Durante uns dias Ramiar
não deu sinais de vida. Estaria
certamente mergulhado na sua paixão virtual, flutuando em rasgos de felicidade,
trocando furiosamente emails, alimentando o sentimento que vinha nutrindo, sem
vontade de me ouvir. Desta vez, era eu
que estava curioso. Que se passaria? Com a velocidade com que Ramiar se tinha
apaixonado, a evolução tinha de ser interessante. Decidi telefonar-lhe.
Demorou a atender o telefone e imaginei que estivesse agarrado ao
computador. Dois minutos depois,
aparece.
- Nem imaginas!
A expressão já me era
familiar... havia sempre qualquer coisa que era inimaginável e a verdade é que
eu nunca imaginava o que é que Ramiar iria contar a seguir.
- Não
podes cá vir?
Desta vez não exitei e
fui.
- Então...
conta!
- Vem
cá!
- O
quê?
- É
mesmo isso... ela vem cá e estou um pouco baralhado.
- Então
não era isso que querias?
- Sem
dúvida... mas não imaginas o mistério
do último email... primeiro escreveu-me
o maior email que jamais trocámos. Três
páginas. Depois, pela primeira vez
revelou o lado sexual do seu desejo por mim.
Descreveu uma situação que nem te passa pela cabeça e nem te posso
mostrar. Uma coisa fora do normal...
quase um filme erótico ou mesmo pornográfico em papel... no fim escreveu que amanhã chega cá e para
eu não me preocupar que vai para um hotel. Só me quer ver, nem que sejam cinco
minutos... e reiterou que eu não tivesse medo. O estranho disto tudo é que não
me telefonou nunca e ignorou sempre os meus pedidos para que me enviasse o seu
número de telefone. Como é que vai
chegar, como é que arranjou o visto, para que hotel vai... tudo isto é para mim um mistério!
- Não
te vou dar mais conselhos. Chegaste à
hora da verdade e agora ou vai ou
racha!!
- Eu
sei e é por isso que estou muito confuso... não sei se estou feliz ou se estou
de facto com medo. No fundo, parece-me
abismal a forma como as coisas mudaram radicalmente e tão de repente. De um caso absolutamente romântico e
inocente, com um email, transformou-se numa coisa carnal, quase animal. Não imaginas as coisas que se propõe fazer
comigo... Nem sei se sou capaz de
corresponder e isso se calhar é o que me assusta... é evidente que tenho vontade de fazer tudo aquilo e muito mais,
apesar do “muito mais” ser um bocado impossível. O pior é concretizar tudo aquilo!!!!
- Sem
comentários Ramiar, e não vamos entrar em pormenores. O que é prioritário é concentrares as tuas energias
positivas para o encontro, que eu creio
que é o mais difícil. As palavras são
tão traiçoeiras e imagino que atrás de um computador, sem pressão presencial,
todos nós levamos ao rubro a nossa existência, as nossas fantasias, os nossos
desejos. Tudo parece simples e
perfeito, porque apenas se descobre o lado positivo de quem está do outro lado,
assim como só transmitimos a nossa melhor faceta, os nossos mais dignos
sentimentos e é sempre possível omitirmos as fraquezas, as oscilações de humor,
as manias, as obsessões. Nessas
circunstâncias, é difícil desiludirmos e desiludirem-nos porque em completo
anonimato estão os dois lados a fazer um esforço magnânimo para se apresentarem
como figuras perfeita, quase míticas.
Se analisares bem sabes que criaste uma imagem perfeita de uma pessoa e
por isso te digo que é inevitável que tenhas um choque porque há sempre ideias
pré concebidas que não vão condizer com a realidade... se me entendes.
- Disso
não tenho medo. A minha paixão pela
Ebru é mais forte do que isso tudo. Mas
que tenho medo de alguma coisa, tenho!
Vou esperar serenamente... Depois logo se vê.
Era
tarde demais para dar qualquer conselho a Ramiar. Neste estádio, era difícil convencê-lo que estava virtualmente
apaixonado por uma coisa não palpável, por promessas... Era tarde demais. Quando alguém quer muito alguma coisa e necessita dela, como eu
acho que Ramiar necessitava desta paixão, que lhe ocupasse os dias e que desse
sentido, de alguma forma, à vida pesada que leva neste país, é inútil alertar
para os perigos de tamanha investida.
Eu próprio não tinha sido um bom exemplo, contando-lhe a forma como
alimentava as minhas próprias ilusões.
- Então
a que horas é que chega?
- Sei
lá. Não me disse. Só referiu que chegaria à noite, presumo que
à hora do jantar. Embora a maior parte dos voos cheguem de
madrugada... mas da Turquia não sei.
- O voo
de Istambul chega ao fim da tarde.
- Então é isso... ai, ai, ai!
Já tinha feito o meu
papel de “desmancha prazeres” por isso decidi mudar de estratégia.
- Vá
lá, não estejas assim e pensa no lado bom.
Finalmente vais desfazer o grande mistério... e ou começa aqui uma
relação engraçada ou acaba-se de vez e nunca mais vais pensar nisso.
- Se
fosse assim tão simples...
- Prometo-te
que vai ser tão simples quanto
isso! Agora vou-me embora que estas
horas são cruciais. Aproveita esta
ansiedade e expectativa que são sentimentos raros e únicos... relê as cartas e
escreve o que sentes, que um dia ainda te vais rir.
Deixei
para trás um Ramiar vulnerável, quase ausente.
Tinha a certeza que não ouviu nada do que eu lhe disse. Estava apavorado.
Confesso que também eu
estava entusiasmado com o desfecho desta história. Não sabia muito bem aquilo que iria acontecer, mas tinha a
certeza que as próximas horas iriam ser dramáticas. Que sufoco! E que inveja
da reciprocidade. É das coisas melhores
que conheço porque sempre a imaginei: uma sensação de entrega total!
Indescritível... A angustia de Ramiar
fazia-me lembrar tantas noites que tinha passado em branco por paixões em vão,
por paixões assolapadas. Pensava eu que era original nesta matéria. Afinal, tão
longe, ali estava uma criatura tão diferente de mim, ou se calhar tão parecida,
a sofrer os mesmos sintomas. Agora, claro, rio-me das minhas absurdas
obsessões, apesar de, de vez em quando, ainda ter recaídas da maldita doença,
como aquela que estava a viver naquele momento.
Antes
de me ir embora, Ramiar abordou o assunto, em jeito de descargo de consciência.
- Então
e a tua “paixão”?
- Já
passou...
- Mas
nunca mais a viste?
- Claro
que sim. Depois da viagem que te contei
ainda fizemos outra... os últimos dias
que passou no Irão.
- Ah!
Então não vive cá?
- Não...
e pouco a pouco vais descobrindo...
- Não
quero saber nada disso. Onde é que
foram desta vez?
- A
Chaharmal va Bakhtiari?
- Onde
te foste meter. É um sítio onde ninguém
vai...
Primeiro, pensava o
mesmo. Até o guia do lonely planet que comprei antes de partir para o Irão não
dedicava mais do que meia página a esta região. Nunca percebi porquê. Já é a terceira vez que lá vou e descubro
sempre alguma coisa de novo de fascinante.
Levo sempre as pessoas mais especiais para mim e nunca ninguém se
desiludiu.
- Mas o
que é que há de tão especial em Chaharmahal va Bakhtiari?
- Tudo! E digo-te sem qualquer hesitação. Talvez seja o facto de não ser uma região
visitada que lhe atribui uma áurea pura e genuína. Em primeiro lugar, as montanhas... A primeira imagem que te tira a respiração, são as cadeias
imensas de formações montanhosas absolutamente deslumbrantes e únicas. Depois, as tribos nómadas dos
bakhtiaris. Para mim, a curiosidade de
conhecer de perto o modo de vida dos nómadas era quase uma obsessão, desde há
muito tempo. Não imaginava que no
século XXI ainda pudesse existir um nómadismo tão autêntico como aquele e só o
concebia nas páginas do National Geographic.
Quando chegei pela primeira vez às montanhas e vi as tendas repetirem-se
na paisagem, emocionei-me. Tinha de vê-los
de perto, e quando estive com eles de perto realizei que tinha de
regressar. E vou regressar sempre que
puder.
- Nunca
estive com os nómadas. No Irão nem
sempre são bem vistos e nunca tive qualquer tipo de curiosidade em me
aproximar... muita gente considera que
um país civilizado não deveria ter nómadas.
Gente a viver em barracas. São
os nossos "ciganos"... Vocês
também os têm em Portugal?
- Sim,
claro que sim. De certa forma também
são nómadas, apesar da maior parte se ter sedentarizado...
- E em
Portugal são bem aceites?
- Não,
muito pelo contrário. Os ciganos estão
muitas vezes conotados com actividades ilícitas, apesar de, pessoalmente, não
acreditar que corresponda à verdade na
grande maioria. Mas sabes que a grande
diferença entre os ciganos e os vossos nómadas é que enquanto os ciganos
sobrevivem do comércio, da contrafacção, misturando-se com o tecido urbano, e
necesitando das massas para a sua substitência, pois não têm rendimentos
próprios os bakhtiaris, a tribo iraniana que melhor conheço, vivem da terra, numa simbiose original com a natureza,
sem se misturarem ou precisarem de se misturar com as massas, tentando tirar
disso partido, e preservam a tradição, como o faziam certamente há 400 anos
atrás.
- Como
por exemplo?
- Fazem
diariamente o seu pão, criam as suas cabras e ovelhas, comem essencialmente
aquilo que produzem e continuam a migrar duas vezes por ano, fugindo do frio, e
procurando água, mas para sítios
pré-defenidos, que lhes pertencem há gerações. Por exemplo, daqui a um mês partem para a região de Khuzestan,
mais a sul. A única comunicação com o
exterior, e que constitui a maior ou mais significativa fonte de rendimento, é
através dos tapetes que vendem nas pequenas vilas mais próximas.
- Mas
há muitos bakhtiaris que se deixaram de aventuras...
- Sim,
de facto muitos abandonaram a vida nómada, procuraram trabalho e constituiram
família nas pequenas cidades da região
ou procuraram mesmo as grandes cidades.
É um facto que a vida dura nómada leva as gerações mais novas a procurar
melhor sorte e alguns já têm educação superior. Nao creio que sejam mais felizes por isso. Mas garanto-te que a população nómada
continua a ser muito elevada. Mais uma vez, durante esta viagem constatei isso
mesmo. E cada vez que lá vou, com
gente diferente, em circunstâncias diferentes, sinto-me cada vez mais familiar.
- Como
assim?
- Vou-te
dar um exemplo. Há uma mulher que
desde a primeira que visito a região fascina-me. Chama-se Goli Khanum. É
um verdadeiro homem, chefe da família,
líder absoluto. A primeira vez,
nem sequer bebemos chá com ela.
Aproximou-se apenas da carrinha e estivemos à conversa uma meia hora,
enquanto íamos tirando fotografias furiosamente da sogra e da filha surda
muda. Contou-nos que teve 7 filhos
"mulheres" e por isso teve de arranjar a segunda mulher para o
marido, que lhe deu 4 filhos "homens". Mas apesar de Goli dizer que gostava mais dos filhos da outra do
que dos seus próprios, e assim demonstrar respeito pela sua "rival",
não havia dúvidas sobre quem mandava.
Enquanto falávamos Goli Khanum dava ordens à "número dois" que
obedecia em silêncio. Já não me recordo
quem foi que me disse na primeira visita que a Goli Khanum era mais uma pedinte
que uma verdadeira e digna bakhtiari.
No entanto, nunca dei importância a esses rumores e cada vez que
regressei à região estive com aquela família.
É uma sensação de estranha familiariedade. Um género de "regresso a casa".
- Que
interesse é que ela tem?
- Não
sejas quadrado... O interesse é
simples. Muito simples mesmo. É a
simplicidade. São momentos mágicos em
que me reduzo à minha existência e penso que, de facto, não devemos dar
importância a coisas que não merecem.
- Porquê?
- Pareces
um miúdo de cinco anos a perguntar porque é que o céu é azul. Naquele sítio nada mais tem importância do
que o próprio momento. Não existem
grandes projectos, grandes desígnios ou grandes feitos. As coisas são o que são e são muito
simples. Durante a viagem dormimos uma
noite naquelas montanhas, num sítio maravilhoso onde já tinha estado com uns nómadas
que estavam em trânsito, na sua migração.
Faziam pão e montavam a casa para uma noite. Desta vez não estava ninguém.
Apenas alguns miúdos e mulheres vinham lavar roupa e encher os buchos
dos animais transformados em recipientes na pequena fonte natural e pouco nos
ligaram. Bebemos dessa fonte e
preparámos o jantar com frangos que tinhamos comprado na aldeia. A paisagem ficará sempre guardada na minha
memória. Um quadro de montanhas
entrelaçadas com uma profundidade infinita mudando de cor conforme a hora do
dia. Com aquela imagem adormeci e com a mesma imagem acordei. Ali estivemos, olhando as estrelas, com
poucas palavras e muitos sonhos. Tenho
a certeza que cada um de nós estava feliz no seu mundo.
- E não
tiveram medo?
- Medo
de quê? Da natureza?
- Estás
parvo... de ladrões, sei lá.
- Nada
disso... Àquele sítio não chegam delinquentes.
Só os pobres desgraçados dos nómadas que de vez em quando apareciam para
pedir comida...
- Não
penses que não estou a perceber porque sei perfeitamente que para vocês, que
não estão habituados essas coisas são especiais. Mas tens de compreender que para nós não é a mesma coisa. Primeiro porque a situação para nós é
complicada. Nunca tiveram problemas com
o Comité?
- Nunca
e estavamos a viajar com iranianos. Só
nos hoteis perguntam sempre quem somos e o que fazem os iranianos connosco, mas
nada mais que mera curiosidade. Mas
nada de especial.
- E
deixa-me perguntar-te... aconteceu
alguma coisa com ela?
- Pergunta
clássica, Ramiar... mas resposta
ortodoxa: Não! Pelo menos, nada daquilo
que desejarias para colorir a tua imaginação.
Não aconteceu nada, nem poderia ter acontecido.
- Menos
mal... não era coisa séria, como vês.
-
Tens razão... nada de sério. - Suspirei
desesperado.
Aquele Ramiar às vezes
parecia-me um caso perdido. Tive de lhe mentir. A verdade é que não havia nenhuma evolução em nenhum sentido e
não valia a pena continuar a repetir a mesma coisa a Ramiar. Como sempre estava mergulhado numa obsessão
sem sentido, sem qualquer possibilidade de qualquer desenvolvimento. Desta vez estava, no entanto, sereno e
começava a encarar estas minhas paixões cada vez com mais naturalidade. Como se fosse um destino, um fado que me
fora imposto. Como tal, tinha decidido
que iria aproveitar estas descargas de energia como posso, explorando o lado
positivo que pode ser explorado, apesar de estar farto de ser repetitivo, cansativamente repetitivo. Mas a Ramiar não me apetecia dizer mais
nada. Afinal pouco lhe interessava e
eu tão pouco gostava de falar sobre o assunto, ou mesmo sobre mim. Prefiro viver as coisas mais intimas sobre
mim, em silêncio e aproveitar aquilo que tenho... porque é tudo o que
tenho. E como ninguém me percebe, o
melhor é guardar segredos para não confundir ninguém. Estava a cair no mesmo erro, na mesma armadilha que já
experimentara antes. Não aprendi e
nunca vou aprender. Não quero. Há muito que baixei os braços e deixo-me
continuamente levar pela corrente. Que
me leve onde entender. Depois logo se
vê, logo se resolve. Deixem-me sentir
que eu assumo as responsabilidades. É este, creio, o caminho que também
escolheu Ramiar. Quer ser levado pelo abismo... que aprenda então a sobreviver
de tantas quedas que vai sofrer.
Telefonei a Ramiar no
dia seguinte, antes da hora de jantar.
Ainda não tinha sabido notícias nenhumas e continuava ansioso. Contou-me que já tinha imaginado mil e uma
maneiras de lhe dirigir as primeiras palavras.
É evidente que não chegou a nenhuma conclusão. Disse-me que não podia falar mais, que tinha de ir ajudar o pai
no jardim. Desconfio que a ansiedade de
Ramiar não o deixava falar mais ao telefone que quereria deixar
desocupado. Estava ansioso e escondia
uma felicidade constrangedora.
Olhava-se ao espelho continuamente com receio de desapontar quem quer
que fosse que lhe aparecesse à frente.
O que Ramiar nunca pensara é que poderia ser ele o primeiro a
desiludir-se. Mas isso nunca lhe
passara pela cabeça. Uma vez coloquei
essa hipótese e quase que me insultou, afirmando quem é que eu pensava que ele
era, que nunca iria mudar a sua opinião por causa do aspecto físico e que tinha
a fotografia... Calei-me dessa vez e
mais uma vez! Que dizer quando se está
assim tão embriago. Tudo parece tão
perfeito que não se admitem cenários hipotéticos desencorajadores.
Desde esse dia nunca
mais tive notícias de Ramiar.
Desapareceu e durante mais de um mês não soube se Ebru tinha ou não
emergido do nevoeiro de toda aquela história.
Soube mais tarde que Ebru nunca telefonou, naquela noite não chegou a
Teerão como prometera e nunca mais deu notícias. Ramiar escondeu-se de vergonha depois de dias a fios gastando
energias em frente ao computador, de promessas de amor, de saudades, de
desespero, de desejo por uma nuvem.... nada mais do que uma nuvem. Nunca se desvendou o mistério sobre quem
estava do outro lado... daquela história ficaram apenas as tantas palavras
impressas que queimou de raiva.
Fui ter com Ramiar uma
tarde. Chorava nostálgico, sem medo do
que eu pudesse pensar. Na verdade,
creio que pouco lhe importava o que eu pudesse pensar.
Não julgues que me
arrependo de alguma coisa. Não me
arrependo de nada do que escrevi, do que senti e não me vais arrancar uma
palavra de ressentimento. Quem quer que
seja Ebru, fez-me sentir o que eu queria sentir. Pouco importa agora quem é Ebru.
E se queres que te diga a verdade, alguma coisa aconteceu, tem de ter
acontecido alguma coisa para ela não ter chegado. Eu sei, eu sei...
Não pude conter algumas
lágrimas, mas escondia-as. Ali estava
Ramiar vestindo a pele de Romeu...
Julieta tinha “morrido” e eu receava alguma consequência trágica para
todo aquele enredo.
- Daqui
a dois dias isso passa... não viste a minha paixão??? Quando te lembrares disto um dia mais tarde, ainda te vais rir.
Que banalidades estava
eu para ali a dizer. Odiei-me naquele
instante, como tantas vezes me odeio. Nunca me consegui rir das minhas pequenas
grandes paixões virtuais e sempre considerei ter sido o culpado por não ter
alcançado a felicidade. Arrependendo-me
de atitudes tomadas, pensando que deveria ter feito assim e não assado... Ramiar nunca me ouviu, nunca fez caso ao
pouco que lhe disse por isso não aceitava as minhas palavras, que mais do que
tudo, eram palavras de compreensão por aquilo que estava a passar.
- Não
digas mais nada... peço-te que não digas mais nada desse género. Se pensas que me consolas, não conseguirás. Se pensas que me fazes mudar aquilo que
sinto, não conseguirás. Por isso, as
tuas palavras são em vão. A forma como
eu amo, não entenderás nunca, ninguém nunca entenderá e não consigo explicar e
não quero!!!!!
- Então
diz-me aquilo que quiseres que eu prometo não fazer comentários absurdos.
- Que
queres que te diga? Que estou a arder por dentro? Que poderia morrer
agora? que nada mais faz sentido? Que
não tenho nada? É isso que queres ouvir?
- É,
Ramiar, é isso que quero ouvir!
- Então
ouve-me e não perguntes nada. - Levantou a voz no meio de lágrimas de
sofrimento genuíno. - Nos últimos dias vivi em função dela, as suas cartas eram
vitais para mim. Tudo podia acontecer
que eu estava anestesiado por uma felicidade maior, mais alta, acima de tudo e
que minimizava todos os problemas que eu pudesse . Tudo fazia sentido, tudo fazia sentido e agora acabou-se...
acabou-se porque alguma coisa lhe aconteceu.
- Mas
não achas que poderás voltar a sentir o mesmo por alguém?
- Como
é que queres que eu volte a sentir tanto quanto eu estou a sentir...
Mais
uma vez percebia Ramiar... o mundo parece escuro, negro, não há caminhos que
levem a lado nenhum. Tantas vezes que
senti que a morte era a única solução para evitar tanto sofrimento. A morte parecia também a única vingança para
tamanha injustiça... As lágrimas
escorregavam-me sem controle e decidi fugir... Disse bruscamente adeus a Ramiar
que se encontrava em pior estado e corri literalmente do quarto de
Ramiar... Fui para casa e não quis ver
ninguém nesse dia.
Falei
só mais uma vez com Ramiar. Um mês
depois de termos falado sobre o desfecho da sua história. Disse-me apenas que nunca mais mexeu na
internet e nunca me contou mais nada.
Pela voz, continuava na mesma.
Soube depois que Ramiar tinha fugido para os Estados Unidos.
FIM