Existe uma velha história chinesa segundo a qual um grupo de cegos encontra um objecto
misterioso. Cada cego agarra uma parte do objecto e diz do que se trata. Um diz
que é uma coluna, outro diz que é um cavalo, outro diz que é um barco, outro
diz que é outra coisa, e por aí fora. Reza a lenda que afinal esse objecto era
um elefante.
Esta história ilustra bem a falácia comum da
racionalidade analítica em variadíssimos
problemas sociais, e muito particularmente na ‘droga’. Tal como os cegos da história não
conseguiram vislumbrar o elefante no seu todo, também não foram capazes de
identificar correctamente as partes do objecto no seu contexto, criando imagens
ilusórias de objectos totais. Deste modo, cada área de especialidade “agarra”
uma parte distinta do “animal” e, sem comunicação entre si, acaba por não
conseguir ter uma ideia do todo. Por isso é normal ouvir versões tão diferentes
do “animal”, e soluções tão diferentes para o controlar. Pensa-se que ele, por mais complexo e
difícil de enfrentar que seja, pode ser resumido a um reduccionismo que
distorce a visão da realidade. O facto é que, enquanto visões de objecto parcial,
as soluções acabam por se tornar inadvertidamente noutros problemas.
Este ‘drama’, porventura altamente lucrativo para alguns
sectores significativos do tecido social, multiplica-se geometricamente quando
se abre o debate para os cidadãos “leigos”. Cada pessoa tem a sua opinião,
muitas das vezes crédula, sobre o “animal”. Por mais desconhecedor que seja das
várias áreas hiper-especializadas, a mera “apalpadela”, pela sua experiência
subjectiva, permite-lhe ilusoriamente declarar que tipo de “coisa” é essa a
“droga”, e qual a solução inequívoca para a controlar. Dada a incapacidade de
controlar o objecto, cada vez mais (des)conhecido porque paradoxalmente mais
fragmentado e hiper-especializado nas suas múltiplas dimensões, cria-se a
ilusão de tudo ver num pormenor.
É certo que existe já uma tendência para a integração dos
saberes fragmentados sobre a ‘droga’, aquilo a que Agra chamou de ciência do comportamento aditivo[1].
É na senda deste tipo de atitude científica que nos interessa prosseguir.
Parece-nos relevante para os profissionais, confrontados que são amiúde com
vidas fragmentadas nas várias dimensões biopsicossociais do sujeito
toxicodependente, permitindo-lhes abarcar os problemas de uma forma mais global
e comunicar mais facilmente com profissionais de áreas diferentes.
Até ao final do século anterior houve um pólo unificador
ao nível das atitudes: a ênfase na redução
da procura de drogas, concertada (ou mesmo conluiada) aos níveis legal,
médico e psicossocial, alicerçada que estava no a priori proibicionista e na simbólica do interdito radical.
Presentemente o tabuleiro mudou; a ênfase na redução de riscos[2]
do consumo de drogas faz descalçar pilares de práticas e esquemas de pensamento
que estão automatizados, apesar de questionáveis em termos de eficácia, e
catalisa contradições e novos questionamentos teóricos, práticos e éticos, que
se encontravam anestesiados pelo anterior paradigma. Por isso tivemos a ideia
de fazer este livro; o objectivo chave é contribuir para a obtenção de uma
imagem mais realista do “animal” em movimento, juntando no mesmo volume
especialistas de um espectro amplo de áreas pertinentes, que vão da
farmacologia à política, passando pela reabilitação, investigação, sociologia,
direito e economia.
Algumas
considerações sobre a “droga” como objecto-total
De facto, o fenómeno toxicodependente tal como o conhecemos
nas sociedades ocidentais e em Portugal, é um problema que pode e deve ser
pensado como simultaneamente macro-social,
de grupo e individual, cada um dos níveis requerendo soluções e tratamento
específico, de forma integrada. Nele se encontram factores individuais,
familiares, económicos, políticos e civilizacionais. Tecemos em seguida algumas
considerações, que são hipóteses de trabalho para a exploração do enigma da
droga enquanto objecto-total, algumas das quais são inspiradas e/ou exploradas
nos capítulos seguintes do livro, enquanto outras relevam de linhas de trabalho
e reflexão que temos desenvolvido e se encontram em fase de maturação.
Do ponto de vista macro-social parece-nos importante
salientar a conjugação de 1) produção de drogas químicas cada vez mais potentes[3],
2) desmantelamento de sociedades “naturais” onde a intoxicação por drogas está
ritualizada, e por isso integrada no comunitário[4],
e a passagem para sociedades “artificiais”[5]
e individualistas, nas quais a “salvação” e a “perdição” já não se centram em
Deus/demónio e no poder da Fé, mas sim na química legal/ilegal e no poder do
Económico. Ou seja, o espaço do sagrado foi tomado pelo profano[6],
e a iniciação nos mistérios do espaço interior (que abre para a comunidade), deu
lugar ao consumo das evidencias do espaço exterior (que fecha no indivíduo); e 3) a
contradição insanável, tantas vezes inconsciente, de um proibicionismo de cariz
bélico, baseado na moral puritana norte americana, mas que acaba afinal por
contribuir para o lucro imenso de economias paralelas de crime organizado que
corrompe as mais altas instâncias...[7].
Gerou-se um equilíbrio geoestratégico paralelo à escala global em torno das
drogas proibidas, sua produção e distribuição[8],
o qual engendra pressões para o seu
consumo e escoamento, com um poder semelhante ao que existe, por exemplo,
na venda ilegal de armamento para escoar seus produtos.
A “guerra às drogas” acentuou a clivagem entre a figura do
toxicodependente e os restantes indivíduos, ao confundi-lo com o objecto que se
combate – a “droga” – tornando-o alvo da luta de toda uma sociedade e anulando
o esforço compreensivo das razões intrínsecas ao recurso e dependência de
drogas. Assente num proibicionismo extremo, reforça o valor da transgressão -
factor simbólico do consumo de drogas nas sociedades modernas - e acentua a
marginalização social dos toxicodependentes, visível no estigma de delinquência
associada à adição, que fortalece condutas, o vínculo do toxicodependente à
droga e a exclusão social, factores que, juntamente com o fosso da
pobreza, estão na origem dos “guetos da
droga” e das características que os tipificam enquanto “espaços psicotrópicos”[9].
O reforço dos laços do toxicodependente ao seu grupo de iguais surge então no
decorrer do comportamento discriminativo, que provocou, ao longo dos anos,
numerosas vítimas entre os consumidores, ao negligenciar o valor da sua saúde[10].
A atitude proibicionista dificultou a implementação de uma estratégia
concertada de redução de riscos e
ajudou a desencadear um problema de saúde pública. Um dos aspectos visíveis
deste fenómeno foi a quase exclusividade de investimento no tratamento e
repressão do narcotráfico de baixa e média escala, com o intuito de erradicar a
procura e oferta de drogas, objectivos entretanto não alcançados. A
impossibilidade de atingir tais metas resulta, entre outros factores, da
própria natureza inelástica[11]
da procura de drogas pelos adictos; ou seja, por mais que aumentem o preço e
os riscos legais, existe sempre uma camada da população disposta a comprá-la e
a vendê-la. A este fenómeno não
deverá ser alheio o facto do uso de drogas estar ligado aos mesmos mecanismos
neurológicos de reforço que necessidades fundamentais como a fome, sede, e o
sexo[12].
No entanto, sabendo nós que
num mundo desenfreadamente consumista, as drogas legalmente comerciais (álcool,
tabaco e calmantes[13])
causam substanciais danos à saúde e economia públicas, abstemo-nos de defender
um mundo onde o consumo das ditas “drogas duras” seja entregue ao mercado livre
e à livre concorrência. Todas as substâncias e actividades “perigosas”- porque
expressão imediata do instinto, desejo, impulso - requerem ser contidas[14]
socialmente, (contenção essa que se pode constituir em estruturas rígidas, flexíveis ou fragmentadas/inconsistentes[15]),
e é aparentemente sobre estes mecanismos de contenção que se alicerça a
cooperação a que chamamos sociedades e culturas. A posição mais interessante, do ponto de vista do equilíbrio
entre as liberdades individuais e o bem comum, parece ser, como sempre, a
procura da via do meio. Esta parece estar a ser procurada; por um lado no
aumento das restrições ao livre consumo de álcool e tabaco, e por outro no
recuar da “guerra contra as drogas”[16].
Aquilo a que chamamos “via do meio” não é aqui apenas significante do lugar da
virtude em termos ideais, mas também pragmáticos, uma vez que tanto o excessivo
agravamento penal e fiscal de inspiração autocrática (rígida), como a
liberalização total e “laissez faire” (fragmentada)[17],
demonstram ter mais consequências negativas do que positivas para a saúde das
sociedades - apesar de estarem mais aptas a um discurso político mobilizador de
“paixões” massificadas.
Do ponto de vista do grupo,
parece-nos importante salientar que não aceitamos alienar a responsabilidade de nenhum dos actores
do drama, pelo clivar da ambivalência em “bons” e “maus”, nem papaguear os
vários slogans dos estereotipados “caretas” e “agarrados” que vão erigindo um
muro de Berlim, quando não uma faixa de gaza, entre os “adictos” e os
“não-adictos”. Procuramos primeiro que tudo identificar as várias tonalidades
(de dor, mentira, medo, maldade, desilusão, e esperança), que se vão
desenrolando nos dramas familiares, comunitários e sociais, espraiando-se no
horizonte que vai do abusador ao abusado, e do rejeitador[18]
ao rejeitado. Os fenómenos de “exclusão”, “estereotipo”[19]
“bode expiatório”[20]
e “diabolização”[21], entre
outros, contribuem para a criação de uma nova classe de “desgraçados/demónios”,
a qual tem um papel fundamental na
clivagem e diferenciação “nós/eles” da identidade social, bem como na identificação projectiva do “mal” e das
partes indesejadas da mente[22]
- fenómenos que podemos encontrar em qualqquer grupo em momentos de tensão
emocional e frustração[23].O
contraponto à arrogância violenta destes mecanismos grupais de exclusão, parece
ser a inclusão numa ainda mais arrogante e violenta cultura “tóxica” ou
“junkye”, tão irredutível na desobediência quanto irredutível pode
chegar a ser a obediência à norma. As
substâncias alteradoras dos estados de consciência, sobretudo as proibidas, são
então a porta iniciática para uma
contracultura rebelde e altiva, possibilitando uma forte identidade grupal e
vindo por isso “curar” o vazio identificatório de alguns jovens. Com normas de
conduta e linguagem próprias, a contracultura do tóxico ilícito define-se não
apenas por oposição marcada e desprezo aos valores morais e normativos da
maioria, mas também pela exploração de um universo de experiências sensoriais e
emocionais de alta intensidade e risco, constituídas pela intoxicação em si mas
também pelos comportamentos limite que a intoxicação facilita.
Por seu lado, os estudo
sistémicos sobre a família sugerem que o toxicodependente tem uma função específica na dinâmica familiar,
e pode ser considerado um sintoma de determinados padrões de interacção e
ocorrências no seu seio[24]
(a aprendizagem de padrões parasitários/delinquentes[25]
aos níveis emocional e material, característicos de algumas famílias nas suas
relações internas e com a comunidade, é uma área quanto a nós promissora para a
compreensão da toxicodependência enquanto sintoma da dinâmica familiar e de
grupo). Se esta inferência é contestável, visto que a toxicodependência afecta
negativamente a dinâmica familiar, no entanto é ponto assente que a escalada,
continuidade e recaída nos consumos e comportamentos desviantes estão
indissociavelmente ligados à cumplicidade de uma relação co-dependente[26].
Este tipo de relação alimenta-se e estimula passivamente as características infantis,
irresponsáveis e manipuladoras dos dependentes – e pode ser identificada também
em certas patologias psicossomáticas[27].
Toda esta constelação de factores grupais é, quanto a nós, enquadrada naquilo
que Bion denominou suposição básica de
Luta/Fuga a dominar a função grupo de
trabalho[28], e
correspondente expressão protomental
da suposição básica de Dependência (dependência química substituindo a
dependência relacional ) [29]
Do ponto de vista individual, o abuso de drogas parece
estar ligado inicialmente a um vector Prometaico
de superação dos limites (roubar o fogo dos deuses), ou seja, de ultrapassagem de si-mesmo[30]
e transgressão do status quo, que se
degrada depois numa versão quotidiana e desenfreada do castigo de Sísifo,
condenado a transportar a grande “pedra” até ao cimo do cabeço para depois a
ver rolar por ali abaixo, e voltar ao início, até ao fim dos tempos. Aquilo que
era inicialmente uma transcendência[31]
das partes negativas da experiência humana (dor, medo, cansaço, dúvida,
desespero, etc.) e um impulsionar das emoções positivas[32],
uma ultrapassagem, transforma-se
tragicamente num atropelamento de
si-próprio e dos outros em nome da estimulação compulsiva dos centros nervosos
do prazer. Consequentemente à compulsão
pelo prazer, há o abandono do trabalho
de transformação do mal estar
interior e relacional que deu origem ao sintoma, o qual se vai assim
acumulando, e destilando em inominados venenos. Os últimos sete anos de
contacto regular e profissional com toxicodependentes – em ambulatório, intervenção
familiar, individual e de grupo, comunidade terapêutica, nas ruas dos bairros,
grupos de auto-ajuda e em investigação – permitiram-nos verificar que o abuso
sistemático de drogas constitui uma “capa” (por vezes uma autêntica “carapaça”)
debaixo da qual se esconde a maior variedade de sintomas biopsicossociais,
atestado pelo elevado número da co-morbilidade tal como ansiedade, depressão,
stress pós traumático, personalidade antisocial, distúrbios alimentares, entre
outros[33],
e atestado também pelas sempre cruéis e por vezes mesmo dantescas histórias de
vida e de família dos adictos mais graves. O endurecimento da Lei externa não
tem qualquer efeito perante a debilitação da Lei interna – a que alguns
psicanalistas chamam o “Nome do Pai”.
Sobre
o Tratamento da toxicodependência, ou não.
Os factores anteriormente
aflorados tornam o tratamento da toxicodependência particularmente complexo,
uma vez que retirar a substância de adição, onde estava centrado o problema, é
abrir uma caixa de pandora, tanto para
o paciente como para a família e para os terapeutas. Tal como os “males do
mundo” que saíram da caixa de pandora antes da esperança, na terapia vão sendo revelados episódios degradantes e profundas
feridas emocionais sofridas e infligidas a outros. Por outro lado, o benefício
de fuga ao mal-estar interno que a
droga possibilita, contrasta assustadoramente com o enfrentar do mal-estar que a terapia implica, facto que torna a
adição diferente de outras patologias. Por isso pensamos que considerar o
adicto como um doente, no sentido tradicional do termo, é tão reduccionista e
falacioso como considerá-lo um criminoso[34];
a doença da adição é a “cura” que o adicto arranjou para a sua dor mental.
Assim, o adicto geralmente só adere a um tratamento quando chegou ao que se
chama “o fundo do poço” confrontando-se com a ameaça da morte ou da prisão. E
ainda que, a contragosto, adira a um tratamento, continuará a manter até ao
limite a temível caixa de pandora fechada, entrando por vezes numa falsidade,
para depois de acabada a novela voltar aos antigos métodos de fuga ao
mal-estar. Nos momentos de terapia mais exigentes e dedicados é muito ténue a
fronteira entre a pressão necessária
para que o adicto enfrente os seus problemas e o abuso de autoridade[35].
Nos menos exigentes, “distraídos” ou cansados, é muito ténue a fronteira entre
a rotina e a cumplicidade com a
doença que era suposto tratar. Por outro lado, a forte identidade que os
adictos criam em torno do seu modo de vida, torna-os como que uma etnia à parte
da cultura a que os terapeutas pertencem, podendo acentuar-se os fenómenos
grupais de exclusão e incompreensão mútua que atrás referimos, e desta forma
sabotar-se a aliança terapêutica[36].
A imaturidade afectiva dos pacientes, bastante comum, leva-os a intensos movimentos
transferenciais de afecto/rejeição e condutas irresponsáveis e impulsivas
bastante difíceis de manejar pelos terapeutas.
O resultado de todas estas
dificuldades são, normalmente, baixos números de retenção e sucesso
terapêutico, e altos números de recaídas; são poucos os toxicodependentes que
aderem de forma consequente aos tratamentos, são poucos os tratamentos com
formação técnica e estruturas adequadas para os receber e ajudar. Existe também
uma falta de dados estatísticos sobre os resultados de muitos tratamentos,
dados que são essenciais para perceber nomeadamente quais os casos adequados a
cada tratamento, lacuna que é racionalizada normalmente com a justificação de
que “a recaída faz parte do processo de tratamento”, o que não é verdade. O que
faz parte do tratamento é a elaboração das recaídas, procurando entendê-las e
preveni-las[37]. Com o
passar dos anos vai-se acumulando uma enorme quantidade de gente sem
tratamento, muitos deles porque “neste momento não querem”, outros porque “já
não querem mais”, outros ainda porque “querem e não querem” ao mesmo tempo. A
consequência é uma enorme e crescente quantidade de pessoas que se encontram à
margem de cuidados, expostos a todos os riscos do consumo de substâncias
ilegais.
O facto de uma quantidade de
toxicodependentes se encontrar afastada do sistema de saúde, a par da epidemia
da sida e doenças infecto-contagiosas, conduziu, paulatinamente, à criação de
respostas mais flexíveis, com o intuito de minorar os danos do uso de drogas e
aproximar os seus consumidores a estruturas de saúde. Os serviços de
toxicodependência tiveram de se adaptar à realidade decorrente da epidemia da
sida e expandir as suas fronteiras
O
surgimento de uma nova abordagem: a Redução de Riscos
Ao invés da fecunda
representatividade científica (ensaios, estudos, relatórios de avaliações de
programas, manuais técnicos de estratégias de intervenção, etc) que caracteriza
outros países, em Portugal a constituição de um corpus cientifico de redução de riscos encontra-se ainda por concretizar.
Deveria-se, pois, realizar um esforço na edição de uma obra suficientemente
específica e abrangente sobre redução de riscos. Temos constatado, em
formações, eventos científicos onde participamos, e reflexões com outros
profissionais da área da droga, a lacuna de conhecimento científico a propósito
de redução de riscos, inclusive em técnicos que trabalham neste campo, ou
pretendem vir a trabalhar.Achámos então importante elaborar algumas reflexões
sobre redução de riscos, embora alguns conceitos sejam explorados na presente
obra.
A epidemia da Sida,
originada nos anos 80, marcou profundamente a abordagem na área da droga. O
problema de saúde dos consumidores, e a necessidade da sua preservação,
emergiram para primeiro plano. O facto do problema de saúde dos consumidores
ter atingido a dimensão de saúde pública, intolerável para o sistema social,
desencadeou a emergência de medidas médicas, ainda quando o estigma do consumo,
potencialmente danoso para o tecido social pelos perigos de saúde e condutas delinquentes
que apresenta, se mantém.
Tradicionalmente a abordagem de saúde pública encara a
saúde do ponto de vista do bem estar do colectivo e da ordem pública, com a
finalidade de minorar as repercussões das doenças na sociedade e permitir que
os indivíduos acedam a cuidados.[38]
O conflito que se joga é sempre entre os interesses
colectivos e as liberdades individuais. Aquando de uma situação de crise, de
ruptura de um equilíbrio, os interesses colectivos tendem a sobrepor-se aos
individuais[39], uma vez que a sua defesa se torna premente.
O
advento da Sida, com a sua carga de epidemia, conduziu a uma necessidade de
imposição de medidas específicas pelo colectivo. Contudo, na sua relação com o
consumo de drogas, levantou também uma questão contraditória, que opõe o
direito de cada indivíduo decidir sobre si e sobre o seu corpo ao dever social
de se defender os mais fragilizados contra o risco de autodestruição. A reposta
passa por criar as condições democráticas para um exercício individual e
colectivo da responsabilidade; que implica fornecer aos indivíduos todos os
instrumentos que lhes possibilitam assumir uma atitude responsável para com a
sua saúde e proteger-se contra situações em que a coloquem em risco. Liberdade
e responsabilidade estão, pois, em estreita conecção: cada uma cria as
possibilidades de exercício da outra.[40]
Ajudar a preservar o valor supremo da saúde dos que estão
em menos condições de a preservar é, então, um dos objectivos da redução de
riscos, abordagem que não se esgota nesta finalidade. A defesa de saúde, no
âmbito da redução de riscos, está intrinsecamente relacionada com a integração
de populações escondidas de consumidores (franjas marginais) na rede de
cuidados de saúde [41], mas também com a promoção de saúde dos que, controlando
os consumos e mantendo-se socialmente adaptados, estão sujeitos aos riscos do
consumo de drogas. Além do objectivo de promover a saúde dos consumidores
minimizando os danos do consumo de drogas, a redução de riscos visa ainda
diminuir o impacto social do descontrole do consumo, ao reduzir os
comportamentos marginais que decorrem do quotidiano de toxicodependência.
A redução de riscos parte do princípio de
que quando um consumidor não consegue ou pretende parar de consumir drogas,
deve ser ajudado a prevenir ou reduzir o dano causado por estas, tanto em si,
como nos restantes. Implica reconhecer várias fases do percurso de dependência,
desde um período livre de drogas, até uma fase caótica onde impera o consumo
excessivo e descontrolado. Em vez de desviar a nossa atenção destes
toxicodependentes e centrar a intervenção nos que procuram a abstinência,
oferece-lhes diversas formas de cuidados para evitar que se infectem com o VIH,
hepatites, que morram, ou se vejam envolvidos no mundo criminal relacionado com
o uso de drogas. [42]
Implica reconhecer que o recurso a drogas
apresenta vantagens para o indivíduo que o impede de as querer abandonar ou são
um obstáculo à abstinência quando esse é o seu desejo.
As drogas contribuem para a estruturação da
identidade (individual e social), actuam sobre as emoções controlando conflitos
internos e externos, bloqueiam muitas vezes afectos extremamente angustiantes e
penosos, em várias ocasiões permitem a actividade social devido à sua função
adaptativa, aquando do consumo ocasional provocam sensações agradáveis.
Abandoná-las significa a perda de uma identidade, eventualmente erigida ao longo de anos, e colocar em risco a
eficácia social. Por estes motivos é extremamente complexo a paragem do
consumo, uma completa transformação que causa angústias e inseguranças
tremendas; é todo um conjunto de equilíbrios enraizados, internos e externos,
que se rompem É, assim, necessário ter
presente que as drogas não conduzem somente a estados de despersonificação e
desorganização pessoal /social, mas também ao seu oposto. Para a redução de
riscos a incapacidade momentânea ou a vontade de permanecer nos consumos são
aceites como factos, os seus motivos importantes de compreender.
Esta abordagem apresenta-se como uma
posição pragmática e intermediária que se situa entre a “guerra às drogas” e a
legalização. O seu enfoque são as necessidades do consumidor de drogas e a
redução, tanto quanto possível, dos danos originados pelo uso destas
substâncias bem como das respostas de controle repressor. Não se trata, no
entanto, de desistir da lei ou do seu cumprimento, mas de adequar o cumprimento
de forma a diminuir a estigmatização do utilizador de drogas[43],
atenuar as resistências sociais, facilitar a inserção ( social, na saúde).
Enquanto que as estratégias levadas a cabo pela “guerra às drogas” se
concentram na redução da prevalência do uso (pela via repressiva ou
exclusividade do tratamento), a redução de riscos privilegia a diminuição das
consequências negativas deste comportamento.[44]
É deste modo uma alternativa aos modelos moral/ criminal e da doença do uso/
abuso de drogas que erigiram da política de combate à droga.
Para o modelo moral/criminal a utilização
de drogas ilícitas, independentemente de ocasional ou periódica, é vista apenas
como prejudicial, moralmente incorrecta, um acto ilegal passível de punição por
intermédio da via judicial e da proibição. Simultaneamente procura-se suprimir
o abastecimento do mercado negro eliminando as plantações e atacando o
narcotráfico. O modelo de doença encara a dependência como uma doença que
requer reabilitação. Enfatiza os programas de tratamento e prevenção primária
afim de reduzir a procura ou a possibilidade de se vir a consumir drogas. Em
ambos os modelos a abstinência total é a única meta aceitável e a via para a
atingir é o principio de “tolerância zero”. O objectivo é a redução/eliminação
do uso de estupefacientes pelo tratamento ou aprisionamento[45].
Daqui se compreende em parte a enorme variedade de representações negativas
sobre “droga”: ”flagelo”, “mundo”,
submundo”[46],
“delinquência”, “nocividade”, “sujeição”[47],
“destruição”, inferno, etc. Tais representações são reflexo do atractor do caos
sociológico[48] que é a
figura do toxicodependente; ao qual acrescenta-se o produto que com ele se
vincula.
Este carácter mítico da “droga” atravessa a
sociedade, impregnando-a de conotações moralistas que o cariz deformador da “
guerra às drogas “ reforçou, nele se cruzam representações, influências morais,
expectativas de satisfação e medos. Por este motivo é necessário desmascarar
esta deturpação da realidade e reflectir sobre as realidades que ela encobre.[49].
Só assim se pode compreender que a droga não é o inimigo público número um, que
o problema não está na droga mas num complexo conjunto de factores em
interacção, constituídos por dimensões individuais (biopsicológicas),
internacionais contextuais (psicossociais) e temporais (evolutivas)[50].
Começar talvez por ter de se entender que a mesma sociedade que promove a luta
contra a droga desencadeia em simultâneo diversos factores de vulnerabilidade
face à mesma (predomínio da economia de mercado, dificuldades de valorização,
stress, precariedade de emprego, entre outros) e que a droga sempre estará
presente na cultura humana, é um passo no sentido de uma mudança que terá de
ter efeitos práticos. Procurar quebrar o vínculo homem-substância seria,
eventualmente, alterar a humanidade[51],
por este motivo é que erradicar a droga é inviável. A perpetuação da
perspectiva que enfatiza o não enquanto cria as possibilidades do sim e ignora
aqueles que o fazem tem pouco valor. Aceitar a omnipresença do uso de drogas na
história, que ele não pode ser completamente eliminado mas os seus danos podem
ser reduzidos, é a essência do modelo de redução de riscos. Quando um indivíduo
não tem a capacidade ou disposição para abandonar o consumo de drogas o
objectivo torna-se minorar os danos provocados por aquelas a si mesmo e à
sociedade[52]. Isso
implica envolver o consumidor, do ponto de vista da confiança mútua, e
estabelecer com ele uma avaliação racional do seu estilo de vida e do seu
comportamento, visando a promoção da saúde.[53]
Para tal é necessário que a intervenção seja isenta de juízos morais e respeite
a condição humana do utilizador de drogas e as suas opções. A redução de riscos
é, assim, uma abordagem livre de preconceitos, dogmas, que se preocupa em
considerar as evidências. Como abordagem que se baseia nos princípios do
pragmatismo, reconhece o facto inegável de que o comportamento de risco ocorre[54]
e procura respostas práticas e funcionais para lhe fazer frente, cuja validade
é avaliada pelos resultados obtidos no quotidiano. Neste sentido, a intervenção
estende-se ao longo de um continuum
de danos derivados do consumo de drogas, que varia de consequências muito
prejudiciais à saúde até ao desaparecimento do comportamento de risco.
Diversas metas intermédias são então concebidas de forma a desencadear a
redução gradual do risco. A primeira meta da intervenção é estabilizar o
comportamento problemático e prevenir o aumento do dano. Uma vez estabilizado,
o segundo passo é facilitar a redução de consequências prejudiciais ao longo de
decréscimos no risco, que terminam com a extinção do comportamento.[55]
Existe, portanto, um amplo leque de possibilidades de melhora que se estimulam,
possibilitando a evolução progressiva desde o alto risco até menor risco
possível. Qualquer mudança que minimize o dano é encarada como positiva, um
resultado pragmático da intervenção[56].
A abstinência é a meta final deste processo, sendo desejada e encorajada como a
melhor opção de saúde, aquela envolve o menor risco ou elimina-o totalmente,
uma grande vitória[57],
embora não seja uma exigência. Esta é uma significativa mudança no modo de
encarar a área da droga, que realça a compatibilidade entre redução de riscos e
abstinência. A este nível é preciso pontuar a congruência entre os fins da
abstinência e da diminuição dos problemas originados pelo uso de drogas.
Redução de riscos e tratamento são duas abordagens com objectivos próprios, mas
complementares entre si.
O exercício de cada uma destas actividades
tem reflexos positivos na outra. Contudo, a aparente posição antagónica entre
estas abordagens tem gerado algum conflito, talvez por factores históricos;
reconheçamos que existem responsabilidades mútuas. Têm sido apontadas criticas
injustas a cada um dos modelos. À redução de riscos acusa-se de conivência e
mesmo estimulo do consumo, o que levou inúmeros especialistas a documentar, do
ponto de vista cientifico, a diferença entre apoiar o consumo seguro de drogas
e o consumo em si, tal como o estamos fazer. Ao tratamento acusa-se uma
excessiva vinculação à política de “guerra às drogas”, como se todos o
profissionais que tratam toxicodependentes desvalorizassem a redução de riscos
e considerassem a exclusividade na abstinência o objectivo essencial; muitos
deles inclusive desenvolvem actividades em ambas as áreas.
A luta de interesses entre estas duas
políticas de intervenção não é benéfica para o fenómeno, embora a paz podre desinformada não seja melhor.
A redução de riscos levada ao extremo pode tornar-se simplista e redutora. A
preferência pelos objectivos mais imediatos e passíveis de serem alcançados
pode-se confundir com exclusividade nesses objectivos e conduzir a uma negação
da abstinência, como grande beneficio para a saúde.
Do mesmo modo, o extremismo na abstinência,
que considera-a a uníca via de libertação do problema, a sua solução, continua
a negar as evidências: a situação grave de saúde pública e exclusão social, a
necessidade social de auxiliar os dependentes na melhoraria da sua saúde e na
reinserção, a impossibilidade de concretização do sonho da sociedade limpa de
drogas. Uma atitude extremista deste tipo habitualmente reforça o valor da
punição, utilizando a centração na abstinência como meio de aumentar o poderio
da sua posição social, consequentemente política.
Na perspectiva social, a
dissolução de regras antigas e consequente formação de novos movimentos são
marcadas por emoções, medos e confrontos intensos, assim como por esperanças
elevadas[58], com alguma
frequência desmedidas. Existe uma luta de poder inerente a este fenómeno, que
se pode extremar pela confrontação acesa de posições e perda de argumentos
lógicos.
Apresentação
do Livro
O que se pretende com a presente obra é tentar abranger numa imagem o
“elefante” que é o fenómeno da droga em Portugal. Mas não tenhamos ilusões.
Este será obviamente um esboço imperfeito. De qualquer modo tentámos contribuir
para um esboço do problema como um todo, e não uma imagem de um pormenor.
No nosso país, apesar da crónica (e anacrónica) falta de
números credíveis sobre os fenómenos ligados à droga, torna-se evidente que, na
luta entre o “animal” e a “civilização”, o primeiro leva larga vantagem.[59]
Face a esta situação, é óbvio que o discurso crítico se torna fundamental e até
com carácter de urgência. Mas não pretendemos representar a crítica destrutiva,
muito pelo contrário. Aqui são apresentadas propostas de solução e, sobretudo,
questões abertas ao pensamento.
Dividimos este volume em duas partes:
1)
Dinâmicas orientadoras
do Macro-Social (Politica, Economia, Direito, Criminalidade)
2)
Intervenção na
Toxicodependência (Prevenção, Reabilitação, Intervenção Comunitária,
Investigação)
Assim, na primeira
parte procura-se analisar como as dinâmicas orientadoras do macro-social
reagiram à vulgarização das ‘novas’ drogas de alta potência (sobretudo heroína
e cocaína), quais as consequências sociais dessa reacção, como se gerou a crise
actual no choque entre o consumo e a
punição, e finalmente quais as perspectivas que se abrem actualmente neste
cenário.
António
Dores, em nome da ACED, faz-nos
um retracto tão inquietante quanto fiel da situação dos toxicodependentes nas
prisões nacionais, abrindo o pano para um cenário habitualmente obscuro e
forcluído. A contextualização histórica e sociológica dos sistemas prisional e
judicial português face à explosão da toxicodependência, e a reacção
globalizada e local da justiça numa linha penalizadora severa, ajuda-nos a
compreender como se chegou ao estado calamitoso em que nos encontramos,
atestado pelos números gravíssimos da mortalidade nos cárceres do país. A
função perversa do tráfico e consumo de droga nas cadeias é analisada, à luz
das pressões da economia paralela, da contenção de custos do Estado e do status quo das corporações ligadas à
contenção da criminalidade. Estas, acabam por ser apanhadas numa teia de
contradições sociais, legais e morais que transformam pretensas soluções em
problemas cada vez mais longe de estar resolvidos, aumentando dessa maneira um
ciclo vicioso de degradação incompatível com um estado de direito democrático.
Com António Filipe
somos esclarecidos sobre os trabalhos e batalhas legislativas em torno da
droga, travadas em pleno cenário da Assembleia da República, desde os anos
oitenta até ao primeiro ano do século XXI. Permite-nos discernir o efeito das
ideologias (moduladas pela representatividade maioritária e minoritária dos
partidos em diferentes legislaturas) na produção do arsenal de leis e decretos
sobre a toxicodependência. Assistimos ao nascimento do “Projecto Vida” e às
suas sucessivas e prolixas remodelações até à sua dissolução, e é feita uma
análise crítica dos seus, parcos, resultados práticos. A reacção formal dos
órgãos de soberania ao fenómeno da droga,
e o jogo político em torno dele, são clarificados pormenorizadamente,
contribuindo para o apuramento de responsabilidades históricas e políticas, bem
como para a reflexão ponderada sobre as causas da impotência do Poder em
controlar este fenómeno. A grande viragem do início de século representou uma
retirada estratégica do conceito de “combate
à droga” e a entrada em cena da “descriminalização do consumo”.
Rene
Tapia Ormazabal descreve os
factores inerentes ao cálculo do custo
social do fenómeno da ‘droga’, demonstrando a importância de um
conhecimento rigoroso destes custos e da forma como os recursos públicos são
utilizados. Começa pela listagem das
áreas em que este custo se faz sentir - corrupção e violência,
produtividade da população, custos médicos, despesas com prevenção e repressão,
etc. – divididas em despesas privadas,
públicas e indirectas, apontando então as dificuldades em definir os índices a
medir. As opções fundamentais - defesa da saúde e a defesa da ordem pública -
implicam ambas uma relação custos/benefícios que urge clarificar.
Jorge
da Silva Ribeiro , num modelo sistémico
Bio-psico-Sócio-Cultural, Económico e Geo-politico, dá-nos conta das duas
abordagens fundamentais para solucionar o problema da droga - a proibicionista
e a não-proibicionista - apresentando uma grelha de análise clara das suas
disposições cruzando o nível legal com o de saúde, e explorando as
inconsistências e efeitos perversos do panorama actual. São abordadas e
comparadas as vantagens e desvantagens de cada abordagem para a saúde
individual, o funcionamento social, e economia e a política globais e locais,
sublinhando o conceito de eficácia face aos objectivos propostos. São
apresentados dados estatísticos referentes aos últimos vinte e cinco anos de
política de combate à droga em Portugal, na Europa e no mundo, demonstrando objectivamente
o falhanço rotundo e contraproducente na tentativa de contenção do problema
através dos mecanismos decorrentes da política proibicionista, seja ao nível da
pequena criminalidade, do narcotráfico organizado ou da saúde pública.
Artur
Valentim introduz-nos ao
ponto de vista das tensões geradas entre Estado e indivíduo, corporizadas no braço de ferro entre a ordem social da
narco-abstinência/narco-erradicação e a crescente “desobediência” consumidora
de estupefacientes em Portugal. Descreve como a ênfase cada vez maior dada às
liberdades individuais, força uma flexibilização da ordem social penalizadora
que se suaviza e transveste em patologização da droga, numa solução de
continuidade com a associação entre a droga e o Mal. À sombra deste processo se
foi instituindo um novo poder: o biopsico-poder da droga. A epidemia das
doenças infecto-contagiosas que assola o país acaba por vir perturbar este
poder, através das pressões dos políticos para que se obtenham resultados
práticos ao nível da melhoria da saúde pública. Para tal, é necessário cada vez
mais um modelo de redução de riscos e
respectiva introdução de narcóticos de substituição, inconciliável com os
referenciais do proibicionismo adoptados pelo estabelecido biopsico-poder da
droga, o qual se vê então obrigado a uma redefinição da sua rede de
significados até então construídas num sistema auto-referencial fechado.
Na Segunda Parte, procura-se dar testemunho de algumas
das acções de intervenção directa na prevenção, tratamento e redução de riscos
da toxicodependência em Portugal, aos níveis social, comunitário, de grupo e
individual.
Nuno
Felix da Costa, aborda as
diferentes áreas de carência de informação na toxicodependência, apresentando
resultados de investigação a nível nacional. Define as principais características das toxicodependências e das
drogas enquanto objecto de investigação, defendendo a monitorização das
variáveis relevantes para os objectivos de cada intervenção em prevenção
primária, secundária e terciária, e redução de riscos. Preconiza o planeamento
da intervenção baseado na identificação dos factores que sofrem o seu impacto,
suas relações com os objectivos pretendidos e a caracterização dos indicadores
utilizados na avaliação, com o intuito de melhorar a eficácia dos programas.
Para tal, aponta alguns objectivos e estratégias interventoras nas quais se
deve incidir a acção e, consequentemente, a investigação. Procura, ainda,
identificar os factores que estão na origem da escassez de um trabalho
continuado de investigação nas toxicodependências em Portugal, a finalidade da
investigação e sua utilidade para os decisores. A este nível, salienta os
aspectos que estão na origem da precariedade da utilização da investigação
pelos decisores, e as possíveis atitudes que desencadeiam o afastamento entre
decisores e investigadores, de ambas as partes.
Mário
David apresenta-nos um resumo
actualizado do estado da arte na área do conhecimento farmacológico e médico
sobre os estupefacientes, nomeadamente os opiáceos, a cocaína, as “novas
drogas” (ecstasy) e as adições mistas
de várias substâncias. É descrito como actuam as drogas no sistema nervoso, à
luz das ultimas descobertas da neurologia, e quais os efeitos concomitantes na
vida e saúde dos seus consumidores. São referidos pormenorizadamente os
produtos actualmente disponíveis no menu médico do tratamento da
toxicodependência, incluindo naturalmente os medicamentos de substituição tal
como a metadona, sendo referidos numerosos estudos de eficácia das várias
modalidades de prescrição clínica desses medicamentos e os riscos a eles
inerentes. Como obter a abstinência das drogas e depois como mantê-la com
recurso aos fármacos mais actuais, revela-se um jogo delicado e bastante
exigente em que intervém múltiplas variáveis; farmacológicas, clínicas,
psicoterapêuticas, familiares e sociais.
Carlos
Fugas traça-nos um historial da
intervenção técnica no bairro do Casal Ventoso desde 1991, focando as
especificidades da intervenção comunitária e de redução de riscos no
terreno. È descrito o contexto da
criação, estabelecimento e
continuidade das equipas de rua
num “território psicotrópico” de alto risco, e a articulação problemática com
as estruturas estatais que se empenharam no “plano de reconversão” do bairro a
partir de 1996.O choque de modelos (o modelo participativo e o modelo
prescritivo-repressivo) e de metodologias (metodologia psicossocial e a da
política-espectáculo) que se está a dar no terreno do maior, e mais
mediático, gueto da droga Lisboeta.
É-nos apresentada uma reflexão crítica severa sobre o plano de reconversão do
Casal Ventoso e, nomeadamente, a sua utilização da metadona como panaceia num programa de substituição
que confunde, inexplicavelmente, baixo limiar com alto limiar de exigência, e
que, apesar disso, acabou aparentemente por servir de modelo para algumas
directrizes da “política de redução de riscos” posta em prática em 2001 pelo
governo.
Francisco
Henriques abre-nos as portas
para o mundo dos grupos de auto-ajuda
baseados nos “doze passos”: os N.A. (Narcóticos Anónimos) e A.A (Alcoólicos
Anónimos), e outros grupos inspirados nesses mesmos princípios (Famílias
Anónimas, Al-anon, etc) . Somos esclarecidos acerca do funcionamento concreto e
estrutura organizacional das reuniões, e dos modelos filosóficos e pragmáticos
de abordagem ás adições e à recuperação que os grupos de auto-ajuda
desenvolveram desde o princípio do século XX. É abordada também a clarificação
histórica e a genealogia da formação e evolução dos “doze passos” e das “doze
tradições”. Como estes princípios directores se conjugam com as várias
dinâmicas relacionais expontâneas e informais, para vir a constituir a oferta
gratuita da recuperação por doze passos em Portugal e no mundo. A articulação
das reuniões com a praxis técnica na
reabilitação da toxicodependência é abordada, destacando o modelo Minnesotta, e
a integração com a abstinência/ prevenção da recaída.
Jorge Negreiros faz uma recensão das estratégias de prevenção primária do consumo de drogas lícitas e ilícitas, enquadrada numa perspectiva
histórica da evolução dos programas. Focando os aspectos teóricos, práticos e
de investigação, aborda a contradição entre a larga expectativa depositada na
prevenção e os fracos resultados práticos que ela demonstra ter. A inadequação
de modelos meramente informativos e inespecíficos é explicitada, e são
apresentados outros modelos bem mais complexos, desenvolvidos a partir dos
erros anteriores. Dentre eles são focados os programas de prevenção das drogas de entrada (álcool, tabaco e
cannabis), os programas centrados na faixa etária e nas populações de risco, (sendo explicitado o conceito
de factores de risco e de protecção).
É apresentada uma classificação das estratégias universais, selectivas e indicadas, exemplificando programas de
cada tipo que foram já realizados, quais os seus resultados esperados, e riscos
associados de efeitos contraproducentes.
Finalmente são definidos os princípios básicos da prevenção do abuso de drogas,
susceptíveis de conferir uma maior eficácia aos programas.
Domingos Neto começa por diferenciar as doenças aditivas das doenças “clássicas”,
considerando-as doenças do abuso e
não da carência. Especifica as particularidades de abuso e descreve a evolução
no modo de pensar a toxicodependência até à descoberta do conceito de
alexitimia. A complexidade de traços emocionais que se combinam na
personalidade do adicto, requer a criação de abordagens que possam trabalhar
estes vários aspectos e o impacto que têm no sistema familiar. Apresenta o
T.C.E[60].,
desenvolvido pelo próprio, como uma matriz terapêutica que combina diversas formas de intervenção: abordagem familiar,
medicação com antagonistas/aversivos, doze passos, terapia emocional, e
comunidade terapêutica. Nele, considera uma graduação de intervenções que podem
ser aplicadas consoante as necessidades terapêuticas de cada caso, numa escala
de dificuldade sucessiva, aplicando o conceito de etapas. Apresenta ainda investigações que testam a eficácia do
T.C.E., defendendo a avaliação constante e rigorosa das terapias e a busca de
novas soluções teoricamente enquadradas, que permitam adequar as intervenções
às necessidades dos doentes para alcançar um maior sucesso terapêutico.
Manuel Sanches descreve-nos o modelo de mudança em Comunidade Terapêutica, começando por
identificar os problemas concretos com que os toxicodependentes chegam, as
frentes de desafio para a mudança propostos pela comunidade e os princípios do
clima e cultura terapêuticas. Discute as expectativas mútuas de utentes e
equipe técnica, as possíveis perversões institucionais geradas no choque de
duas culturas e no uso do poder, e as regras básicas e dispositivos
organizacionais da comunidade. Enquanto processo de aprendizagem e treino
social, é-nos apresentado um modelo de mudança
- para fazer a ponte entre o “mundo” do isolamento anti-social e o
“mundo” da cooperação livre de drogas[61]
- assente no contacto e desenvolvimento emmocional e na descoberta de padrões de
vinculação saudável. É também revista
a contextualização histórica do desenvolvimento destes conceitos, e a sua
aplicação na terapia e na cultura comunitárias de reabilitação de
toxicodependentes. A comunidade terapêutica como lugar da procura de
equilibração dos eixos do poder-submissão e empatia-assertividade para
ultrapassar o circulo vicioso abusador-abusado, característico das patologias
do abuso.
Não estando neste volume representadas, como é obvio, todas as áreas e
especialistas da ‘droga’, não podemos concluir que esta foi uma escolha
arbitrária, dado a elevada experiência que
os autores convidados construíram ao longo dos últimos vinte anos, através de
intervenção directa, avaliação de procedimentos e programas, obras e trabalhos
científicos editados, o que faz deles pedras essenciais no xadrez da ‘droga’ no
nosso país.
Esperamos que esta publicação contribua positivamente para o debate
informado e, por consequência, para a tomada de decisões e estabelecimento de
práticas mais adequadas nesta área. Se a metáfora da história chinesa nos
reenvia para a condição humana de cegueira sobre a nossa própria natureza, e nos
relembra a aforismo de Shakespeare de que “existem mais coisas entre o céu e a
terra do que a nossa pobre filosofia pode imaginar”, que não nos contentemos
com menos do que a tentativa honesta de “abrir os olhos” através da cooperação
democrática. Que não nos contentemos com o “conluio da cegueira”[62].
[1] Da Agra,
C., Marques-Teixeira, J., Negreiros, J. & Fernandes, L. (1993). Dizer a droga ouvir as drogas — Estudos
teóricos e empíricos para uma ciência do comportamento adictivo. Porto:
Radicário.
[2] Redução de
riscos, tradução de harm reduction, também denominada por alguns
autores como redução ou minimização de danos,
é um termo introduzido na Holanda em 1981 numa publicação da Secretaria de
Estado para a Protecção da Saúde e do Meio Ambiente. A origem no entanto,
remonta a 1972 quando o Comité de Narcóticos concluiu que as premissas da
política de drogas deveriam ser congruentes com os riscos decorrentes do uso de
drogas (Marlatt, 1999, Redução de Danos.
Estratégias Práticas para Lidar com Comportamentos de Risco. Porto Alegre:
Artes Médicas).
[3] Do ópio
para a morfina e depois para a heroína, metadona, etc.; da folha de coca para a
cocaína e depois para o crack; da marijuana comum para a Galaxy 2000 dos coffee-shop Holandeses, sem esquecer as
benzodiazepinas, barbitúricos e anfetaminas, bem como o LSD.
[4] Ver: McKenna (1992) O Pão dos Deuses. Em Busca da árvore do Conhecimento Original.
Porto: Via Óptima
[5] Naturais e
Artificiais entre aspas, uma vez que toda a cultura humana é sempre artificial,
baseada na invenção de “artefactos” vários, que se sobrepõem e substituem a
regulação etológica que existe nos animais de grupo. Referimo-nos a sociedades
“artificiais” quando o nível de sofisticação dos artefactos é tanto, que o
homem perde quase totalmente o contacto com os ciclos naturais. Isto parece ter
acontecido intensamente a partir da revolução industrial e tecnológica.
[6] Mircea
Eliade (1949) “Sagrado” e “Profano” in Tratado de História das Religiões.
Porto: Asa
[7] O caso da
“Lei Seca” nos E.U.A não deixa margem para dúvidas. As redes de Gangsters e de corrupção, com o seu rol de mortandade,
desenvolveram-se por causa da
proibição do Álcool. Ver Escohotado (1975) Las
Drogas: de los Origines a la Prohibicion. Madrid: Alianza Editorial.
De forma semelhante,
a repressão do ecstasy no norte da
Europa levou ao domínio da sua produção e tráfico por grupos delinquentes
“profissionais”. William Burroughs, célebre escritor toxicómano, refere mesmo que o problema das drogas começou com a sua proibição.
[8] Kopp, P. (1997) A
Economia da Droga. Lisboa: Bertrand
[9] Fernandes,
L. (1995). ‘O sítio das drogas’. Toxicodependências,
2 pp 22-32
[10] Ribeiro,
J.P. (2000) ‘A Função da Droga nas Sociedades Modernas’. in Caderno IV do Relatório de Actividades do
Gabinete de Apoio do Centro Social do Casal Ventoso. Lisboa
[11] Kop (Op.
Cit.)
[12] ver: Di
Chiara G (1995). The role of
dopamine in drug abuse viewed from the perspective of its role in motivation. Drug and Alcohol Dependence; 38:95-137.,
e Miller (1993) ‘Comorbidity of Psychiatric and Alcohol/Drug Disorders:
Interactions and Independent Status’. Journal
of Addictive Diseases, 12 (3): pp 5-16;
[13] A respeito
do abuso de calmantes, consultar: Trincão, J. (1990) ‘As Toxicodependências
Silenciosas’ Análise Psicológica 3
(8), pp 345-347
[14] no sentido
da função continente do conteúdo, ou
seja no sentido da transformação de coisas-em-si
em elementos simbólicos aptos ao
pensar (Bion, 1970, Attention and
Interpretation. London: Karnac)
[15] Tanto a
contenção (containment) rígida como a
fragmentada/inconsistente favorecem a
transformação emocional patológica e a desmoralização das comunidades; ver:
Hinshelwood (1987) What Happens in
Groups? London: Free
Association Books
[16] uso legal
do cannabis e mescalina para fins terapêuticos (nos E.U.A. e Perú respectivamente),
tolerância do cannabis para fins recreativos (na Holanda e Espanha), no uso da
metadona e heroína para a redução de riscos, e em geral na descriminalização do
consumo de drogas ilícitas
[17] Para uma
clarificação das ideologias Autocrática, Democrática e “Laissez Faire”
consultar Lewin, Lippit, White (1939) ‘Patterns of Aggressive Behaviour’. International
Journal of Social Psychology,
10: 271-299
[18] Casriel (1972) A Scream Away from Happiness. Nova Yorque: Grosset
& Dunlap
[19] Ver:
Amâncio, L. (1993) ‘Identidade Social e Relações Intergrupais’ in Vala e
Monteiro Psicologia Social Lisboa:
Gulbenkian
[20] ver: Girard, R. (1978) Things Hidden Since The Beginning of the
World. Stanford University Press
[21] Escohotado (Op. Cit.)
[22] Klein, M. (1946) ‘Notes on Some schizoid
Mechanisms’ in Klein et al. (Eds) Developments
on Psychoanalysis. London: Hogarth Press, 1952
[23] Jacques, E. (1953), ‘On the Dynamics of
Social Structure’. Human Relations 6,
3 - 24
[24] Fleming, M.
(1995) Família e Toxicodependência. Porto: Afrontamento
[25] Meltzer, D. Harris, M. (1986) The Educational Role of the Family. A
Psychoanalytical model of The Learning process. Paris: OECD
[26] Schaeff, A.W. (1986) Co-Dependence. Misunderstood-Mistreated.
San Francisco: Harper & Row
[27] Sperling, M. (1968) ‘ Acting-out Behaviour and Psychosomatic Symptoms: Clinical and Theoretical Aspects’. Int. J. Psycho-Anal., 49: 250-253; e Wisdom (1959) ‘ On a Differentiating Mechanism of Psychosomatic Disorder’ Int. J. Psycho-Anal., 40: 134-146
[28] Bion (1961) Experiences in groups. London: Routledge
[29] Torres, N. (1999) ‘The Conversion of
Psychic and Group Significance into Protomental Signals’. Livro de resumos da II
European Conference of Group Psychoanalytic Psychotherapy.
Barcelona: European Federation for Psychoanalytic Psychotherapy in the Public
Sector
[30] Nitszche em
Assim Falava Zaratrusta.
[31] De facto,
as substâncias psicotrópicas têm todas elas um efeito euforizante e de êxtase.
Depois, cada um delas permite combinações de outras transcendências; da dor, do
medo, da culpa, da percepção, dos limites da imaginação, etc., consoante os
efeitos calmantes, estimulantes ou perturbadores do sistema nervoso.
[32] Para
esclarecer como a procura permanente de excitação e de manutenção de estados
euforizantes de humor podem mascarar estados de profunda depressão, consultar
Grotstein (1999) O Buraco Negro.
Lisboa: Climepsi
[33] Este tema é controverso, e alguns autores
consideram que sintomas-estado de ansiedade e depressão, sobretudo no
alcoolismo, são consequência, e não causa, dos consumos. Para uma revisão consultar:
Miller (1993) ‘Comorbidity of Psychiatric and Alcohol/Drug Disorders:
Interactions and Independent Status’. Journal
of Addictive Diseases, 12 (3): pp 5-16., e Clerici e Carta (1996)
‘Personality Disorders among Psychoactive Substance Users: Diagnostic and
Psychodynamic Issues'. European Addiction
research, 2: pp 147-155
[34] Para uma
exploração das relações entre toxicodependência e criminalidade, com uma
amostra Portuguesa, consultar: Agra, C. (1998) Entre Droga e Crime. Actores, Espaços, Trajectórias. Lisboa: Editorial Noticias
[35] Maxwell Jones (1986) ‘Democratic
Therapeutic Communities or Programmatic Therapeutic Communities, or Both?’ In
Leon et Al (Ed). Therapeutic Communities for
Addictions. USA: Charles and Thomas Publisher.
[36] De
facto, dois dos dispositivos de
reabilitação que tradicionalmente melhores resultados conseguem (Comunidades
terapêuticas ditas “Hierárquicas” e o
Modelo Minnesotta) nasceram da influência de grupos de auto-ajuda e seus
lideres carismáticos nas técnicas do tratamento.
[37] Marlatt
& Gordon (1993) Prevenção da Recaída
– Estratégias de Manutenção no tratamento de Comportamentos Aditivos .
Porto Alegre: Artes Médicas
[38]
Morel, A., Hervé, F., Fontaine, B. (1998). Cuidados ao Toxicodependente. Lisboa: Climepsi.
[39] ibidem
[40] ibidem
[41]
European Monitoring Centre for Drugs and Drugs Addiction (1999). Outreach Work among Drug Users in Europe:
Concepts, Practice and Terminology. Lisboa.
[42] Buning,E.
(1995). La estrategia de Reducción de
Daños frente al Sida entre los usuarios de droga em Holanda. Adicciones –
vol. 7, nº 3, 263 – 270.
[43]Dorn,
N. (1989). Sideshow: An appreciation and
critique of Dutch drug policies. British Journal of Addiction, 84, 995-997.
[44] Marlatt, G.A. (1999). Redução de Danos:
estratégias práticas para li dar com comportamentos de alto risco. Porto
Alegre: Artes Médicas
[45] ibidem
[46] Agra, C.
(1998).Entre Droga e Crime. Actores,
Espaços, Trajectórias. Lisboa: Editorial Notícias.
[47]
Morel, A., Hervé, F., Fontaine, B. (1998). Cuidados ao Toxicodependente. Lisboa: Climepsi.
[48] Amaral
Dias, C. (1991) Ali Babá – Droga: uma
neurose diabólica do século vinte. Lisboa: Escher, Fim do Século Edições.
[49] Morel, A., Hervé, F., Fontaine, B. (1998). Cuidados ao Toxicodependente. Lisboa: Climepsi.
[50] Agra, C. (1998).Entre Droga e Crime. Actores, Espaços, Trajectórias. Lisboa:
Editorial Notícias.
[51] Amaral
Dias, C. (1991) Ali Babá – Droga: uma
neurose diabólica do século vinte. Lisboa: Escher, Fim do Século Edições.
[52] Buning,E. (1995). La estrategia de Reducción de Daños frente al Sida entre los
usuarios de droga em Holanda. Adicciones – vol. 7, nº 3, 263 – 270.
[53]
Marlatt, G.A. (1999). Redução de Danos: estratégias práticas para li dar com
comportamentos de alto risco. Porto Alegre: Artes Médicas.
[54] ibidem
[55] Marlatt,
G.A. (1999). Redução de Danos:
estratégias práticas para li dar com comportamentos de alto risco. Porto Alegre: Artes Médicas.
[56]
Marlatt, G. A. , Tapert, S. F. (1993). Harm
Reduction: Reducing the Risks of addictive Behaviors. New Bury Park: Sage
[57]
Parry, A.(1989). Harm Reduction (Interview).
Drug Policy Letter 1(4),13
[58]
Morel, A., Hervé, F., Fontaine, B. (1998). Cuidados ao Toxicodependente. Lisboa: Climepsi.
[59] As ruas
estão repletas de utilizadores de drogas arrumadores de automóveis. Os bairros
degradados tornaram-se hipermercados da droga, vinculando o consumo ao tráfico
e à marginalidade. As prisões apresentam níveis de contágio de doenças e morte
obscenas para o continente Europeu (dados Council of Europe, 1997). Cada vez
mais estudantes consomem drogas e álcool (segundo estudo de Jorge Torgal e
Vitória Mourão para o IPDT) A incidência de casos de SIDA nos toxicodependentes
é a mais elevada da Europa e tem uma tendência crescente (dados OEDT-2000). E
não existem dados seguros sobre o número de toxicodependentes existentes em
Portugal, o que permite utilizar tanto a dramatização como a desdramatização
conforme os objectivos que se tiver, sem no entanto existir uma base objectiva
de comparação.
[60] Tratamento Combinado e por
Etapas de Dependentes Químicos.
[61] Referência
a: Prata, I., Manso, L. (1997) ‘Um Tempo Entre Dois Mundos. Contributo para a
reflexão sobre as perspectivas de futuro das Comunidades Terapêuticas para
Heroinómanos. Toxicodependências 3(3)
pp. 3-8
[62] Fleming,
Manuela (op.cit.)