III
Durante duas semanas não
pensei mais no assunto. Evitei os
telefonemas de Ramiar e arranjava sempre uma boa desculpa para não atender o
telefone. Achava que Ramiar deveria viver
a sua história um pouco sozinho, sem interferências ou ideias do exterior. Fazia-lhe bem e enquanto as coisas corressem
bem, não precisava de apoio moral.
Um dia Aram veio ao
jardim com cara de caso.
- É o mesmo senhor que
tem telefonado. O iraniano. Mas desta
vez diz que é muito sério e que precisa mesmo de falar com o senhor. Eu não disse que estava, só disse que ia ver
se estava a dormir.
Eram sete da tarde e
Aram era assim... desmascarava-me sempre com a maior das naturalidades... No outro dia disse que eu não podia atender
que estava ao telefone. Toda a gente sabe que eu não tenho portátil. Ainda por
cima já estava habituado porque cedo comecei a detestar o telefone e o frenezim
das chamadas constantes que me incomodavam.
- Está bem! - disse-lhe
com ar de mártir - Sim Ramiar? Como estás?
Desculpa não te ter dito nada ultimamente mas tenho andado muito
ocupado. E tu suponho que continuas nas
nuvens.
- A voz de Ramiar mal se
ouvia. Parecia enrouquecido, doente.
- Só lhe pode ter
acontecido alguma coisa...
- O quê?
- Desapareceu...
- Desapareceu?
- Sim... há três dias que
não me diz nada... só lhe pode ter acontecido alguma coisa.
- Ó Ramiar... são três
dias...
- Nunca deixou de me
escrever um único dia. Nunca deixou de
me dar sinais de vida, mesmo quando estava mais ocupada. Já lhe pedi tanto para me mandar um só sinal
e continua em silêncio. Já pensei em
tudo. Mesmo que tivesse fechado o café
Internet onde ia, podia telefonar-me.
Eu dei-lhe o meu número. E
durante este tempo todo nunca me fez isto...
- E ela alguma vez te
telefonou?
- Não...
- Então faz uma coisa...
telefona-lhe tu!
- Como ?
- Como o quê?
- Ela não me deu nunca o
número.
- Ai, ai, ai. Estou a achar isto tudo muito estranho. Então tu deste o número e ela não.
- Nunca lhe pedi. Não queria que pensasse que eu não tinha
confiança nela. Queria que fosse uma
coisa natural, queria que ela me lo desse porque queria ouvir a minha voz... e
nunca lhe ouvi a voz.
- Não desesperes. Mas acho que foi um bocadinho egoísta não te
ter dado o número.
- E agora nunca vou
saber as razões porque deixou de escrever.
Estou farto disto. Depois do
oásis, o regresso ao deserto. É
demasiado doloroso.
- Eu avisei-te...
- Já te disse que alguma
coisa aconteceu...
- Tens de estar
preparado para o pior... para encerrares o assunto. Afinal nunca a conheceste.
Imagina que a Ebru era uma terrorista turca anti islâmica que estava à
espera de um alvo iraniano para despejar a sua raiva? Imagina onde te poderias estar metido a esta hora?
- Não brinques...
peço-te.
- Vá lá! Só quero que
vejas o lado positivo do teu drama. Já
tive muitos desgostos e só a rir os consegui ultrapassar.
- Não me desesperes mais
do que o que estou... sempre estiveste contra, não acreditaste... mas vais ver
que alguma razão há para que isto tivesse acontecido. Tem de haver uma explicação.
Olha não posso falar mais ao telefone pelas razões que tu sabes...
porque é que não vens cá a casa?
No Irão existe o receio
constante das escutas telefónicas, principalmente nas Embaixadas e casas de
estrangeiros. Eu nunca dei por
isso. À parte dos enganos e das chamadas
anónimas que sempre acreditei que fossem de admiradoras anónimas, nunca me
pareceu que o meu telefone estivesse sob escuta.
- Ramiar, não posso sair
que estou à espera de um telefonema importante. Só se quiseres vir tu até cá?
- Está bem. Vou já para aí.
- Meia hora depois
aparecia Ramiar com uma cara sumida, umas olheiras assustadoras...
- Ó rapaz! Então vais-te
assim abaixo com tanta facilidade.
Entra lá que temos de tratar dessa depressão.
- Tens uma cerveja?
- Já faltava esta
pergunta. Ávidos de álcool, as casas
dos estrangeiros são verdadeiros paraísos.
- Ó diabo!
- Dá-me uma cerveja que
quero embebedar-me!
Quando me anunciou a sua
decisão irreversível via a minha vida a andar para trás. Em fracções de segundos imaginei o meu
precioso bar devastado em prol da angústia do meu amigo iraniano. Tinha de persuadi-lo e fazê-lo entender que
as fugas não são saudáveis. Pedi ao
Aram a primeira cerveja. Fica sempre
com uma cara de surpresa quando lhe peço para servir álcool, ainda por cima a
um iraniano. Aram nunca deve ter
provado o que quer que seja e só de agarrar na lata do líquido proibido deve
penitenciar durante uma semana.
- Aram, não fiques aí a
olhar com cara de caso e vai lá buscar a cerveja. É a lata verde que está no frigorífico.
- Então e tu não me
acompanhas?
- Ah...ainda por cima
queres que eu partilhe as tuas mágoas embebido em álcool para que não haja
dúvidas que não vai haver ninguém com bom senso para equilibrar a balança.
- Vá lá, não é agradável
beber sozinho e o teu empregado ainda faz algum juízo de valor que não
corresponde à realidade.
- Chamei a Akram porque
o Aram não iria perceber nada da operação de diversão que eu me propunha
concretizar. Estava, naquela altura, em
abstinência alcoólica e tinha sempre de fingir que bebia para não ficarem
furiosos comigo. A Akram chegou com o
seu ar doce e eu pedi-lhe uma cerveja ao mesmo tempo que lhe piscava o olho.
Sorriu e percebeu de imediato que eu não queria beber. Dois minutos depois chegava o copo com uma
cerveja que parecia estar morta.
- Ela sabe que eu gosto
sem espuma e.
- Na verdade era apenas
sumo de maçã. Já noutras ocasiões tinha
repetido o truque com a Akram, com gin ténico sem gin e vodka com laranja sem
vodka. A Akram ficava sempre feliz porque acha o máximo eu ter deixado de
beber.
- Sabes que decidi que
não vou falar-te mais do mesmo assunto porque seui que deves estar farto de
ouvir a mesma coisa. Por isso, não
falemos mais nisso. Só queria estar ao
lado de alguém que me compreendesse e isso basta-me.
- Se assim queres assim
será.
Achei uma boa ideia
porque, apesar de nunca lhe ter dito, estava cansado de ouvir falar na mesma
coisa. Quantas vezes também já não
tinha chateado tanta gente com os meus dramas.... de facto, para quem está de fora tudo o que sentimos e que é tão
difícil de explicar torna-se repetitivo, maçador... e agora que a história de Ramiar parecia estar a chegar ao fim,
ainda que infeliz, não valia a pena estar a bater na mesma tecla.
À segunda cerveja e ao
meu terceiro sumo de maçã, já o Ramiar setava tonto e a fazer um esforço
magnânimo para não falar do assunto.
- Sabes que ontem passei
a noite no Comité...
- Estás a falar a sério?
- Achas que ia brincar
com isto.... se me apanham com cheiro a álcool estou frito!!!
O sistema de controlo do
consumo do proibidissimo álcool é feito de uma forma artesanal e
divertida. Como, oficialmente, não há
álcool no país, não se existem aparelhos de medição de alcoolémia. Mas como também se sabe que o consumo é
elevado, até o Comité bebe, o controlo é feito de forma artesanal. Quando desconfiam de alguma coisa mandam
parar os carros e iniciam a técnica do cheiro
do bafo...
- Então e porque é que
foste ao Comité???
- Eu não fui,
levaram-me...
- Porquê?
- Sabes quem é a Leilah
Abtahi? Estávamos na casa dela, numa festa com umas cinquenta pessoas, quando
apareceu o Comité... imagina...
- Mas não entraram! Não dizem que não podem entrar em casas
particulares?
- Podem, podem. Tinham um mandato da polícia. E mesmo sem isso tens que deixar entrar senão
ainda te fazem a vida mais negra, porque mais tarde ou mais cedo arranjam o
mandato...
- Mas à noite é
impossível e desistem sempre.
- Mas isto foi cedo e
era uma coisa bem preparada. Eram umas
nove e meia e os tipos já sabiam há algum tempo pela forma como actuaram. Sabes como é... alguém que não foi convidado que fez queixa á polícia e deve ter
pedido a mais alguém porque só com três queixas é que o mandato é emitido. Uma denuncia comum... Primeiro pensei que era uma
brincadeira. Não liguei. As miúdas começaram a vestir-se e a pôr os
lenços e toda a gente escondia o álcool. Eu nem me mexi e quando os tipos
entraram fui o primeiro a entrar para a carrinha. Descobriram tudo e o pior foi a droga...
- Ramiar...
- Não eu não tinha nada
senão não estava aqui agora. Nem sequer
sabia que se estava a fumar daquilo.
Fomos levados todos para o Comité, chamaram os pais... foi um dramalhão.
- como é que resolveram?
- Cada um como
pôde. Eu paguei 3 milhões de tomans e
ainda levei com 79 chibatadas.
- Nesta altura virou-se
e levantou a camisa para me mostrar as marcas.
- Nem quero ver isso....
- É para que
saibas. Dois ainda estão lá por causa
da droga e tão cedo não vão sair em liberdade.
- Achas que vai ser por
muito tempo?
- as sentenças têm sido cada vez maiores!!!
A minha única
experiência forte com o Comité, para além dos ameaços em minha casa facilmente
resolvidos com somas que vão dos 4.000 tomans aos 10.000, foi numa festa em que
era o único estrangeiro para além de um húngaro que vim a descobrir que era o
organizador da festa e a casa era sua.
Também bateram à porta e durante dois minutos a casa tremeu, toda a
gente organizou-se em silêncio e o ritual repetiu-se: miúdas de russari e lenço
para o andar de cima, rapazes em baixo calmamente encostados aos móveis e uma
música calma de fundo, com todos os sinais de álcool desaparecidos. Dessa vez foi uma brincadeira.. toda a gente se riu com a “desgraça” e a
música continuou em altos decibeis.
- O que é que disseram
os teus pais??
- Foi a mesma cena de
sempre. A minha mãe chora, o meu pai
não me quer voltar a deixar sair à noite e até começaram a falar em acabar a
universidade fora do país.
- O pior é o visto???
- Ora. Isso é o mais
fácil...
- Não estou a perceber!
- Sim, sim. Com três ou quatro mil dólares fazes a
festa. Compra-se um visto aí nesses
tipos organizados com a maior das facilidades.
- Não acredito. -
mostrei espanto apesar de saber que o tráfico de vistos é assustador . Já tinha ouvido falar dos escândalos noutras
embaixadas em que funcionários fizeram fortunas, explorando os iranianos, com a
venda de vistos e as fraudes.
- Ainda ontem a minha
mãe respondeu a um anúncio e disseram-lhe que num mês tenho visto.
- Enfim, sem
comentários...
- Não te preocupes que
não é com a tua...
- Menos mal! E queres
mesmo sair???
- Não sei muito
bem. Sabes que o Irão é o meu
país. Nunca saí daqui, os meus amigos
estão todos aqui e não seria fácil.
Onde é que arranjo amigos com esta idade? Se for para a Alemanha, o que é que faço? Só se for para Nova Iorque que tenho lá os
meus tios todos. Mas não sei se
quero.... No fundo já estou habituado a este ram ram do Comité!!
Nesta altura Ramiar
começou a tremer a voz. Calou-se, mudou
bruscamente a direcção do olhar, e evitou-me.
Percebi que estava a esconder lágrimas.
Durante alguns minutos ficámos em silêncio, não trocámos olhares e eu
não sabia muito bem como lidar com a situação. Pessoalmente, gosto de
pessoas que choram, que revelam
segredos em lágrimas, que desta forma vomitam emoções.
Levantei-me para limpar
o cinzeiro, tentei arranjar tarefas que aliviassem o momento, mudando coisas de
sítio... Ele não parecia incomodado com
o silêncio... serenamente esperou pelo seu
momento para desfazer aquilo que poderia parecer um vazio, mas que era muito mais que isso. Acabou por cortar o silêncio. Exaltou-se e começou a dizer tudo o que não
tinha dito até ali.
- Estou farto... farto!
Não podemos fazer nada sem pensar que os filhos da puta do Comité vão aparecer
a qualquer altura, que alguém faz queixa ou que vamos parar à prisão. E se um dia eu não tiver dinheiro para pagar
a minha liberdade??? Estamos sempre a
ser punidos por tudo e por nada.
- Vá lá... tens que ter
paciência... e parece-me que a situação já foi bem pior!
A sua raiva era genuína,
compreensível. A geração de Ramiar é
prisioneira do seu tempo, do seu espaço.
Tentei aliviar a sua ira como pude. Lembrei-me das histórias dos amigos
iranianos da minha geração, mais velhos dez anos que Ramiar, que me contavam
episódios aterrorizadores. Não podiam
sair a partir de uma determinada hora, relacionavam-se em total
clandestinidade, arriscavam-se a penas de prisão e a fortes punições
corporais. Mesmo as coisas mais simples
era feitas sob total pressão, como fazer ski, por exemplo, onde guardas de
metralhadoras asseguravam a calma nas estâncias, enquanto que hoje já existe a
possibilidade de rapazes e raparigas fazerem ski em conjunto, durante os dias
úteis, onde há menos gente. No tempo da
guerra Irão/Iraque a situação era particularmente difícil.
Por
tudo isto tinha a sensação de que a geração mais nova, de que Ramiar faz
parte, não tinha esta memória não
aceitando, por isso, as comparações.
- Dizes isso porque és
um privilegiado. Aqui ninguém entra,
não és preso, podes pôr a música em altos berros, podes beber...
não fales do que não sabes.
Calei-me. A
obsessão pelo álcool, pelos prazeres mais primitivos da sociedade ocidental
moderna, tantas vezes limitada, era para Ramiar a única referência à limitação
da sua liberdade. Entristeci-me com
esta simplificação assustadora, mas não era a primeira vez que ouvia uma coisa
destas. Não havia mais comentários a
fazer. Eu próprio não me sentia livre
por poder beber em púbico ou ouvir a tal música aos altos berros, e vivendo no
Irão descobri que a liberdade passa por coisas mais sérias... A privação de
liberdade passa por pequenas outras
coisas que atrofiam o espírito e eu próprio sentia tantas vezes que, vivendo em
Nova Iorque ou em Lisboa, nunca fui livre e acima de tudo alguma liberdade
depende exclusivamente de nós.
Mas,
apesar de tudo, quem era eu para julgar Ramiar. Tinha de lhe dar alguma razão, apesar de acreditar que a situação
no Irão não era igual à pressão que se sentia nos primeiros anos da Revolução. Desde a minha chegada, eu próprio começava a
notar pequenas diferenças, pelo menos na parte norte de Teerão que é por si só
uma excepção. Os rupushes começam a ser
mais coloridos, os lenços também e cada vez tapam menos cabelo, os pés andam
mais destapados exibindo vernizes coloridos, o que há pouco tempo era
impensável, e a maquilhagem, na maior parte das vezes, é utilizada de forma
exagerada. Tenho também reparado que os
casais de namorados já andam de mãos dadas a namorar pelos jardins, desafiando
o sistema que só aceita estas “poucas vergonhas” depois do casamento. Tudo isto continua, é evidente, a
representar um risco. Lembro-me de, no início de 1999, nas minhas
voltas no mercado Tajrish, ter assistido a uma das cenas que mais me
impressionou até hoje. No meio de
milhares de pessoas que caminhavam para a frente e para trás, estava uma
carrinha do Comité estacionada, com os seus agentes a escolherem, sem
critérios, as suas vítimas. Naquele dia estava especialmente atento e observei duas raparigas que estavam a ser
literalmente empurradas para dentro do carro, esfregando furiosamente a
maquilhagem, e soluçando convulsivamente.
Cada uma iria pagar caro as ilegalidades; o baton, o rouge, o verniz... Há tabelas com a estipulação das vergastadas
para cada crime cometido e com a multa adicional a pagar. O mais revoltante é que a escolha não tinha
aparentemente critérios. Vi na mesma
altura outras iranianas, com a mesma
maquilhagem ou ainda mais carregadas, e não lhes aconteceu nada. Tenho a impressão que nesse dia chorei de
raiva, pela injustiça, pela percepção de que estava de facto a viver num país
castrador. Desde essa altura nunca mais
voltei a reparar em operações do género.
Mas
apesar de tudo, e destas “rusgas”, as raparigas de Teerão continuam sem medo, a
desafiar o sistema.
As
noites são diferentes. As ruas
enchem-se de gente até às tantas.
Recordo-me de uma quinta-feira ter passado pelo Park-e-Mellat às duas
das madrugada e de ter ficado impressionado com a multidão que passeava no
jardim. As pessoas saem cada vez mais à
rua para fazer picniques, para passear, ou simplesmente para matar o
tempo. Também os restaurantes
começavam gradualmente a melhorar. Para
além dos clássicos kebabs, em 1999 já tinha aberto o famoso
"Monsoon", com uma decoração arrojada e comida asiática fabulosa,
para além do "Fiesta", com comida mexicana, o Pasdaran onde a palavra
passe "água a ferver" poderá dar direito a um vodka ou o Museu do
Relógio. Isto para além dos clássicos
restaurantes suíço, Borj-e-sefid, Darabad
e tantos outros. É curioso que
eu próprio me tinha habituado a
queixar-me da falta de sítios para sair à noite... cada vez mais me arrependo. Compreendo que é desagradável para as
mulheres terem de sentar-se à mesa de cabeça coberta, mas é um preço a pagar
por se viver na República Islâmica do Irão.
Mas seria injusto repetir que não há nada para fazer em Teerão. Principalmente no Verão. Há mais exemplos.
Fui pela primeira vez ao clube arménio e fiquei fascinado. Os arménios têm um estatuto especial no Irão,
uma vez que são cristãos, e desde que não se envolvam com muçulmanos não têm
problemas de maior. O seu clube é por
isso especial. Aquela noite foi
especial porque pela primeira jantei fora, observando os penteados de todas as
senhoras presentes, bebendo vinho e conhaque e sem medo.
Depois,
excluindo as saídas aos restaurantes, a imaginação que desempenhe as suas
funções. Ainda uma noite destas decidi
experimentar o teleférico, durante o período nocturno. Não fazia ideia do que iria encontrar e mais
uma vez a imagem que tinha criado era bastante negativa. O teleférico, construído pelos franceses há
trinta anos não tem a melhor das famas e o próprio Embaixador de França proibiu
em tempos aos cidadãos franceses a sua
utilização. Conta-se a história recente
de uma suíça que ali morreu, mas porque não aguentou a espera de um corte de electricidade e saltou
quarenta metros.
A
viagem constitui uma agradável surpresa.
O teleférico de Teerão, Velenjak, denomina-se de maior do mundo com 15
Km de extensão. Se não é, pareceu-me!
Até muito maior do que isso. Conforme a
cabina ia subindo a cadeia montanhosa de Alborz, aumentava proporcionalmente o
meu medo e a minha ansiedade... Teerão
imensa afastava-se gradualmente e ao longe a iluminação das casas, das ruas,
das praças, das mesquitas, transformavam-se num imenso mar de luzes. Quanto chegámos à primeira estação, única paragem nas viagens nocturnas, a 2400
metros de altitude, fiquei perplexo, sem palavras. Não exageraria se dissesse que foi uma das coisas mais
impressionantes que vi até hoje. Uma
sensação de poder sobre uma cidade gigantesca, de voo alto em terra firme com a
lua cheia a abraçar todo aquele grandioso cenário... Nunca estive tão perto do
céu. Não creio que no mundo exista uma
vista sobre uma cidade como aquela. Um
amigo iraniano com quem fui assegurou-me na altura que estávamos a 4800 metros
de altura... acreditando nas suas palavras, estive quase a perder os
sentidos... fiz força para manter-me
lúcido e resultou. Fraude!!! Soube
depois que tínhamos estado apenas a 2.400... ou seja metade! Impossível, a esta
altitude, de perder os sentidos. Tinha
sido enganado pela sugestão. A descida
revelou-se ainda mais
impressionante. Apenas com um vidro a
separar-me daquela imensidão e com uma sensação de estar a pilotar um avião.
Voei.... Juro que voei por
minutos. Tudo isto invadiu-me a memória
para justificar a minha convicção de que se podia conquistar de alguma forma
aquela cidade de fama negra, apesar de todas as restrições, de toda a
pressão. Mas não valia a pena
argumentar com Ramiar. Ainda por cima
já ia na quarta cerveja e eu não queria entusiasmá-lo a beber a quinta.
- É melhor nem falar
mais nisso, que até já me passou. Às
vezes tenho de desabafar, mas passa depressa e até me divirto a fintar os
cabrões!
- Estás à
vontade... - De repente reparo que Ramiar começa a cambalear sentado e a
revirar os olhos.
- Oh Ramiar... estás
bem?
Tarde demais. A esta altura já tinha vomitado tudo. Fugi e pedi ao Aram socorro.
O pobre do empregado via cada coisa que ficava sem pinga de sangue. Tinha vindo directamente do campo para minha
casa e devia achar aquilo tudo muito estranho.
Com iranianos as coisas ainda eram piores. Mas nunca disse nada, tanto mais que a hierarquia de classes é
tão marcada no Irão que nunca se atreveria a dizer o que quer que fosse. Limpou e calou. Eu próprio fiquei
envergonhado, mas tive de me convencer que estas coisas acontecem. O Ramiar partiu de imediato, visivelmente
encabulado e com uma embriaguez considerável.
Chamei-lhe um táxi e tenho a impressão que continuou a fazer
estragos. Nem me perguntou se eu tinha
as ervinhas de cheiro para disfarçar.
Não me preocupei porque raramente fazem parar os taxis. Os carros modernos e o jeeps são as principais
vítimas do Comité porque ostentam riqueza e podem daí extorquir complementos ao
seu magro salário.
Apesar de eu ter pensado que a bebedeira e a conversa
tinham feito com que Ramiar tivesse esquecido a turca cibernética, enganava-me!
Dois dias depois telefonava-me histérico a comunicar que a troca de cartas de
amor tinha sido restabelecida. Não
cabia em si de contente. Afinal, tinha
morrido o pai da Ebru e por isso fora obrigada a ir à Grécia e estava
desfeita. Leu-me uma passagem da última
missiva.
“Só por ti suporto
passar pelo sofrimento que
atravesso. Um deserto sem água
onde tu continuas a ser o meu único oásis.
Não quis angustiar-te com o meu silêncio. Não queria que sofresses comigo.
Agora sei e tenho a certeza daquilo que sentes por mim”.
- Estás a ver??? Eu sabia.
Não podia ser outra coisa e no fundo tinha a certeza que ela não era
como as outras. Como eu te disse nós conhecemo-nos
melhor do que se tivesses juntos há muito tempo. E agora não sei o que fazer...
ela precisa de mim... já lhe disse para ela telefonar... mas ainda não falou
nem me deu o número... deve querer estar sozinha. Não achas que deva ir visitá-la?
Não,
não acho. - Bruscamente tive de dar
esta resposta. O que é que adiantaria
uma precipitação deste tipo??
Em primeiro lugar acho que definitivamente
não é altura para visitas e descobertas... depois não sabes onde ela
está...onde é que queres ir ter?
- De facto, não é boa altura! Vou esperar,
acho que tenho de esperar e o importante é que voltámos ao que éramos antes:
dependentes um do outro.
- Adeus Ramiar. Tenho de ir buscar uma amiga porque vamos ao
teatro.
Nem lhe disse o que ia ver porque senão ficava
histérico. Até eu estava, para além de
curioso. Ver uma versão do "Romeu
e Julieta" na República Islâmica do Irão, ultrapassava-me. Já tinha assistido antes a peças de teatro,
mas sempre representações ambíguas, históricas, sem envolvimento de cenas de
paixão, de diálogos entre homens e mulheres, ainda que interessantes. Uma delas, Sohrab e Rostan tinha sido
dirigida pela Pari Saberi. Uma mulher fantástica e uma peça fascinante.
Desta vez era diferente. Como
seria uma Julieta de chador e um Romeu de barba islâmica?
Cheguei
ao teatro e iniciei o meu habitual exercício de observação. Enquanto a Minou procurava os bilhetes, eu
elaborava, atrás dos óculos escuros, o relatório mental. Em primeiro lugar reparei que a maioria da
multidão era do sexo feminino. A Minou
já me tinha dito que parecia que um actor de cinema iraniano, conhecido como o
"Marlon Brando" iraniano, iria fazer parte do elenco, funcionando
como uma espécie de chamariz para o espectáculo. Posto isto reparava-se num certo ambiente de histeria
colectiva. Havia para todos os
gostos. Magras, altas baixas, feias e
bonitas. Algumas “chadoris”,
cambaleavam também por entre a multidão. O chador é o traje mais feio que
conheço, fazendo lembrar um baile de máscaras com batmans em todos os
cantos. A minha teoria é que só as
feias usam chador porque é o que tapa mais coisas... até hoje a minha teoria
não foi desfeita. Depois um outro
género: o hejab e o russari . Começam a ver-se cores mais abertas, como
"o azul cueca". Que nunca
saibam o que nós chamamos àquele azul, o cueca, porque senão nunca mais o
poderão usar. Depois temos a opção mais
intelectual, sempre mais hippie. Um
género de cachecol mais fino a escorregar pela cabeça, com rupushes de
serapilheira. Estive ali uma boa meia
hora a observar e a ser observado até a
Minou me estender o bilhete através das grades.
- Entra ali por aquela
porta que é a dos homens!
Um “non sense”,
pois chega-se lá dentro e toda a gente se senta ande bem entende, ao lado de
homens ou mulheres, como em qualquer parte do mundo... enfim. A Minou explica-me que nos vão arranjar um
lugar fantástico porque já tinha dito que era o Embaixador de Portugal. Torci-me literalmente pois é das mentiras
que mais me envergonham.
- Espera aqui que eles já vêm cá ter para nos
arranjarem um lugar.
Fiquei automaticamente tenso, sério e com o meu ar típico
de defesa, que durante anos fui aperfeiçoando... não há pior, mas não posso evitar. Como é que eu ia de
repente arranjar um ar de 50 anos. Oh
meu deus... meto-me em cada uma.
Entretanto,
aproximou-se um elemento da organização que nos propõe o camarote imperial,
onde o Xá assistia ao espectáculo.
Felizmente que a Minou recusou.
Era demasiado.
- É melhor vermos da
primeira fila, que lá para o camarote ficamos longe e não vemos nada.
E assim foi.
Ficámos na primeira fila como convidados de honra, e as pessoas sussurravam...
“Embaixador de Portugal”. Felizmente não fizeram mais perguntas nem concederam
mais honras ao único estrangeiro que assistia ao espectáculo e ainda por cima
"Embaixador". Nem pediram vistos como era tão habitual em situações
semelhantes. A Minou descansava-me.
- Já sabes que neste
país tem de ser assim e tu no fundo és chargé
de affaires... não é uma meia verdade?
- Está bem... mas é
desagradável.
Felizmente que tinha vindo directamente do trabalho e
estava de gravata, o que por si só já queria dizer que era diferente de todos,
um estrangeiro que tinha um cargo importante!!!! Minou chamou-me a tenção para
o camarote imperial, no centro da sala, segundo balcão. Onde antes estava o escudo real, fora substituído
pelo símbolo da República Islâmica, para além das fotografias de Khomeni e
Khamenei. Um género de promessa de que
os valores do Islão estão presentes e irão ser respeitados.
O anúncio para se
desligarem os telemóveis foi feito. As
luzes foram apagadas e o pano subiu.
Começava o Romeu e Julieta, encenado por Ali Rafi.
O
cenário impressionou-me positivamente.
Havia uma espécie de rede a separar o palco do público, o que dava um ar
misterioso ao ambiente, uma neblina.
Logo nas primeiras cenas procurei o Romeu, o tal actor de cinema muito
conhecido que tinha atraído multidões.
Depois de o ter confundido com outro, que parecia ter figura para tal,
chamaram pelo verdadeiro Romeu e lá apareceu... estatura média baixa, ou pequenote, e muito normal. De resto, a representação era nula. Forutan, aparentemente seu nome de guerra,
actuava num estilo peculiar “entre o circo e a peça infantil”. Nulo!
A Minou olhava para mim e riamos discretamente em cumplicidade. De resto a peça, os adereços, os costumes
constituíram uma surpresa.
Elementos
femininos e masculinos vagueavam no palco em plena normalidade, sem exageros
islâmicos. As actrizes usavam chapéus
medievais ou lenços a esconder só o cabelo, mas de forma discreta. Julieta exibia uma trança comprida de
lã. Para além disso, Romeu e Julieta juravam palavras de amor e
só a cena da varanda fora mais comedida do que aquilo que Shakespeare tinha
imaginado. De resto foi surpreendente
se pensarmos que no Irão as mulheres são proibidas de cantar em público, as
canções que são autorizadas e interpretadas por elementos masculinos não podem
falar de amor, nem indirectamente. E
ali estávamos nós perante uma peça que constitui o hino ao amor, à paixão, ao
morrer de amores. Quase se
tocaram. Bravo. No fim, o público foi ao rubro, com uma ovação
de pé. Só eu e a Minou nos mantivemos
sentados. Eu, em acção de protesto
contra o fracasso do Forutan... mas
agora arrependo-me. Deveria ter-me
levantado. Romeu recebia flores das
fãs, vinha para a frente e para trás,
convencido da sua brilhante performance. Repetimos várias vezes quão nulo era
Forutan, e repetiremos: "Nulo".
Por várias vezes
lembrei-me do caso do meu amigo Ramiar.
Como é que seria o Romeu e Julieta do século XXI??? Certamente alguma coisa do género de Ramiar. Uma história virtual... Parecia-me
completamente surrealista e pouco exequível... mas perante a história de
Ramiar... tudo era possível.
Saímos do teatro
absolutamente convencidos que Forutan era um bluff e regressámos a casa com a
música de Khaled no máximo no carro, perante os sorrisos de algumas pessoas que
passavam. Houve um carro que, num sinal
vermelho, foi ao rubro e os seus ocupantes dançavam ao som de “Habibi” e a
senhora mais velha ria-se perdidamente.
Era assim o Irão do ano 2000.
IV.
O Verão em Teerão é
absolutamente fantástico. Não sei se
estou a exagerar. Sinceramente não tenho a noção, mas às vezes sinto-me feliz
aqui no Verão. As temperaturas chegam
aos quarenta graus mas, como não há humidade, é absolutamente suportável. Muito diferente de Nova Iorque, por exemplo,
onde 28 graus centígrados podem causar um sofrimento desconfortável, ou do
Cáspio onde o calor faz com que os dias se tornem pesados.
As noites em Teerão, são
particularmente deliciosas, e não falo das noites de lua cheia. Em relação a
essas só há uma palavra: Mágico. Desta
vez regressei a Teerão com vontade de aproveitar cada minuto destas noites,
onde, segundo o estereotipo, nada mais há que fazer senão pulular de casa em
casa, de acordo com os convites, ou a aproveitar o meu próprio jardim. A poluição é o grande inimigo desta
fantástica descrição. Durante todo o
ano uma neblina permanente invade a cidade e por vezes os níveis são
assustadores, transformando a poluição num nevoeiro negro... tantas vezes
pensei no filme "the day after". O pior deste fenómeno é a sensação de
cansaço constante que provoca.
Assim passava mais uma
noite em Teerão, com a incerteza de quantos dias mais me restariam nesta
cidade. Restava-me aproveitar cada
minuto. Tinha convidado uns amigos para jantar e falávamos sobre a situação do
Irão. Ninguém, ou pelo menos os
estrangeiros que têm passado pelo Irão nos últimos anos, tem dúvidas sobre as
mudanças que se têm verificado desde que Khatami chegou ao poder. No entanto, muitos iranianos, e mais acentuadamente
os "estrangeirados" começam a demonstrar impaciência. Há três anos que ouvem promessas, sem que
sintam as repercussões desejadas no seu dia a dia. Queixam-se da situação económica e da continuação da repressão e
opressão perpetrada pelo regime dos mullahs, e não se cansam de repetir que,
apesar de tudo, Khatami também é um
mullah! A minha opinião continua a ser a mesma. Khatami pouco mais pode fazer.
Fazendo parte do regime e querendo a sua sobrevivência a sua margem de
manobra é limitada. Não tenho dúvidas
sobre a genuinidade das suas intenções, quer de abertura interna com
limitações, quer da abertura ao exterior, também com as suas limitações. O
Presidente não quer, e não pode, transformar a República Islâmica numa
República laica, numa democracia ocidental.
Disso também não tenho dúvidas.
É uma espécie de Gorbatchov islâmico, que tenta não ser ultrapassado
pelos acontecimentos e creio que tem a noção de que se não forem concretizadas
transformações profundas no regime, a República Islâmica corre perigo. Por outro lado, a particular estrutura do
regime não permite passos em falso. Por
estes dias, o líder espiritual, pela primeira vez, impediu o Parlamento,
Majlis, de discutir uma lei polémica, a Lei de Imprensa aprovada nos últimos dias
da legislatura dominada pela ala conservadora.
Depois das eleições de Março, os reformistas ganharam a grande maioria e parecia estar aberta uma nova página
da história deste país. Ali Khamenei
demonstrou que as páginas da história deste país, por enquanto, só se escrevem
com o seu consentimento e eis a noção de que o Irão não pode mudar só pelo
facto de ter chegado ao poder um chefe de executivo reformista e um parlamento
dominado pelos seus seguidores. Khamenei
conseguiu, com esta medida, dividir mesmo os reformistas e assim reforça a sua
posição de "todo o poderoso".
- As pessoas estão
cansadas... nada muda.
- E qual é a
alternativa? - perguntei.
- Não há alternativa!
- Então receio que,
nestas circunstâncias, não há outra solução que não apoiar o "mal
menor"???
- Eu nunca votarei
enquanto não houver uma verdadeira alternativa.
- Talvez seja por isso
que as coisas fiquem na mesma.
Talvez tenha dito um
grande disparate mas sempre considerei esta postura extremamente negativa,
talvez por não ter vivido nunca sob um regime ditatorial. Acredito que há sempre formas de demonstrar
a sua insatisfação. A passividade não
beneficia o motor da história. Repito
sempre que não é Khatami que vai conseguir, por si só, mudar o rumo das
coisas. Tudo depende das pessoas. E enquanto os iranianos não estiverem
dispostos a participar na mudança, tudo ficará na mesma. Falam-me do medo, da perseguição, das
consequências... Às vezes penso se esta
situação não se assemelhará ao período do nosso “antigo regime”. As histórias da PIDE, do medo, da
perseguição que sempre ouvi falar dos mais velhos sempre me pareceram teóricas
e agora que vivia num país “musculado” perguntava-me se os meus pais não teriam
vivido o mesmo.
A conversa
transformava-se sempre numa partida de ténis, sem chegarmos nunca a nenhuma
conclusão. Por enquanto é assim...
fala-se muito, mas as pessoas continuam a guardar os protestos em segredo e o
Poder continua a ter êxito na sua política de propagação do medo. Apesar de tudo eu continuava apaixonado pelo
Irão. Talvez por ser estrangeiro e
usufruir de relativa liberdade, o país fascinava-me. Já tinha, depois de um ano, viajado um pouco por todo o país e
tinha sempre descoberto sítios mágicos e pessoas fantásticas. Nunca me esquecerei, por exemplo, da pequena
aldeia “Aga-Seyed”, na terra dos nómadas bakhtiari, em
Chaharmahal-va-Bakhtiari, onde o tempo parou e ninguém parece se preocupar com
o resto do mundo. Regressei a Aga-Seyed
com uma grande amiga, porque tinha necessidade de partilhar com alguém que
fizesse parte de mim, para assegurar a continuidade da memória. Estou convicto que ficou igualmente
maravilhada. A pequena aldeia fica no
fim do nada ou no princípio de tudo... ainda não consegui chegar a nenhuma
conclusão. Aparentemente trata-se de
uma aldeia de nómadas que a determinada altura decidiram fixar-se naquele
pequeno vale, rodeado de montanhas íngremes.
As casas são feitas de terra, os pátios de uns são os tectos de outros
e, de longe, as construções fazem um efeito de escadaria impressionante. A primeira vez que descobri “Aga-Seyed”
estava convicto que não havia outro lugar assim no mundo. A pequena aldeia revela-se depois de uma
larga curva, no fim de um caminho de terra tortuoso. Do cima de uma das montanhas ouve-se um barulho que se assemelha
a uma piscina cheia de miúdos, identificando-se a azáfama de uma aldeia
inteira. No alto do monte pode observar-se toda a movimentação de todas as
casas. Um género de povoação de coração
aberto, sem privacidade e de janelas abertas para um mundo que nunca a
descobriu. Num dos socalcos alguém
sacode o tapete, noutro um velhote dorme a sesta no seu avançado, e há outro
ainda onde três miúdos brincam à apanhada.
Tudo isto se observa de longe, identificando-se as roupas coloridas,
principalmente das mulheres, com uns lenços igualmente coloridos de onde
sobressaem uma espécie de canudos de cabelos, que se assemelham aos canudos dos
rabis. Impressionante. Mas eu sabia que tudo isto para os iranianos
vale muito pouco quanto não se tem liberdade.
Por isso calei-me.
- Não se fala mais
nisso! Agora também eu te vou contar um
segredo. Talvez sirva para te aliviar a
agonia que me tens vindo a contar nos últimos dias. Não é só tu que te apaixonas em vão...
- Mas quem é que te
disse que eu me apaixonei em vão?
- Não me interpretes
mal! Não é nesse sentido que eu utilizei o adjectivo. Digo em vão quando a concretização de um sentimento tão nobre
quanto a paixão está suspenso, vagueando em incerteza... em vão porque não sabes o resultado do
transe... se alguma vez se concretizar
então deixa de ter sido em vão. Mas,
enquanto não houver prova em contrário...o teu sentimento não é mais que um
esforço vão. Mas, concordo. Não penses
que tudo o que sentes não será recompensado.
- Percebi o que queres
dizer... mas não queres que eu seja tão
fatalista quanto tu?
- És esperto. Ainda pouco me conheces, mas vais
descobrindo as minhas fraquezas. Talvez
seja isso. Talvez esteja a querer
justificar-me. Sabes que eu sempre
senti em vão... podes considerar uma
queixa. Admito estar a queixar-me. Nunca me senti recompensado pelo
investimento que tenho feito na paixão...
- Não me digas que te
apaixonaste?
- Eu também... é
verdade. Também tenho direito... Mas nunca me foi difícil. Nos últimos anos talvez tenha conseguido
controlar essa necessidade de estar sempre em constante ferida passional. Assim o descrevo porque sempre foi doloroso,
angustiante e sempre em vão. Desta vez
não será diferente...
- Então é uma
iraniana... é sempre assim. Os estrangeiros
não saem daqui sem uma paixão, um casamento...
- Enganas-te! Reconheço
esse género de hipnotismo que as mulheres iranianas exercem com a sua
sensualidade, principalmente através do olhar... mas não... não é o caso.
- Não percebo nada.
Com esta resposta Ramiar
queria transmitir a sua impaciência relativa àquilo que eu lhe queria
contar. Tinha sentido que não gostava
de reflexões prolongadas, tão absorvido que estava pelo seu próprio mundo,
pelos seus problemas que a si lhe pareciam insolúveis. Obriguei-o a ouvir-me.
- Já vais perceber. Não te digo quem é nem te onde vem esta
paixão porque não interessa. Nem sequer
te posso contar... todos os sentimentos
em vão que tive, guardei-os para sempre... só contei generalidades porque não
aguentava a pressão de guardar sensações tão grandiosas. É pesado, sufocante e tenho sempre de
partilhar alguma coisa, nem que sejam banalidades. Como se tivesses de refazer uma mala que está demasiado pesada, e
tiras aquilo que é menos essencial, as coisas menos valiosas, que
verdadeiramente não te interessa levares contigo. E talvez seja isso que estou a fazer agora.
- Então mas isso tem
quanto tempo?
Ri-me... Ramiar estava a começar a ficar curioso.
- Não, tem mais de três
dias...
- Ah, então pode ser uma
coisa passageira.
- Certamente!
- Mas estás apaixonado
ou não?
- Não lhe quero chamar
nomes... se calhar não corresponde à tua percepção de “estar apaixonado”...
podes chamar-lhe o que quiseres. Para
mim é mais uma paixão, igual a tantas que já tive, que nunca passou disso
mesmo. Pode durar anos ou dias. Pouco
importa. Garanto-te que enquanto dura é
insuportável, absorvente, asfixiante.
Depois desaparece... como um vagabundo que se cansa de pedir esmola, e
morre serenamente resignado... à
fome!!!
- Então e desta vez...
???? despeja lá "a mala"...
- As circunstâncias são
sempre muito parecidas. Tudo começa por
um fascínio, por alguém que se descobre, por uma conquista. Frequentemente o processo é acelerado por um
período compacto de convivência. Uma
viagem, por exemplo...
- Sabes que isso também
me acontece... mas não é para mim paixão.
São amizades que se fortalecem em determinadas circunstâncias em que se
descobrem tantas coisas em comum... Geralmente
é assim durante as viagens... ou se fazem grandes amigos ou se desfazem grandes
amizades.
- Talvez tenhas
razão. Às vezes também penso que
interpreto tudo ao contrário e que não deveria confundir as coisas... mas sou
impotente e incapaz de fazer essa distinção que sabiamente identificaste. Talvez nem queira!
- No outro dia deste-me
um sermão por causa dos meus encontros e
dos meus sonhos...e olha tu!!!
Então e desta vez o que é que se passou?
- Nada de muito
especial. Uma viagem, bons momentos
passados e uma paixão por alguém verdadeiramente especial. Se me perguntares se aconteceu alguma coisa,
tenho de te responder que não se passou nada.
- Não tiveram nada?
- Nestas paixões,
Ramiar, o contacto físico que desperta tanto a tua curiosidade é o menos
importante. São coisas tão platónicas
que o aspecto físico não assume qualquer relevância. São sobretudo jogos de palavras, olhares, silêncios,
cumplicidades.
- Então como é que um
exercício de sedução como o que me descreves não suscita desejo físico.
- Porque nunca
ultrapassa essa fase do fascínio espiritual, intelectual. Para além do mais nunca é uma coisa
recíproca. Revela-se um sentimento
unilateral em que imaginas uma história romântica a partir de uma relação
normal.
- Então e como é que
alimentas essa paixão se não há reciprocidade???
- Não é complicado.
- Fiquei em silêncio imaginando o
fim-de-semana que tinha passado, em que flutuei em absoluta serenidade ao lado
de uma figura mágica, mística, envolvente.
- Então?
- É difícil
explicar-te... é uma questão de interpretação.
- Interpretação de quê?
- Como se transformasses
as coisas que ouves de outra pessoa em
“alimento” para o sentimento que nutres... É a interpretação do discurso, das perguntas, da troca de
palavras, de gestos, de olhares como queres e como te convém. Ou como convém à história que imaginaste.
- Se me contares como é
que te apaixonaste desta vez talvez eu consiga perceber o que me estás a querer
dizer...
- Bom... então deixa-me
dizer-te... Em primeiro lugar, deixa-me
dizer-te que as viagens que fazes depende com quem vais. Se acontece este “clique”, tudo te parece
maravilhoso, queres tirar fotografias de tudo para eternizar o momento, para
congelar essa sensação de felicidade total e absoluta, de descoberta de sítios
e de sentimentos. Não estou a dizer que
isto não se passa com amigos, em que mais nada acontece... Também vivi momentos de absoluta felicidade
sem ultrapassar a barreira perigosa.
Mas as coisas começam a ser diferentes quando a tua atenção se começa a
canalizar para uma só pessoa... começas a viver esses dias em função dela, em
função de tudo o que faz... E olha que
desta vez nem sequer consegui interpretar nada do que ela me disse que pudesse
“embriagar-me”... e isso entristece-me...
- Sabes que eu acho que
isso são carências. - Disse-o tão directamente e de forma tão brusca que me
magoou. Ramiar revelava-se mais
perspicaz do que aquilo que eu tinha pensado.
- Talvez tenhas
razão. Admito.... tens toda a
razão. Nunca o admiti e obrigaste-me a
fazê-lo agora. É capaz de ser positivo.
- Tive de me render sem vontade. Tinha decidido contar os meus segredos e
tinha de aceitar as consequências.
- Se calhar sempre o
soube e nunca o quis admitir. São de
facto carências emocionais muito fortes... e o que é certo é que depois de 15
anos de procura constante de uma paixão platónica que se transformasse em
qualquer coisa normal, nunca o consegui...
- Estás a ver... ainda
dizes que a minha história é complicada e para eu ter cuidado. Nada podia ser mais simples. Duas pessoas que se apaixonaram e que querem
estar juntas! Muito mais fácil que os
teus enredos platónicos, não?
- Dessa perspectiva,
tens razão. Não ligues ao que eu te
disse!
- Mas não queres mesmo
contar como é que aconteceu?
- Não aconteceu nada de
especial. Como te disse foi durante uma
viagem. Fomos passar um fim de semana a
Shiraz. Quando digo fomos, falo de 6
pessoas... e não faças essa cara que não te digo quem eram e também não
conheces. Não interessa estar aqui a falar
em nomes. Afinal como passará depressa,
para quê identificar?
- Quero saber é da
viagem... o que é que se passou?
- Não é nenhuma história
que valha a pena a tua curiosidade.
Certamente que não servia para nenhum guião, principalmente porque foi
criada apenas na minha cabeça.
- Mas alguma coisa se
passou para teres ficado assim.
- Às vezes cruzamo-nos
com pessoas fantásticas, que não precisam de palavras para nos fascinar. O olhar, a maneira de estar, a energia que
emanam são suficientes para exercer o fascínio que te conduz a este sentimento
que não te sei explicar. Depois a viagem
foi fantástica e correu da melhor maneira.
Descobrimos Shiraz e Persepolis
em conjunto, partilhámos pequenas coisas por mim feitas grandes.
- Gostaste de
Persepolis?
- Sem dúvida. Apesar de pouco restar, Persepolis encerra o
coração, a herança da grande civilização persa.
- Então foi a magia do
lugar que te induziu à necessidade de transportar o fascínio para o plano real
e personificá-lo nessa musa misteriosa que te acompanhou na viagem.
Sorri em tom seco e
recusei-me a adiantar o que quer que fosse. A conversa ficou por ali e parece
que Ramiar não ligou nenhuma ao que eu lhe dissera. Mas para mim tinha sido mais uma vez um desabafo, que me
aliviava. Quanto lhe contei a minha
história, as proporções de mais uma das
paixões tinham diminuído e isso bastava-me. Tinha admitido a Ramiar que aquelas paixões de que lhe falara
seriam resultado de determinadas carências emocionais. Talvez fossem. Certo é que sempre me apaixonei assim por coisas, por pessoas,
por situações, por momentos. Faz parte
de mim e da amplitude emocional que me caracteriza. Aquelas palavras de Ramiar sobre a simplicidade de duas pessoas
que se apaixonaram quererem estar juntas, fizeram-me reflectir sobre aquilo que
parece ser tão simples e natural. Para
mim nunca o foi. Porque seria? Nunca tive a noção dessa simplicidade,
dessa naturalidade, porque nunca se passou comigo. Jamais estive em paz com
alguém e também não sei se estive alguma vez em paz comigo. Os magníficos momentos que passei de
embriaguez emocional intensa, foram sempre vividos unilateralmente, em
silêncio, em guerra interna constante.
Não me queixo, não me arrependo, porque não quero. Mas teria razões para isso. Nestas coisas sou fatalista porque nunca fui
capaz de modificar o rumo do meu destino.
Talvez porque não tivesse querido, talvez tivesse tido receio de me
descobrir. Agora, é tarde demais,
creio, e por isso não me arrependo.
Porque não posso!
No fim Ramiar, aparentemente feliz mostrou-me
outra das suas cartas...
(...)Flower of
my secret garden. I feel like Mesopotamia... your outburst of feelings
inundates my soul like the Tiger sand the Euphrates, and makes it the more
fertile land ready to bear fruit...Friday night... I said, the heck with going
out and engaging myself in nonsense blabber with new acquaintances... I don’t
give a damn, I cannot program myself with the schedules of the multitude...This
evening is meant to be dedicated to this special man, with that so tender and
elegant soul, from whom I am separated by such a great distance... But still...
He is here with me, I breath through him, I see through him, I feel through
him. This is OUR evening, Ramiar, I am with you, I feel the warmth of your
presence, I ambathed in the light emanating from your eyes (will you tell me
what color are they?) and I shiver from delight....Feelings...Indeed...
feelings that only can flourish between us. Before I had my conquests, I had my
affairs, I had my very elevating moments, as I also had my hot ones. But
still...This magic ingredient was missing. There were times I felt I suffocated
by having somebody to completely depend on me. My first lover I met when I was
21.The great and decisive leap. He fell in love with me. He seemed to be
decent, sensitive and very sensuous.
The first time we made love was as if the gates of Paradise were opened
for me. An entire unforgettable weekend, in which all anxieties of the past
dwindled away. He had his way to make me feel so special. I’ll never forget
him. He gave me the keys to those doors after all. But he proved to be
frivolous and superficial after a while... All that mattered for him was wild
sex. He loved me not for my soul, but for my looks. I was badly hurt. My heart
bled. Because I am romantic to the point of stupidity (this you have to know,
love). I was left numb when I found out he was at it with another woman,
somebody who was so fake and pretentious .It took me a long while to recover.
It almost destroyed me, because after that I tried to play cynic. I said “Ebru, better wait, better tie
you-know-what into a knot, until the proper person appears.” And tied it into a
knot I did. Jean appeared out of a dream. In Edimburgh. That was the golden
period. With him I found my true self, I learned what I wanted, I learned all
the things that made me stand into my feet. Self-respect, respect for my
partner (even more than that I had for myself), transparency in quotidian
matters and feelings, and, far and above all, tenderness, affection, which, as
I discovered with great pleasure. The
period after he passed away was horrifying at the beginning. I don’t want to go
into detail. Utter loneliness. Bitterness for what life did to him and to me.
Some of the Catholic ugly beasts, feelings of guilt, started raising their ugly
heads in my heart. I combated them. I had learned that love, true and honest
love - regardless of the sex it is focused to-is a sacred thing. I am sure
about it. No way to change my mind. Now, it seems that I set sail again in this
unknown ocean. I feel it deep down. I feel the surging tidal wave that wants to
carry the boat of my soul along. I feel all this affection, tenderness, along
with those ineffable and unutterable feelings, which have been welling up in my
heart for all these years. The dam is broken, and the flood has begun. I admit it.
My senses tell me YES! My instinct tells me YES! My reason has been relegated
to the background. The compass in this beautiful trip is my heart and only my
heart. And its North Pole lays in the direction of the Big Apple. You know,
Ramiar, who might be there? Open up your heart to me, O exotic flower
embellishing my own secret garden, and
tell me: what are your expectations from the person of your dreams? Make me
love you more, as you merit it, Ramiar... The butterflies flying in sheer
madness in my stomach every time I read a new letter from you conjure up this
existential need of mine. Give me your hand, my sweet one. And take mine.
I have a shoulder for your head. I have
an ear for your whispers. I have two brown eyes where you can take a plunge and
reach my soul. And I want to give you this soul. I want you to feel my fingers
caressing your beautiful head and tracing the contours of your sweet face. And
I yearn for your lips to give a kiss to that finger of mine which so timidly
and lightly traces your face, as the finger of a master sculptor traces his
model in order to grasp its essential form. Have a nice evening, love. Feel me
in everything surrounding you in your solitary Teheran apartment. I know we
will meet. And I’ll make this to be soon!!! Trust me...
Francamente romântico...pensei. Não havia muitos comentários que eu pudesse fazer. Estou certo que também eu me renderia a tal
discurso, apesar de achar um exagero uma troca de palavras tão intensa, tão
profunda, entre duas pessoas que não se conhecem. Até que ponto é que aquilo que estava escrito correspondia a
sentimentos reais? Seria possível tal
intensidade só com uma comunicação tão impessoal? Não sei e talvez nunca
saiba. Parecia-me que alguma coisa
estava mal em toda aquela história. Não
duvidava dos sentimentos de Ramiar, que me pareciam nobres e genuínos, de
alguém que tem uma necessidade imensa de se apaixonar, ao ponto de se apaixonar
de qualquer forma, por quem quer que seja, a qualquer preço. É possível, garanto. O grande mistério estava do outro lado. Quem estaria do outro lado da linha? Quem
escreveria tão doces palavras? Na
verdade, podia ser quem quer que fosse, 80 anos ou 15, feia ou "de
sonho", até pus a hipótese de poder ser alguém do sexo masculino a brincar
com o pobre de Ramiar que se tinha entregue de braços e coração abertos a um
discurso sábio. Não condeno
Ramiar. Não condeno Ramiar, porque não
posso. Porque teria de condenar tantas
atitudes que tenho tido. Por isso não
posso condenar ninguém e se o fizesse seria simplesmente por receio das
consequências de uma história tão frágil, do sofrimento que pode trazer. Há pessoas que se entregam de tal forma a
pequenas coisas, que se agarram tão intensamente a situações tão estranhas que
acabam por sofrer. A mim já me
arrancaram tantas vezes bocados da alma que qualquer dia pouco resta, porque
sempre quis tanto e consegui sempre quase nada.