Capítulo 3 – Música Trouxa
Na manhã seguinte, Hermione recebeu um embrulho, e a coruja pousou em seu ombro o que a assustou um pouco, pois ela não estava acostumada com tal atitude. Junto do embrulho havia um bilhete:
Mione,
Em agradecimento à ajuda de vocês, estou enviando este aparelho e uns cds, espero que gostem de música trouxa. Ah, não se preocupem pois este funciona em Hogwarts...
Um Beijo,
Dinah
P.S.: Será que podia alimentar Hator?
Hermione mais que depressa abriu o embrulho, e acertou em cheio quando pensou que provavelmente era um pequeno diskman. Junto haviam três cds, músicas que Hermione conhecia bem. Olhou para Dinah na mesa dos professores e acenou em agradecimento. Então mostrou aos meninos que ficaram muito entusiasmados com a novidade. Harry já havia mexido em um desses certa vez em que Duda esqueceu o dele no jardim, achou enquanto cortava a grama. Já Rony, não fazia idéia do que se tratava, mas achou muito interessante o ritmo das músicas.
Hermione então voltou a reparar na coruja e lembrou-se de que ela devia estar com fome. Serviu-a então de alguns biscoitos de nata que estavam em sua frente. Riu quando viu Rony e Harry disputando pelo aparelho e percebeu que não ia poder usá-lo tão cedo.
Snape não acreditava, como seria possível. Nem ele com suas pequenas maldades era tão falado como aquela nova professora. Seria ciúmes o que estava sentindo, não gostava de pensar no assunto. Pensava nisso quando percebeu que durante a leitura que ele mandara fazer na aula viu. Viu aquele rapazinho de sardas com estranho objeto nos ouvidos. E parecia que estava entorpecido com aquilo.
- Sr. Weasley... – chamou. Percebeu a aflição de Harry Potter e Hermione Granger, mas o rapaz não escutava. Pigarreou. – Sr. Weasley!. – Aumentou o tom da voz. Mas, ele não ouviu. Os outros dois remexiam-se ainda mais tentando avisá-lo.
Mas, Snape foi suficientemente ágil ao chegar até ele antes que percebesse tal agitação. Rony tremeu ao ver que havia sido descoberto.
- O que é isso, Sr. Weasley?! – Falou com o mesmo tom de superioridade com que sempre tratava os alunos.
- É...é... – Mas, diante do aceno do professor ele entregou o aparelho.
- Então, o Sr. Weasley anda trazendo certos aparatos para a minha aula... Isto irá ficar comigo!
Com medo de perder pontos, Rony calou-se com suas orelhas muito vermelhas.
- O que Dinah irá pensar, hein, Rony?! – Hermione resmungou, mas Snape ouviu.
- Dinah, hã! Então isto pertence a Srta. Becker... – Então passou pela cabeça dele um plano para conseguir tirá-la do seu caminho. – Muito obrigado pela informação Srta.Granger! – sorriu.
Ao ver aquele sorriso enviesado de Snape o sangue de Hermione congelou. Teria que avisar Dinah, algo havia passado pela cabeça de Snape. E era algo que nada tinha de bom, ao ver de Hermione.
Snape planejou que o dia seguinte seria o último para Dinah Becker em Hogwarts. Ela não conseguiria reagir. Subiu para o seu quarto, que ficava ao lado do dela. Não precisaria suportar mais aquela coruja fazendo barulho à noite toda, porque não estava acostumada com o corujal, ou os estranho ruídos vindos do quarto dela. Nem precisaria mais disfarçar nos jantares.
Tentou relaxar sentado a poltrona na pequena sala com lareira que tinha em todos os quartos de professores. A noite estava fria, acendeu a lareira num abano de sua varinha.
Então ele ouviu um som de batidas no quarto ao lado. Aquele mesmo ritmo que ouvira Rony Weasley escutando aquele dia. Sentiu-se então perturbado, perseguido por aquele som. Por que Dinah, o irritava tanto? Por que ele não tinha paz desde que ele a vira na sala de Dumbledore aquela noite?
Decidiu deixar todo o plano de lado e ir até lá. Ela tinha que parar com isso, tinha que deixá-lo em paz. Aquela música estúpida tinha que parar. Enfiou o aparelho em um dos bolsos de seu casaco e saiu, retornando pelo corredor até a porta do quarto dela.
Ao chegar lá, bateu na porta. Esta, que estava mal fechada, abriu ao primeiro empurrão. Então ele viu. O quarto dela, não era igual ao dele ou de qualquer outro professor. Ela havia aumentado, a sala era maior e havia uma cozinha. Agora ela estaria encrencada, os professores não tinham permissão para fazer aquilo.
Afastou os seus pensamentos do lugar e decidiu entrar logo e parar com aquela música. Atravessou a sala até a porta de onde o som vinha. A porta estava entreaberta e ele espiou. Lá dentro, Dinah dançava solitária, mas muito empolgada com as batidas da música. Luzes coloridas piscavam e estava escuro, mas ele não conseguia tirar os olhos dela. Era linda, estava com uma pequena camiseta branca e calça preta, ambas as peças delineavam o seu corpo. Os cabelos presos em um rabo-de-cavalo com cachos que esvoaçavam ao menor movimento. Parecia estar entorpecida, estava sendo levada por aquela música, parecia enfeitiçada. Snape percebeu que as batidas do coração dele estavam perseguindo o som daquela música, sua respiração tornou-se ofegante. Não tirou os olhos de Dinah, era um misto de desejo e medo o que sentia. Não entendia aquela sensação e isso o assustava. Conseguiu voltar a si. Estava preste a sair daquele lugar quando viu que os movimentos dela cessaram, ela caminhou até um aparelho de onde parecia vir o som. Apertou um pequeno botão e o som parou.
- Não é nada bonito, espiar, não acha Snape? – Falou sem se virar.
Diante desta observação ele paralisou atrás da porta.
- É eu freqüentei as aulas de adivinhação! Vamos! Entre e me dê uma explicação! – Ainda sem se virar, pegou uma pequena toalha que estava em sua cama. – Luminus Normalis! – Falou em tom áspero balançando a varinha, e as luzes se acenderam, e as coloridas se apagaram.
Ele tentou controlar a própria respiração, pigarreou e abriu a porta do quarto. Não conseguia encontrar nenhuma explicação para dar. Mas, assustou-se quando ela começou a falar.
- Deixa que eu fale por você então... – virou-se para encará-lo, ele estava de olhos no chão sem encará-la. Ela foi invadida por um sentimento de pena, achou que não devia tratá-lo de maneira rude. Baixou o tom da voz. – Acho que você veio trazer alguma coisa pra mim...
- É-é verdade... Tome. – Ainda sem encará-la entregou o diskman. – Espero não encontrar mais artefatos trouxas em minhas aulas.
Ela pegou o aparelho sem dar atenção a este. Não sabia mais o que fazer, Snape ainda estava ali parado na porta de seu quarto, como se esperasse explicações dela.
- O som... o incomoda? – perguntou, como se já soubesse a resposta.
- Na verdade eu vim falar sobre isso também. – Algo de estranho estava acontecendo ali, mas ele não entendia. Enfim, ele conseguiu encará-la. Ela demonstrava em seu rosto compreensão, tal expressão o deixou ainda mais confuso. Estava acostumado com a familiar carranca que todos o olhavam.
- Mas, a barreira...?! – ela andou até a parede e encostou a mão. – Está fraca? O que acha? – Todos os quartos dos professores tinham uma barreira, antifeitiço, para evitar possíveis lançamentos de feitiços de alunos contra professores, por conseqüência o som também não transpassava.
- Posso avaliar? – diante da afirmação de Dinah, ele caminhou até a parede. Mas a maior barreira que encontrou foi passar por Dinah. O suor escorria, o seu corpo e a maneira com que estava vestida fazia com que o sangue dele fervesse. Encostou a mão na parede e concluiu.- Esse feitiço que você lançou no quarto, fez com que a barreira desaparecesse.
- Mas, eu... ela estava aí até agora!? – Ela caminhou até a porta tentando achar alguma maneira de desviar-se do olhar dele. Por que? Por que aquilo mexia tanto com ela? Simplesmente não entendia, percebeu que o olhar dele estava cheio de dúvida e desejo.
- Você não devia ter feito este feitiço. Por isso, que é proibido aos professores tal modificação! – Falou ainda com a mão na parede.
- Tive autorização para fazer este feitiço, o que não foi nada fácil. – Ele virou-se e começou a caminhar até a porta, mas ela resistiu a vontade de sair dali. – A barreira estava aí até ontem... Você não ouviu nada nos outros dias.
- Mas... O que você estava fazendo? – Ele fez a pergunta e parou, provavelmente se arrependeu, pensou ela.
- Dançando... É o que eu mais gosto nas minhas manias trouxas!
- Manias trouxas... – Repetiu ele desdenhando. – Deve ter muitas, não? Pra transformar este lugar deste jeito...
- O que importa... – O tom de ambos havia se tornado áspero. – Não se preocupe, arrumarei esta barreira ainda hoje! Pode ir agora...
Ele então caminhou até a porta do quarto, onde ela estava encostada. Quando chegou lá, ela encostou-se ao batente da porta dando lugar para que ele passasse ao seu lado. Mas, quando ambos estavam na porta, ela encolheu-se com os braços cruzados, devido a um vento muito frio que passou por ali. Ele parou para ver o que estava acontecendo e ambos ficaram frente a frente. Respirações ofegantes. Ele passou a mão no rosto dela, o que a fez estremecer. A distância diminuiu e sem que o consciente tomasse conta, eles se beijaram. De princípio um beijo leve, que se tornou mais intenso com o tempo, deixando as respirações mais ofegantes. Mas, Snape se separou dela, com a mão na boca, muito confuso ainda do que tinha feito.
- Snape, eu... é... – Dinah tentou dizer alguma coisa, mas o ar estava cheio de dúvidas.
Ele, ainda com a mesma expressão encaminhou-se até a porta e saiu, deixando-a ali parada no mesmo lugar.
Dinah não acreditava que ele tinha a beijado. Era difícil de encarar que tal fato acontecesse com Severo Snape. Afinal, eles se odiavam. Mas, algo nas profundezas do seu ser aceitava e desejava mais. Uma lágrima fugiu aos seus olhos quando pensou que ele a odiava. E mais outra que representava ainda mais sua angústia de não saber o que sentia. Encolheu-se novamente de frio, e foi até a janela para fechá-la. Decidiu tomar um banho, o que pensou ser o melhor remédio para as lágrimas que corriam em seu rosto.
Enquanto isso, Snape em seu quarto ainda olhava fixo para o espelho do pequeno hall de entrada. Como ele conseguira se tornar um ser tão desprezível durante todos aqueles anos. Ela era tão linda, tão envolvente, tão alegre. Sentiu frio, talvez porque estivesse sozinho, mas viu o braseiro da lareira. Com um balançar de varinha reanimou o fogo a fim de esquentar-se. Encostou mais uma vez na parede que ligava os dois quarto, talvez ela precisasse de ajuda para fazer tal feitiço, mas no fundo ele preferia escutá-la. Já estava tarde, o cansaço começou a vencer o corpo. Ele puxou a poltrona até a parede, sentou-se e ali ficou pensando em tudo que fizera aquela noite, era amargo pensar que no dia seguinte ela o odiaria.
Dinah vestiu uma de suas camisolas de cetim, o quarto já estava mais aquecido com o vapor do banho quente. Sentou-se encolhida na cama encostada na parede, não tinha forças para fazer aquele feitiço. Pensou no incômodo que era na vida de Snape, pois havia tomado o lugar dele. Isto era algo que incomodava. Talvez a sua mãe mesmo sendo uma trouxa, pudesse ajudá-la naquela hora, nem que fosse um chá que ela fizesse. Sentiu muita falta de sua mãe que falecera há pouco tempo e as lágrimas voltaram ao seu rosto. Sentia-se desprotegida, vulnerável. Talvez nunca fosse realmente aceita pelos bruxos, como pensou quando gostava Tiago Potter, mas o que a preocupava agora era Severo Snape. Queria saber o que realmente aconteceu. Sabia que a manhã seguinte seria diferente, que Snape provavelmente a rejeitaria como Potter, e que voltaria às velhas discussões.
Dormiu assim, sentada encolhida na cama e encostada na parede fria. Enquanto do outro lado, Snape encostado na parede suspirava o seu nome antes de dormir.