A História de um Título

Memórias da maior conquista verde
Roberto Avallone

Liminha. Liminha, de bola e tudo! Ah, como soavam mágicas as palavras do locutor narrando aquele gol. Na imaginação, a jogada parecia sair do velho rádio, lustrado com carinho pelas mãos de minha avó Olympia, avó materna, do meu lado português. Era a tarde de um domingo de sol tímido, dia 22 de julho, na pacata rua Maria Cândida , na Vila Guilherme, zona norte de São Paulo, onde meu avô Francisco, que torcia pelo Benfica, e meu pai, um ardoroso palestrino vencido pelo sono de depois do almoço, deviam estar dormindo. Menino de 6 anos, não me lembro onde estariam - por educação, quem sabe, meu pai poderia estar ouvindo as histórias de Salazar que o velho Francisco contava em minúcias.

E eu ia querer saber de conversa mole? Não, não pelo menos naquele 22 de julho. Ora, logo naquele dia? Pois que o Palmeiras jogava sua vida, sua história, sua honra diante da Juventus de Turim, o magnifico esquadrão italiano que, na fase de classificação da Copa Rio, ousara golear o Palestra em pleno Pacaembu, por 4 a 0. E Oberdan Catani, ídolo e mito das redes palestrinas, foi pelos quatro gols sacrificado, jogado para a reserva do jovem Fábio como um gladiador vencido.


Já na época, eu guardava o slogan de A Gazeta Esportiva que chamava de campeonato mundial aquela Copa Rio: “Se a Esportiva não deu, ninguém sabe o que aconteceu”, pois não? Pois era campeonato do mundo, mesmo sem a oficialização da Fifa, que reunia as melhores equipes do planeta - e acabou! Era também a chance de uma equipe brasileira, Palmeiras ou Vasco, vingar o futebol brasileiro, um ano depois da tragédia do Maracanã, aquela ferida aberta no dia 16 de julho de 1950, quando o Uruguai venceu o Brasil por 2 a 1 e roubou os nossos sonhos de campeões do mundo.


Foi assim, com esse espírito, até chegar ao gol de Liminha, de bola e tudo, que acompanhei a trajetória do Palmeiras nesse festival de craques. Uso a memória e, cá entre nós, também o álbum comemorativo da Copa Rio que me foi emprestado pelo advogado Gustavo Dedivitis, neto de Angelo Dedivitis, já falecido, e que tinha por hábito invadir o campo para abraçar os jogadores após as vitórias.

A INESQUECÍVEL CAMPANHA


As coisas começaram bem, no dia 30 de junho, com a vitória de 3 a 0 sobre o Olimpique de Nice, onde jogava e reinava um dos mais talentosos e aventureiros entre os craques brasileiros, Ieso Amalfi, amigo de Pablo Picasso e do príncipe Rainier - o que depois se casaria com Grace Kelly. Em seguida, no dia 5 de julho, um placar mais apertado, 2 a 1 diante do Estrela Vermelha, o que se justificava se levarmos em consideração a qualidade dos iugoslavos.


Só que, depois, no mais duro teste dessa fase de classificação, no dia 8 de julho, um domingo à tarde, com o Pacaembu lotado, o Palmeiras foi goleado por 4 a 0 pelos italianos de Turim, em tarde infeliz do goleiro Oberdã e num dia de glória para os atacantes Mucinelli e Boniperti - este, um centroavante de bons recursos. A Juventus tinha também um goleiro, de nome Viola, que mais parecia o senhor dos Milagres (mais tarde, no gol de Liminha, a manchete do jornal foi ‘Enfia a Viola no saco’). Houve quem duvidasse do Palmeiras.


E, no Rio, sem Oberdã, perdendo também durante a partida o grande Waldemar Fiume - o Pai da Bola - e o artilheiro Aquiles, machucados, sendo amparado, porém, pela velha fibra e, creio, pela predestinação: para espanto geral, o Palmeiras venceria o Vasco-todo-poderoso e favorito, por 2 a 1, para no domingo, dia 5 de julho, arrancar um empate diante do mesmo inimigo, também no Rio, num 0 a 0 que lhe garantiria a classificação.


Já assimilando os desfalques, todo palmeirense que prezasse haveria de saber de cór os nomes dos heróis que iriam enfrentar a Juventus pelo título de campeão do mundo: Fábio, Salvador e Juvenal; Túlio, Luis Villa e Dema; Lima, Ponce de León (Canhotinho), Liminha, Jair e Rodrigues.

A BATALHA FINAL


A decisão seria em duas partidas. No ar, o cheiro de vingança. No primeiro choque, o Palmeiras levou a melhor, gol de cabeça de Rodrigues, um ponta-esquerda veloz, valente e de chute forte, que tão bem completava as jogadas arquitetadas pelo genial Jair Rosa Pinto.


E no jogo decisivo, no dia 22 de julho, quando minha família cismou de ir almoçar na casa do meu querido avô português, quando o outro lado da família, o italiano, com meus tios Dora e Claudio a postos, deveriam estar de ouvidos colados ao rádio desde a hora do almoço.


Não tinha importância. Que conversassem e comessem os bolinhos de bacalhau na cozinha ou jogassem cartas na sala. Sozinho, que importa, lá fiquei eu, ao lado do rádio - como já disse, lustrado pela vovó Olympia - sofrendo com o primeiro gol do Juventus, vibrando com o empate que veio por Rodrigues, chorando com o segundo gol italiano e quase chutando a cadeira e o sofá no empate de Liminha. “Liminha. Liminha, de bola e tudo.”


Roberto Avallone


1951 - Palmeiras
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