Desde
a infância Cousteau fazia parte daquelas pessoas, infelizmente tão raras, que
mantém diálogo intensivo com a Natureza. Entrou na Marinha porque gostava do
mar, mas não conseguiu satisfazer-se com as atividades meramente militares.
Cedo abandonou a carreira para dedicar-se de corpo e alma ao fascínio do mundo
marinho.
Foi o primeiro a explorar o mundo submerso e soube mostrá-lo ao grande público. Inventou a máscara, snorkel e pé de pato, desenvolveu o aqualung e câmaras especiais para fotografia subaquática. Com seu filho Philippe, que, tristemente, perdera em acidente aéreo, com seu Catalina, na embocadura do Tejo, em Lisboa, e que foi sepultado em abismo marinho, fez os primeiros grandes filmes que mostravam a profusão de vida nos recifes de corais dos mares tropicais. Estes estão entre os ecossistemas mais belos e preciosos deste castigado planeta vivo - um mundo de estonteante beleza, de colorido deslumbrante, com incrível riqueza de formas, comportamentos e multifacetadas complementações, com diversidade biológica comparável à das florestas tropicais úmidas e igualmente vulneráveis.
Aprofundou sempre mais as suas observações e descidas. Desenvolveu submarinos e equipamentos fotográficos e de TV até para as tremendas pressões das trincheiras abismais, onde se observa em ação os mecanismos da deriva dos continentes com suas erupções submarinas.
Com suas invenções conseguiu montar um império industrial com ramificações em vários continentes. Seus lucros sempre foram reinvestidos em novas observações e pesquisas. Desde a primeira ajuda financeira que lhe foi dada por um empresário britânico, o que lhe possibilitou adquirir o barco Calypso, ele quase sempre conseguiu autofinanciar-se. Sempre viveu modestamente, seu grande gozo era a aventura do mar.
Com o passar dos anos, o que via em toda a parte levou-o a preocupar-se sempre mais com os estragos ecológicos. Chegou mesmo a arrepender-se de sua própria contribuição indirecta a alguns destes estragos. Com a popularização dos equipamentos de mergulho surgiram no mundo milhões de caçadores submarinos. É triste ver como a maioria dos que mergulham só pensam em tirar troféu.
Mas Cousteau chegou a preocupar-se com a globalidade dos estragos que hoje cometemos na água, na terra e no ar, chegou à visão holística de nosso Planeta como sistema vivo, com sua bio-geo-fisiologia. Tornou-se um dos mais poderosos ambientalistas. Foi com este intento que fez sua famosa expedição à Amazônia. A expedição suscitou inicialmente protestos de alguns que suspeitavam fins escusos. São muito comuns, especialmente entre políticos, as pessoas que não conseguem entender que alguém possa agir de maneira desinteressada, simplesmente por idealismo.
Se a Humanidade conseguir atingir um desenvolvimento sustentável, se conseguir sobreviver o próximo século, reestabelecendo harmonia com a Criação, Cousteau será venerado como um dos grandes profetas que prepararam a transição.
José
Lutzenberger
