Coração de Gelo Por: Vanessa SnapeLupin
Capítulo 11 - Lembranças
Severo Snape se encontrava acorrentado em uma pequena solitária, cercado por paredes de pedra gelada. Sentia como se o seu corpo estivesse morto. As feridas estavam abertas e vários ossos estavam quebrados, vitímas dos murros e chutes impiedosos de MacNair. Mas ele mal sentia a dor terrível.
Sua mente parecia estar flutuando a quilômetros dali. Na verdade, ele mantinha sua mente em Hogwarts, como forma de não enlouquecer pela horrenda presença dos dementadores. Pensava a todo momento no castelo quente e aconchegante, no salão Comunal, belamente decorado, nos banquetes deliciosos (há quanto tempo ele não comia! Estava acostumado aos constantes jejuns de Azkaban, até havia se esquecido do que era comer!), nos alunos, sempre alegres e falantes ( apesar de lhe tirarem a paciência, Snape dificilmente admitia que gostava dos alunos ) nos professores, em Hagrid, seu amigo e confidente..até de Falkes e Canino ele se lembrava constantemente.
Snape tinha o dom de ser adorado por animais. Canino faiza tanta festa quando Snape entrava na cabana de Hagrid! Eram tantas lambidas e carinhos trocados..Falkes também o amava..quando ele chegava no escritório de Dumbledore, a linda fênix se exibia toda para ele, abrindo as majestosas asas e cantando docemente. Snape sentia muita falta das bicadas carinhosas do pássaro, enquanto acariciava sua bela plumagem. As lembranças de Fawkes levavam sua mente à Dumbledore, seu grande amigo e protetor. Suas saudades de Dumbledore fazim os seus olhos se encherem da lágrimas dolorosas. Queria tanto estar ao lado do diretor, conversando com ele, agüentando as suas piadas bobas, se deliciando com os doces maravilhosos que o diretor mandava trazer só para os dois..
Também se lembrava sempre de sua mais recente amiga, Amy Lawnder, aluna novata do quinto ano. Os dois haviam se conhecido há poucos dias, e estavam quase se tornando bons amigos. Porém, Snape começou a ter problemas com o ministério e as investigações contra ex-Comensais..Ele não teve coragem de contar tudo sobre o seu passado à garota, e isso resultara numa briga feia. Agora Snape se arrependia de não ter sido sincero com a garota, cujas últimas palavras ainda dóiam em seu peito quando ele se lembrava delas. Ele estava preocupado, não sabia se Dumbledore havia contado tudo à ela, e se Amy ainda não o tivesse perdoado pela briga, a situação iria piorar mais. Ele tentava imaginar a reação da família da menina, ao saber que ela havia feito amizade com um ex-Comensal. Ou talvez até eles pensassem que ele ainda era um deles..mas isso não importava muito, talvez ele nunca mais fosse ver Amy de novo..
Pensava no que Dumbledore e Amy estariam fazendo agora. Se estavam tentando encontrá-lo ( É claro que estava. Dumbledore era seu melhor amigo. O diretor faria tudo que ele sabia que Snape também faria por ele, ou até mais. Amy também, pois ela era uma menina muito doce e bondosa.), se estava preocupado, quais informações o ministério devia estar lhe passando.. Naquele momento Snape se lembrou de que o Veritasserum o havia feito contar tudo sobre sua falsa identidade de Comensal, de sua vida como espião de Dumbledore. Agora ele tinha certeza que ficaria em Azkaban até morrer, e seus amigos não poderiam fazer nada por ele.
Snape não sentia pena de si mesmo, ao contrário, sentia ódio ao ver o resultado do todos os erros que cometeu na vida. Mas ele merecia, e estava até feliz por estar recebendo seu castigo antes que Amy, ou Hogwarts fossem prejudicados pelas suas influências com Voldemort.
Uma sensação de amargura invadia os pensamentos de Snape. Em toda a sua triste e miserável vida ele sofreu nas mãos das pessoas, sentiu a solidão e a exclusão na carne. E todos os erros que ele cometeu..não foram por sua total vontade, e sim para proteger as pessoas que ele amava, apesar de não receber o mesmo sentimento delas. Ele sempre se preocupou demais com as pessoas à sua volta e sempre recebeu pedradas, e isso lhe magoava terrivelmente. E apesar de ter passado a vida inteira sendo rejeitado, ainda assim ele continuava a dar o sangue pelas pessoas. Os alunos de Hogwarts..ele mantinha sua imagem de professor tirano e cruel para que todos desconfiassem que ele fosse um Comensal. Muitos pais de alunos, principalmente da Sonserina, eram Comensais, e ele tinha sempre que fazê-los pensar que ele realmente estava entre eles, para que pudesse continuasse a espionar sem suspeitas.
Ele estava condenado a terminar seus dias sozinho. Solidão que ele mesmo havia criado para si. Tinha que se afastar das pessoas para protegê-las, se Voldemort descobrisse sua farsa, ele queria ser castigado sozinho, sem que ninguém sofresse com ele.
Era o que estava acontecendo. Snape estava pronto para morrer. Apenas se sentia triste pelo destino ter desperdiçado uma vida, criada apenas para sofrer, vingar-se erroneamente de seu sofrimento, e depois afundar indefesa e desesperadamente nos frutos dos próprios erros.
Em sua sala, Dumbledore ouviu batidas no porta.
- Entre.
Não foi nenhuma a sua surpresa ao ver Harry Potter entrar sozinho no escritório, e sentar-se educadamente à sua frente, na mesa.
- Senhor..eu vim porque..
- Porque precisava conversar comigo.
- Sim, senhor..eu queria lhe fazer algumas perguntas sobre o caso de Snape..
- Como quiser.
- Diretor..eu..o senhor nos falou que Snape se tornou um Comensal, mas se arrependeu mais tarde..
- Sim, Harry..
- Então..eu estava pensando..o senhor sabe os motivos que levaram Snape a se juntar a Voldemort?
- Sim, Harry, eu sei. Tanto pelo que Severo me contou quanto pelo que eu pude perceber..
- Perceber? Como assim, diretor?
- Ah, Harry..Severo foi uma pessoa que sofreu muito na vida..desde que nasceu ele foi rejeitado pelo mundo..o que eu não pude presenciar, que foi durante sua infância, ele colocou bem aqui, Harry, nesta penseira..
Enquanto falava, Dumbledore retirava de um armário alto uma tigela de prata adornada e a depositava delicadamente sobre a mesa.
Lembrando-se do dia em que entrara dentro da penseira do Dumbledore, Harry inclinou a cabeça para olhar dentro da tigela. Porém, dentro dela, não existia um líquido prateado, e sim dourado, que luzia delicadamente, absolutamente parado no recipiente.
- Diretor..se não me engano, o líquido da sua penseira era prateado, e não dourado..o que isso significa? Pode haver várias cores?
- Não, Harry..a penseira de Severo não é como a minha..ele não retira pensamentos e deposita nela, e sim tira uma espécie de cópia da memória e a coloca aqui. Ele usou essa penseira para me mostrar acontecimentos de seu passado, mas esses pensamentos ainda estão na mente dele, intactos.
- Mas então..se ele tem memórias ruins, por que ele não as retira e põe numa penseira legítima?
- Ele até gostaria de fazer isso, Harry, mas ele não pode. Voldemort fez um feitiço para trancar os seus pensamentos em sua mente, de forma que ele só pôde copiá-los para mostrar a mim, e não extraí-los da mente.
- Por que Voldemort fez isso?
- Harry, Severo foi o melhor aliado que Voldemort já teve..ele é um bruxo muito inteligente e poderoso, e valia muito para o lorde das trevas tê-lo sempre a seu lado..Como Snape se tornou um Comensal em função do que ele passou na vida, Voldemort achou uma boa idéia prender essas memórias ruins na mente dele, para que ele estivesse sempre se lembrando delas, de forma que a sua revolta contra o mundo só tendesse a crescer. Felizmente Snape soube separar a memória do presente, e isso não foi suficiente para Voldemort conseguir mantê-lo ao seu lado.
- Muito inteligente da parte dele, não é? Eu jamais pensaria em algo assim..
- É muita crueldade de Voldemort..é em função da maldade que ele traça planos tão ardilosamente..
- Mas, voltando ao assunto da penseira..por que você a mostrou para mim?
- Porque, Harry, eu quero que você entre dentro dela..e veja com seus próprios olhos os motivos que levaram Snape e ser um Comensal..
Sem responder, surpreso, Harry se inclinou mais para perto do líquido da tigela, e ergueu a mão para tocar de leve aquele material puramente dourado. Quando a ponta de seus dedos encostaram no líquido denso e frio, Harry se percebeu sendo tragado rapidante para dentro do recipiente. Ele não se assustou, estava acostumado com a experiência, e, além do mais, não poderia ser perigoso, caso contrário Dumbledores não permitiria que ele fizesse uma coisa dessas.
O garoto perdeu de vista o estranho líquido, que se transformou em névoa dourada até desaparecer, revelando um quarto imenso e escuro, que parecia ser de uma grande mansão senhorial.
Harry ajeitou os óculos e começou a andar pelo quarto, vagarosamente. Só então percebeu que uma criança chorava em uma cama no fundo do recinto.
O choro era lamurioso, e, além dele, ouvia-se uns gemidos baixinhos e agudos de aflição.
Harry se aproximou da cama, e viu um garotinho, de mais ou menos quatro anos, se encolhendo desamparadamente debaixo das cobertas. Reconheceu imediatamente o professor de poções, pela pele pálida e os cabelos e olhos muito negros do menino. Ao lado da cama, encontrava-se um elfo doméstico, vestido com uma fronha preta muito limpa, que parecia muito nervoso. Harry não sem importou com a presença dele, já que ninguém podia vê-lo quando estava dentro de lembranças. Nesse momento, um casal entrou discutindo energicamente no quarto.
- Mas será que você não vai conseguir fazer esse moleque calar a boca? Temos que trabalhar, Gunny! - Vociferou o homem, de cabelos negros, longos, pele pálida como a do garotinho, e expressão fria, que lembrava Lúcio Malfoy.
- Eu sei, meu senhor..mas é que..ele não pára de chorar, eu não sei o que fazer..ele está doente..
- Então descubra o que fazer e faça-o parar! Estamos muito ocupados, e esse barulho está nos atrapalhando! - Completou a mulher, alta, magra, de cabelos castanho escuro e olhos muito negros e hostis.
- Sim, senhores.. - respondeu o elfo humildemente.
O casal, sem nem se aproximar da criança que gemia tristemente, saiu rápido, batendo a porta. Logo que eles se foram, Gunnie se aproximou da cama, enquanto outro elfo, dessa vez uma elfa, entrou silenciosamente e foi ajudar o colega.
- Você está vendo, Joelly? O menino Snape está doente outra vez...
O elfo mostrou-o à Joelly, que tocou a testa dele de leve.
- É, sim. Está com febre. Deve ser uma gripe, como da outra vez.
- Não, Joelly! Você se esqueceu que ontem o médico veio, examinou o menino, e disse que ele tinha pneumonia?
- Ah, é mesmo..mas o médico pediu para os mestres cuidarem dele..e ele está aqui sozinho..
- Não importa, Joelly, isso não é da conta de elfos domésticos! Vamos cuidar do jovem mestre.
- Tá bem...
Harry ficou alguns minutos observando os dois elfos cuidarem do menininho cuidadosamente, muito surpreso com a atitude do casal de adultos, que com certeza eram os pais de Snape, e que nem se importavam com o filho doente.
Um tempo depois, quando um dos elfos saiu com uma braçada de roupas de cama sujas, Harry aproveitou a porta aberta e saiu do quarto.
Sem saber para onde ir, ele caminhou pelos corredores da mansão, que realmente era enorme. Todas as paredes eram cobertas de camurça verde musgo. Tudo era ricamente decorado com pratarias, vasos que pareciam caros, e objetos de ouro e marfim. Nas paredes haviam alguns quadros e fotos, que pareciam ser de antigos membros da família Snape, todos pálidos, com cabelos e olhos negros, e a expressão séria.
Hary perambulou um pouco pela mansão até encontrar uma grande e imponente sala, com as portas abertas. Ouvia-se a discussão do casal dentro dela. Harry entrou, e viu os pais de Snape sentados em uma mesa redonda, coberta de papéis e livros. Andando sobre um elegante tapete de pele, o menino se aproximou deles e ouviu o que conversavam. O homem dizia para a mulher:
- Já é a terceira vez que esse menino fica doente nos últimos três meses..antes era coqueluche, depois gripe, e agora pneumonia! Isso não vai acabar?
- Os elfos devem estar cuidando mal dele, César..devemos despedí-los e comprar outros mais competentes..
- Não, é claro que não! Esses dois elfos são úteis para nós, eu não vou mandá-los embora por causa de um moleque problemático! Com certeza ele nasceu com alguma coisa ruim, e você não ajuda em nada! É a mãe de Severo, é sua obrigação cuidar dele..
- EU, CUIDAR DELE? Ora, era só o que me faltava! Não fui eu que quis ter esse bebê, ele foi um acidente, lembra-se? E foi você que não deixou eu me livrar dele quando era em tempo..
- Você não podia abortar, Lyra! Nós temos uma imagem a zelar, imagina o que o ministério iria achar de nós se soubessem que abortamos nosso primeiro filho, casados! Nós seríamos vistos com maus olhos, e isso poderia levantar suspeitas a respeito de nossa devoção à Voldemort!
- Mas mesmo tendo nascido, esse moleque continua a trazer problemas! Eu não quis tê-lo, então não sou eu que vou perder o meu tempo cuidando dele!
- Tudo bem, como quiser, querida..então vamos deixar os elfos com ele..eles podem não ser muito competentes, mas é melhor do que nós mesmos fazermos o serviço..
- É verdade..parece que ele parou de chorar..Gunny deve ter dado um jeito..
- Que bom, eu não aguentava mais essa barulheira..se continuasse assim, eu ia acabar jogando esse garoto pela janela..
- Hahaha, não diga isso, César..iria sujar a sua imagem no ministério!
- Hahaha!
Rindo grosseiramente, o casal terminou a conversa. A mulher se levantou.
- César, eu já vou sair então..
- Aonde vai, Lyra?
- Eu marquei com umas amigas de irmos jogar cartas na mansão da Meg.. ela tem uns licores maravilhosos..
- Tudo bem, não chegue muito tarde..
Dando um beijo no marido, a mulher saiu da sala e foi para o quarto se maquiar. O homem continuou sentado à mesa, lendo alguns papéis e fazendo anotações. Ele ficou assim durante algum tempo, até que um bruxo vestido de negro aparatou na sala. O homem imediatamente se levantou e fez uma respeitosa reverência ao bruxo, cujo rosto estava escondido nas sombras pela capa.
- Meu Lorde! Que prazer tê-lo em minha casa..
- E então? Quais são os novos planos?
- Ah, muitos, meu senhor! Estamos planejando uma noite de tortura aos trouxas, parece que eles querem atacar o centro de Londres..
- Bando de idiotas..só pensam nisso..
- Bem..parece que Malfoy trouxe uma nova leva de sangues-ruins para sua mansão..estão todos presos no esconderijo..
- Ótimo! Louis Malfoy é que sabe se portar como um verdadeiro Comensal..trazendo sangue-ruins para mim..Vamos nos divertir um pouco essa noite, então...Bem que eu estou precisando ver um pouco de sangue..
- Sim, senhor..
- E quanto ao ministério? Você continua fingindo ser um adorável chefe de departamento de Proteção Contra Magia Negra, não é?
- Sim senhor, e retirei ontem algumas informações do conselho..eles querem colocar espiões entre nós para descobrir nossos planos..é claro que eu concordei com eles, achei que talvez o senhor quisesse matar alguns espiões..eu lhe darei o nome de todos os que irão nessa missão..
- É claro que sim, muito bem pensado, Snape..esses espiões serão mortos assim que entrarem no círculo..mas..onde está sua mulher?
- Ela saiu, foi para a mansão dos Malfoy, visitar a mulher dele.
- E o pequeno Severo?
- Está doente outra vez, os elfos estão com ele.
- Espero que no futuro esse garoto seja útil para mim, Snape.
- É claro, senhor..ele será criado totalmente a seu dispor..
- Muito bem..já é hora de ir..Vejo-o na reunião, Snape..
- Sim, senhor.
Harry estava espantado. Então a família de Snape era devota à Voldemort.
Com um estalo, a tenebrosa figura desapareceu da sala. Aos poucos, toda a imagem da sala e do pai de Snape desapareciam também. A névoa dourada cobriu todo o local, até Harry perdê-lo de vista.
Num segundo, o garoto de encontrou-se novamente no quarto de Snape. Mas não havia simplesmente voltado para o quarto. Nele não havia mais o menininho e os elfos.
Procurando por pessoas no local, Harry enfim avistou um garotinho, alguns anos mais velho que o primeiro, encolhido num canto do quarto, vestido de preto, segurando o choro.
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