se dirigiam à sala de Feitiços.

O dia transcorreu bem, já que o quinto ano só teria aula de Poções no dia seguinte. Amy não encontrou Snape durante o dia, então não pôde fazer mais nenhuma gracinha com ele, exceto na hora do almoço, em que ela ameaçou o professor, fingindo que ia jogar nele uma azeitona com uma colher, usando-a como catapulta. 
Nervoso e sem graça, Snape vigiou Amy durante todo o almoço, esperando ela virar-se pra ele de vez em quando e levantar uma colher com uma azeitona em sua direção, com um olhar ameaçador e brincalhão. 
Temendo ser atingido de surpresa pela azeitona, Severo acompanhou a menina com os olhos até o fim do almoço. Aliviado por não ter feito papel de bobo na frente da escola inteira, Snape levantou-se com o alunos e ia saindo sorrateiramente do salão, quando foi atingido pela azeitona, acertada em cheio na sua nuca. Olhando para tràs, procurou Amy, mas ela simplesmente desaparecera do salão, Snape se retirou rapidamente, as faces vermelhas, torcendo para que ninguém tivesse visto o seu "mico".


Mais ou menos às seis e meia da tarde, Snape, que havia acabado de sair da última aula de Poções do dia, caminhava rápido pelo corredor. Ele tinha pressa de chegar à estufa de herbologia, pois a professora Sprout lhe prometera duas garrafas de extrato de sequóia, que ele precisava para terminar um antídoto que estava testando,e que necesitava urgentemente do ingrediente, antes que queimasse. 
Andando apressado, quase correndo, Snape estava desatento, quando virou para outro lado e colidiu violentamente com alguém na esquina do corredor. Quase caindo para trás, Snape conseguiu se manter em pé, mas a pessoa com quem ele trombou não teve a mesma sorte. Ele viu a pessoa, um aluno, cair com força sobre o braço direito, com um baque que mais pareceu um estalo.
Meio atordoado com a batida, Snape se ajoelhou ao lado do aluno que continuava deitando, mexendo-se vagarosamente. Ajudando a pessoa a se levantar, ele viu que era Amy Lawnder. Ela segurava o braço torto com força, e chorava de dor, com o rosto vermelho. 
Segurando a aluna cambaleante, Snape gaguejou:
- Vo..você está bem?
- Meu braço...está doendo.. - Amy choramingou.
Snape examinou o braço da garota e realmente viu que estava quebrado. 
- Venha, eu te levo à ala hospitalar. 
Enquanto levava a garota segurando-a pelos ombros, Snape percebeu que não usara seu tom frio e amargo ao falar com ela. Estava preocupado, mas não podia deixar transparecer.
- Por que não estava olhando por onde andava, senhorita Lawnder?
- Eu?? Eu estava no meu lugar, você que apareceu do nada, virando assim, de repente.. 
- Ora, não seja impertinente comigo, senhorita! Dez pontos a menos para a Grifinória!
Choramingando, a menina murmurou:
- Você deveria é me dar dez pontos por ter quebrado o meu braço..
- Cale a boca e não me diga o que fazer! - vociferou o professor, notando que havia se atrasado para buscar o ingrediente. 
Os dois chegaram à ala hospitalar, onde madame Pomfrey colocou Amy numa cama e começou a examinar seu braço. Olhando para a porta, Amy só teve tempo de ver Snape se virando e indo embora, as vestes se abrindo como asas às suas costas. 
Amy estava desapontada. A trombada não estava em seus planos. Agora a pequena simpatia que conseguira jogar em Snape se fora. Agora, teria que trabalhar duro para compensar a raiva que Snape voltara a sentir dela.
Seus pensamentos foram interrompidos por um uma grande quantidade de poção para dor, que a enfermeira despejava em sua boca.

À noite, Snape reparou que Amy ainda não tinha saído da ala hospitalar. Provavelmente Pomfrey a obrigou a passar a noite lá, como sempre fazia. 
O jantar foi calmo, e até um pouco silencioso, sem as risadas e a voz alta de Amy, que, aos seus ouvidos, se destacava das demais. Esperando que Amy voltasse a qualquer momento e tentasse lha pregar uma peça, ele mantinha os olhos na mesa da Grifinória. Ele fingia para si mesmo que não ligava com a ausência da menina. Mas teve de admitir que sentiu uma pontada de alegria no peito quando avistou uma garota de cabelos castanho-avermelhados entrar no salão. Com tristeza, percebeu que não era Amy, e sim Virgínia Weasley, cuja cor dos cabelos parecia mais escura com a fraca iluminação da entrada do salão.
Desanimado, começou a sentir falta das brincadeirinhas, que parecia que teria de aguentar, sempre que se sentasse à mesa. Porém, pensar em suportar as gracinhas de Amy três vezes ao dia não lhe trazia raiva, e sim expectativa.
Ele se lembrou de que a trombada no corredor fora sua culpa, que estava correndo e sem ver por onde ia. Sentindo-se um pouco envergonhado por não ter admitido a culpa, resolveu pedir desculpas a Amy.

Já era tarde da noite, Amy estava deitada na cama, na ala hospitalar. Não conseguira dormir. Pensava em um jeito de ganhar a amizade e a confiança de Snape. Tinha que se manter imune com o professor, do contrário, a Grifinória perderia de primeira no campeonato das casas, tantos seriam os pontos que Snape tiraria sempre que cruzasse com ela, e eles tinham o azar de se cruzarem sempre...
Ainda estava perdida em suas preocupações, quando uma coruja entrou voando pela janela e pousou em seu colo. Amy passou os primeiros segundos de surpresa admirando a coruja. Era a primeira vez que recebia uma. Seu pai e seu irmão não lhe mandaram notícias desde que ela fora para Hogwarts, mas ela não ligava, pensando que talvez eles estivessem muito ocupados.
A mensageira era uma coruja muito negra, com uma pequenina mancha incrivelmente branca na testa. Trazia na perna um pedacinho de pergaminho. 
Tirando temerosa o bilhete (ela não sabia muito bem se não tinha medo de corujas, nunca tocara em uma), ela abriu-o e leu.
Bem no centro do papel, escrito com letra caprichada e elegante (mas que letra de médico! -pensou ela..), estava a mensagem:

Senhorita Lawnder, 
Peço desculpas pelo ocorrido hoje no corredor, realmente eu não estava atento, a culpa foi minha. Desculpe-me também pelo seu braço, espero suas melhoras e volta às aulas amanhã (não se esqueça que amanhã a senhorita tem aulas de poções a comparecer).
Atenciosamente,
Severo Snape

Amy surpreendeu-se inteiramente com o bilhete. Não esperava que Snape fosse capaz de mandar um bilhetes de desculpas, ainda mais a ela, que estivera provocando-o o dia inteiro.
Estava sentindo que seu plano ia funcionar. Já conseguira mudar um pouquinho dos conceitos de Snape, mas logo conseguiria o resto, se tudo continuasse assim. 
Pegando a coruja negra (é a cara dele! - ela pensou, observando a carinha ranzinza da coruja), ela pegou uma pena na mesinha ao seu lado e um pedaço de pergaminho. Rabiscou um recadinho e pregou-o meio sem jeito na perna da coruja, despachando-a em seguida.
Sentindo-se muito mais leve e feliz, Amy, sorrindo, dobrou a cartinha de Snape com cuidado e guardou-a no bolso. 

No seu quarto, de madrugada, Snape, estava de pé em frente à janela, com os braços apoiados no peitoril, pensando na carta que acabara de enviar à Amy. Ele se sentia um pouco envergonhado em pedir desculpas, não era de sua natureza esse tipo de "humilhação". Mas seria errado não se desculpar com a menina, afinal, ela havia quebrado o braço por sua causa. E no fim, o antídoto que estava preparando foi salvo a tempo e isso melhorou um pouco o seu humor.
Forçando a vista, Snape avistou sua coruja voltando para o seu quarto. Recebeu-a na janela e tirou apressado o papel com a resposta. Estava estranhamente excitado para lê-la.
Acariciava o pescoço da coruja negra enquanto lia:

Caro professor Snape, 
O senhor não precisava dizer que a culpa foi sua. Isso eu já sabia. 
Quanto às desculpas, vou aceitá-las, mas que isso não se repita, hein? O meu braço já está bom, amanhã eu volto para as suas aulas, você não vai se livrar de mim assim tão fácil. Ah, e eu duvidei seriamente do seu "Atenciosamente", viu?
Nos vemos amanhã (para o seu azar), 
A linda e maravilhosa Amy Lawnder

PS: Prepare-se, porque amanhã de manhã eu vou jogar tanto bacon em você, que vão confundí-lo com o porquinho do Hagrid, o Oinky...juro.

Com uma cara de espanto e indignação, Snape atirou o bilhete em cima da mesinha. Como ela tinha coragem de brincar com ele assim? Será que ela não tinha medo dele?
Sorrindo com a cara de pau da aluna, Snape ficou feliz ao notar que ao menos um aluno em Hogwarts não tinha medo dele. Ao contrário, ela tinha uma postura extrovertida e amigável com ele, e demonstrou adorar irritá-lo. 
Mas ele não se daria por vencido tão cedo.

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