Coração de Gelo   Por: Vanessa SnapeLupin

Capítulo 12 – A penseira de Snape

 

 

O garotinho, que devia ter sete anos, parecia muito assustado. Os olhos negros estavam fixos na porta, à espera de um perigo que provavelmente entraria por lá. A respiração estava ofegante.

-         SEVERO!!

O berro furioso irrompeu da porta do quarto. O garoto deu um pulo de susto e se levantou, trêmulo.

-         EU NÃO FALEI PRA VOCÊ NÃO SAIR DE CASA? VOCÊ ESQUECEU QUE ESTÁ DE CASTIGO?

-         M..m..me de-desculpe, papai. – a voz demonstrava puro medo.

-         NÃO OUSE FALAR COMIGO ASSIM!

-         Me desculpe, senhor..eu..eu precisei ir até o jardim..precisava pegar..algumas plantas para..fazer uma poção..

-         MAS VOCÊ FOI PROIBIDO DE SAIR DE CASA!! POR ACASO SE ESQUECEU DAQUELA POÇÃO QUE VOCÊ DEIXOU NA COZINHA E OS ELFOS CONFUNDIRAM COM COMIDA? VOCÊ SE LEMBRA QUE EU E SUA MÃE FICAMOS DORMINDO DURANTE HORAS POR CAUSA DAQUELA MALDITA POÇÃO??

-         Eu..não me esqueci, senhor..foi sem querer, eu já lhe disse..lá na cozinha era o único lugar que tinha espaço para o caldeirão..e hoje..eu achei que não teria problema em ir até o jardim..

Uma sonora bofetada explodiu no rosto do garoto, que caiu com força no chão. A voz do pai agora se tornava ameaçadora.

-         Você não ouse me responder...e não pense que vai me enganar tão fácil da próxima vez..

O menino tinha o rosto muito vermelho e os olhos forrados de lágrimas. Sua voz agora se tornava fria e rebelde.

-         Eu não estava tentando enganá-lo pai..o jardim também é parte da casa, e e eu tenho todo o direito de ir lá! Eu só estava querendo estudar magia! Você não me deixa fazer nada, só quer saber daqueles Comensais idiotas!

Dessa vez o pai não respondeu. Limitou-se a levantar o casaco e lentamente foi tirando o cinto da calça, encarando o garoto mudo com olhar perverso. Com o cinto bem preso na mão, o homem levantou-o bruscamente na frente do rosto do menino mudo.

-         Repete se você é homem.

-         Idiotas! Você e todos aqueles puxa-sacos de Voldemort! São todos um imbecis! – o garoto, sabendo que o castigo era inevitável, não conseguiu reprimir sua revolta.

O braço de César Snape girou no ar, e o cinto acertou em cheio no rosto do menino, derrubando-o com extrema violência. Com o rosto coberto pelas mãos, o garoto nada fazia para se defender. Apenas se limitou a ficar ali deitado, encolhido, sentindo as horríveis pancadas que atingiam o seu corpo, deixando uma dor que queimava.

Em cada golpe, o cinto cortava o ar, emitindo um silvo torturante, que foram ouvidos por mais de vinte minutos.

Os braços do cruel homem doíam de tanto esforço. Quando enfim se cansou, ele baixou os braços e encarou o filho, com os olhos cheios de triunfo.

-         E então, moleque maldito? Vai me responder agora?

O menino nada falou. Continuava parado, deitado no chão de costas, imóvel.

O homem se abaixou e agarrou-o pela nuca. Puxando fortemente, ergueu-o a alguns palmos do chão.

Harry olhava assustado o rosto do menino, muito vermelho.

O homem começou a levar o garoto para fora do quarto bruscamente. Harry foi atrás, muito intrigado.

Os três percorreram o imenso corredor e entraram na cozinha. Harry se impressionou com os elfos domésticos, todos muito limpos e eficientes. Eles se afastaram assustados quando o dono da casa passou arrastando o filho pelos cabelos.

Desceram uma escada, que levava à um quartinho escuro e pequeno. Severo foi jogado para dentro, e caiu num canto onde ficou deitado.

-         Você vai ficar aí até aprender a não me responder, moleque nojento!

A porta bateu com um estrondo e foi trancada. Harry ficou dentro do quarto frio, mergulhado na escuridão junto com o menino, e observava enquanto ele começava a chorar, esfregando as feridas doloridas.

Estava impressionado. Como um pai podia ser tão violento com o filho? Ele já havia notado que os pais de Snape odiavam o menino, assim como seus tios Dursley. Ele era detestado porque seus tios eram trouxas, e achavam que os bruxos eram a escória do mundo.

Mas..os pais de Snape eram bruxos também, e tão ricos..e o menino mostrava ser muito talentoso para a magia. Era estranho. Talvez por eles serem Comensais, não queriam um filho incomodando seus planos. Isso era muito cruel.

Harry começava a entender porque Snape era um homem tão estranho e arredio.

Ainda olhando o menino, notou que a escuridão do quartinho começava a se mover. Fechando os olhos, Harry sentiu uma rajada de vento forte passar e varrer a imagem do menino rapidamente.

Quando abriu os olhos, estava em Hogwarts.

 

 

Mas não era a mesma Hogwarts em que ele estudava. Parecia estar na escola alguns anos atrás. Observava com cuidado a decoração do castelo, que era quase a mesma, mas os rostos dos alunos não lhe eram conhecidos. Percorrendo o salão Comunal vagarosamente, avistou um grupo de garotos que corriam rápido atrás de um menino, gritando e esbravejando. Apressando o passo, seguiu-os, curioso para saber o motivo da perseguição. Porém, quando os garotos pararam, cercando o menino num canto do corredor, Harry reconhceu-o. Era Severo Snape, alguns anos mais velho e de cabelos mais longos.

Um dos garotos pulou no pescoço de Snape, empurrando-o contra a parede. Os outros três ficaram olhando, ameaçadores.

-         Por que você mostrou aquilo para o diretor, seu nojento?

-         E..eu..eu achei que aquilo podia ser perigoso! E o diretor concordou comigo!

-         Você está se intrometendo demais no que não é da sua conta, sabia?

-         Eu..não podia deixar vocês fazerem aquilo com a professora Sulley! Vocês iam fazer uma maldade com ela! Iam explodir os caldeirões de todo mundo com aquelas bombas de bosta!

-         Maldade? Nós só íamos dar um susto naquela professora idiota!

-         Ela não é idiota! Vocês é que têm raiva porque são ruins em Poções! Eu não podia ficar sem fazer nada! O diretor tinha que saber disso!

-         Isso não interessa a você! Deixe de ser intrometido e ficar nos espionando! Por sua causa nós recebemos detenção!

-         Vocês mereceram! São uns idiotas que só querem se divertir às custas dos outros! Vocês são muito infantis, sabiam? Principalmente você, Black!

Mal ouviu aquilo, Sirius deu um forte soco no rosto de Snape. O garoto cambaleou, assustado.

-         Devolva nossas bombas de bosta, Snape. – Um dos garotos, que estava ao lado de Sirius, falou calmamente.

-         Não posso! Dumbledore confiscou-as!

-         O quê? Você deu nossas coisas pro diretor?

-         Claro! Vocês iam usar de novo! Acha que eu não conheço vocês, Potter?

-         Seu seboso nojento! Você vai pagar por isso! Vamos, Sirius..

Arrastando um raivoso Sirius, Tiago se afastou, sendo seguido por Remo e Pedro.

Sentindo um misto de raiva e medo, Snape foi andando lentamente em direção ao salão Comunal da Sonserina. Harry estava estupefato em ver seu pai, e estava louca para ir atrás dele, mas lembrou-se que estava a pedido de Dumbledore, para ver o passado de Snape. Então, seguiu o jovem professor. O garoto disse a senha e entrou, jogando-se num sofá. Uma menina de cabelos escuros, que lhe batiam na cintura, sentou ao lado dele.

-         O que aconteceu, Severo?

-         Aqueles grifinórios outra vez..

-         O que eles fizeram?

-         Você se lembra que eu lhe disse que eles estavam planejando explodir bombas de bosta nos caldeirões dos alunos, na aula de Poções?

-         Sim..

-         Então, ontem na aula, eu vi eles escondendo as bombas atrás do caldeirão de Potter. Então eu as conjurei, escondi e depois de aula levei para o diretor. Ele disse que eu tinha razão em fazer aquilo, que fiz bem em impedir eles de estragar a aula da professora Sulley.. mas eles não gostaram nem um pouco..

-         Eles te machucaram?

-         Não muito, foi um milagre Sirius não ter perdido a cabeça..

-         E o pior é que depois eles vão se vingar de você, né?

-         É..Potter disse que eu iria pagar por isso.. já até imagino o que seja...

-         Você tem que tomar cuidado..mas também, por que você fica indo atrás deles toda hora, Severo?

-         Eu não fico indo atrás deles toda hora! Eles nem se preocupam em disfarçar quando estão planejando alguma brincadeira de mau gosto com alguém..e ficam andando o tempo todo com sacas e mais sacas da Zonko´s..ainda descubro como eles conseguem tanta coisa durante o ano..nós não temos permissão pra ir lá!

-         Bom, aquele dia em que você perguntou, eles lhe disseram que haviam trazido de casa, não é?

-         É, mas eu não acredito..eles usam milhares daquelas sacas o ano inteiro! E eles nunca receberam nenhuma coruja trazendo sacas..eu tenho certeza que eles têm algum jeito de ir à Hogsmeade escondidos..

-         Não fique espionando eles, Severo. Só vai nos trazer problemas..não sei por que você se preocupa tanto com o que eles fazem..é até melhor, eles que percam pontos da sua casa, oras!

-         Eu não gosto de deixar eles fazerem essas brincadeiras idiotas! Eles estão indo cada vez mais longe, algum dia ainda machucam alguém seriamente..e eu detesto quando eles fazem alguma gracinha e estragam as aulas..

-         Mas é só por esse motivo?

-         Bom.. na verdade..não.

-         Não?? Então qual é?

-         É que.. você sabe...a Evans?

-         Lílian Evans? Sei, sim! Aquela com que você está sempre conversando..

Harry se encheu de interesse ao ouvir o nome da mãe, mas não pôde deixar de reparar o quanto Severo ficou vermelho falar dela.

-         É.. ela..você sabe que ela é minha única amiga grifinória.e ela..é realmente legal comigo, sabe? A gente se conheceu no trem, e até hoje a gente conversa bastante, ela não se importa de eu ser um sonserino..ao contrário do Potter e daqueles amigos dele...

-         Mas o que ela tem a ver com isso tudo?

-         Bom.. ela também é muito amiga da turma de Potter, só vai conversar comigo quando não está andando com eles..ela realmente acha que eles são engraçados mas..ela não quer que eles façam alguma besteira, e percam pontos para a Grifinória...

-         E então?

-         Ela já tentou dizer a eles que eles estão exagerando, e tal.. mas como eles são muito infantis..não dão ouvidos ao que ela diz.. então..ela me pediu pra eu tentar fazer eles pararem com essa bagunça toda...mas parece que isso só está deixando eles mais ousados, e com mais raiva de mim ainda...

-         Que coisa... eu acho que você devia maneirar, já que ficar descobrindo os planos deles não está funcionando..

-         É, eu vou conversar com a Lily e contar a ela o que aconteceu.. dizer que não está dando certo...

-         É melhor pra você..ou Sirius vai acabar fazendo alguma coisa grave com você..ele te odeia..

-         Sim, ele é o que mais me odeia naquela turma..e eu nunca lhe dei motivos suficientes pra ele me odiar desse jeito...desde o primeiro dia em que nos vimos, quando eu estava conversando com a Lílian no trem, ele já demonstrou que não me suporta..

-         Talvez ele tenha ciúmes da sua amizade com ela..

Severo ficou muito vermelho de novo.

-         É, é... talvez..eu não sei....bom, eu acho que vou dormir..o soco que Sirius me deu está doendo um bocado..

-         Mas ainda está muito cedo! Ninguém chegou ainda! Quer ir à ala hospitalar?

-         Não, não precisa, Julie, obrigado..boa noite..

-         Boa noite..

Snape se levantou e foi subindo as escadas para o dormitório. Harry foi atrás dele. Quando o garoto abriu a porta do quarto, Harry quase gritou de espanto. O quarto estava deserto, e tinha aspecto parecido com o de Harry no segundo ano, quando Gina invadiu o quarto dos meninos para procurar o diário de Riddle. Mas o quarto de Snape estava muito, muito pior. A cama dele estava totalmente destruída. Os lençóis e os travesseiros rasgados, o malão escancarado, as roupas jogadas, pergaminhos espalhados, os livros com as páginas arrancadas e queimadas, os tinteiros derramados sobre a cama, os farrapos que deviam ser cobertas manchados de tinta, penas quebradas, um verdadeiro caos. E tudo, tudo coberto de bosta de dragão.

Harry logo entendeu. O seu pai e seus amigos haviam destruído os pertences de Snape e explodido dezenas de bombas de bosta em cima de tudo.

Severo, trêmulo de susto, se aproximou da cama lentamente e encontrou um bilhete, deixado em cima da montanha de entulho, Harry pôde ler atrás dele:

 

“Isso é por nossas bombas de bosta. Felizmente encontramos outras para usar com você”

 

Em silêncio, o garoto começou a arrumar tudo. Ergueu a varinha e tentou várias vezes um feitiço de limpeza. Depois de muitas tentativas, em vão, ele viu um saquinho de veludo jogado num canto. Ao pegá-lo viu o que nele estava escrito:

 

“Você quer pregar uma peça em algum amigo? Ou inimigo? Novas bombas de bosta, criação própria da loja de logros e brincadeiras Zonko´s.

Não saem com um simples feitiço de limpeza!

 Mau-cheiro que pode durar até doze horas!

O que você está esperando para começar a explodir?”

 

Com uma expressão de raiva e frustação, o garoto se sentou no chão, contemplando a imensa bagunça, e o cheiro horrível que as bombas de bosta deixaram. Vendo Snape naquela horrível situação, Harry sentiu uma imensa pena dele, e desejou estar lá de verdade para ajudá-lo a limpar a bagunça. Olhando a expressão de mágoa no rosto do menino, ele viu lágrimas enchendo seus olhos.

Soluçando com tristeza, enquanto as lágrimas começavam a cair pelo seu rosto, Severo se preparou para começar a triste arrumação.

Conjurando um grande pano e uma tina cheia de água, ele começou a recolher o que restava de seu material escolar e limpar cuidadosante. Ele ficou vários minutos assim, limpando e separando num canto os pedaços de livros, penas e tinteiros vazios, e os empilhando num canto. De vez em quando ele parava para enxugar as lágrimas do rosto, e usar um feitiço para trocar a água imunda da bacia e limpar o pano.

Depois de tudo, ele pegou a varinha e começou restaurar os livros e penas, e encher os tinteiros.

Uma hora se passou, e o material inteiro estava limpo e arrumado.

O garoto se levantou, e com outro feitiço varreu as penas, farrapos e pedaços de papel do chão. Sobrava agora a cama imunda.

Fazendo dois grandes sacos aparecerem, Snape começou a recolher os pedaços de lençóis e travesseiros, e jogar tudo dentro de um deles. O outro ele usou para guardar as roupas imundas.

Quando ficou apenas o colchão, ele o retirou da cama, e com a varinha, jogou água a sabão em cima dele. Conjurando uma grande escova, ele ficou esfregando e enxaguando o colchão durante muito tempo, dos dois lados.

Quando terminou, ele usou um feitiço para secá-lo completamente, e pegando novamente no pano, limpou a cama com muito cuidado e recolocou o colchão.

Agora só restava o chão manchado de bosta.

Com um aceno de varinha, um esfregão apareceu, e com ele Snape lavou todo o chão do dormitório.

Fazendo todo o material de limpeza e o saco de lixo desaparecer, o garoto organizou todo o material escolar no malão e conjurou novas roupas de cama.

Dando um nó no saco de roupas sujas, ele carregou-o para a sacada do quarto, sussurrando para si mesmo:

-         Amanhã eu lavo eu isso..é melhor eu ir tomar um banho.

 

Vendo o garoto se afastar com ar exausto, Harry se surpreendeu com a eficiência do futuro professor. O mau cheiro ainda estava forte no quarto, mas quanto a isso nada podia ser feito.

Como seu pai poderia ter feito isso? Como ele e seus amigos podiam ser tão violentos?

Harry só conseguia pensar nisso naquele momento. Aquilo era uma vingança idiota, uma brincadeira de mau gosto, mas não deixava de ser cruel.

Talvez seu pai tivesse exagerado muito na forma como tratava Snape. Se tivesse visto isso à um tempo atrás, ele acharia tudo muito engraçado, mas sua amizade por Amy o fez pensar em Snape de uma forma diferente. Era isso que Dumbledore queria. Queria que Harry visse o passado amargo de Snape e o fizesse compreender que o professor não era culpado de tudo.

Harry teve de admitir que desde que entrara na Penseira (estava começando a viver o passado de Snape como se fosse o seu próprio mundo, de tão acostumado que já estava!), estivera considerando o professor de maneira diferente. O que Amy não levou mais de um dia para compreender, ele levou mais de quatro anos. Até se envergonhou das vezes em que atrapalhou a aula do professor, falou mal dele e o enfrentou, discriminando-o, como se ele fosse uma aberração malvada.

Harry mal reparou quando o quarto começou a se mexer rapidamente, transformando-se numa imagem difusa em meio ao forte redemoinho que se formou.

Sendo levado daquele lugar, ele se deixou caiu num lugar macio e úmido. Reparou que era mato. Devia ser de madrugada, o céu estava muito escuro e coberto de nuvens arroxeadas.

Ainda meio zonzo, sentiu uma mão em seu ombro que o levantou firmemente.

-         D-Dumbledore?

-         Sou eu, Harry..

-         Nós já voltamos?

-         Não. Ainda estamos em uma cena do passado de Snape. Mas nessa eu quero estar com você, pois eu mesmo a preseciei. Vamos esperar um pouco, Severo já está chegando.

Os dois permaneceram em silêncio por uns momentos, até que Harry ouviu passos apressados em meio à noite fria.

 

 

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