Não estava sequer disposto a escrever mais. Uma história curta era o que me bastava, o
suficiente para despejar uns quantos sentimentos e encerrá-los num papel para
sempre. Não pude parar. A continuação
não fará sentido, mas já não procuro sentidos. Por isso, não vou parar.
As paixões continuaram, por muitos mais anos,
demasiados, e não valerá a pena falar mais disso. Só interessa saber que as
histórias se repetiram, os sentimentos também.
Na verdade, cansei-me de inventar, de andar atrás das minhas histórias e
de obrigar a realidade a seguir-me quando deveria ter sido tudo ao
contrário. Por isso, comecei a
divertir-me com as histórias dos outros.
Desta vez estava no Irão, o misterioso Irão. Ninguém nunca imaginará as coisas que se passam no país da
revolução islâmica, da intolerância total e das intransigências. Ninguém nunca imaginará porque simplesmente
não é possível imaginar. Não conto tudo
porque não posso e só contarei aquilo que me apetecer. Talvez sejam tudo mentiras mas é tudo
baseado na realidade.
I
Ramiar era um iraniano normal. Rebelde de espírito, como todos os jovens da
sua geração na parte norte de Teerão. Falo do norte da cidade porque o sul é
completamente diferente, porque mais pobre e conservador. Com 24 ou 25 anos queria sair da sufocante
praga de limitações que lhe eram impostas, de qualquer maneira. Conheci Ramiar como conheci centenas de
outros iranianos. Terá sido numa festa
concerteza, nas intermináveis festas das noites secretas de Teerão onde tudo o
que é proibido é obrigatório e onde os estrangeiros fazem parte de um
imaginário de libertação e de libertinagem.
Assim conheci Ramiar que insistentemente manteve o contacto, quer eu
quisesse quer não. É daquelas coisas
que não podemos tornear. Rendi-me às
evidências e lá continuei a ver Ramiar. Valeu a pena, porque conheci um Irão
diferente, mesmo distinto do Irão dos bastidores que tinha aprendido a
conhecer. Um dia convidou-me para ir a
sua casa. Queria mostrar-me alguma
coisa no computador e estava histericamente entusiasmado.
A casa de Ramiar era muito parecida a todas as
casas dos iranianos abastados. Uma
vivenda, decorada com gosto duvidoso, salas ostentando dourados e cadeirões
irremediavelmente inconfortáveis. Subi
directamente ao escritório depois do empregado afegão me ter aberto a porta com
ar de que "o menino já estava à minha espera". Abri a porta e Ramiar nem olhou para mim.
- Entra, entra.
Senta-te aqui e já vais perceber tudo.
Nem vais acreditar.
Percebi que estava mergulhado no mundo cibernético. Há um ano que a internet tinha sido
autorizada para uso pessoal e cada vez mais o mundo virtual se tinha tornado
popular. Os cafés cibernéticos em
Teerão multiplicam-se e eu próprio fui cliente assíduo no início da minha
estada no Irão para trocar sufocos com os amigos através dos valiosos
"emails". O uso da internet
continuava a ser proibido para fins abusivos e perversos, como a pornografia ou
a propaganda política - dois inimigos do regime - apesar de eu nunca ter
percebido como é que seria feito o controle.
Certamente que aconteceria o mesmo que se passou com as parabólicas: de
um dia para o outro o Presidente Rafsanjani proibiu a sua utilização e mandou
recolher todas os aparelhos de recepção de satélites, alegando que a invasão
cultural era um fenómeno pernicioso para os valores do Islão. Dois meses depois pululavam as antenas nas
varandas, escondidas atrás de vegetação e o mercado negro das parabólicas prosperava, com preços inflacionados, como
tudo o que é ilegal no Irão e vendido nos bastidores. As parabólicas continuam proibidas... a internet não. Uma das
muitas ironias do sistema que eu nunca percebi.
- Quero-te mostrar uma coisa, mas tens de prometer
que não dizes a ninguém. Já sabes que
Teerão é uma aldeia e se sabem disto, com as invejas, são bem capazes de
telefonar ao Komité.
As denuncias em Teerão já não se ficavam pelas
festas. A vizinhança que quisesse
causar problemas fazia queixas sobre tudo.
Visitas femininas, antenas, comportamentos "duvidosos". A minha curiosidade aumentava. Que estaria Ramiar a aprontar na internet que o entusiasmava
tanto e que era alvo de tanto segredo.
- Vê isto...
- Teclou insistentemente no computador as palavras
"teheranplace.com".
- Isto, já sabes, no Irão demora horas a fio até
se chegar a algum sítio... mas vais ver que vale a pena.
De repente, entra num site confuso. Reparo que há
anuncios, a maior parte em Farsi.
Começo a ler e fico extasiado.
Ramiar ri-se. - Lê, lê!
Uma tal de Fatemeh propõe-se a realizar as
fantasias de um homem, com mais de 1,80 cm e de preferência peludo. A Leilah quer romance, mas só por uma noite
e com a condição de não perder a virgindade.
É que o divertimento pode custar irremidiavelmente a reputação de uma
rapariga e comprometer para sempre a hipótese de um bom casamento. Depois o Amdal escreve que está aberto a
tudo, mesmo tudo e diz que tem sítio e é discreto. Enfim, o espectáculo prosseguia e valia tudo. Havia anúncios para todos os gostos. De repente, o computador reproduz um som e
no ecrã aparece um género de uma caixa com um "hi".
- O que é isto Ramiar??
- Ah. É alguém que quer falar comigo. Sabes que quando entramos na
"sala" a nossa alcunha aparece no écrã e qualquer pessoa que esteja
em linha pode tentar falar connosco e nós ou respondemos ou ignoramos.
- O que é a sala?
- Ah desculpa...é linguagem da internet. É o
sítio, o site onde nos encontramos à
procura de alguém com quem conversar.
Um género de local de convívio cibernético.
Fez-me lembrar os telefones há uns anos quando
tinham uma avaria aparecia uma série de gente a dizer disparates, aproveitando
o anonimato.
- Queres ver?
Vamos responder:
·
Olá... quem és tu...
·
Houri.
·
então e mais????
·
22 anos alta magra e cabelos olhos castanhos,
agora diz tu.
·
Ali (reparei que não disse o nome correcto), 24
anos 1,76, 67 kg.
·
mmmm.... és giro???
·
claro, e tu?
·
indiscutivelmente.
·
Então e o que é que andas à procura?????
Simultaneamente, Ramiar explicava que começava
sempre assim. Cada um descrevia-se, às
vezes até trocavam fotografias, e depois logo se via. Ou a conversa desinteressava e ignoravam-se mutuamente para
sempre, ou a descrição agradava e iniciava-se um contacto mais permanente.
- Esta de certeza que está a mentir. Sabes que tenho a certeza que quase toda a
gente mente sobre si. Eu já marquei
encontro com duas e nem te conto.
Nesta altura Ramiar já tinha ignorado a Leilah e
apesar de ela ter insistido duas vezes, teve pouca sorte.
- Conta lá! Já que revelaste o teu jardim secreto
agora tens de contar até ao fim, e não tenhas problemas que sabes que eu já vi
muita coisa.- Ironizei pois já que
tinha chegado até alí queria saber tudo.
- A primeira nem apareceu. Esperei mais de uma hora e meia. Fiquei furioso. Acho que ela me fez a
descrição errada e deve ter passado por mim
e, como não lhe deve ter agradado, nem parou. A segunda foi inacreditável.
Respondi a um anúncio do "teheranplace" porque, segundo o que
dizia, parecia ser a mulher de sonho... até cabelos louros tinha e aparentava
ser a pessoa mais sensível. Marcámos
encontro à porta do Borjé Sefid, o restaurante giratório que fica em Pasdaran,
para as 7 e 30 da passada quinta-feira.
Disse-me que iria ter um livro na mão para eu a reconhecer. Desta vez fiz o papel ao contrário. Em vez de esperar à porta do restaurante
andei para trás e para a frente e se
não gostasse ia-me embora. Já me tinham
feito o mesmo e por isso não tinha problemas em retirar-me alegremente. Passou meia hora e nada. De repente vejo um vulto negro com um livro
na mão. Um lenço preto que escondia o cabelo todo e um russari até aos
pés, também preto. Mas em vez da figura
esbelta que eu tinha imaginado, era diferente, muito diferente. Olhou de repente para mim e pensei que não
tinha qualquer possibilidade de escapar...
ou pelo menos não consegui. Trocámos cumprimentos distantes de maneira a
que ninguém pensasse que éramos desconhecidos.
Disse-me que tinha o carro ali estacionado, um Pride branco, e eu
concordei sem saber muito o que fazer e meio arrependido de não ter fugido no
primeiro minuto...
Nesta altura o écrã do computador já tinha feito o
som do pedido de conversa e o ecrã estava cheio de caixas mensagens com
"olás" e "então não queres falar comigo"... Ramiar desligou
o computador e continuou.
- Estávamos os dois nervosos e Anahita começou a
conduzir. Trocámos informações sobre
aquilo que faziamos. Eu por mim, posso
dizer que menti. Disse-lhe que
trabalhava para as Nações Unidas. Ela
disse-me que tinha um Hotel, um negócio de família, que ia de vez em quando à
Europa. Sabes como é que são os iranianos, para impressionar têm de dizer que
são muito viajados. Não sei se mentiu.
Provavelmente mentiu, mas sabes que também não me interessa. Perguntei onde se estava a dirigir porque,
por momentos, acreditei que íamos para casa dela e estava a ficar apavorado.
Disse-lhe imediatamente que às nove e meia tinha um jantar e não podia
demorar. Felizmente que ela também tinha um compromisso de
família e não podia andar alí às voltas muito tempo. Estava por isso a guiar sem destino e a fazer tempo para cada um
ir à sua vida. Por isso não perdeu um
minuto e, discretamente, desabotuou os botões do rupush e despejou os peitos
para fora... - "estás a ver como são
grandes"!!!!!. Acho que lhe tinha
dito que gostava de peitos grandes. Já
não me lembro muito bem do que lhe disse.
Só sei que a partir daí a conversa não teve mais controlo. Mostrou-me o braço onde tinha uma valente
nódoa negra e perguntou-me se eu sabia
o que era aquilo. Assustei-me e
nem sequer lhe dei a ideia que poderia dar um palpite. Disse-me de imediato que era muito selvagem
e fez um ar misterioso. Eu insisti para
que elaborasse sobre o "selvagem" da questão porque já que estava alí
queria saber a história até ao fim.
Começou então a enrolar, dizendo que a força a estimulava... insisti...
Que tipo de forças?? No fundo esperava
o pior daquela situação. Como estavamos
a chegar ao ponto onde eu disse que saia, Mariam não perdeu tempo. Despejou todas as suas fantasias. Gostava que lhe puxassem os cabelos, de
levar palmadas, etc, etc. Perguntou-me
com olhar desconfiado se eu estava impressionado. Disse-lhe que não. Outra
mentira. E acrescentei que talvez
gostasse de experimentar e que definitivamente queria experimentar. Perguntou-me se eu tinha sítio... disse-lhe
imediatamente que não e então assegurou que ia resolver o assunto sobre o local
do crime.... prometi que lhe telefonava
e fugi apavorado. Então que tal???
Fiquei em silêncio alguns minutos. Na verdade, não sabia muito bem o que dizer,
porque apesar de ter visto muitas coisas misteriosas no Irão, nunca me passou
tal coisa pela cabeça e não me saiu mais nada que um - "nunca
pensei"...
-Pois é, mas sabes que aqui não há muitas maneiras
de conhecer gente... e ou vais a festas
onde conheces toda a gente e todos sabem o que fazes e como fazes, ou andas de
um lado para o outro a mostrar o teu carro na Jordan, a trocar números de
telefone e a arriscar-te a que o Komité te apanhe, ou passas a vida estúpido...
Rendi-me às evidências sobre as escassas saídas da
rotina.
- E diz-me Ramiar, o que é que procuravas na
verdade... ??? E não tenhas medo de dizer.
Confia em mim. Só quero que me
ajudes a perceber!
- O que é que eu procurava??? Para te dizer a verdade sempre desejei
encontrar o amor da minha vida... a paixão que nunca tive. Parece-te ridículo não é? Pois se me
contasses uma coisa do género também o acharia... Mas sempre tive esse desejo genuíno cada vez que saí de casa para
estes encontros de que pudesse vir a encontrar "a paixão da minha vida...
- Mas como
é que podia ser...
- E porque é que não podia ser?????
- Porque estas coisas não se passam assim... tem
de ser o resultado de um processo natural...
e uma relação que começasse assim ficaria marcada para sempre por esse
início tenebroso.
- Pois é ...
mas há alturas em que o sonho nos destroi a racionalidade... tens toda a
razão.. ou talvez tenhas.. olha não sei e também não quero filosofar sobre
isso... o certo é que esse processo natural de que falas... comigo nunca
aconteceu!!! E já não acredito nesse tipo de situações.
- Se com essa idade Ramiar começas a pensar
imagina daqui a uns anos.
- Não me
condenes.. todos temos telhados de vidro...
e com estas minhas experiências vou aprendendo.
- Talvez tenhas razão, mas...
- Ah... mas não é tudo...
- Oh Ramiar, tenho mesmo de ir porque tenho um
jantar e estou a ficar atrasado...
- Não. Espera lá, porque a parte que eu te queria
contar ainda não te disse.. e por isso é que te chamei. Sabes que não posso falar com os meus amigos
iranianos sobre estas coisas...
Apesar de terem passado duas horas com as
demonstrações do ponto de encontro e as histórias de Ramiar, aquele pedido
desesperado de um ombro amigo insubstituível, face às circunstâncias, não me
permitiu partir a tempo para o maldito jantar.
- Vá lá. Não te preocupes e conta lá. - Convicente? talvez não, mas Ramiar também
não se preocupou.
- Então
ouve. As histórias que te contei não
têm importância nenhuma e de facto foram puro divertimento e até a pequena
masoquista valeu a pena conhecer. Agora
o que vem a seguir é mais a sério...
- Não me digas que ainda tens histórias mais
inacreditáveis????
- Sim e não...
-Oh Ramiar, sabes que tens de ter cuidado e olha
que essas coisas são perigosas e ainda mais no Irão. Um dia podes ter problemas sérios. - Já que tinha pedido
desperadamente o meu apoio decidi fazer o papel de paizinho que sempre tenho a
tendência de desempenhar e não há nada a fazer.
- Não te
preocupes que esta não tem nada a ver com o Irão. E é a sério, muito a sério.
O comportamento de Ramiar mudou, nesta altura,
radicalmente. Da postura descontraida
com que tinha contado as histórias, passou para um semblante sério e quase
sofredor. Percebi que a história que se
seguia tinha outras dimensões que as anteriores.
- Sabes que comecei com a brincadeira da internet
há um mês...primeiro foi pura curiosidade. Aqui não temos nada e a internet é
um mundo inacreditável. Depois veio a
parte mais complicada. Como vis-te a
página que te mostrei, milhares de
iranianos começam a recorrer a este meio para marcar encontros e fazer
loucuras. Eu primeiro fiquei fascinado
com a facilidade com que conhecia gente da minha idade, tudo parecia perfeito e
fácil como nunca tinha sido antes. Como
percebeste, as coisas não correram bem, mas a internet tornou-se um vício. Comecei a procurar outros sítios, e foi
nessa procura que conheci a Ebru...
não, não é iraniana. É turca e
acho que nunca senti por ninguém o que sinto por ela... nem sequer consigo explicar muito bem .
- Ramiar, Ramiar! Já tiveste experiências
desagradáveis e sabes melhor que eu que às vezes as palavras que se escrevem
não condizem com a realidade e podes muito bem estar a investir no vazio...
pensa bem nisso e depois quando descobrires passas um mau bocado.
Já tinha ouvido falar dos amores
cibernéticos, mas nunca me tinha cruzado assim com um caso "ao
vivo"... no fundo percebia que a
situação no Irão poderia ser propícia a este tipo de alienações. Mas tinha de convencer o amigo iraniano que
podia ter um grande desgosto, e era o mais provável.
- Não... com a Ebru tenho absoluta certeza que
está a falar verdade. Primeiro
começámos com as mentiras, como é natural.
Estivemos assim durante uma semana até passarmos à realidade. Depois, a partir de aí foi mágico. Escrevemos emails todos os dias, e às vezes
mais do que uma vez. Já trocámos
fotografias... espera lá que mostro-te.
Nesta
altura Ramiar começou frenéticamente a vasculhar centenas de folhas metidas
numa gaveta, e encontrou aquela que continha a impressão da fotografia da tal Ebru.
- Vê se não achas o máximo. E olha que não é por ser bonita...um dia
mostro-te as cartas!
De
facto a fotografia era "simpática".
Ebru era muito interessante, tavez não fosse bonita, mas era
atraente. Mas no fundo não era mais do
que uma cópia de uma fotografia que podia ter sido tirada de um sitio qualquer.
-Tens noção que isto pode ser uma cópia de uma
fotografia qualquer, de uma turca, ou francesa, ou italiana, que nunca ouviu
falar de ti nem imagina que estás "apaixonada" pela sua figura...
- Não percebes nada... e estás a ser quadrado e já
não te digo mais nada.
- Não é isso.
Só quero alertar-te para que te possas defender porque tu mesmo me deste
exemplos...
- Está bem mas já te disse que desta vez é
diferente. Já lá vão dois meses e todos
os dias nos falamos. Não é possível
manter uma grande mentira por muito tempo.
Sabes que estamos a pensar ver-nos em breve e vais ver que te enganas
com a tua desconfiança. Vais ver.
- Deus queira.
Agora vou-me embora que com isto tudo fizeste-me faltar ao jantar e
ainda tenho de telefonar a dizer que não vou e é melhor arranjar uma boa
desculpa...
- Obrigado... precisava memso de falar com
alguém. Se quiseres telefona daqui.
- Não, deixa estar. Mais cinco minutos, menos cinco... e assim vou pensando na
desculpa. Chama-me é um taxi que eu não
trouxe o carro.
Cinco
minutos depois estava a caminho de casa num taxi, que no Irão significa um
Paikon, marca local, improvisado. A
conversa é sempre a mesma ou quase sempre.
- Hello mister...
Quando ouço esta frase arrepio-me. Não é que os iranianos não sejam simpáticos
e hospitaleiros. São-no
genuinamente. Mas aquela frase tem
sempre um significado que vai para além da simpatia. Um estrangeiro no Irão é um género de mealheiro ambulante e os
taxistas têm sempre a tentação de experimentar
partir o "porquinho de barro" a ver se lhes sai a sorte grande
ou pelo menos a terminação e quando tentam falar inglês é sempre um género de
aviso que vão cobrar a taxa de luxo. É
evidente que nunca é uma roubalheira descarada. Podem cobrar 300 escudos em vez
de 200, que é quase o máximo que se paga numa viagem normal de meia hora em
Teerão. É verdade que não é uma
fortuna, mas depois de um tempo começa a ser uma questão de princípio.
Encanita-me.
- Não falo inglês. - Disse-lhe em farsi
- Oh que bem que fala farsi. De onde é que é.
Lembrei-me logo das histórias do Ramiar e
disse-lhe quase automaticamente. - Sou Espanhol.
-
Ah... país Schengen????
Errei a mentira.... ao
menos que tivesse mentido com mais pontaria.
è que sempre que se fala num país da Europa, lá vem a história de
Schengen.
- É fácil conseguir o visto?????
- Não sei que eu não sou da Embaixada... - outra
mentira para fintar a primeira que saira mal.
- Eu nada... o meu pai trabalha numa empresa de
petróleos. - terceira mentira... a coisa estava-me a sair bem. Imagino que seja muito mais mentir quando se
está a escrever no computador. Pobre
ramiar, pensei, se calhar está a cair numa bela armadilha.
Finalmente tinhamos chegado a casa.
- Quanto é, por favor?
- Não é nada...
A história recomeçava. Sempre que se pergunta o preço nesta terra é sempre a mesma
conversa: "não é nada". São
tão cerimoniosos que às vezes é preciso insistir, prolongando-se o pagamento
por largos minutos. É acima de tudo
cansativo porque de facto querem o dinheiro mas têm de fazer o teatro. Só em Nova Iorque uma vez foi-me de verdade
recusado o dinheiro depois de um iraniano ter delirado com o meu conhecimento
de farsi e até me deu o cartão para eu conhecer a filha. Nunca telefonei.
- Diga lá
quanto é que é e não faça cerimónia...
vá lá que eu estou com pressa... - ainda não tinha telefonado a
justificar a minha ausência no jantar e já eram dez e meia.
- São 1500 tomans. - mais ou menos trezentos
escudos o que para os locais é exagerado.
Mesmo com a pressa comecei no meu exercício preferido.
- Xiiii...
então eu para lá paguei 800 e agora é o dobro...
- Então dê o que quiser...
Peguei
numa nota de 1000 e entreguei-lhe.
- Mas isto não chega.
- Jáa lhe expliquei que sou estrangeiro mas vivo
aqui e sei quanto é... porque é que tentam sempre engaanar-nos... eu não sou
alemão.
- Para si 1500 não é nada e para mim é muito...
- Ouça lá, eu não ganho em dólares. - oops, quarta
mentira.
- Está bem, - disse resignado - obrigado.
Saí
com um ar triunfante. Para mim é sempre
uma pequena vitória e gosto do exercício. Não é que seja forreta.... é uma
questão de princípio.
Cheguei a casa e já o telefone tocava. Senti uma dor no estômago. Certamente era o anfitrião a perguntar por
mim. Que vergonha. É o sentimento mais
terrível que conheço. Às vezes tenho a
tentação de ignorar os encontros, compromissos e deixar passar como que se o
tempo resolvesse os problemas e os meus erros.
É assim em relação a tudo... até a saúde... ignoro-a como se eu fosse de
plástico e tudo se resolvesse per se.
Ai, ai.
Afinal era o Ramiar.
- Desculpa estar a telefonar e queria pedir
desculpa...
- Mas porquê? - sonso fiz a pergunta.... sabia bem
que o Ramiar me tinha feito estar a ouvi-lo quase quatro horas e perdi o jantar
e agora não sabia o que fazer.
- Não, porque te fiz perder tempo e não foste ao
jantar... desculpa. Ainda por cima não
percebeste nada nem sequer porque é que eu precisava tanto de falar com alguém.
- Ramiar, nem penses nisso. Os amigos são para estas coisas e fico
satisfeito por me teres contado um segredo.
- Mas tens de ler as cartas... quero que leias e
vou mostrá-las só a ti.
Mais
uma vez Ramiar tinha-me colocado entre a espada e a parede e não tinha
saída. Definitivamente Ramiar tinha
arranjado um cumplíce para a sua estranha história de amor cibernético e eu não
tinha muitas opções. Que assim fosse.
- Está bem. Obrigado pela confiança e então
falamos amanhã que eu ainda tenho de resolver a história do jantar.
Telefonei
logo de seguida. Tentei passar mensagem
ao empregado mas ele não me ligou nenhuma e passou ao patrão.
- Então o que aconteceu????
- Mil desculpas, mas tive um furo...o pneu
sobressalente estava em mau estado...sabes como é o Irão quando se tem um
problema... tive de deixar lá o carro...
- Mas
queres ajuda???
- Não, não. Está resolvido. Mil desculpas.
- Mas vem que ainda não começámos..
- desculpa mas estou todo sujo e sabes que isto
desmoraliza. Estou pronto para ir para a cama... a não ser que te transtorne a disposição da mesa de forma
irremediável...
- Não, não te preocupes que é volante. Fica para a
próxima.
Mais
um problema resolvido. Felizmente que
consegui ultrapassar mais uma vez a vergonha e lá me torci todo mas consegui
dar uma justificação... outra mentira é certo... mas ao pé das hist´rias de
Ramiar, não é nada. è certo que no dia
seguinte Teerão inteiro vai saber que tiveste um furo e que o carro ficou no
meio da rua e são bem capazes de acrescentar que no entretanto me roubaram as
quatro rodas. Tenho de preparar-me
para confirmar a história senão é uma bronca.
Fui para a cama a pensar
nos acontecimentos daquele dia. Ramiar
perdidamente apaixonado por alguém através da internet, sem mais referências
que os emails que vai recebendo, e os iranianos que freneticamente marcam
encontros secretos e vão trocando noites sem pudor, sem medo e ávidos de prazer
imediato. Todo aquele cenário me
parecia irreal, falso e de certa forma assustador. Não tinha ainda chegado a uma conclusão convincente sobre as
razões que levam a este tipo de alienação.
Não sabia se o mesmo se passava em sítios normais ou se era apenas fruto
da tensão que se vivia no Irão.
Tentaria descobrir.
II.
As manhãs são para mim
cada vez mais estranhas e dolorosas.
Gradualmente, aumenta a percepção de que dormir não passa de uma grande
perda de tempo, como se as horas de sono me roubassem parte da vida. Por outro lado, não posso abdicar do
descanso obrigatório. No fundo, um
grande dilema que tento enfrentar com grande normalidade. Há que "tourear" uma manhã de cada
vez, sem pensar muito nisso: “Carpe Diem”. De resto, o ritual repete-se
diariamente. Acordar meio mal disposto
em transe absoluto, meter-me debaixo do duche esperando o milagre e tomar o
pequeno almoço junto à piscina e irritar-me com a forma como o pobre do Aram
corta o pão e o queijo. Depois ir
trabalhar sem grande vontade de dizer bom dia a ninguém e muito menos a Amir
Ali, parte integrante de uma família inteira que conseguiu mover as suas
influências para se infiltrar na Embaixada.
De longe, o Amir Ali é a figura mais emblemática, a montra do resto da
família. Quase em idade de reforma,
Amir leva-me ao rubro da exaustão da minha paciência. Arrasta-se pelo edifício e corre a dar-me chá logo que chego com
um vício desestabilizador. Entra na
sala sem perguntar, dirigindo-se furiosamente à minha secretária, torcendo os
lábios e rangendo os maxilares como quem está a fazer um grande esforço, e
começa a olhar para a minha secretária na esperança de encontrar o lugar
perfeito para fazer uma aterragem de emergência com a sua chávena de chá. Como nunca encontra o sítio ideal, com a mão
que tem livre, prepara-se para afastar a papelada. Agora já me defendo heroicamente e no momento do anúncio da
descida, e antes que ele abra caminho para a aterragem, precipito-me sobre a
chávena e retiro-a imediatamente para que ele não tenha tempo de fazer o que
quer. Digo-lhe obrigado para ele me
desamparar a loja, para eu poder continuar a fazer as minhas coisas sem me
irritar. A história continua assim o
dia inteiro, porque bebo mais de 7 chás por dia e já se tornou um hábito ou um
vício, no fundo mais um dos muitos que tenho vindo a coleccionar. Em Nova Iorque, por exemplo, era o café e o donuts de canela, monstruoso, que eu
comprava num quiosque gerido por um paquistanês eficientíssimo que já fazia
parte do meu quotidiano. Um dia faltou
o homem. Desespero. Procurei furiosamente por substituição
nas redondezas da missão, sem
sucesso. Que ira terrível... fiquei mal
disposto o dia inteiro, tão mimado que estava.
- É o senhor Ramiar ao telefone!
Ainda não eram nove
horas e já Ramiar me estava a telefonar.
Estaria certamente desesperado e começava a telefonar-me frequentemente,
porque não tinha revelado o seu segredo a mais ninguém, para me contar a
evolução dos seus sentimentos. Já tinha
tido sina idêntica anteriormente e tornava-me profissional dos conselhos
amorosos, e para mim estava cada vez pior.
Ironia. Eu que não conto nada a
ninguém, porque admito a minha incapacidade de falar sobre mim a partir de um
certo nível de transcendência e aqui estou a absorver os níveis profundos da
transcendência de Ramiar. Respirei
fundo e atendi. Tinha de ultrapassar aquela
tendência egoísta de pensar que só os meus problemas assumem importância.
- Bom
dia Ramiar... então já descobriste tudo? - riu-se sem vontade e contestou a
minha ironia.
- Lá
estás tu... queria saber se não queres cá vir a casa almoçar. Pormeto que não te prendo a tarde inteira.
- Olha
para te despachar porque tenho de ir a correr para o trabalho, digo-te que
sim. Quando acabar, depois das quatro,
vou a tua casa, mas não precisas de te preocupar com o almoço que eu
antes
de ir como qualquer coisa.
Não,
nada disso. O Hassan prepara tudo e não
dá trabalho nenhum. Ele tem de preparar o meu almoço, por isso é só acrescentar
para dois. A sério! Não precisas de
fazer cerimónia.
- Está
bem. Se é assim, então até logo e
obrigado.
- Não podia ter dito que não depois de tanta
insistência, mas sabia que as coisas não iriam ser tão simples quanto Ramiar
garantia.
Cheguei
a casa de Ramiar ainda não eram quatro e meia. Já tarde para um almoço
iraniano, mas eu só saía da Embaixada às quatro. Como desconfiava, a azáfama naquela casa era inacreditável. Arrependi-me imediatamente de ter aceite o
convite porque sempre me senti extremamente incomodado com este tipo de
situações. Mas como nunca aprendi a
dizer que não, tinha de, com frequência enfrentar este tipo de situações. Da cozinha chegava um cheiro intenso a
açafrão, como é típico. Preparavam
infinitos pratos tradicionais - Fessen Jun, zeresh pollo, kubideh - e, como sou
estrangeiro, não queriam, de forma alguma, deixar a confecção nas mãos de
Hassan. Por isso, a mãe de Ramiar não
apareceu antes do almoço. Queria ser
ela a tratar da comida, não fosse o Hassan fazer algum disparate. Foi sempre nestas ocasiões que o orgulho iraniano se evidenciou. O orgulho pela cultura, pelo passado de uma
civilização absolutamente fascinante.
Sempre dei razão aos iranianos.
Têm razão para isso e eu rendi-me desde o início a este facto.
Estivemos
pelo menos uma hora a conversar antes do almoço. O pai de Ramiar tinha feito parte da estrutura militar do Xá e a
mãe era uma das melhores amigas da Farah Diba.
Foram obrigados a fugir depois da revolução sob risco de serem assassinados
e deixaram Ramiar com o avós maternos, que mesmo assim eram quem menos ligação
tinha com o antigo regime. Voltaram há
dois anos, depois de 20 anos do exílio e depois de pagaram pesadas multas. Perderam todas as casas e bens que possuíam,
nacionalizados pela Fundação Boniad, e nunca mais recuperaram nada apesar da
batalha judicial que iniciaram. Sabem
que é uma batalha perdida. Ainda hoje a
Boniad persegue as famílias mais poderosas do tempo do Xá, tentando expropriar
o que resta. O pai de Ramiar, assim
como toda a família, é um personagem absolutamente fascinante. Para a ocasião, decidiu exibir uma das suas
gravatas de outros tempos. Hoje não
pode sair à rua com ela, porque a gravata continua a constituir um símbolo do “imperialismo” e só, nos círculos
ocidentalizados, em ocasiões privadas alguns se atrevem a reviver os velhos
tempos. Falava francês e inglês de forma exemplar e contava-me as história do
seu tempo, com nostalgia.
- Estou
muito contente por Ramiar ser seu amigo.
Ele nunca saiu daqui e por isso é importante ter amigos que lhe abram os
horizontes. Sempre me arrependi de o
não ter levado. Mas na altura andavam a
ameaçar e a perseguir famílias, mesmo no estrangeiro e eu nunca quis
arriscar. Talvez tenha feito um grande
erro. Mas agora não há nada a fazer.
- Em
Portugal tivemos também alguns exemplos de famílias separadas depois da
revolução em 1974... mas creio que aqui a situação foi bastante diferente
- Muito
diferente! Vocês tiveram uma revolução
pacífica. Nós, definitivamente não tivemos.
A sede de absoluta vingança e o fundamentalismo religioso destruíram
este país... não ficou quase nada!! Até
Persepolis, que é para nós a alma da civilização Persa, quiseram destruir. Logo depois da revolução houve um Mullah que
queria demolir tudo o que restava...
Foi um milagre não o ter feito.
Queriam apagar tudo o que tivesse conotações com o passado... não só com
o regime do Xá, mas tudo...
- Mas
hoje reparo que mesmo nos círculos religiosos existe agora um grande respeito do
ponto de vista civilizacional...
- Sim,
e isso é muito recente. De facto, tem
razão. Há uma tentativa de
compatibilizar a grandiosa cultura e civilização persa com a República
Islâmica, o que para mim é impossível.
Mas é certo que acabaram-se as tentativas radicais de ignorar o
passado. E por isso é possível hoje
assistirmos a algumas manifestações culturais que, sendo teoricamente
incompatíveis com o Islão, são permitidas.
Teatro por exemplo. O próprio
poeta Hafez. O facto é que os mullahs
não são ignorantes e sabem que se impedissem os iranianos de manter o contacto
com a sua história, as suas raízes, as consequências seriam terríveis.
- Sim,
os mullahs não são parvos...
- Nada
mesmo. Aliás são os piores crentes do
Islão. Como sabe podem casar-se e ter
mais de uma mulher. Mesmo assim,
cometem os piores adultérios. Depois
são os primeiros a beber álcool desmedidamente, a fumar ópio e a extorquir
dinheiro do povo...
- É um
vício dos círculos do poder absoluto ou autoritário. - Nesta altura tive vontade de perguntar como
é que as coisas se passavam no tempo do Xá.
Tinha de ser subtil. - Em muitos casos parece-me uma espécie de
vingança contra o período anterior à revolução.
-
Falam-se de muitos exageros... é verdade que naquela altura as coisas também
não eram muito transparentes. Mas pelo
menos não havia pobreza.
É
sempre o argumento dos fieis do Xá.
Admitem os abusos cometidos mas alegam que a situação económica era
próspera e saudável.
Nesta
altura a mãe de Ramiar entrou na sala, elegante, com um fato Channel, e uma
figura impecável.
- Peço
desculpa. Mas como não sabíamos a que
horas vinha demorou mais tempo porque a comida iraniana se não for feita na
altura não graça nenhuma.
-
Muitas desculpas, mas eu não queria de forma nenhuma incomodar e tinha dito ao
Ramiar que comia qualquer coisa antes de vir.
Para vos dizer a verdade sinto-me envergonhado e triste por ter dado
tanto trabalho.
- Nem
pensar. O prazer é todo nosso e ficaríamos ofendidos se não tivesse aceite o
nosso convite.
- Muito
obrigado e fico muito lisonjeado pelo convite, pela amabilidade e pela vossa
hospitalidade.
- O
prazer é todo nosso.
A mesa estava preparada de forma magnífica.
Apesar da decoração não ser do meu gosto, porque os iranianos são fascinados
pelo kitsh, pelos dourados, reconheço que a mesa estava deslumbrante. Durante quase duas horas comemos os vários
gourmets e os anfitriões insistiam sempre para eu provar mais alguma coisa,
mesmo que não aguentasse mais. Falámos
de tudo. Eu falei apaixonadamente de
Portugal, convidando a família toda para me visitar em Lisboa, depois acaba por
vir toda a gente e acabo a apitar de stress e sobrecarga, e os pais de Ramiar
falaram-me dos velhos tempos com saudosismo e nostalgia. Todos estes momentos constituíam para mim momentos únicos e comoventes. Já não estava arrependido por ter aceite o
convite e tinha naquela tarde aprendido bastante sobre a forma como os
iranianos da classe desta família pensam e sentem. O mundo iraniano era muito mais do que isto, mas pouco a pouco
descobria as várias formas de pensar das várias classes. Ia descobrindo, assim, as peças do complexo
puzzle do Irão dos nossos dias.
Tinha
comido enormidades e eram quase sete horas.
De repente um sono atroz invade a minha lucidez. Ramiar levanta-se e interrompe a conversa.
- Vamos
lá acima. Quero mostrar-te uma coisa.
- Só se
rebolar, Ramiar. Estava tudo tão bom
que acabei por exagerar... pena não haver um elevador.
- A
família riu-se com o meu farsi limitado.
Gostam sempre quando um estrangeiro faz um esforço para falar a sua
língua.
-
Elevador não temos... mas olha que na outra casa tínhamos dois... um do jardim
e outro para o quartos.
-
Bom... acho que não preciso fazer uma viagem ao passado para me deslocar ao teu
primeiro andar... Vamos lá então. Se me
derem licença?
-
Concerteza.
- Muito
obrigado. Nunca tive uma refeição tão
magnífica no Irão. Agradeço-vos do
fundo do coração.
Durante
largos minutos trocámos elogios, piropos e agradecimentos. Os iranianos são, sem dúvida os campeões da
cerimónia, e comigo, o ritual prolonga-se.
Arrastei-me
até ao quarto das confidências, onde Ramiar me tinha revelado o seu jardim
secreto, o mundo que se abria através do seu computador. Já tinha tudo preparado com pilhas de papel
amontoadas em cima da cama.
- O que
é isto Ramiar?
- Vais
entrar num género de área privada e proibida, absolutamente intima, e peço que
não te rias com as cartas.
- Nem
sequer penses uma coisa dessas. Respeito muito aquilo que sentes assim como
espero que os outros respeitam aquilo que eu sinto. Mas não me mostres se achas que não deves. Eu não te pedi nada e
percebo perfeitamente que queiras ter o teu próprio mundo salvaguardado. Para
além do mais não preciso que me proves nada, nem a sinceridade da tal
Ebru. As tuas palavras são suficientes,
aquilo que me transmitiste é suficiente para eu perceber o quanto isto é
importante para ti e basta. Até se ela
estivesse a mentir o importante és tu.
- Não,
quero mostrar-te. Preciso de mostrar a
alguém e tu tens sido meu amigo. Confio
plenamente em ti. Aqui estão as cartas
daquela primeira série das mentiras, foi a partir daqui.
Ramiar
deu-me para a mão três ou quatro exemplares de emails enviados pela Ebru, que
primeiro se denominava “lover4you”...
Que nome para uma primeira abordagem.
Eu teria pensado em alguma coisa mais romântica, como “sonhador” ou
“trovador”... Comecei a ler.
“ Foste o único a quem respondi. As tuas palavras doces e sinceras
conquistaram-me de imediato. Tenho medo
do que estou a fazer mas se não arriscar nunca vou saber o final da
história. Queria pedir-te a tua
fotografia... sem isso dificilmente poderemos confiar um no outro. Quero pensar em ti com a tua imagem, quero
escrever-te contigo presente. Responde
depressa. Sobre mim...? tenho 27 anos, já fui modelo e sou a
Madalena. Quando me enviares a tua
fotografia mando-te a minha.”
As
primeiras cartas eram assim.
Pareciam-me vazias, fúteis e sem qualquer significado. Não percebia como é que o Ramiar se tinha
apaixonado assim... por nada, por palavras que não queriam dizer nada. Não teci qualquer comentário.
- Então
e como é que acabaram as mentiras?
- Eu
queria mandar a fotografia e não podia manter a minha idade fictícia de 30 anos.
Tive de arriscar tudo e dizer-lhe a verdade. A partir da terceira carta comecei a preparar a Ebru para a
verdade, apesar de ter receio que ela nunca mais me respondesse. Ela respondeu-me que também me queria dizer
toda a verdade. Então no dia seguinte
mandei a fotografia, com toda a verdade, sobre mim, sobre o que gosto e quem
verdadeiramente sou. Pensei que não
tinha nada a perder e o pior que poderia acontecer era não obter resposta. Nesse dia,
desliguei o computador e jurei que nunca, nunca mais diria
mentiras. Arrependi-me tanto.
- Então
mas já estavas tão ligado a partir da terceira carta...
- Não
te vou enganar... desde a primeira vez que senti uma ligação inacreditável e se
ela não respondesse iria ter o mesmo desgosto que se acontecesse agora. Não me peças explicações porque não as
tenho.
- Também
nas as quero... Tanta coisa nesta vida que não tem explicação que ás vezes nem
vale a pena aprofundarmos as razões das
coisas. Então e depois respondeu-te!
- Sim,
claro! Aqui está. Lê.
Esta
carta começava a ser mais longa que as anteriores.
“Não te envergonhes com a mentira senão
teremos os dois de morrer de vergonha.
A mentira é uma defesa. E eu
também me defendi. Não sabia quem tu
eras, o que pretendias e não podia assim abrir-te os braços, oferecer-te parte
de mim... tu percebes-me... tornaste-te muito especial para mim e não te quero
perder. Sou Ebru, tenho 24 anos. Esquece a Madalena, esquece os 29 anos...
aquela já não existe! Adorei a tua
fotografia. Penso às vezes tanto em ti
que gasto a memória e tenho de olhar outra vez para ela.”
Ramiar
tinha bom ar, era engraçado e não tinha a aparência que se imagina que um iraniano tem. Pela branca, cabelos fortes pretos e olhos amendoados. Ebru
demonstrava que tinha gostado e que não queria perder o contacto. Por isso, de facto, parecia estar a dizer a
verdade. Contou que vivia em Istambul,
sozinha, e que frequentava a Universidade.
Arquitectura. Os pais estavam na Grécia.
- Estás
a ver? Assim começou tudo. Fomo-nos
revelando e cada vez mais descubro que temos tudo em comum, que gostamos das
mesmas coisas, que sabemos as palavras que são importantes. Comunicamo-nos quase diariamente... sim...
às vezes mais do que uma vez por dia. A
primeira coisa que faço é ver a caixa do correio. É para mim o oxigénio diário e não faço outra coisa senão pensar
nela. Adormeço, acordo, vivo a
pensar... Suspiro o dia inteiro, sinto
uma sensação estranha sempre que olho para a sua fotografia, uma felicidade
quase plena. Os dias correm de forma
diferente, nada me incomoda e tudo começa a fazer sentido. Como se estivesse constantemente a voar, se
me compreendes...
É claro
que compreendia! Eu estive a minha vida
inteira a voar assim como Ramiar descrevia, absorvido por pequenas grandes
paixões. A sinceridade e a simplicidade
do tamanho dos sentimentos de Ramiar faziam-me lembrar as minhas divagações
juvenis... ou para ser mais preciso ainda três meses atrás tinha sentido a
mesma coisa... uma sensação de voo, de
leveza extraordinária. O pior é que
nunca nada deu em nada e sempre caí em queda livre.
Por tudo
isto começava a solidarizar-me com a história de Ramiar e agora era eu quem
pedia os pormenores.
- Então
e achas que o facto de se escreverem todos os dias faz com que estejam
apaixonados?
- Nem
sequer precisávamos de nos escrevermos todos os dias para te assegurar que
sim. O sentimento não se nutre por
cartas apenas. Há qualquer coisa que
descobrimos que não precisa sequer de mais palavras. Depois, aquilo que escrevemos é fruto de uma necessidade absoluta
de nos acompanharmos mesmo à distância.
-E não
serás só tu?
-Nem
penses nisso. É mútuo... Não faria
sentido se não fosse reciproque.
Entrega-me
entretanto três folhas que absorvi em cinco minutos.
“ Hoje não dormi. Pouco importa. Se não
estou contigo dormir de nada serve e só acordada posso pensar em ti. Sem ti as coisas são-me indiferentes. Até
dormir. Não quero mais nada para ser
feliz. Parece mágico. Acordada, olhei as estrelas e pensei que
podias estar a olhar para as mesmas.
Procurei os teus olhos e encontrei-te... É assim que imagino os nossos encontros: debaixo das
estrelas. É sexta-feira e não me
apetece fazer nada. Queria ir jantar
contigo... à beira mar, com as velas a testemunharem a nossa paixão. Assim, sem precisarmos de falar um para o
outro, devorando as nossas paixões com os olhos e agarrando as nossas
mãos. Porque é que estamos mais longe
que a nossa vontade? Que as nossas forças? Porque é que tivemos de nos conhecer
assim? porquê?”
Corei!
A carta era longa e terminava assim.
Uma carta cheia de paixão...
Confesso que nutri um sentimento de inveja por todas aquelas palavras
que não eram para mim. Pensei que seria
extremamente fácil cair assim numa paixão como aquela só com palavras...sem
mais nada. Mais uma história platónica,
que desta vez não se passava comigo. Feliz
ou infelizmente.
- Ramiar! São dez e meia
e tenho de me ir embora... e com isto tudo mais um dia mergulhado na tua
história!!! Só te posso dizer para
teres cuidado e principalmente calma.
Não queiras ir longe demais que depois mais difícil é de recuar e mais
sofres se não passar de uma fantasia.
- Não te preocupes. Não creio que esteja a entrar numa coisa
perigosa. Estou muito mais seguro do
que se a tivesse aqui ao pé de mim.
Eu próprio estava a dar
conselhos a Ramiar que não acreditava.
Sabia perfeitamente que, se fosse comigo, estaria mais sufocado e
angustiado e já teria comprado o bilhete para Istambul só para a ver. Se fosse comigo... Força Ramiar... força.
Tudo isto pensei baixinho. Não
queria encorajar Ramiar para uma coisa que depois desse mau resultado e o
fizesse sofrer. Sentir-me-ia cúmplice e
não queria esse peso.
Saí de casa a sonhar...
queria também eu apaixonar-me! sentia tanta falta daquele sentimento
único. A paixão, sofrer de amores, o
coração em carne viva...