As palavras que escrevo são
exclusivamente para mim, porque vivo de memórias e tudo o que direi será
certamente muito pouco para quem quer que seja... apesar de querer, evidentemente, que todos as leiam. É mais uma contradição... já o tinha dito aliás.
Habituem-se comigo que eu nunca digo verdades eternas e gosto pouco de não me
experimentar constantemente.
Pedro Cabral Adão
Introdução
Estou
decidido. No próximo Domingo lá
estarei, entregue a mais um eventual fado, à espera que se encontrem as duas
almas que o destino se tem recusado a apresentar. Vou preparado para o que tiver de acontecer e mesmo para a
habitual desilusão do vazio que, afinal, me tem habituado com a sua incessante
companhia.”
De facto era assim que queria
começar. Tinha imaginado, desta forma,
o início daquelas que poderiam ser “algumas memórias que me apetece
escrever”. Podia ser outra coisa
qualquer e até a simulação de uma história fictícia, mas eram as minhas
memórias, algumas que eu estava a começar a rabiscar.
Esta foi, aliás, a tarefa mais
difícil: o início. Primeiro tentei a
fórmula mais explosiva. Aquela que correspondia ao meu estado de espírito, à
convulsão e inquietude. Diria mesmo
ansiedade. Mas depois de algumas horas passadas e com os meus mais primitivos
instintos controlados, a reflexão levou-me a repensar a primeira
abordagem. Não podia começar desta
forma tão humilhante, tão pouco dignificante e de rendição absoluta. Era preciso um início mais ambíguo e
generalista. A escolha recaía agora para qualquer coisa como:
“Estou
indeciso. No próximo Domingo não sei se
lá vou estar. Receio entregar-me aos
desígnios do destino que teima em não cruzar as duas almas gémeas. Talvez nem
sequer esteja preparado para o que possa, eventualmente, acontecer e tenho
dúvidas sobre as minhas capacidades para enfrentar a habitual desilusão do
vazio, porque, apesar de tudo, creio não estar habituado a conviver com a sua
incessante companhia.”
Assim parecia-me melhor. Continuava "fuleiro" e patético
mas bastante melhor. Esta era uma maneira dúbia de enganar a minha vontade cega
de fazer aquilo que me apetecia. Dava,
no fundo, liberdade de acção para tomar uma atitude democrática no Domingo
seguinte - exactamente uma semana depois do que tinha acontecido. Correspondia,
além do mais, a uma certa metamorfose a que eu tinha sido submetido nos últimos
dias - que eram feitas bem as contas
dois - relativamente aos meus complexos sentimentos. Mas eu estava longe de chegar a uma conclusão convincente, que me
conquistasse. O processo não tinha estagnado e mais tarde - coisa de hora e
meia - cheguei à conclusão sobre a fórmula com que eu queria realmente começar
estas minhas memórias:
“Estou
decidido. No próximo Domingo,
definitivamente, não vou lá estar. Não
admito entregar-me aos desígnios do destino que se tem negado, de forma
ostensiva e provocatória, a apresentar-me a minha alma gémea. Não estou sequer
preparado para o que vai acontecer, que é nada. Tudo porque jamais suportarei a corrosiva e incómoda desilusão do
vazio. Ponto final.”
Iria começar assim e acabou-se. Tinha de mostrar que era forte, decidido e
pouco vulnerável. Tudo mentira. Estão a
ver como se vão desenvolver estas memórias.
O melhor é não lerem mais, não vão apanhar algum desgosto.
“Estou
decidido. No próximo Domingo,
definitivamente, não vou lá estar. Não
admito entregar-me aos desígnios do destino que se tem negado, de forma
ostensiva e provocatória, a apresentar-me a minha alma gémea. Não estou sequer
preparado para o que vai acontecer, que é nada. Tudo porque jamais suportarei a corrosiva e incómoda desilusão do
vazio. Ponto final.”
Mais uma vez, as coisas tinham de
acontecer assim. Quanto menos se espera
alguma coisa acontece, mesmo que pouco mais que nada. É o contrário da procura contínua. Por muito que se procure o resultado é muito mais que nada. A sensação, aliás, sabia a um “déjà vu”
repetitivo, mesmo que na altura eu não o quisesse admitir, mergulhado na
embriaguez do momento. Aquele
sentimento, da alma que arde num género “banana passi”, tinha regressado.
Não posso explicar com rigor e em
palavras esse sentimento relâmpago, fulminante e irracional. Assemelha-se a um “clique” que faz
despoletar um processo de transformação interior turbulento a que eu assisto
impotente. Um fenómenbo perante o queal
se perde-se a razão, o bom senso e até aquele amor próprio que todas gostam de
manter intocável. A partir desse momento nada mais existe, nada em redor se reveste de impostância e tudo é
subjectivo. Eu, pessoalmente fico derrotado. Para além de adormecer e acordar com a
fixação sempre presente, a vaguear no pensamento, há uma adrenalina que
fisicamente se instala indiciando fragilidade e submissão perante todo este
fenómeno. Nada se passa sem ser
aquilo... o fim do suplício? Só
quando a chama se apaga ou acalma.
É doloroso enquanto dura e termina
definitivamente e repentinamente quando, com o mesmo “clique”, desaparece. Já não preciso dizer que o clique aparece
quando bem lhe apetece, de uma forma incomodamente frequente.
E ali estava eu em mais um ataque da
minha enfermidade crónica. Nada mais
existia naquela carruagem a não ser os dois olhares que se cruzavam
constantemente e pediam socorro, numa tentativa de encontrar mediação que
levasse a um acordo final, à primeira troca de palavras, ao sorriso que poderia
significar o alcance de tréguas depois de uma guerra interior, dos disparos
visuais, de sinais de desespero mental face à impotência da aproximação.
No final de uma viagem ao Porto, aliás
a primeira, fui mais uma vez traído pela incontornável sedução dos olhares
envergonhados, pela espécie de dança de sedução, interrompida apenas pelo
cogitar a que o cansaço obrigava no inter-regional que tantas memórias trouxe
das viagens de interrail feitas há uma década.
Estava calmo, descansado e concentrado
no meu exercício quotidiano de sobrevivência.
Não ansiava de forma directa aquele
sobressalto. Esquecia-me poder
vir a sentir aquele corrupio frenético interior. Era mais uma afinal - pensei - e concerteza não seria a
última. Chega a fazer parte do meu
oxigénio.
Vou-me assim alienando com as memórias
do passado longínquo. Ele que alimente
o presente que o “agora” tratará de entreter o futuro. Um género de atrasado no tempo. Sou assim, sem mais.
I. Interregional
Porto-Lisboa
·
Para onde é que vais??
perguntava o catraio, com o atrevimento irreprimível dos 4 anos, à desconhecida
que estava sentada em frente.
·
Vou para Lisboa.
·
Então e não me perguntas para
onde é que eu vou? - insistia com ar provocador...
·
Então diz lá para onde é que
vais?- dizia a passageira para despachar o assunto.
·
Ó mãe! Achas que diga à senhora
para onde é que eu vou??
·
Ó filho não sejas chato. Não vês que a menina quer dormir!!!
·
Deixe estar.
·
Então pronto, se queres saber
vou para Santarém. Vou fugir da velha
ordinária!
·
Então e quem é essa velha
ordinária?
·
Ó filho, tu também.... Sabe, é uma vizinha idosa que nós temos e
que não nos dá descanso. Ele ouviu esta
e agora não diz outra coisa. Que cansativo.
·
O que é que estás a beber? Insistia
o miúdo, farto da viagem.
·
Sumo de laranja! - sussurrou
farta da conversa.
·
Pensava que era vinho!
·
Vinho?
·
Sim, que eu também bebo vinho
ou o que é que pensas?
·
Ó filho lá estás tu a dizer
grandes disparates. Então diz lá à
senhora, tu bebes vinho?
·
Então não bebo?
·
Estás aqui estás a levar um
tabefe! Então a mãe e o pai alguma vez
te deram vinho????? - é evidente que a temerosa mãe não esperou demasiado para
cumprir o prometido. Um minuto depois, sem esperar que o miúdo reflectisse
sobre a recente ameaça, estava concretizada a promessa: um tabefe ruidoso que deixara as suas marcas
nas faces do pequeno. Percorrido o
berreiro entre lágrimas lá veio a correcção do que fora dito:
·
“Prontos”, está bem. É a velha é que bebe!!!!
A conversa continuava assim, com o
miúdo incontrolável, a mãe envergonhada e a passageira da frente a tentar
adormecer sem que o tivesse conseguido até ali. Foi , aliás, este diálogo que me forçou a olhar naquela direcção. Assisti impávido à troca de palavras,
perguntando-me quem seria a tal velha
ordinária e se o miúdo realmente bebia vinho.
Tudo isto tinha passado despercebido
se, a certa altura, não tivesse cruzado olhares com a passageira que ia
respondendo ao miúdo. Mudei
imediatamente de direcção não fosse a rapariga pensar que era um género de
alcoviteiro empenhado em ouvir a conversa dos outros.
De repente comecei a sentir-me
irrequieto, incontrolável, sem qualquer espécie de poder sobre os meus
pensamentos. Percebi que não conseguia
desviar as minhas atenções mas outro cenário daquela carruagem. Por muitas
voltas que desse, o meu olhar repousava sempre no mesmo sítio, nos mesmos olhos
azuis. Aquela figura atraía-me, não
sabia porquê. Afinal era uma rapariga
simples. Pela pronuncia seria do norte e não sendo bonita tinha uns misteriosos
olhos azuis.
Não dei importância ao assunto e
continuei a minha viagem.
Aquele comboio que me trazia de
regresso a Lisboa, fazia-me de repente recordar as minhas primeiras férias de
Inter-Rail. O barulho, o ambiente, as
paisagens transportavam-me a outros tempos.
Isso agradava-me. Assemelhava-se
ao desfolhar de um álbum, mas com outros requintes, que só a memória concede.
Aproveitei assim aquelas memórias para
passar o tempo que iria durar aquele interregional.
II -
Interrail
As minhas viagens de Inter-Rail foram
sempre marcadas pela sofreguidão do conhecimento e, por isso, pautaram-se pela
ganância de saltar de cidade em cidade, sempre com a sensação de que o mundo
estaria a acontecer noutro sítio que não aquele e era absolutamente urgente a
partida num comboio qualquer. Era
preciso procurar, procurar o que quer que fosse, onde quer que fosse e a que
preço fosse. Como se o mundo pudesse
acabar de um momento para o outro e fosse preciso devorar o mapa daquela forma
exaustiva e intensiva. É evidente que o
preço acabava sempre por ser alto e como não tínhamos dinheiro, normalmente,
quem pagava era o descanso, que rapidamente era substituído pelo cansaço, fruto
de noites mal dormidas em comboios anárquicos, de organização expontânea,
aproximando-se à fórmula aterrorizadora da “carruagem sem classes”. Por isso tenho a sensação de conhecer a
Europa de lés a lés e paralelamente a sensação contraditória de não conhecer
absolutamente nada.
A minha
primeira viagem, nestas aventuras Europa fora, foi com o Miguel, que era a
melhor companhia para uma viagem deste tipo, que se adivinhava cansativa e
grande parte dedicada ao comboio e à falta de descanso. Bem disposto, despreocupado e com um nhumor
inesgotável, tinha os ingredientes necessários para ser o companheiro ideal de
viagem. Tínhamos combinado fazê-lo
enquanto estávamos cada um no seu ano AFS, Noruega e Suécia respectivamente, e
acabámos por concretizá-lo em Julho de 1989, um ano depois do nosso regresso. A Europa vivia então momentos de grandes
mudanças político-sociais, transformações únicas, com a cortina de ferro em
decadência e eu, ainda longe do meu futuro académico, viajava na ignorância
simples de quem viajava apenas pelas gentes, pela cultura, sem mais. Com o desejo, quase único de romper as
nossas fronteiras, a nossa própria cortina de ferro.
O pretexto
da viagem era a minha participação numa conferência de juventude, da
Intercultura a realizar na Hungria, no início de Julho. O Miguel viajaria então até Barcelona,
enquanto eu cumpria o meu compromisso,
e combinámos encontrarmo-nos em Belgrado, num dia qualquer marcado com
antecedência e com uma hora indicativa. Assim foi.
III -
Primeiras paragens
Era preciso fazer a mala, comprar uma
mochila de andar às costas, arranjar os vistos... enfim... tudo aquilo que é
preciso preparar para uma grande aventura.
É a fase que, de facto, mais me excita: os preparativos. Toda a
adrenalina acumulada pela expectativa no faz andar meio baralhados e
entusiasmados. Parece que podemos
escolher o que queremos levar, até os sentimentos, partindo apenas com as
coisas boas na bagagem, deixando para trás problemas e preocupações.
A primeira aventura foi iniciada sem
ninguém conhecido. No entanto sabia
que outra portuguesa - a Rosalina - participaria no mesmo seminário e
combinámos partir juntos de Lisboa. A
Rosalina não era, definitivamente, o género de pessoa com quem partilhasse
infinitas afinidades e, afinal, também não tinha de ser: era introvertida,
calma e muito consciente das tarefas que a vida lhe teria incumbido. Eu, pelo contrário, estava na minha fase
inconsciente, selvagem e irreverente, em que curiosamente parece que continuo. Tinha, havia pouco tempo, voltado de um ano
de intercâmbio na Noruega, onde frequentei o último ano do liceu, e estava por
isso ainda confuso sobre aquilo que queria da vida. Apesar deste antagonismo, eu e Rosalina chegámos a uma plataforma
de entendimento. Antes de Budapeste,
visitaríamos Amsterdão e Viena de Áustria.
Aproveitaríamos assim ao máximo o percurso obrigatório que nos levaria
ao nosso destino.
A Rosalina, no fim de contas, mostrou
guardar dentro de si facetas escondidas e mesmo tão diferentes acabámos por nos
entender na perfeição.
É assim que eu gosto: que as pessoas
me surpreendam. Quanto vezes não
pensamos que estamos a falar a mesma língua, e de repente sai-nos o tiro pela
colatra? Pois aqui foi o contrário e
soube-me muito bem.
Em Amsterdão lembrei-me que vivia um
AFS´er. Um dos quase 70, de todo o
mundo que estiveram ao mesmo tempo na Noruega. Quando parti, o grupo de 70 era
quase uma família. Todos nos
entendíamos porque vivíamos a mesma experiência e apesar de não nos conhecermos
bem existiam laços que nos permitiam uma intimidade reconfortante.
Tinha vontade e curiosidade de
reencontrar alguém daquela altura e aproveitei a passagem por Amsterdão.
O encontro acabou por ser pouco
emotivo. É certo que não éramos os
melhores dos amigos, e só tínhamos de facto em comum a coincidência de termos
estado na Noruega, pouco mais. Mas naquela altura havia um sentimento que nos
fazia estar muito perto, uma cumplicidade circunstancial que tinha
desaparecido.
Tinha aprendido a lição. Os momentos não se repetem, e a maior parte das
vezes aquilo que sentimos pertence exclusivamente, caso raras excepções, a
circunstâncias específicas e não vale a pena forçar “replays”. Há que suportar a efemeridade dolorosa das
coisas porque só assim conseguimos continuar em frente.
Partilhámos os momentos necessários à troca de cumprimentos de cortesia
e cada um seguiu o seu caminho. Ponto
final e estava o assunto resolvido.
A visita relâmpago à capital holandesa
facultou-me as primeiras impressões de uma cidade “simpática”, capital também
das excêntridades, do haxixe e do sexo.
É claro que mesmo em pouco tempo seguimos o roteiro de qualquer turista
relâmpago que pretende devorar cada minuto da sua estadia. As marcas do império comercial da Flandres,
o mercado das flores, os canais e essencialmente... a rua das montras. Aí, na minha “inocência” dos tardios 19
anos, fui sendo visualmente assediado pelas asiáticas das montras da dita rua
que procuravam rechear o mealheiro.
Montras decoradas com veludos quentes e cores arrebatadoras, ora de cortinas
rendadas fechadas, significando um género de “volte mais tarde, de momento
estou ocupada”, ora mostrando os dotes de cada uma, exibindo lingerie, que hoje
podemos ver exposta em qualquer loja de trezentos, e prometendo com os olhos
uma noite inesquecível... para o bem e para o mal, conforme a consciência de
cada um. Fiquei, como é evidente, de
boca aberta.
Quanto à minha companheira de início
de viagem, não me lembro. Fixei-me
demasiado nas minhas próprias sensações e olhei pouco para a companhia. Decerto ficou chocada e deve ter insistido
para abandonar-mos o local repleto de turistas que ali passavam como quem
visita o Louvre ou a Torre de Pizza.
No fundo, Amsterdão não faz mais do
que apostar na transparência de tudo o que se faz em todo o lado. Haxixe sexo e perversidades exibidos em
montras... como quem despe tabus e os faz deambular publicamente nas ruas de um
sítio qualquer. Da venda de carne
humana, às montras de chicotes e “underwear” de cabedal com orifícios suspeitos
e aos “shoping centers” de drogas leves, tudo é permitido. Parti com a sensação
de fascínio e terror pela brandura e leviandade, ou às vezes simples
naturalidade, com que se pode encarar e lidar com determinados fenómenos
inevitáveis da sociedade de final de século XX. Com a perplexidade que Amsterdão me tinha provocado partimos para
Viena. Foi nesta viagem Amsterdão-Viena que percebi o que iria ser a minha
viagem de Inter-Rail assim como todas as viagens deste género que efectuei
posteriormente.
O comboio era nocturno - para começar
a poupança das dormidas - e por isso especial.
Os compartimentos iam-se enchendo de jovens e atrelados, de todas as
nacionalidades, e com 1000 destinos.
Recordo-me de um compartimento, cheio de gente e de mochilas carregadas
de expectativas, onde nos encaixámos.
Conversa puxa conversa.... e já ninguém conseguia um minuto de
silêncio. Não existiam pausas
constrangedoras. As conversas
arrastavam-se enganando as horas tardias e ludibriando os quilómetros, que sem
aquele entusiasmo seriam certamente enlouquecedores. Uma noite mal dormida mas
com muita, muita diversão. As
gargalhadas e os disparates de quem não é de parte nenhuma e que fez daquele
compartimento, por algumas horas, um pequeno país de despreocupações. Ninguém se conhece por isso ninguém tem
caprichos. Todos trocam expectativas de
uma viagem que, para cada um, é de sonho e ninguém consegue dormir porque se
sabe que momentos assim não se repetem.
Coleccionam-se moradas, endereços, prometem-se visitas e de manhã, à
hora da despedida, chega a existir nostalgia e uma sensação de vazio. A relação que começara e se fortalecera
durante aquela noite, morria naquela manhã... foi sempre assim na grande
maioria de pequenos encontros, de pequenos “países” que se foram construindo e
destruindo simultaneamente. E foi
também assim aquela viagem. No fundo
era o amargo reconhecimento da tal efemeridade que já tinha falado.
De caras cansadas, mal lavadas, e a
expectativa de conhecer uma capital ou cidade nova, cedo esquecemos os poucos
minutos de sono que conseguíramos arrancar aos momentos de entusiasmo e rumámos
à descoberta da cidade das valsas, de Beethoven e um dos símbolos de um Império
outrora magnânimo- o Império austro-húngaro.
Tudo me pareceu grande,
monumental. Depois de uma noite de
pequenas coisas, de pequenas palavras e de muito pouca exigência, Viena parecia
demasiado grande, demasiado imponente e austera para que eu pudesse ficar
fascinado. Estava desiludido porque,
afinal, a capital austríaca não me transmitia coisa nenhuma, apesar de tanta
beleza, dos jardins do xadrez gigante, da arquitectura imperial ou da arrumação
criteriosa. Fiquei com a sensação que
os austríacos não gostam da simplicidade, são indiferentes às pequenas coisas
e, por isso, também indiferentes aos pormenores do sentimento. Mais irritado fiquei com a minha
incessante procura por uma “simples”
água sem gás, no meu alemão de bolso que me diverte. Água só com gás e mesmo assim escasseia. Mais um episódio que aumentava a minha
desconfiança .
Curiosamente, na imensidão da cidade,
encontrei casualmente uma estudante americana que tinha estudado em
Portugal. Este encontro nos jardins de
Mozart fizera-me perceber que tudo é afinal muito pequenino, apesar do grande
que possa parecer. Andamos todos afinal
a ver os mesmos sítios a procurar as mesmas coisas. Era o culminar de um dia em Viena, onde fiquei com a sensação da
eterna previsibilidade das coisas.
Talvez por isso aquele sítio tivesse ficado para sempre gravado na minha
memória com uma conotação desesperante, sem vontade de regressar um dia para
mergulhar a sério naquela mundo que não era o meu. Apesar de não parecer gosto
essencialmente das coisas simples, do romantismo dos momentos, nas das coisas,
da beleza lateral, não da imediata.
IV.
Simplicidade
Estava exactamente a pensar na
arrogância de Viena, da minha viagem de há uma década, quando acordei ainda o
comboio estava distante de Lisboa.
Olhei para o lado e reforcei a ideia de que é com a simplicidade que eu
consigo ser feliz. Lá estava o olhar cortante
que gradualmente se intensificava.
Naquele instante pensava que era assim que eu queria viver sempre, em
permanente desassossego, em constante ebulição e fascínio. Queria definitivamente que aquele momento se
eternizasse, durasse para sempre e me escravizasse em demência correspondida,
em insanidade controlada.
Rapidamente me apaixonei. Da forma como eu sempre me apaixono; por
intuição, por momentos. Com as
palpitações e os suspiros compulsórios que outra paixão qualquer provoca, vagabundeei
num aspiral de pensamentos e conspirações imaginadas. Uma espécie de Acordo de
Schengen passional, em que não há fronteiras ou burocracias a ultrapassar,
permitindo que o coração dispare numa viagem alucinante de duração indefinida.
Ali estava eu rendido e disposto a fazer tudo para conquistar o “amor da minha
vida”, ainda que instantâneo e certamente efémero, como todos os outros que
chegavam e partiam sem formalidades, e que eu já tinha, tantas vezes
experimentado. Tantas paixões fugidias que me corroeram os dias e me roubaram
as noites.
Mas não importavam as outras. Aquela era a última e a mais
importante de todas. Não me lembrava de
dores internas anteriores, do quão já tinha chorado, de como me tinha já castigado
por causa de situações iguais.
De armas apontadas, neste caso com os
olhos, lá estava eu à conquista da minha ilusão. Sempre com a convicção de não estar a olhar “comme il faut”, de
forma firme, convincente. Muitas vezes
tentei comunicar com os olhos, explicar o meu desespero... mas nada substitui as palavras.
Decerto fui mais descarado e evidente
que ela, que se escondia escancaradamente cada vez que tinha companhia à sua
frente, disfarçando e evitando o contacto visual directo. Quando o banco ficava vazio apressava-se a
recuperar tempo perdido e era eu que me encolhia tal era a insistência
visual. Não parava quieto. Procurava a posição que mais me exaltasse o
charme - como se nestas ocasiões alguém encontrasse charme - e beliscava as olheiras numa tentativa de
disfarçar o fim de semana que me tinha deixado exausto. Os olhos, sempre lá, pousados no infinito do
outro lado, dispostos a tudo, nus e inquisidores, adivinhavam vidas,
sentimentos.
De vez em quando adormecíamos os
dois... como guerreiros que descansam no intervalo de batalhas de conquista
extenuantes. Eu disfarçava a obsessão
com as recordações de comboios, como aquele, que eu habitei tantas vezes.
Delicioso. Quando me lembro deste envolvimento, esqueço a decisão que já tinha
tomado, que tanto tempo roubou à minha embriaguez, e repenso a minha
obrigatória presença na Estação de Santa Apolónia, no Domingo, à mesma hora de
chegada... à espera do mesmo comboio. E vou mesmo.
O que importa é que estas minhas
esperas, as minhas fantasias, alimentam o que de mais fraco reside na minha
existência: o sonho. E é com estas
pequenas ou grandes diversões que me vou ludibriando. Quantas vezes não inventei histórias? Quantas vez não interpretei palavras à minha maneira, conforme
mais me convinha, e inventei que outras
criaturas estariam perdidamente apaixonadas por mim, encaixadas na minha
vontade doentia de ser feliz. Assim foi
e será. Por isso fiquei sempre à espera, sentimentalmente aos caídos, sem nunca
perceber onde é que afinal fica a fronteira entre a amizade, o amor e o
ódio.
É célebre a minha ilusão que durou uns
eternos seis anos por uns olhos azuis que vagueavam nas noites de Lisboa, que
apareciam e desapareciam, que jogavam às escondidas sem nunca trocarem
palavras. Perdi-me anos a fio entregue
aquela paixão virtualmente correspondida.
Um dia desfez-se o mito. Trocaram-se
meia dúzia de palavras e aquilo que
parecia tudo transformou-se em absolutamente nada. Nem sequer foi preciso um
minuto para destruir a enfermidade patológica da ilusão que me tinha ocupado o
que correspondia a um terço da minha existência . Na altura escrevi qualquer
coisa como:
Efémera razão passageira
Chamas de paixão ardente
Só cinzas dessa fogueira
Ficaram no corpo dormente
Como
no mar a espuma
Aquilo
que era tanto ficou
Menos
que coisa nenhuma
Mesmo
sem asas voou
E eu achei que era a terra
O céu, o fogo e o mar
Julguei ter vencido a guerra
Sem ter chegado a lutar
Mas
tudo foi inventado
A estranha esquizofrenia
Mas
olhei para o outro lado
Já
nada daquilo existia
Tenho a certeza que, não fosse a troca de palavras, ainda hoje
estaria obcecado por aqueles olhos azuis que me incomodavam e fascinavam,
provocando um constante arrepio no estômago e uma sensação de esvoaçar permanente
da alma. É, aliás, um dos melhores
sentimentos que conheço. A paixão
desconhecida, os jogos, as escondidas, as incertezas, os arrepios e a total
ignorância. Uma forma de paixão que,
enquanto dura, é incapaz de magoar, de atraiçoar porque sobrevive no total
desconhecimento da realidade. Poderia
lembrar-me de tantas outras histórias que tais... com a certeza porém de que, a
partir daqueles olhos azuis, as minhas obsessões foram sempre mais curtas,
doenças efémeras que eu rapidamente tratei de curar. Não iria nunca mais perder o tempo que tinha perdido com aquela
minha obsessão. A partir daí foi
sempre, como aliás nas viagens, uma sofreguidão de procura constante. Aqueles
seis anos tinham sido o resultado de um desconhecimento de mim próprio e
bastava como lição.
Adormeci novamente.
V.
Fronteiras
De malas prontas para a continuação da
viagem, dirigimo-nos à Estação de Viena. Desta vez para um percurso mais
reduzido, de algumas horas, com destino a Budapeste, onde teríamos paragem obrigatória
por alguns dias por força das obrigações do seminário.
A viagem viria a ter um significado
muito especial, embora na altura não tivesse a noção disso: iria atravessar
pela primeira e última vez a cortina de ferro.
A percepção do que isso significava era escassa. A imagem que eu teria na altura era a de que
iria entrar num mundo secreto, escuro e desconhecido. Embriagado pelo desconhecimento, estava fascinado. Só mais tarde percebi que aquele Julho era
um mês especial para o “lado de lá”. Mikhail
Gorbatchov já tinha decretado a liberdade dos países de leste no célebre
discurso nas Nações Unidas e tinha aberto as portas para a Primavera dos
Povos. Aqueles países experimentavam
naquele Verão a irreverência que lhes tinha sido vedada nos últimos 45 anos...
muitos deles estavam, desde sempre, amarrados a despotismos castradores. Ora eu estava a percorrer os caminhos da
mudança. Os caminhos que posteriormente tantas vezes tentei explicar aos meus
alunos.
A primeira confirmação da travessia para
uma espécie de abismo concretizou-se com a antecipada revista dos
compartimentos do comboio pelos guardas fronteiriços. Estes homens tinham um ar austero, decidido e transportavam nos
olhos um falso brilho, que lhes tinha sido oferecido por uma sensação de poder
que eles continuavam a acreditar que tinham. Eram os privilegiados daquela
sociedade porque pactuavam com o regime e por isso sentiam-se imunes às
atrocidades, mesmo que apenas mentais, que toda a máquina cometia.
Lembro-me que o nosso comportamento perante tais figuras era de
respeito absoluto, quase submissão e algum terror. Hirtos, intransponíveis, de fardas imponentes e postura
inquisitória revistaram-nos os passaportes e passaram a pente fino os vistos de
que estávamos munidos. Receámos possuir
algum impedimento para entrar no “mundo proibido” e por isso apoderou-se de
nós, naquele instante, uma expectativa cortante, quase eterna. Era o auge da excitação do início da viagem. Percebi naquele momento como se pode ter uma
população inteira amordaçada durante anos, décadas, séculos. O terror não tem concorrência.
Chegados a Budapeste, lá estava um dos organizadores do seminário,
destacado para ir buscar os portugueses.
Naquele momento, enquanto se desenrolava a conversa circunstancial,
tinha a sensação que entrava num mundo à parte, fascinante e escuro em todos os
sentidos da palavra. Estava assustado porque eu que tinha sempre, ou desde que
me lembro, vivido em liberdade, não conseguia perceber como é que alguém,
nomeadamente as camadas mais jovens, poderiam coibir-se de gritar o que lhes
vai na alma. Reparei que os meus
anfitriãos sempre tiveram cuidado nas palavras que nos foram dirigidas.
Fomos directamente para casa de Szofia
Matrai, uma espécie de líder do grupo que nos deveria acompanhar durante a
estada na Hungria. Aí sim, a
simplicidade que contrastava com a arrogância de Viena. Tive a sensação de um regresso ao passado
onde os objectos nos indiciavam impossibilidade de rendição aos pequenos luxos
da tecnologia moderna, quem sabe desnecessários. Aquela casa, sem que houvesse nada que o denunciasse, encerrava
com certeza nas suas paredes histórias do underground comunista. Imaginava episódios de pequenas e
inofensivas conspirações, de revoltas estudantis que ali sempre teriam ficado
fechadas e de troca de experiências como noutro lugar qualquer do mundo. Senti-me triste, sozinho e até
abandonado. Era uma sensação
inconfortavelmente estranha e contraditória.
Sentia-me portador de um vírus ocidental que me fazia diferente de todos
os que ali se encontravam, na grande maioria húngaros, estagnados numa década
muito anterior, que me pareciam olhar com admiração.
VI. Israel
Durante o seminário, os participantes
iriam ser acolhidos em casas de famílias locais. Chegada a hora da distribuição das famílias, anunciaram-me que
iria viver, durante aqueles dias, em
casa de uma senhora divorciada, e a acompanhar-me... um jovem israelita! Não
havia famílias suficientes para todos, por isso teríamos de ser distribuídos aos
pares.
Do que mais me lembro, é o
desenvolvimento das relações no seio deste triângulo misterioso
Húngria-Israel-Portugal, com tudo o que isso encerra. Uma das minhas primeiras memórias daquela cidade “do outro lado
da cortina” foi o contacto com aquela personagem húngara, de pelos compridos
nas pernas e cabelo desalinhado. Oftalmologista, vivia presa ao sistema. Fomos recebidos em sua casa, na região de
Mexikói, onde se chegava de Metro. Uma
zona cinzenta, longe das bonitas ruas de Budapeste Imperial. Uma rua qualquer que confirmava a imagem
corrente que se tem do urbanismo sovietizado.
A casa era humilde, muito idêntica à de Szofia, onde tudo reflectia
simplicidade, funcionalismo e pobreza material, contrastando com a figura
enriquecedora da nossa anfitriã. Portadora de um constante sorriso
envergonhado, recebeu-nos de coração aberto e de forma constrangedora, tal era
a sua simpatia e disponibilidade.
À chegada mostrou-nos o que iriam ser
as nossas instalações para os dias em que nos receberia. Um quarto amplo, semi vazio, com uma cama de
casal. Rapidamente percebi que iria
coabitar, ou pior ainda - dormir, no mesmo espaço e na mesma cama que o amigo
israelita... e que israelita!!! Munido
de bagagem excessivamente desproporcional para o seu objectivo, desconfiei logo
de início, que o meu companheiro de quarto, e de cama(!), me iria surpreender
tanto, ou mais, como já o tinha feito com a bagagem.
E assim foi... expectativas
superadas. O energúmeno do israelita
tinha pouco de polidez, primava pelo fundamentalismo cultural e enquadrava-se
muito pouco no contexto intercultural em que se inseria a viagem.
Cedo descobri que a bagagem excessiva
significava que o indivíduo se tinha munido em terra de umas latas, com um
preparado especial, que ocupavam mais de ¾ do seu equipamento de viagem. Fiquei a saber que o rapaz comia esse
preparado especial diariamente e recusava qualquer oferta da anfitriã - que o
fazia certamente com dificuldade - o que demonstrava a sensibilidade do meu
companheiro de cama. É certo que esta
particularidade não me incomodava doentiamente, porque também não me afectava
de forma directa, embora considerasse a maior falta de consideração e má
educação para com a nossa paciente oftalmologista. O pior foi sem dúvida a convivência obrigatória com o indivíduo,
no mesmo quarto, leia-se, “na mesma cama”.
Para além dos ruídos nocturnos e das tentativas de me “agredir durante a
noite inteira” nas suas lutas inconscientes, certamente com palestinianos, o
indivíduo israelita acordava a uma hora indefinida da noite, mas muito à noite
mesmo, para concretizar um dos rituais da sua religião e simultaneamente
levar-me ao rubro. Aí é que a minha
paciência começou a mostrar fraqueza e confesso que comecei a ter a primeira
sensação que iria ter muito mau feitio no futuro. Quem sabe se esta experiência não me terá marcado para
sempre.
Expliquei ao meu “companheiro de cama”
que, no meu país e na minha cultura, era essencial dormir continuamente, sem
interrupções e que um despertador a meio da noite teria o mesmo efeito para ele
se alguém decidisse roubar o seu precioso leque de latinhas com o nojento
preparado que garantia inexplicavelmente a sua sobrevivência.
Fiz-lhe então perceber que estávamos
perante um problema grave de incompatibilidades interculturais entre duas
pessoas de culturas diferentes que partilham a mesma cama. É evidente que o meu discurso de nada
serviu... continuei a “dormir na cama
com ele” e a chatear-me constantemente com os caprichos israelitas,
nomeadamente quando o tipo não compareceu à Sexta-feira no Seminário, porque no
país dele não se trabalha. Ficou na cama, claro, depois de me ter infernizado a
noite inteira. Porco rabi.
Expliquei-lhe em vão que no meu pequeno jardim à beira mar plantado
também não se trabalha ao Domingo, mas as excepções não fazem a regra, o hábito não faz o monge e que em Roma sê
Romano, mas nenhuma das fórmulas parece ter tido resultado. Abstrai-me e
continuei a minha descoberta cultural da Hungria e decidi que o aprofundamento
dos meus conhecimentos sobre a cultura israelita ficariam para outro dia e com
muito mais calma. Creio que ainda hoje
não estou preparado para esse desafio.
Continuei então a tentar compensar a
impolidez do nosso israelita para com a nossa anfitriã, sempre com receio de
ferir susceptibilidades e sem cair no ridículo de fazer perguntas como quando
se vai ao museu tentar perceber espécies raras. Fui aprendendo a gostar muito daquela mulher, que, na sua
altura, parecia ter nascido no sítio errado.
Essencialmente tinha-lhe respeito e admiração.
Nos primeiros dias da minha estada
completei 19 anos. Curiosamente, eu que
dou uma importância desmedida ao aniversário, quase me esqueci que, naquele
dia, eu era, para mim, a pessoa mais importante do mundo. Tive a sensação rara e estranha que nos
podemos esquecer de nós próprios. Foi
exactamente a minha anfitriã que me fez regressar ao meu ego. No regresso a casa
depois das apresentações dos participantes no Seminário, e compulsivamente
acompanhado do meu israelita, esperava-me a anfitriã com um pequeno bolo de
anos e um garrafa pequenina de espumante.
Nada substituirá a emoção que senti naquele momento. Sem recursos, quis marcar a data que era
importante para mim e no fundo mostrava que também tinha importância para ela. Só o israelita na sua ganância
fundamentalista, reforçou a ideia da sua “pequenez”, recusando fazer o brinde
com o espumante porque na cultura dele o álcool é satanás... que fingisse que bebia bolas! Certamente
ninguém lhe exigia que apanhasse uma bebedeira irreversível só porque o
português fazia anos. Também ninguém lhe pediu que pisasse a bandeira de Israel
ou que beijasse um palestiniano. Mas o
“amigo” mostrou total inflexibilidade perante as nossas tentativas dissuasivas.
Nem no bolo tocou, concerteza receando que seria feito com banha de porco. Certamente se o porco é tão repelente para
ele, será também contraproducente olhar-se ao espelho, concerteza. “Que seja
feliz então, mas que nunca mais saia de casa”, pensei eu, mais uma vez, no
rubro da minha irritação Foi certamente
a primeira vez na minha vida que me arrependi não estar munido de uma caixinha
de Xanaxes para acalmar a minha fúria primitiva.
VII.
Budapeste
Importava continuar à conquista de Budapeste
concentrando-me naquela que parecia ser uma revelação. Budapeste é uma cidade muito simpática,
deitando-se nas duas margens do Danúbio, sendo uma “Buda” e a outra “Peste”. O
centro revelou-se menos escuro que a ideia pré-concebida que levávamos. Tem uma beleza sedutora e um charme que faz
dela uma das capitais actualmente mais visitada. Espantou-me, por exemplo, a rede de Metro, com uma extensão
magnífica, uma profundidade assustadora e um sistema de anuncio das estações
que só em 1998 chegou a Lisboa.
Normalmente acabam todas em Tér
- como a Ferencváros Tér, que ainda hojje tilinta na minha cabeça, ocupando um
espaço que me começa a fazer falta. A
capital húngara tem também uma ilha entre Buda e Peste, que poderia ser um
filho que as duas margens abraçam. É
aí, aliás, que os “Budas” e os “Pestes” ( será assim que os podemos chamar???)
ocupam a maior parte das suas horas de lazer, onde andámos de barco e demos uns
pontapés na bola e onde eu aproveitei para dar uns pontapés no israelita. Terão de compreender que era uma
oportunidade única de me vingar dos repetidos disparates que tinha até então
aturado do meu “companheiro de cama”.
Cada vez que a bola corria na direcção do indivíduo, eu corria simultaneamente
na sua direcção, mais concretamente do seu tornozelo. Acredito que muitas vezes fui flagrante, porque já a bola corria
longe e eu continuava na minha missão de vingança em redor da minha presa, tal
era a cegueira provocada pelo som do despertador que diariamente invadia o meu
sono precioso.
Percorri a cidade com amigos que
conheci no seminário. Recordo-me de uns
simpáticos jugoslavos e não me perguntem de que etnia porque já disse que na
altura não estava sensibilizado para a minha vertente académica e
política. Por isso nunca hei-se saber
de que lado estariam durante a guerra dos Balcãs, ou qual é o país a que agora
pertencem. Lembro-me apenas que me
ensinaram a bela frase “dobrasava boliglava” que não sei já exactamente o que
significa, tendo apenas a ideia que está ligado a um fenómeno que dá dor de
cabeça.
Os húngaros são gente simpática,
hospitaleira. Recordo-me de uma amiga
húngara que, face ao meu interesse pela língua magyar, me gravou, em cassete,
um livro de 400 páginas, que tinha comprado, para que aprofundasse não só a
língua mas também a pronuncia, de. Essa
húngara de boca rasgada e dentes incertos, creio que nutriu um sentimento
especial por mim, mas confesso que sempre me fiz de desentendido , não fosse o
diabo tecê-las.
Com os anfitriões húngaros conhecemos
a vida nocturna, que naquela altura se reduzia a muito pouco. Fomos a um bar, “hard rock Café Budapeste”,
onde dançámos música húngara da altura, normalmente intervencionista.
De todo este aglomerado de gente,
sobressai a amiga finlandesa, Paula Hannula, que ficaria com esse título para
sempre. Uma espécie de finlandesa que não sai aos seus, pela sua beleza
interior, a graciosidade e a naturalidade de todas as suas atitudes. Daquelas pessoas com quem dá vontade de
falar uma noite inteira, entre trocas de segredos e gargalhadas saudáveis. Foi isso que aconteceu. A Paula
definitivamente pertence por direito próprio à lista das pessoas que nunca
desaparecem da memória.
É de toda esta gente que foi feita a
história da Hungria, com bons momentos passados, depois de Budapeste, nas margens do Lago de Balaton, a instância
de férias por excelência dos húngaros.
Escusado será dizer que recusei manter o estatuto de companheiro de cama
do energúmeno do rabi, o que foi amplamente entendido e co-patrocinado por toda
a comunidade participante. Acabaram por
lhe oferecer uma cama individual, a única, da casa onde ficámos.
Estava a chegar ao fim o episódio
húngaro da minha viagem.
VIII.
Encontros
A excitação de seguir viagem e de devorar
a Europa pouco tempo me reservou para distribuir a minha normal nostalgia. Rapidamente me despedi e pus-me a caminho,
de casa às costas. A viagem duraria
algumas horas e o Miguel estaria, se tudo corresse como combinado, à minha
espera na pousada da juventude de Belgrado, a então capital da grande
Jugoslávia, que tínhamos descoberto num guia da matéria.
Nessa altura confesso que tive
dúvidas. Tínhamos acertado o dia e
alinhavado a hora ainda em Lisboa e eu temia que o despassarado do Miguel, depois
de uma passagem por Barcelona, se tivesse perdido algures no caminho.
Afinal, Belgrado ficava no outro lado da Europa, e Lisboa (e tudo o que
se tinha combinado antes da partida) parecia eternamente longínqua. Até eu fiquei estupefacto com a precisão com
que tudo se desenrolou.
Depois de uma viagem leve e de uma
conversa agradável com o primeiro casal jugoslavo com quem tive contacto, e
depois da já normal troca de endereços e telefones, o comboio chegava a
Belgrado, e, com ele, eu e a minha sussurrante expectativa. Tinha pedido informações de como chegar o
mais rapidamente possível ao albergue e os novos amigos jugoslavos
ofereceram-se para me dar uma ajuda. É
que o meu verdadeiro receio baseava-se no “cirílico da questão”. Estando as ruas identificadas em cirílico, a
minha missão estaria viciada à partida.
Apesar do meu interesse obsessivo pelas línguas confesso que não me
tinha até à data debruçado sobre o assunto. “Colado” literalmente aos amigos,
saí do comboio expectante e para minha monumental o Miguel lá estava com ar
veraneante, como quem estivesse a comparecer a um encontro marcado há uma hora
atrás para ir beber um café à brasileira.
Espantei-me com as nossas pontualidades e com o bom senso e sentido de
oportunidade do Miguel. Despedi-me dos
amigos que se tinham tornado inúteis naquele momento e explodimos em
gargalhadas de satisfação pelo desenrolar dos acontecimentos. Tudo aconteceu porque o raciocínio funciona
quando a gente quer. O Miguel sabia que
se eu respeitasse o combinado em Lisboa iria chegar de Budapeste naquele
dia.... logo, como o único comboio desse destino chegava àquela hora, ali
estava ele. Tudo tinha começado na perfeição.
IX
-Jugoslávia
Nos minutos seguintes atropelámo-nos
com frases soltas sobre as nossas experiências, sem que ninguém tivesse muita
paciência de desenvolver pormenores.
Ficou marcada a excitação do Miguel perante a sua experiência inovadora
em Barcelona, que parecia bem mais original que a minha pacata estadia na calma
Hungria.
Fomos então ao albergue onde o Miguel
já tinha tudo arranjado, num quarto de camaratas que parecia de última
oportunidade para dormir dentro de portas e onde descobrimos que coabitava uma
simpática moça europeia, suíça por sinal.
Confesso que senti uma alegria que mantive no anonimato. Comentei para comigo que depois de ter
suportado um companheiro de cama...
esta só poderia ser a grande recompensa. Por incrível que pareça a criatura não teve nenhuma das reacções
que aventámos como possíveis. Não
disparou numa correria pelos corredores do albergue a gritar por socorro numa
língua qualquer, nem sequer tentou negociar quem ia dormir onde, oferecendo o
seu beliche por simpatia, nem sequer atacou um dos dois durante a noite. Tipo despertador mas “em bom”. Ignorámos a ignorância a que fomos votados e
partimos à descoberta da cidade onde Tito tinha reinado, e onde Slobodan
Milosevic já tinha iniciado aquilo que conduziria à guerra e ao esfacelamento
da Jugoslávia de então. Ignorando mais
uma vez tudo o que de político poderia relevar desta passagem, passeámos por
muitas ruas de Tito e muitos monumentos de Tito, sem que isso nos tivesse
incomodasse. O importante daquela
paragem era o facto de nos sentirmos ricos, mesmo muito ricos. Cedo troquei dinheiro e consegui imaginar por
minutos o que é ter sorte ao jogo. Em
troca de escassos marcos alemães recebi toneladas de dinares, em notas, que
ocupavam uma monstruosidade de espaço.
A inflação na altura fazia do marco alemão uma moeda de ricos, o que nos
agradava. Apesar de tudo a sensação de
riqueza foi ela também efémera, uma vez que tudo se pagava com muitas, muitas
notas. O corolário da constatação foi a
passagem pela fonte da sorte de Belgrado onde jaziam milhares de notas,
atiradas pelos jugoslavos, encerrando desejos.
À falta de moedas... aí estava a fonte coberta de moeda-papel de todas
as cores. Afinal confirmava-se. A nossa riqueza era só uma ilusão.
Pobres mas entusiastas fomos
descobrindo que a capital, essencialmente dos sérvios, era uma cidade moderna e
orgulhosa naqueles dias, pela conclusão
da obra mais importante dos últimos tempos: a grande Catedral da
Ortodoxia. Para além disso encontrámos
modernidade, avenidas amplas e vida nas ruas, “quer fossem as tais de Tito ou
não”. Para mim, particularmente, era
notória a diferença entre Budapeste e Belgrado. Parecia um mundo ocidentalizado
e não eram tão evidentes as marcas horrendas da sovietização em contraste com a
capital que anteriormente tinha visitado.
Apesar de algumas características similares, como a exaltação do líder
Tito e o seu mausoléu, a cidade estava algures no meio desses dois mundos de
colisão.
Desgastados pelo curso intensivo de
Belgrado fomo-nos arrastando pelas esplanadas da cidade, procurando também
conhecer o outro lado daquela sociedade, que não apenas o que a visão permite
identificar. É importante para mim
sentir os cheiros, ouvir os sons, observar os movimentos e fixar olhares nos
sítios por onde passo. Só assim se consegue, mesmo de forma superficial,
identificar como é que o coração dos
sítios bate. Assim foi. De café em café
fomos experimentando sensações. Com os
sentidos tão apurados acabámos sempre por nos cruzar com aqueles que teriam,
como nós, a disponibilidade para observar e digerir os momentos: os
estrangeiros. Foi, desta forma, em
Belgrado que fizemos a maior colecção de novos amigos. No início da viagem, da
aventura, a nossa disponibilidade era total e a caderneta começou a ser
preenchida.
Sentado na mesma esplanada que nós
estava uma figura sorridente, de certa forma anafada, e não identificável em
termos de nacionalidade. Daquelas
pessoas que se poderiam encaixar em qualquer país da Europa ou continente
americano. Cabelo encaracolado, tez
morena clara, olhos azuis, estatura baixa, bigode e fumador. Foi esta última característica que o fez
aproximar à nossa mesa e sussurrar, numa aproximação a um qualquer idioma, o
pedido de lume. Cedo nos apercebemos
que era espanhol e ele ainda mais cedo se apercebeu que tinha ali a oportunidade
para desabafar o que há semanas guardava em segredo porque, como viemos a
perceber, o espanhol era única língua que falava. Para nós, confesso, era sempre agradável a troca de impressões,
num sítio longe de casa, com alguém que afinal tem afinidades culturais
connosco. O certo é que pouco pudemos
trocar no que se refere às nossas ainda curtas impressões da Jugoslávia. Juan fez o favor de vomitar sofregamente as
suas e adivinhar as nossas. Explicou
que estava na Jugoslávia há algum tempo, tendo aprendido alguma coisa de
serbo-croata - o que, na altura me pareceu um exagero. Acrescentou que estava hospedado em casa de
uma família jugoslava, que tinha conhecido através da banda do cidadão, que
vivia a alguns quilómetros de Belgrado, em pleno campo. Aí se instalou e não mostrava ter planos
para dali sair tão cedo. Foi assim que adquirimos uma mascote que nos iria
acompanhar mais alguns dias. Afinal era
agradável ouvir aquela figura almodovoriana, digna de uma história inteira como
figura central.
Com a animação da conversa juntaram-se
entretanto a nós um casal jovem de finlandeses. Esses sim, tipicamente suomis.
Ele mais falador, ela introvertida, tez e cabelo acenourados e olhos
covados, em jeito de olheira finlandesa. Com mais esta aquisição, partilhámos
alguns momentos em Belgrado, nas visitas relâmpago aos must da capital
jugoslava. Começámos a trocar ideias de
destinos, possibilidades de percursos, e rapidamente encontramos um ponto comum
para todos. Istambul agradava-nos,
assim como aos finlandeses e ao espanhol.
Sem saber o que isso siginificaria continuamos caminho até, já ao pôr do
sol, engrossar o grupo que tinha sido criado na hamburgueria. Quatro mexicanas, pequeninas, jovens e
simpáticas, foram atraídas pela troca de palavras em espanhol entre nós e o já
“amigalhaço” castelhano e rapidamente sem saber muito bem como estavam a
partilhar uma mesa de café. A noite
foi-se aproximando vertiginosamente e as decisões também. De repente todos estavam de acordo e o
destino do dia seguinte seria Istambul.
O espanhol apressou-se a fazer todos os planos. Ele que era o único não
“interrailer”, tendo viajado de carro, arquitectou todo o trajecto dos próximos
dias. Estava feliz.
Então estava decidido. Os finlandeses iriam encontrar-se
directamente com o grupo em Istambul, nós e as mexicanas partilharíamos o carro
de Juan. Metade, metade. Eu e o Miguel tínhamos percurso garantido
até Thessaloniki e na estação trocaríamos com as mexicanas. O passaporte para a viagem de automóvel era
o factor linguístico. O espanhol não
falava mais nada porquanto os finlandeses iriam certamente fazê-lo adormecer na
dura viagem até ao princípio do outro mundo.
Quanto à dormida até à partida no dia seguinte não haveria problema
segundo Juan. Ele iria apresentar-nos à
família jugoslava, dormiríamos com ele no anexo e estava resolvido.
Mais uma vez aterrorizei-me com a
ideia de ter outro companheiro de cama.
Era jovem, mas já chegava de experiências tipo “twilight zone”. Também eu, já naquela altura tinha estabelecido
os meus limites.
No entanto, podia ser que não e
afinal, com os recursos que transportávamos num bolso qualquer inventado e
cozido por dentro das calças, bem podíamos aproveitar esta borla. A vergonha de enfrentar a família jugoslava,
que iria dar guarida a mais dois estranhos quaisquer, foi ultrapassada e, de
Mercedes, com o nosso personagem almodovoriano, fomos conduzidos a esse
episódio único da aventura jugoslava.
No caminho pensava o quão excitante
era este tipo de imprevisíveis. Nada
melhor do que não ter obrigatoriedades irreversíveis e andar assim ao sabor do
destino veraneante. Eu e o Miguel sempre andámos assim à deriva e nada nos
podia parar. Nunca pensámos, por exemplo, que o espanhol, que tinha um ar
inofensivo, poderia ser um serial killer e transformar-se a meio da noite em
assassino em fuga, matando os portugueses por simples paranóia ou capricho, sem
que pudéssemos fazer o que quer que fosse. Acredito que a nossa total liberdade
e descontracção afugentava os cenários mais inacreditáveis dos “serial killers”
reais. Tivemos sorte, e nunca o medo do
imprevisível nos limitou os movimentos.
Foi exactamente este sentimento que nos levou àquele carro, naquela
noite, rumo a uma casa onde iríamos dormir, no meio de parte nenhuma.
Primeiro por alcatrão, depois por
terra batida, lá fomos conquistando o interior jugoslavo a caminho da dormida
gratuita. Chegámos a essa casa de campo e já a família dormia. Juan afastou-se enquanto esperávamos junto
ao anexo onde o espanhol estava instalado.
Primeiro tinha de ser consultado o chefe da família sobre a presença dos
dois intrusos e a guarida por uma noite.
Naqueles minutos de espera eu e o Miguel não trocámos palavra. O silêncio era de morte e a escuridão também. Cada um pensava, independente, no
surrealismo da situação. O que é que
iria acontecer?
Não me perguntem como é que Juan explicou ao dono da casa a
situação porque não sei. Certamente
naquela linguagem universal dos gestos incompreensíveis que raramente permite ao
interlocutor recusar o que quer que seja porque não tem clarificações
suficientes sobre a situação. O que é
certo é que Juan lá voltou sorridente, como sempre aliás, com o parecer
favorável, não se sabe muito bem em relação a quê. Quem sabe se para aquela
gente, os dois portugueses não teriam caído do céu. Juan. É que sem planos e quase sem bagagem, está
visto que o amiguinho castelhano preparava-se para se eternizar naquele sítio
bucólico, até, quem sabe, chegar o momento em que o conhecimento da língua
fosse suficiente para explicar à inocente família sérvia quem realmente era e o
que estava ali a fazer. Previa-se então
que, a avaliar pelo resto dos espanhóis em relação aos dotes para línguas, que
Juan se instalaria “ad eternum”. Assim,
nada melhor que dois portugueses para arrastarem o indivíduo para a longínqua
Turquia. Mal sabiam eles que Juan iria
voltar para cumprir o objectivo da eternidade.
Ainda hoje lá deve estar.
Entrámos no anexo, que parecia um
sótão com amontoados de objectos inutilizados, sem espaço para a liberdade de
movimentos, onde cada um de nós se encaixou no melhor lugar encontrado, para
dormir algumas horas e partir rumo à próxima meta. Juan tinha o seu estaminé montado com a sua caminha aprumada e o
rádio CB à cabeceira da cama. Imaginava
que Juan passaria a noite a falar com os macanudos de toda a Europa a procurar
guarida noutras paragens. Eu,
pessoalmente, esperava sinceramente que não.
A ideia de conversas intermináveis agarrado ao microfone a roubar-me
horas de sono, incomodava-me. Parece
que adivinhava:
·
Pedro, mira, es con este
pequeñito radio que hablo para todo el mundo!!! asi que...
Não lhe dei oportunidade para terminar o “asi
que”.... Fingi-me embriagado de sono e
simulei um leve ressonar fruto do cansaço irreversível. Convenceu-se. Fechou o rádio e a luz,
certamente amuado. Buenas noches também para ele.
Poucas horas depois acordámos com a
excitação de uma nova viagem e com a surpresa de uma recepção de boas vindas e
simultaneamente de despedida por parte dos nossos anfitriões. Rapidamente compreendemos porque é que o
espanhol ali estava. A hospitalidade
daquela família sérvia era fantástica.
Um pequeno almoço estava preparado para cada um de nós e no lugar onde
nos devíamos sentar estava colocado um presente. Neste caso uma medalhinha sem valor material mas com toda a carga
sentimental que encerram as ofertas que não têm valor. Senti-me naquele momento num cenário da rota
das descobertas, numa cerimónia de troca de presentes e gestos incompreensíveis
entre representantes de dois povos que se encontram, que se admiram e sorriem
num misto de fascínio e curiosidade.
Prometi a mim mesmo que para a próxima viagem compraria 70 galos de
Barcelos para poder corresponder a tamanha demonstração de sensibilidade.
·
Food Very good!
·
Yes, yes. Diziam
insistentemente os anfitriões com sorrisos enternecedores.
·
Very, very good - insistíamos
num esforço heróico de conversação.
·
Yes, yes. - Que desespero! Esta
era invariavelmente a resposta para qualquer som que nós emitíssemos, em que
língua fosse e com a entoação que fosse.
Esporadicamente, a família lançava-se
em trocas de palavras intimas - eram todas intimas a partir do memento em que
falavam a sua língua que nenhum de nós decifrava, mesmo com um estóico esforço
sobre humano. Nós, claro aumentávamos o
grau de evrgonha, chegávamos a corar imaginando o que estaria a dizer, a
comentar a nosso respeito.
·
Que raio estarão a dizer de
nós? Dizia o Miguel entre-dentes.
·
Deixa lá Miguel. Por
muito esforço que façamos nunca chegaremos
a saber o que estão a dizer de nós.
Por isso sorri que é o melhor que temos a fazer neste momento. Seja o
que deus quiser.
·
Good Good... retomámos a conversa e partir daqui
retomámos o esquema clássico da desconversa de cortesia.
·
Yes yes!
·
Yeeeeeesssss.
·
Yes?
·
Yes, yes!
Depois do desespero nos ter avisado que chegava de
convivência primitiva, levantámo-nos num claro sinal de que estávamos de
partida. Rapidamente a família inteira
se organizou numa fila indiana para proceder ao ritual das despedidas dos estrangeiros.
Sim, nós!
Começámos
com o universal aperto de mão. Primeiro
aperto, segundo aperto... um abraço... depois, depois ninguém resistiu aos
beijos, e lá distribuímos a nossa “latinidade”.
·
yes, yes!!!
Curiosamente, desta vez, não trocámos
moradas, telefones ou coisa que o valha, como sempre fazíamos perante novos
conhecimentos. Para que é que serviria
a troca de coordenadas? Nunca iriam ter
meios para uma visita a Lisboa e, pelo que conheci daquela gente, pouco lhes
interessaria. Estão contentes como
estão e não precisam de sair dali a não ser por necessidades de sobrevivência.
Partimos com a sensação de ter vivido ali durante um mês,
repetindo o vocabulário limitado de que disponhamos: o hvala repetitivo que expressava o nosso agradecimento. Partilhámos a nossa admiração e satisfação
com o nosso amigo espanhol, que respondeu com um interminável discurso de “eu
já vos tinha dito”. Arrependi-me para
sempre de ter partilhado as minhas emoções.
Depois de pisar dolorosamente o Miguel, ele adoptou a mesma
atitude. Enfiámos as nossas pesadas
mochilas na bagageira da viatura Mercedes e seguimos o nosso caminho. Aquele que o Paquito tinha estado a estudar horas a fio. Para evitar conversas do género “eu já
sabia”, tomei a iniciativa e comecei a entreter os companheiros de viagem com
uma canção levezinha:
Tengo... chub chu uá.... una hormiguita en la
tripita... chub chu uá... que no me deja caminar, caminar, caminar,
caminar.
Tengo muchos problemas, muchas
preocupacionas, tengo muchos problemas, muchas preocupaciones... se me ama, no me ama, se me ama que se yo...
E repeti desenfreadamente o refrão ,
como aliás tinha aprendido alguns anos antes, muitos mesmo, em Burguillos del
Cerro. Um Campo de Trabalho de
“naturalistas desnudos”, onde coabitei com a comunidade hyppie espanhola
durante quase um mês. O que interessa,
então, é que tinha aprendido a canção e estava a utilizá-la naquela que seria
para mim o momento ideal.
·
Que es eso Pedro?
·
Una cancion... ó no lo sabias???
·
Si... claro una cancion. Pero que no la conozco...
·
No lo creo, gritei indignado,
No la conoces? La he aprendido en tu “tierra”!!!
·
Bueno... pues que no la
conozco.
“Idiota”, pensei eu no meu género intolerante. Aquela canção era o meu orgulho mais bem
guardado da minha passagem por Espanha.
Tinha transportado aquela canção desde os meus tenros 14 anos e o tipo
não reconhecia a melodia? Daquela forma
a viagem não iria correr nada bem. Até
a minha tentativa e amenizar o ambiente tinha sido gorada pela sua
ignorância. Não, não podia ser... tinha
de tentar outra vez:
·
Verdad que no la conoces????
Inserio vamos!
·
Te lo digo. A la mejor es una cancion para niños! Seguro, seguro. Y tanpoco se como te la aprendiste.
Decidi imediatamente que não lhe iria explicar. Teria que dedicar muito tempo a descrições
sentidas e profundas e não me apetecia verdadeiramente fazê-lo.
·
No se, Paco... fue en tu tierra
pero no se donde. No me acuerdo.
A esta altura já o Miguel se desmanchava a rir,
silenciosamente, no banco de trás. Ah quanto eu ambicionava aquele mesmo lugar,
aquela distância tão preciosa relativamente ao condutor... Nem é tarde nem é cedo:
·
Paco? Quiero hacer
PIPI!!!! Es asi que se dice no?
·
Ya te lo digo: el español que tines
es de niños!!!
·
Si no me entiendes lo hago aqui
mismo!!!!
·
Vale ... Vale... si quieres mear ya paramos en el primer
rincon que sea posible.
Tinha conseguido o meu objectivo. 2 Km depois, parámos num pequeno café já na
Grécia. Corri para a casa de banho,
fingindo que estava em desespero total, que não estava. Tinha de ser. Esperei cinco minutos fechado naquele cubículo fedorento - fazia
parte - e voltei sorridente, pronto a concluir o meu plano.
·
Ó Miguel, tu desculpa lá ter vindo
a monopolizar o banco da frente, mas também não parámos antes. E olha que da frente a vista é bem melhor e
sempre “vais conversando” com o nosso amiguinho.
E assim foi. Sem
lhe dar oportunidade de responder, empurrei-o para o banco da frente e eu refastelei-me
no precioso banquinho de trás. Tinha
conseguido o meu objectivo. Encostei-me egoísta de olhos fechados. Tinha de descansar a cabeça.
Boa sorte Miguel.
X.
Turquia
A viagem até Thessaloniki parecia
interminável. As paisagens, que eu ia
absorvendo nos intervalos curtos das conversas de automóvel, eram
imponentes. Muitas delas
assemelhavam-se vertiginosamente a Portugal, principalmente na Macedónia grega. Quando se avizinhavam povoações, o branco do
casario contrastava com a cor dos campos.
Menos comum eram as montanhas negras que escondiam o horizonte. A ideia que me ficaria para sempre seria a
de um Alentejo balcânico.
É claro que o meu paraíso no banco de
trás haveria de ter um fim. O Miguel cedo percebeu que o meu presente
estava envenenado. Que a vista não
compensava o sacrifício e repetiu o teatro que eu já tinha interpretado
antes. Pediu para ir à casa de banho. Estava aflito.
Correu, regressou. Riu-se para mim e eu nem o deixei falar:
·
Já sei. A vista é melhor, a
companhia também e pedes desculpa por teres monopolizado o lugar da
frente.
Rimo-nos e eu lá fui, pesaroso, ocupar o lugar da “SOS
voz amiga”. Voltava a ser a minha vez.
Juan, claro, não parava de produzir palavras:
·
Pedro, Pedro. Aqui estamos en Macedónia griega. Sabes que,
a los yugoslavo,s no les gusta estes tios.
Dicen que solo os visitan para comprar todo mas barato... una
exploracion... yo creo lo mismo eh? Es un rollo tener asi vecinos que se
aprovechan de los vecinos por questiones de pelas. Eh Pedro que dices?
·
Si, Si.
·
Eh Miguel y Tu?
Si, si...
Irritou-me a história dos “vecinos”. Ora se ele era espanhol e nós portugueses, se temos uma história
de vizinhança atribulada, qual era a necessidade daquela criatura ter aquele
tipo de discurso “amor-ódio” de países vizinhos????
Estive tentado a explicar-lhe a
história de Badajoz e Elvas. A lógica
do caramelo etc., a ganância dos espanhóis que só nos visitam para nos explorar
o tutano ou falar-lhe da “curiosidade de “Olivença” e do roubo espanhol desde o
Congresso de Viena, mas decidi não alimentar a conversa. Afinal éramos convidados naquela viatura e
não era cordial a hostilização que eu já engendrava .
·
Ya les digo, que tanpoco a los
griegos les gustan los yugoslavos. Los
llaman comunistas peligrosos. Que
cabezas tienen eses tios. Imaginate si
no puedo parar en la frontera... pues
es que soy guevarista, tanbién yo. Si
lo descubren, pif!!! Me hacen com a un pollo, eh Pedro?
·
Si, si claro
·
Peligroso eh Miguel?????
·
Si, si, sin dudas. Hay que tener cuidado!
·
Mira Pedro, en Portugal
vosostros tienen también muchos amigos comunistas, no?
·
No, no...- respondi eu evasivo.
·
Como No?
·
No - retorquiu o Miguel
·
Insério?
·
Bueno... respondi-lhe eu
encanitado com a conversa... que los
hay, hay. Pero no te puedo decir
quantos.
·
Ah claro, tanpoco queria
precisiones eh. Y vosotros? que son?
·Anárquicos.... disse-lhe rapidamente, forçando uma
gargalhada para acabar com a conversa.
Não há resposta melhor para este tipo de perguntas.... com esta dos “anárquicos”, geralmente, nunca há continuação possível
para a conversa política. Ou se há é
uma questão de se recordar ao interlocutor que a vida também se diz, que o
poder é corrupto e uma escola de vaidades. É muito melhor, nestas alturas,
entrarmos pelo campo das banalidades e da revolta escondida sobre pequenas
coisas do que entrar num diálogo filosófico-político, que acaba sempre à tareia
e em exaustão.
Apareceram, entretanto placas a
anunciar Thessaloniki. Graças a
Deus!!!!
Tinha chegado ao fim a possibilidade
de criar mais oportunidades ao nosso espanhol de dar largas à sua fértil
imaginação. Acabava-se a conversa de
circunstância sobre os comunistas, os vizinhos inimigos e os “guevaristas”
amigos.
Tudo correu como combinado. Fomos depositados na Estação dos comboios em
Thessaloniki e as mexicanas, que tinham chegado na “carreira” em que iríamos
partir, substituíram-nos no automóvel de Juan.
Boa sorte para elas. E principalmente para a quela que escolher o lugar
da frente.
Despedi-me com um viva a anarquia mas
nunca cheguei a saber se elas perceberam aquela palavra passe para uma viagem
tranquila e sem incidentes.
Creio que só depois de entrar naquela carruagem
percebemos que tínhamos viajado num meio de transporte de luxo sem ter dado
conta disso ou dado o devido valor.
Para além do mais, o comboio estava apinhado de gregos e turistas, que
tinham, já há muito, açambarcado os lugares disponíveis. Merda.
Teríamos de fazer aquela viagem debaixo de um calor de grelhados, género
tosta mista, em pé e encostados a um alemão ou um holandês, tal era a lotação
da locomotiva. O cheiro era igualmente nauseabundo, com uma mistura de comida
podre e camisolas pouco adequadas à época...
Um verdadeiro inferno, que iria
servir de cenário para a inacreditável passagem da fronteira greco-turca. Nunca
imaginei que iria ser assim, que existia uma outra “cortina de ferro”
que faria inveja a qualquer fronteira leste/oeste. Mas aconteceu.
O lento comboio parou num sítio de
ninguém onde existia apenas um pré fabricado que mais tarde percebemos ser a
base da polícia, do batalhão de fronteira.
Um género de SEF sofisticado.
Fomos abordados no comboio por um interminável número de fardados que
nos sorveram literalmente os passaportes e desapareceram de vista para o
interior do edifício improvisado.
Receámos o pior. Imaginámos que
iríamos ficar sem identificação, roubados, indefesos e vulneráveis. Esperámos horas pelos resultados daquela
operação obscura enquanto a nossa imaginação nos corroía as esperanças de
continuar viagem com o cadastro limpo de incidentes. Com o tempo entregue desta maneira aos interrailers de toda a
Europa, incluindo eu, fomos conjunturando dispararates e cedo a angústia se
transformou em diversão anárquica.
Algumas horas depois, os nossos inseparáveis companheiros de viagem
(vulgarmente denominados passaportes) estavam de volta, massacrados com
carimbos e exaustos pelas investigações.
Suspirámos de alívio e sorrimos nervosamente para descarregar a
tensão. Tudo a partir daqui seria,
certamente, “peanuts”.
Depois de mais algum compasso de
espera, o apito anunciava a caminhada final, a verdadeira travessia física da
fronteira greco-turca.
Com o desenrolar deste episódio, ainda
do lado grego, o sol já tinha adormecido e a noite preparava-se para escurecer
a nossa passagem. Olhávamos
ininterruptamente para fora, respeitando o já ritual de travessia de mais uma
fronteira, na esperança que a paisagem, a cor ou o horizonte, indiciassem a
chegada a um outro país, como se os países fossem pequenas caixinhas diferentes
umas das outras. Neste exercício
ignorante deparámo-nos com mais uma fotografia irreal. Misturados com a vegetação abundante,
identificavam-se centenas de militares, não sei se gregos se turcos, empunhando metralhadores apontadas às nossas
inocentes pessoas. A barreira de homens
armados acompanhavam alguns quilómetros de carris, como quem guarda e vigia a
passagem de um comboio de condenados, enviados para o degredo. Naquele momento senti-me o mais perigoso dos
criminosos e olhei com desconfiança para as massas circundantes. Lembrei-me imediatamente do “Papillon”, das
suas descrições envolventes.
Nada de grave. Apenas o habitual para aquela zona que a
história martirizou. Por aquela fronteira, traçada depois do Tratado de Sévres,
posterior à Primeira Grande Guerra, foram trocados mais de um milhão de turcos
e gregos. O rearranjo das fronteiras
obrigou a que se fizesse um ajuste de contas relativamente às populações de cada
um dos lados. Um drama humana, de gente
que abandonou tudo para justificar os caprichos dos homens.
A constante cobiça mútua dos
territórios da zona semeou um ódio visceral entre turcos e gregos que só tarde
no século XX conseguiram tréguas e um status
quo duradouro(?).
XI - Turquia
Cedo estaríamos em Istambul onde mais
uma se concretizou na perfeição a combinação alinhavada em Thessaloniki. Na estação, o nosso espanhol e mexicanas lá
estavam depois de uma viagem bem mais relaxada que a nossa.
A primeira
ideia que tenho desta cidade - que já foi capital de três impérios: Romano,
Bizantino e Otomano - foi a de grande cumplicidade. A confusão da cidade fazia-me sentir confortável, à vontade. Apesar de tudo o que diziam, do perigo turco
e das mulheres violadas, nada me impressionou ou influenciou a ideia que
construi da antiga Constantinopla.
Encontrámos um albergue que fazia juz
ao ambiente que nos rodeava. Uma
recepção digna do filme “Casablanca”, que me transportou a um passado que eu
não conhecia, mas mais uma vez imaginava.
Do terraço avistavam-se os minaretes colados a um céu claro e com a
luminosidade que anunciava o fim do dia.
Tínhamos chegado ao fim da Europa, ao início de outro continente, num
género de portas escancaradas que a História constantemente atravessou. Aqui se assistiu a um corrupio de povos a
entrar e a sair, palco de guerras repetitivas, de luta pelos estreitos. Foi por aqui que a Europa começou a
descobrir outros mundos, ainda antes dos nossos compatriotas rasgarem os mares
e espezinharem o globo por via marítima.
Istambul encerra nas duas margens do Bósforo, esse peso, essa miscelânea
de presenças, marcas e motivações.
Mau grado o nosso entusiasmo, fomos
confrontados com uma má notícia. O albergue estava lotado, repleto. Os turcos, bons negociantes, espertos e
improvisadores, apresentavam o problema mas imediatamente forneciam a
solução:
·
“No rooms available... but the
floor in the corridor is good and cheap”.....
Queríamos nós lá saber se era no
corredor ou no hall de entrada.
Ficaríamos ali a acabava-se conversa.
Cada um estendeu o saco-cama num
cantinho do corredor do andar de cima, com uma naturalidade que hoje me
espanta, e ali ficámos duas ou três noites.
Restaria esperar que nada fosse roubado porque mesmo que as riquezas transportadas
não fossem valiosas, faria diferença não ter uma roupa para mudar de vez em
quando, ou outra para dar um ar de graça numa saída para jantar - mesmo que,
naquela altura, aquilo que para nós significava “dar um ar de graça” era muito
pouco. Despreocupados, como sempre, abandonámos os haveres nas instalações de
porta aberta e percorremos Istambul, da forma que sabíamos, sofregamente e sem
preocupação de longas paragens ou reflexões.
E ali, mais que em qualquer outro lugar, bastava olhar em redor, sentir
os cheiros e passear no bazares para
nos sentirmos realizados.
As
caminhadas em Istambul foram sempre delirantes, quanto mais não fosse pelo
contraste e familiaridade que se cruzavam tão frequentemente.
Com os amigos que arrastámos desde
Belgrado demos voltas infinitas, atravessámos para várias margens, comprámos
iguarias e marroquinarias. Muitas vezes
separávamo-nos para justificar os ritmos diferentes de cada um, mas sem dúvida
que os melhores momentos eram passados em conjunto, em confusão e na dependência uns dos outros.
Uma das vezes decidimos atravessar
para a outra margem a bordo de um
género de cacilheiro, que decerto traria uma imagem única da cidade. Antes da
partida, uma pequena embarcação, que dançava ao sabor do movimento das ondas,
oferecia ao transeuntes um “gourmet local” que consistia num peixe assado na
altura, encavalitado num pedaço de pão.
A ideia pareceu-me excelente, assim como todas as outras propostas
culinárias, por muito estranhas que parecessem, que iam aparecendo ao longo da
viagem. Rendi-me ao convidativo momento
e engoli aquilo que me pareceu “exquisit”. Com a barriga satisfeita e a
curiosidade também, partimos na curta viagem marítima para a outra margem.
Decorriam as habituais fotografias
turísticas no varandim da embarcação, quando sinto a primeira sensação de mau
estar. Sorri forçosamente, como sempre
faço quando descubro alguma anormalidade física, tentando ignorar os sinais que
o meu corpo me dá num pedido de socorro.
Três minutos depois, tive de responder à solicitação e abandonei
calmamente a comitiva, forçando a normalidade e sem poder sequer sussurrar três
palavras que explicassem a razão da minha retirada compulsiva do desfrute da
paisagem e da companhia.
Lentamente, para não dar excessivas
esperanças ao pedido de socorro que
tinha sido feito pela minha anatomia, procurei tolerantemente um lavabo,
WC, toalete ou qualquer coisa que indiciasse existir uma casa de banho naquela
maldita embarcação. Certamente já me
encontrava roxo no desespero da minha incapacidade de perguntar e muito menos
de encontrar o maldito canto para pôr fim àquilo que para mim era o FIM DO MUNDO, o APOCALIPSE.
As cólicas tinham-me transformado numa espécie de mina
anti-pessoal que a qualquer momento poderia causar estragos irreversíveis para
a minha reputação. Estava
verdadeiramente em pânico, possuído por insuportáveis suores frios e em “fase
terminal”. Com os minutos que tinham
passado, percebi, na minha demência circunstancial, que o barco se aproximava
lentamente do seu porto de chegada: É a
minha salvação - pensei eu em desespero de causa. Corri para a extremidade do
barco e dei o salto maior da minha vida, de mais de 4 metros -
alcançando certamente os mínimos olímpicos - e sem dar por isso, estava em
terra firme, ainda mais abalado com o pulo que tinha dado.
Faltava agora ultrapassar a última
etapa. Corri furiosamente para tudo o que tivesse a aparência de um café
susceptível de me proporcionar aquilo que mais desejava. Esgazeado, calcorreei as redondezas enquanto
os turcos me perseguiam com olhares inquisidores.
Se me tivessem oferecido o Totoloto
naquele momento, juro: Não
aceitava!!!!!!!!!
Cinco minutos depois, que me pareceram
dias, encontrei uma casa de banho pública, à turca, com o suficiente para exorcizar
o diabo que encerrava no meu corpo: um buraco no chão e uma porta. Chegavam ao fim os piores momentos da minha
vida.
Estive certamente duas horas encerrado
naquele cubículo, onde perdi quilos intermináveis e onde, de cócoras, esperava
impacientemente para o culminar do meliante suplício. Naqueles momentos não sabia quem era, onde estava ou com quem
estava. Profundamente concentrado no
alívio que gozava e na resolução do meu problema, perdi-me da mim. Aquilo tinha
de acabar, mesmo que durasse tempo. Por
isso esperei.
Terminado o episódio... devolvi-me a
consciência e procurei raciocinar.
Tinham passado tempos sem fim e eu
tinha de rapidamente de (re)juntar-me aos outros, que estariam, ambicionava eu,
à espera no cais de chegada da maldita embarcação. Dirigi-me ao local onde
deveriam estar e, conforme me aproximo, identifiquei uma azáfama e um
aglomerado de gente. Lá estavam os meus amigos que inicialmente me olharam com
uma tez esbranquiçada, de uma forma que eu imagino que seja aquela com que se olha
para um morto-vivo.
Primeiro, em silêncio, deram ares de querer confirmar que era eu
aquela figura que se aproximava languidamente, com uma silhueta enfraquecida e
um aspecto repulsivo.
Confirmada a identificação, o Miguel
destacou-se do grupo em espasmos de gritaria e perguntas intermináveis que eu
não sentia forças para responder.
Explicou-me que pensavam que tinha sido atirado ao rio por algum turco
das histórias de terror que nos tinham contado no caminho, ou que simplesmente
teria aproveitado a ocasião para pôr fim à vida. (não me conhece com
certeza). Chamaram a polícia,
revistaram o barco de ponta a ponta e iriam brevemente iniciar a busca
intensiva no Bósforo. Evitei o
acontecimento a tempo com a minha aparição.
Do mal, o menos.
O Miguel preocupava-se com a forma
como iria comunicar o sucedido à minha mãe.
Era essa a sua primeira preocupação antes do desgosto de ter perdido um
amigo na Turquia, no estreito mais cobiçado da Europa em todos os séculos da
sua existência. Revelou-me de seguida aquilo em que tinha pensado, a forma como
iria comunicar à minha mãe:
Hipótese
1
·
Estou sim? É a mãe do Pedro? Ah... ele não está não? Pois... pois... então se
calhar morreu mesmo...
Hipótese 2
·
O Pedro deve estar a caminho de
casa... é que ao pé de mim já não está... diga-lhe que eu depois levo as
coisas!!!! Ele que não se preocupe.
Hipótese 3
·
Estou sim? Não tive culpa... não fui eu que o
matei... Aliás ele sempre me pareceu um
bocadinho depressivo.
Tentei explicar-lhe o sucedido e a falta
de oportunidade de comunicação, a partir do cubículo que me prendeu horas da
minha vida. Depois de caricaturar a
minha existência naquela tarde os gritos deram lugar a gargalhadas estridentes
e ao gozo dos próximos dias.
Simultaneamente, receava que o
mesmo me fosse acontecer nos próximos tempos, no resto do interrail ou para o
resto da minha vida. Felizmente que
não. A indisposição (forma simpática
de caracterizar aquele fenómeno infernal) rapidamente se foi envergonhando e
retomei a viagem de sabores sem que
isso trouxesse mais consequências
XII - Pausa
A imagem do episódio turco, obrigou-me
a interromper a minha divagação sobre o passado. Há algum tempo que não
usufruía daquele momento único na carruagem que adiava constantemente a chegada
a Lisboa. A mistura das duas viagens
confundia-me, como se o presente e o passado se quisessem de repente encontrar
num espaço comum.
A obsessão mútua tinha-se entretanto
agravado. Começámos num corrupio
desenfreado de viagens desencontradas, sempre desencontradas, pelos corredores
das carruagens. Cada um regressando ao
local do crime desiludido com a hesitação que paralisava o outro, que repetia
independente a estratégia. O círculo
vicioso era destruidor.
Eu da minha parte confesso: era
impensável tomar a iniciativa da quebra daquele silêncio mágico, receando que
ali morresse o que tinha nascido há tão pouco tempo, como nos encontros
infrutíferos de há dez anos. Queria
cristalizar o que quer que fosse que se estava a passar e por isso obrigava-me
a envergonhar-me e a evitar o confronto final. Comecei então a pensar nas estratégias para dar continuidade,
para além da viagem, ao acontecimento.
Não era fácil. Qualquer acto em falso deitaria tudo a
perder.
Gritar o meu número do telemóvel no
meio da carruagem carregada de magalas inconscientes e insaciáveis de
disparates, era um risco desnecessário e uma fórmula pouco ortodoxa de fazer
uma declaração. Os militares
incomodavam, aliás, aquele romântico acontecimento:
·
Ó Silva, sabes que o Gomes passou-se?
·
O 747? - perguntou o outro,
certamente o Alves, como se estivesse a falar de um Boeing.
·
Sim, o Gomes!! Aquele que
andava sempre com o Ferreira. Ouve lá,
estive com o Santos, o Oliveira, o Ressano e o Matos que estiveram com um amigo
dele em Tancos, o Marques, que depois foi para a Cavalaria e.... Blá, Blá, Blá Blá....
Aquele ambiente inibia-me... Quaisquer
outros planos imaginados naquele momento pareciam-me ridículos e
humilhantes. Tinha de ser digno,
obrigatoriamente, e fazer as coisas na perfeição sem cair no ridículo do
desespero sentimental. É certo que
estava tentado a ajoelhar-me ao ritmo da locomotiva, fazer uma declaração de
amor e iniciar uma história semelhante à “Insustentável leveza do ser”, mas com
um fim “felizes para sempre”. Mas,
sinceramente, ajoelhar-me não correspondia àquilo que instantaneamente sonhara
para aquele episódio. Por isso continuava a comportar-me ao sabor da minha
existência e dentro das regras do bom senso.
Tremendo por dentro, seguro por fora,
balançando nos pensamentos entre a construção patética de uma história de amor
“à la minute” e as minhas preciosas recordações, ia suportando o “suspense” e a
tensão. Sempre com saudades do passado, saudades também do futuro e sobretudo com a
permanente ansiedade que me cortou sempre a respiração.
Adiante, adiante. Voltemos às recordações que me foram
visitando.
Que chatice.
XIII - Em frente
Istambul
estava também a chegar ao fim. Apetecia
ficar muito mais tempo naquela cidade mágica mas o horizonte exigia a nossa
presença, e nós sempre rendidos, obedecíamos ordeiramente. Istambul ficava para trás, assim como a
turminha que a nós se tinha juntado. As
despedidas, como sempre, foram dolorosas.
Prometemos visitas mútuas, oferecemos a nossa casa, planeámos outras
aventuras, mas sabíamos que, no fundo, nada daquilo que estávamos a planear se
iria concretizar. Era um género de
discurso para adiar um pouco mais a partida.
Dirigimo-nos então para a estação de barcos, para depois apanharmos o
comboio para Esmirna. A ideia era
rumarmos para sul e depois regressar ao Continente europeu através das ilhas gregas.
O fim da
tarde foi a melhor altura para nos separarmos de Istambul, pelas cores que nos
eram oferecidas à despedida. Ao longe a
ponte maior da cidade, a outra margem, e as cores oferecidas por aquele
instante. Todo o conjunto de sensações
entregavam à minha imaginação a comparação com a minha cidade. Lisboa podia ser aquilo. De repente aquele pôr do sol transportava-me
vertiginosamente a casa, por instantes.
Entusiasmados com a naturalidade com
que tudo acontecia começámos a reparar mais uma vez em olhos que nos
circundavam. Nem havia uma hora que
estávamos outra vez sozinhos e já nos cobiçavam a companhia. Assim começou mais um encontro, mas de um
outro género. Os nossos interlocutores
eram uma família inteira: pai, mãe, 2 filhas e o filho mais novo. Elas entregues à circunstância estavam
condicionadas, mas nem por isso disfarçavam a curiosidade atrás de um par de
óculos de sol. Acabámos claro por,
minutos depois, nos envolvermos em animada cavaqueira sob olhar desconfiado dos
progenitores. Eram israelitas e estavam
em férias de família. Eu e o Miguel
estávamos fascinados com a beleza das adolescentes rabis. Rapidamente me esqueci da experiência
traumática que tinha vivido com o exemplar fundamentalista em Budapeste, e
rendi-me às evidências. Ila, a mais
velha, era morena e tinha uns olhos assustadoramente azuis. A sua pequenez era o único defeito, se o
era, que se lhe poderia apontar. Keren,
a mais nova, era loura, cabelos compridos e muito sedutora. Eu e o Miguel
tínhamos, ainda antes de nos conhecermos, feito as partilhas. A morena ficaria para mim, a loura para
ele. Sem discussões, sem brigas, o
assunto ficara resolvido.
Rapidamente fomos conquistando
admiração, até do resto da família.
Infelizmente, pensámos nós, aquela circunstância rapidamente iria
desaparecer já que cada um tinha o seu destino. Os israelitas assentariam praça em Çesme, uma terra para nós
desconhecida, e nós pararíamos em Izmir. Creio que naquela altura Izmir era o
último ponto alcançável com o interrail e Çesme era ligeiramente mais longe.
Com o nome da terra, para onde iriam
ser soterradas as nossas recentes conquistas, gravado na memória, despedimo-nos
mais uma vez.
Este obrigatório momento, presente em
todas as nossas aventuras, estava a incomodar-me profundamente. A despedida constante a perseguir cada
minuto daquela viagem tornava-se sufocante e castrador. Mas tinha de ser e fomos obrigados a
fazê-lo.
Claro que em Izmir fiquei embriagado,
como estou agora, com o coração em carne viva por causa da minha
israelita. Não podia ser, disse ao
Miguel, se calhar era ali que estava a minha felicidade e tinha
obrigatoriamente de ir a correr atrás dela.
Como vêem as coisas não mudaram muito dez anos depois.
O Miguel, que não tinha cumprido a
promessa de se fascinar e se apaixonar pela loura, deixou-me isolado num
espernear desaustinado.
Depois de ter revelado o meu
sofrimento genuíno lá consegui convencê-lo.
Iríamos, depois de Esmirna, ao encontro”da minha vida inteira”, na Çesme
desconhecida.
Já no comboio o meu estado de espírito
era preocupante:
·
Oh Miguel? Já alguma vez
sentis-te esta profunda apelação do destino, com um interminável sabor a
desespero e decadência? Já alguma vez percorreste esta amargura da inconstância
amarrada à frenética imensidão do prazer incólume.
·
Estás parvo ou quê?
·
Não, Miguel... falo-te da
incerteza que te pode levar ao abismo da necessidade impune que adormece na tua
alma e te desfaz a consciência!!!!!
·
Estás a passar-te concerteza...
E estava mesmo.
Aquele calor fazia-me delirar. Brincava assim com palavras mas aproveitando
assim para entreter o meu sufoco e dizer, ao mesmo tempo, no fundo o que sentia.
Esmirna, ou Izmir, impressionou-me
pela sua gigantesca densidade populacional.
À chegada fomos confrontados com a imagem de pequenas montanhas que se
encavalitavam carregadas de gente, de casas, de amontoados de betão que
impediam identificar um pedaço de terra que fosse. Verdadeiros formigueiros humanos, dos quais fugimos
rapidamente. Nada daquilo afinal tinha
algum significado perante a grandeza daquilo que eu sentia. Um entusiasmo que me fazia depender daquela
circunstância. Não preciso dizer que
continuei assim nos anos seguintes, perseguindo pistas, escravo de vagas
esperanças e agarrado a coisas
simples. Não eram obrigatórias razões
fortes, bastava apenas uma intensa impressão que indiciasse destino para que me
rendesse, ajoelhado, á espera de concretizações. Tanto fui assim que forcei o tempo.
Naquela altura, no entanto, ainda não
tinha a sensação repetida da sua inevitabilidade e, no fundo,
irreversibilidade. Por isso pouco
importava a impulsividade que dominava todas as minhas atitudes. Jamais existirei sem esta forma de encarar
as coisas.
XIV. Ao
encontro
O autocarro para Çesme sofria mais que
os passageiros, que já de si exasperavam em tumultuosos suores de calor e
impaciência. Sentia-me viajar no
Egipto, como imagino que seja o Egipto, ou no Sudão, como nunca vou imaginar o
Sudão.
A viagem parecia interminavelmente
duradoura. Demasiado, aliás, para as
forças que tinha reservadas para aquele momento. De tal forma era o desespero que a percepção de chegada foi
atenuada pela incapacidade de reflexão a
que tínhamos sido obrigados.
Abandonámos finalmente o transporte com dois desafios pendentes: o primeiro era encontrar o local de pernoita
e o outro, e o mais importante, era encontrar as nossas israelitas com quem não
tínhamos marcado encontro, porque, para os dois lados, nós tínhamos
desaparecido para sempre.
Relativamente ao primeiro, já
estávamos habituados. Procurávamos o
mais barato, o mais simpático, e em Çesme também foi assim. Longe do centro e da barafunda turística,
ficámos instalados numa casa turca típica, com um agradável pátio que dava a
paz de espírito que precisávamos. O ideal para terminar o périplo turco.
O segundo desafio revelava-se bem mais
meticuloso e imprevisível. Çesme não
era assim tão pequeno e a tarefa seria certamente espinhosa. Sem desesperos, continuámos nas gargalhadas
da nossa viagem. Não valia a pena
desesperar, porque esse era um inimigo sempre indesejável. Decidimos então, depois de aperaltados para
o jantar, o que para nós era um banho fresco e revitalizador, seguir em frente
pelas ruas de Çesme, mais à procura de caras do que propriamente com o ensejo
de conhecer os “cantos à casa”. Depois
de estudadas muitas ementas e de termos escolhido o jantar mais económico,
decidimos reconhecer o terreno, já sem preocupações de maior. Eis senão quando, aquela última despedida
para sempre tinha sido em vão. Ali
estava a família israelita completa, como a tínhamos deixado em Esmirna. Delírio total. Tinha resultado toda a imaginação a que me tinha entregue nas
últimas 72 horas. Para desconcerto dos
pais, e nosso regozijo, a festa que nos foi feita foi digna de
celebridades.
A partir daquele momento mágico os
dois dias que nos restaram juntos foram indiscritíveis de bons, de inocentes e
de espontâneos. Devia ser sempre assim.
A Ila era uma adolescente
fantástica. E eu digo adolescente, não
no sentido depreciativo, mas no melhor que possa existir. Quem sabe se não era eu que tinha
abismalmente saltado a minha própria adolescência e me agarrei a uma fase que
não era a minha. Apesar de ali estar
senti-me sempre culpado, porque mais adulto, mais longe do que eu próprio
poderia imaginar.
Apesar de tudo, eu e Ila jurámos amor
para sempre. Com as palavras fáceis que
momentos únicos conseguem arrancar. Sem
elaborar e sem reflectir demasiado
sobre o seu profundo significado ou sobre as consequências de tais
juramentos.
A sua beleza implorava-me fidelidade e
eu, voluntariamente, rendi-me a essa ordem natural das coisas. Não valia a pena imaginar o tempo que iria
durar o momento.
Durante dois dias “namorámos” como se
namorava nos anos oitenta. Ia buscá-la
a casa e à hora certa acompanhava-a de volta, com os pais à janela, com cara de
poucos amigos. Tivemos por isso que
sair também com a família inteira e subornámos o irmão mais novo com voltas no
carrossel e carrinhos de choque, de tal forma que ficou cúmplice da nossa
relação. Tudo isto em apenas dois dias.
Na última noite admirámos a lua,
apertámos as mãos até nos magoarmos e olhámo-nos em silêncio. Foi assim que nos despedimos... desta vez
para sempre.
XV- A Grécia
Concretizámos aquilo que já estava
decidido. Apanharíamos o “ferry-boat” de
Çesme para a ilha mais perto: CHIOS. O diferendo greco-turco, que nos tinha
recebido na fronteira entre os dois países, iria estar presente também na
despedida. Só isso explicaria que o
preço da viagem, que não durava mais de uma hora, iria ultrapassar os 40 dólares. Devo dizer que esta quantia, na altura, era
uma exorbitância, uma barbaridade, só justificável pelo amuo histórico daqueles
dois países.
Chegados à ilha ficámos satisfeitos
com a recepção.
Depois de instalados, percebemos que
não éramos os únicos a explorar aquele paraíso, mas também os ingleses,
alemães, holandeses, suíços, suecos, islandeses e outros, estavam fortemente
representados, para nosso grande desgosto.
A capital da ilha estava, por isso, repleta de turistas que à noite faziam
o clássico percurso da rua principal, para cima e para baixo, à moda de Faro.
Era urgente fugir e rapidamente o
Miguel arranjou alternativa. Poderíamos
alugar umas motos e percorrer os encantos da ilha desconhecida. Calei-me, embora receasse o pior resultado
daquela magnífica(??) ideia. Para além
de nutrir uma aversão especial àquele género de meio de transporte, sabia já na
altura que os meus dons de motorista de qualquer veículo a motor não eram os
mais aconselháveis. Tremi por dentro
mas heroicamente fingi satisfação pela ideia inovadora do Miguel. Oba, Oba,
diria eu no meu vocabulário actual. Que
viessem as motos e depois logo se veria quais seriam os resultados.
Durante três dias, vivi uma espécie de
“Verano azul”, versão grega. A ideia
tinha sido, de facto, fantástica. As
paisagens daquele paraíso que se iam descobrindo no percurso montanhoso eram
esmagadoras. Praias paradisíacas,
pequenos restaurantes à beira mar, aldeias medievais abandonadas. Verdadeiros postais fotografados pela aventura
motoqueira.
Quanto à minha experiência com a moto,
tenham paciência mas, não a repito.
Inúmeras vezes perdi o Miguel de vista, pensando que iria ser
encontrado, já em estado de caveira e de roupa colada aos ossos, tal era o trânsito
nos sítios por onde andámos. Não se via
vivalma por aquelas paragens ao longos de quilómetros e quilómetros.
Caí na terra e no asfalto e percorri
quilómetros a recolher mercadoria que ia espalhando sem dar por isso. Esfolados, eu e a moto, vivemos intensamente
aqueles dias... entreguei a criatura
feita num oito, um caco, ao infeliz explorador do negócio.
No dia seguinte o pobre do homem
deverá certamente ter colado um cartaz à porta da loja, com uma menagem deste
tipo:
“Alugam-se motos, sim...
mas apenas depois de pequena demonstração da capacidade física e mental
para suportar o desafio!
Não aceitamos portugueses!”
Eu e a moto, despedimo-nos também para
sempre. Motos nunca mais. Esta, aliás, poderia muito bem ser a minha
atitude para com os automóveis, mas apesar de tudo era uma solução
radical.
XVI - Duelo
Final
Nesta altura tive de regressar à
realidade, obrigado pelo inconsciente.
As coisas começavam a acontecer sem dar por isso.
Santarém, Vila Franca....
De repente a lenta e longa viagem
transformava-se num rápido transporte avançando para o seu destino a um ritmo
alucinante. Os nossos olhos colavam-se
perdidos. Repetiu-se desenfreadamente o
sentar e levantar das cadeiras mais uma vez desencontrado. Não havia solução, tinha de ser eu a tomar a
iniciativa, respeitando a tradição, que afinal ainda é o que era. Decidi pegar na mala de viagem e simular uma
arrumação improvisada. O que queria
realmente era encontrar uma lapiseira, rapidamente, sem ninguém perceber. No escuro encontrei uma lapiseira e no
próprio bilhete do comboio, ainda dentro da mala, rabisquei o número do maldito
do meu telemóvel. Nervoso, tremia os
números... Não havia tempo a
perder. Agora só faltava arranjar uma
forma de, discretamente, lhe entregar o maldito recado. Nessa altura já tinha perdido a noção do bom
senso. O meu coração batia
insistentemente conduzindo-me ao sufoco final e a temperatura do meu corpo
oscilava entre o gelo e o fogo.
Troquei de lugar para ficarmos lado a
lado, sem a distracção dos olhares e comecei, do seu lado, a mostrar
descaradamente que tinha um papel para entregar ao destino. Durante minutos intermináveis repeti o
exercício. Esbracejei como nunca.
Esperava que ela tivesse percebido.
Ainda antes da Estação dos Olivais, levantei-me.
Tinha de pôr fim àquele sufoco. Virei-me de costas e ela, do seu lado, fez a última
tentativa. Foi ao corredor onde eu
antes já tinha esperado por ela...
Percebi que era a sua última tentativa de entrar em contacto comigo. Mas eu estava confiante naquele meu último
plano, com a certeza que iria resultar e, na verdade, não consegui
mexer-me. Esperou em vão e regressou.
Concretizei então o golpe final. Com os movimentos estudados, agarrei-me ao
manípulo do seu banco com o bilhete onde tinha rabiscado o número do meu
telemóvel por entre os dedos e, discretamente, abandonei o bilhete, ali.
Respirei
fundo. Tinha cumprido, pensava eu, a minha difícil tarefa. Silêncio, espera... o comboio aproximava-se
da gare de Santa Apolónia. Era o fim da
viagem.
Dirigi-me à porta de saída mas pensei
regressar, com a carruagem já vazia, para saber se o papel tinha sido
recolhido. Afinal, lá estava... intacto, sem sinais de ter sido sequer
mexido. Não tinha servido para nada a
minha ginástica. Vazio total. Fiquei furioso. Quem teria afinal falhado??? Eu? Ela? Teria ignorado aquele que
era o único ponto de contacto? Não viu? Não fui suficientemente explícito? MAS AFINAL QUEM É QUE ERROU?
Senti-me por momentos traído. Não estava a perceber porque é que ela se
tinha entregue àquele exercício de conquista absoluta durante horas a fio, se
desistiu tão rapidamente.
Só me restava estar ali no mesmo sitio à mesma hora, na
semana seguinte. Tinha de o fazer.
Regressei a casa sem um pingo de
sangue. Tinha de distrair-me e
adormecer, porque no dia seguinte começava a lufa lufa de mais uma semana de
trabalho.
Para enganar a fixação tinha de
continuar nas minhas memórias de há dez anos.
Só assim podia esperar paz de espírito.
XVII -
Adormecendo
Do resto da outra viagem já não me
apetecia lembrar. Não porque não
tivessem ficado memórias depois de Chios, mas simplesmente porque não tinha
motivação. Obriguei-me no entanto ao
penoso exercício.
Estava então em Atenas, a capital que
mais me desiludiu. Àquela cidade
monstruosamente histórica, faltava a sensualidade que tínhamos descoberto em
Chios. Percorremos por isso o
essencialmente obrigatório. Primeiro
seria o Parthenon. Um “must” do tour de
Atenas. Subimos pesarosamente a
montanha que nos ofereceria a vista mais magnífica da cidade. Chegados ao topo, lá estava uma das
maravilhas do mundo. Se calhar era a partir da visita ao Parthenon que eu me
iria apaixonar, por isso decidi que tinha de entrar no monumento, custasse o
que custasse. O Miguel já tinha
decidido - de fora estava visto. Tudo porque o dinheiro começava a escassear e
a entrada no Parthenon significava dois dias de sobrevivência. Não me impressionei, habituado já às
almoçaradas de enlatados e fui sozinho.
Orgulhoso pela minha atitude, paguei o
ingresso, que custou os tais olhos da cara, e
segui em frente. Decidi
organizar-me, coisa que na minha vida privada é um verdadeiro achado, e
arquitectei a minha visita. À entrada
avistei um anfiteatro grego, e pensei que deveria começar por alí a minha
criteriosa exploração, depois faria o resto do percurso sempre de forma
ordenada. Assim foi. Dirigi-me ao anfiteatro onde absorvi cada
pedra ali colocada pela história. Dei meia volta satisfeito com o que tinha visto
e continuava o trajecto, quando fui, repentinamente, bloqueado por um grego
assustador. Não estava a perceber nada
daquilo. “Ó senhor deixe-me passar,
Afeharistoh”, gritei eu entre o Inglês e o grego, desesperado com a atitude do
anfitrião. O sujeito, decidido, retorquiu alguma coisa que não posso
precisar bem o quê. Mostrei-lhe o
bilhete. E nada. Eu simplesmente não queria acreditar no que
me estava a acontecer. Era impossível
estarem a barrar-me o caminho quando eu tinha pago dois dias da minha
sobrevivência. O camelo, percebi eu
depois, estava a explicar-me que eu tinha saído do recinto, logo depois de ter
entrado. Enraivecido, chorei de raiva.
Aquelas lágrimas inundaram para sempre as minhas recordações de
Atenas. Aquela cidade estaria eternamente
afundada na minha memória. O Miguel
gozou-me o resto do dia. Eu queria
fugir rapidamente daquele sítio que me tinha, no fundo, ludibriado. Vamos embora rapidamente. Veneza deverá compensar a minha desilusão.
De facto Veneza fez-me renascer da
minha frustração. Aquela sim era a
minha cidade. A história, o romantismo
e a harmonia arquitectónica tinham-me conquistado. O resto da viagem já não importava.
Depois de Veneza, Mónaco - onde
reencontrámos surpreendentemente as nossas amigas mexicanas, Nice e
Barcelona... era o fim da viagem... o pior dos percursos: o regresso a
casa. Talvez por isso eu e o Miguel
tivéssemos saído numa terriola qualquer no Alentejo, fartos das locomotivas, na
esperança de à boleia chegar mais depressa a Lisboa!!! Qual quê.
Dormimos ao relento e só dia e meio depois conseguimos chegar a
casa... fim do meu Inter-Rail...
Agora sim.... estava quase a adormecer, extenuado com as
duas viagens simultâneas.
XIII - Dia
seguinte
Eu sabia que aquela obsessão me iria
perseguir não sei quanto tempo... como aliás aconteceu. Segunda, Terça
Quarta-feira... continuava a pensar na mesma coisa. Quinta-feira lembrei-me de repente que, no Jornal Ocasião,
existe uma secção que eu sempre considerei a secção do desespero, com pequenas
mensagens do género:
Tu que estavas naquela Quinta-feira à
porta do Banco Nacional Ultramarino e me olhastes(?) com firmeza responde pela
mesma via. Tinhas umas sandálias de
tiras e meias elásticas com motivos.
Não penso noutra coisa e isto assim não é vida.
Ou:
Olhar. Anónimo. Sentimento brusco.
Paixão celular. Diz-me quem és que eu
pago o preço do anúncio. Nesta secção fico à espera adormecida.
Eu sei que é caricato comprar o jornal
para me deparar com uma coisa destas, mas faz parte da obsessão enlouquecedora,
e eu, já estou por tudo. E nestas alturas sou imparável.
Estou já no dia seguinte, a dois dias
do encontro imaginado por mim, e comprei o maldito jornal. Mau grado a esperança e a minha vontade,
nenhum dos desabafos da “secção do desespero” se encaixava na situação do
Domingo anterior. Senão vejamos:
À ex-namorada do Céu, Bobadela,
Cabeceiras de Basto. Por favor gostava
tanto de te ver....
Afastado à partida. Próximo:
Nina, na mesa de cabeceira uma vela
acesa + bíblia. Porquê e para quê?
Gostava de obter resposta. Z.O.
A esta altura já me tinha arrependido
de ter comprado o jornal. Ainda para
mais, perante este drama existencial do jovem Z.O.. Porque raio, agora pergunto eu, teria a Nina uma bíblia e uma
vela acesa na “mesinha de cabeceira”????
O meu singelo conselho ao amigo Z.O., já agora, é dar uns comprimidos
valentes uma noite destas à rapariga, apagar a velinha, e sair para sempre.
O resto do desabafos não merecem
menções honrosas, porque iguais ou ainda mais místicos e confusos. Mas não os posso condenar e o que interessa
verdadeiramente é que nenhum se encaixava à minha pessoa. Ora bolas!
Mas como a esperança é a última a morrer, espreitei o horóscopo daquele dia,
que me incitava a não desistir:
“A
sua vida afectiva poderá conhecer melhores dias se der um passo. Favorável a
deslocações” !!!
Apesar do periclitante condicional, do
“poderá”, era fantástico. Encaixava-se
tal e qual à minha situação se pensasse que o passo seria a minha decidida
presença na estação da Santa Apolónia
com a deslocação incluída. Nada melhor que uma mensagem fútil da
astrologia que se encaixa à nossa realidade, para sentir forças para seguir em
frente. Era isso mesmo, iria dar os
passos que considerasse necessários.
Estou imparável!!
Chegou entretanto o jornal da
tarde. E não percebo nada disto. Para o mesmo dia para o mesmo signo outra
mensagem da horoscopia: “Ficará desapontado, mas não terá assim tanta
importância para a sua vida quotidiana.
Não viva tanto no passado.” Que
se lixem os signos. Anda um indivíduo
entretido a pensar no grande encontro, embrenhado nas suas curtas memórias, e
um astrólogo qualquer aparece para lhe tirar o tapete e dar conselhos
suicidas....????? vão mas é trabalhar
que nem acredito em nada disto.
XVIII - Fim
da viagem
Ai estava o dia de todas as decisões. De repente tudo iria acabar em bem ou em
mal, ou em coisa nenhuma. Não
importava. Era preciso acabar com a
história, com a imaginação de uma semana.
Preparei-me como se de um grande dia
se tratasse. Acordei com o suspiro
típico de uma noite de sonhos expectantes e em breve percorri a história, que
já se tornava escassa para os sete dias da semana anterior. Já não havia mais nada a pensar. Estava
esgotado o assunto e só a noite poderia renovar a expectativa e transformar a
decadência em nova rota ascendente. Não
tinha dúvidas sobre a “missão” que tinha de cumprir. Seria o tudo ou nada.
O dia rapidamente se juntou ao meu
entusiasmo e passou rapidamente. Estava
na hora de reavivar a estratégia delineada para a batalha final. Iria definitivamente à estação do Oriente,
tentar apanhar o Interregional que na semana passada tinha partido da Foz Às
18:23. Depois simularia que tinha feito
a viagem tal e qual como na semana anterior.
Passaria a pente fino o comboio e caso nada encontrasse esperava que
tudo se passasse na gare de Santa Apolónia.
Era assim que tinha pensado e seria assim que concretizaria o plano.
Chegado à estação do Oriente,
deparei-me com as primeiras dificuldades.
Foi difícil convencer as criaturas da CP que queria deslocar-me a Santa
Apolónia exactamente no interregional que partia da campanha mais ou menos às
18:15. Ninguém me percebeu
inicialmente. Queriam-me mandar para o
Porto ou conduzir-me a um comboio qualquer para o final da linha.
Desesperei. Inventei que o motivo da
minha obsessão era uma surpresa a uns amigos que vinham naquele comboio. Sorri nervoso, como um miúdo que mente, e lá
me deram a informação. “Ah já
percebi. Está atrasado 5 minutos e vai
dar entrada na linha 8”. Até que enfim
tinha conseguido a informação correcta.
Valha-nos isso.
È evidente que o comboio estava muito
mais atrasado que isso e a espera
prolongou-se por mais meia hora.
E que meia hora. Nem o facto de
ser a primeira vez que estava naquela magnânima Estação do Oriente me aliviava
o espírito. Tinha já pensado e
fantasiado demais para permitir imprevistos deste tipo. As coisas começavam a correr mal e eu
iniciava já o meu processo de auto-punição para me preparar para o pior. Comprei águas, muitas águas e corri vezes
intermináveis para a casa de banho para entreter as pernas e reparar a figura.
Depois da espera avistava-se finalmente
o maldito comboio na tal linha 8.
Esperei de costas voltadas, não sei bem porquê, e entrei perto das
últimas carruagens.
Tinha agora que efectuar a primeira
parte do meu plano. O percurso do
revisor. O cenário da última semana
repetia-se: muitos magalas, gente qyue foi de fim de semana, caras de cansaço,
mas ninguém que tivesse ar de estar a viver uma história igual à minha de há
oito dias. Que bom para todos.
De olhos abertos percorri as não sei
quantas carruagens até não haver mais lugares. Até não haver mais caras, mais
sinais de vida. Esperei pelo esvaziar
das casas de banho e também nada.
Sem sinais da minha Julieta pensei que não era desesperante o
facto da primeira parte do meu plano estar esgotada.
- Afinal nunca tinha imaginado que o
encontro se desse na carruagem do comboio - justificava-me para não desistir
daquela minha fúria e continuar em frente já que estava na fase final.
Rapidamente chegámos a Santa
Apolónia. Era ali, naquela gare, o
sítio ideal para um reencontro. Digno
de um filme da década de 40, com o fumo do vapor da locomotiva, o reencontro de
duas vidas que foram feitas para se encaixar.
Aquela Estação poderia ficar marcada para sempre. Mesmo que nada daquilo tivesse
continuidade aquela estação teria obrigatoriamente de ficar gravada para
sempre.
Desci irritado com a fertilidade e o
abuso da minha imaginação. Estava a
viver o suspense final. Era preciso
calma. Jogava-se naquela plataforma o
enlatado de sentimentos, de esperança e motivações de uma semana inteira.
O silêncio era atordoador. Caminhei lentamente para absorver os últimos
segundos da minha aventura. Estaria
mais à frente concerteza. Mais à frente
ainda, ou mesmo no hall central, ou nas laterais... talvez esteja nas
informações? Ou terá ido à casa de
banho? Esgotei freneticamente todas as
possibilidades. Corria enlouquecido por
todos os cantos do edifício até estarem esgotadas as mais ridículas
possibilidades.
Dei meia volta e ainda fiz o percurso
contrário, como quem espera alguém que acabara de chegar naquele comboio do
Porto. Talvez não tivesse visto.
Esperei até ao último passageiro. Esvaziou-se tudo. O Comboio, a estação e até eu.
Engoli em seco e disfarcei a raiva de
quem tinha perdido, em vão, horas a fio.
Convenci-me que só estava ali para acabar as memórias que me tinha
proposto escrever. Só por isso.
- Como é que eu poderia acabar aquilo
que tinha começado a escrever se não estivesse ali, à espera daquele comboio?
Corri para casa para terminar aquilo
que tinha de ser terminado. Mais uma
vez era preciso encerrar o assunto, exorcizando-o através da escrita, para
ficar definitivamente resolvido.
Acabava-se o sufoco e o desespero.
Ansiava por esse regresso à normalidade, à monotonia a que já me tinha
vindo a habituar.
Afinal o Horóscopo, o segundo daquela Quinta-feira, é que tinha
razão... Foi tudo afinal
desilusão.
Mais uma vez, ficam só as
memórias. Do Inter-Rail, das viagens sem “happy ending”, dos olhos
azuis...
Talvez um dia escreva só e só sobre olhos azuis. Talvez então nos
cruzemos outra vez.
Agora mais que nunca tenho a certeza
que deveria ter começado estas minhas memórias assim:
“Estou
decidido. No próximo Domingo,
definitivamente, não vou lá estar. Não
admito entregar-me aos desígnios do destino que se tem negado, de forma
ostensiva e provocatória, a apresentar-me a minha alma gémea. Não estou sequer
preparado para o que vai acontecer, que é nada. Tudo porque jamais suportarei a corrosiva e incómoda desilusão do
vazio. Ponto final.”
Ou eventualmente não deveria ter
escrito nada. É isso esqueçam tudo o
que eu disse. Não dêem importância a
todas as palavras escritas e nem acreditem no que foi dito.