O valor da Filosofia

Bertrand Russell (1872-1970)

 

 

 

O Valor da Filosofia

Tendo agora chegado ao t�rmino da nossa breve e incomplet�ssima revis�o dos problemas da filosofia, ser� conveniente considerar, para concluir, qual � o valor da filosofia e por que ela deve ser estudada. � da maior import�ncia considerar esta quest�o, em vista do facto de que muitos homens, sob a influ�ncia da ci�ncia e dos neg�cios pr�ticos, propendem a duvidar se a filosofia � algo melhor que inocente mas in�til passatempo, com distin��es subtis e controv�rsias sobre quest�es em que o conhecimento � imposs�vel.

Esta vis�o da filosofia parece resultar, em parte, de uma concep��o errada dos fins da vida humana e em parte de uma concep��o errada sobre o tipo de bens que a filosofia se empenha em buscar. As ci�ncias f�sicas, por meio de inven��es, � �til para inumer�veis pessoas que a ignoram completamente; e por isso o estudo das ci�ncias f�sicas � recomend�vel n�o somente, ou principalmente, por causa dos efeitos sobre os seus estudantes, mas antes por causa dos efeitos sobre a humanidade em geral. � esta utilidade que pertence � filosofia. Se o estudo de filosofia tem algum valor para outras pessoas al�m dos estudantes de filosofia, deve ser somente indirectamente, atrav�s de seus efeitos sobre a vida daqueles que a estudam. Portanto, � nos seus efeitos, se � que ela tem algum, que se deve procurar o valor da filosofia.

Mas, al�m disso, se n�o quisermos fracassar no nosso esfor�o para determinar o valor da filosofia, devemos em primeiro lugar libertar as nossas mentes dos preconceitos dos que s�o incorrectamente chamados homens pr�ticos. O homem pr�tico, como esta palavra � frequentemente usada, � algu�m que reconhece apenas necessidades materiais, que acha que o homem deve ter alimento para o corpo, mas se esquece que � necess�rio prover alimento para o esp�rito. Se todos os homens estivessem bem; se a pobreza e as enfermidades tivessem j� sido reduzidas o mais poss�vel, ainda ficaria muito por fazer para produzir uma sociedade verdadeiramente v�lida; e at� no mundo existente os bens do esp�rito s�o pelo menos t�o importantes quanto os bens materiais. � exclusivamente entre os bens do esp�rito que o valor da filosofia deve ser procurado; e somente aqueles que n�o s�o indiferentes a esses bens podem persuadir-se de que o estudo da filosofia n�o � perda de tempo.

A filosofia, como todos os outros estudos, visa em primeiro lugar o conhecimento. O conhecimento que ela tem em vista � o tipo de conhecimento que confere unidade sistem�tica ao corpo das ci�ncias, bem como o que resulta de um exame cr�tico dos fundamentos de nossas convic��es, de nossos preconceitos, e de nossas cren�as. Mas n�o se pode dizer, no entanto, que a filosofia tenha tido algum grande �xito na sua tentativa de fornecer respostas definitivas para os  seus problemas. Se perguntarmos a um matem�tico, a um mineralogista, a um historiador, ou a qualquer outro cientista, que definido corpo de verdades foi estabelecido pela sua ci�ncia, a sua resposta durar� tanto tempo quanto estivermos dispostos a lhe dar ouvidos. Mas se fizermos essa mesma pergunta a um fil�sofo, ele ter� que confessar, se for sincero, que a filosofia n�o tem alcan�ado resultados positivos tais como t�m sido alcan�ados pelas ci�ncias. � verdade que isso se explica, em parte, pelo facto de que, mal se torna poss�vel um conhecimento preciso naquilo que diz respeito a determinado assunto, este assunto deixa de ser chamado de filosofia, e torna-se uma ci�ncia especial. Todo o estudo dos corpos celestes, que hoje pertence � Astronomia, se inclu�a outrora na filosofia; a grande obra de Newton tem por t�tulo: Princ�pios matem�ticos da filosofia natural. De maneira semelhante, o estudo da mente humana, que era uma parte da filosofia, est� hoje separado da filosofia e tornou-se a ci�ncia da psicologia. Assim, em grande medida, a incerteza da filosofia � mais aparente do que real: aquelas quest�es para as quais j� se tem respostas positivas v�o sendo colocadas nas ci�ncias, ao passo que aquelas para as quais n�o foi encontrada at� o presente nenhuma resposta exacta, continuam a constituir esse res�duo a que � chamado de filosofia.

Isto �, no entanto, s� uma parte do que � verdade quanto � incerteza da filosofia. Existem muitas quest�es ainda - e entre elas aquelas que s�o do mais profundo interesse para a nossa vida espiritual - que, na medida em que podemos ver, dever�o permanecer insol�veis para o intelecto humano, a menos que seus poderes se tornem de uma ordem inteiramente diferente daquela que s�o actualmente. O universo tem alguma unidade de plano e objectivo, ou ele � um concurso fortuito de �tomos? � a consci�ncia uma parte permanente do universo, dando-nos esperan�a de um aumento indefinido da sabedoria, ou ela n�o passa de transit�rio acidente sobre um pequeno planeta, onde a vida acabar� por se tornar imposs�vel? S�o o bem e o mal importantes para o universo ou somente para o homem? Tais quest�es s�o colocadas pela filosofia, e respondidas de diversas maneiras por v�rios fil�sofos. Mas, parece que se as respostas s�o de algum modo descobertas ou n�o, nenhuma das respostas sugeridas pela filosofia pode ser demonstrada como verdadeira. E, no entanto, por fraca que seja a esperan�a de vir a descobrir uma resposta, � parte do papel da filosofia continuar a examinar tais quest�es, tornar-nos conscientes da sua import�ncia, examinar todas as suas abordagens, mantendo vivo o interesse especulativo pelo universo, que correr�amos o risco de deixar morrer se nos confin�ssemos aos conhecimentos definitivamente determin�veis.

Muitos fil�sofos, � verdade, sustentaram que a filosofia poderia estabelecer a verdade de certas respostas a tais quest�es fundamentais. Eles supuseram que o que � mais importante no campo das cren�as religiosas pode ser provado como verdadeiro por meio de estritas demonstra��es. A fim de julgar tais tentativas, � necess�rio fazer uma investiga��o sobre o conhecimento humano, e formar uma opini�o quanto aos seus m�todos e �s suas limita��es. Sobre tais assuntos � insensato  pronunciarmo-nos dogmaticamente. <...> Portanto, n�o podemos incluir como parte do valor da filosofia qualquer s�rie de respostas definidas a tais quest�es. Mais uma vez, portanto, o valor da filosofia n�o depende de um suposto corpo de conhecimento definitivamente assegur�vel, que possa ser adquirido por aqueles que a estudam.

O valor da filosofia, na realidade, deve ser buscado, em grande medida, na sua pr�pria incerteza. O homem que n�o tem umas tintas de filosofia caminha pela vida fora preso a preconceitos derivados do senso comum, das cren�as habituais da sua �poca e do seus pa�s, e das convic��es que cresceram no seu esp�rito sem a coopera��o ou o consentimento de uma raz�o deliberada. Para tal homem o mundo tende a tornar-se finito, definido, �bvio; para ele os objectos habituais n�o levantam problemas e as possibilidades n�o familiares s�o desdenhosamente rejeitadas. Quando come�amos a filosofar, pelo contr�rio, imediatamente nos damos conta  de que at� as coisas mais b�sicas conduzem a problemas para os quais somente podem ser dadas respostas muito incompletas . A filosofia, apesar de incapaz de nos dizer com certeza qual � a verdadeira resposta para as d�vidas que ela pr�pria levanta, � capaz de sugerir numerosas possibilidades que ampliam os nossos pensamentos, livrando-os da tirania do h�bito. Desta maneira, embora diminua o nosso sentimento de certeza com rela��o ao que as coisas s�o, aumenta em muito o nosso conhecimento a respeito do que as coisas podem ser; ela remove o dogmatismo um tanto arrogante daqueles que nunca chegaram a empreender viagens nas regi�es da d�vida libertadora; e vivifica o nosso sentimento de admira��o, ao mostrar as coisas familiares num determinado aspecto n�o familiar.

Al�m da sua utilidade ao mostrar insuspeitadas possibilidades, a filosofia tem um valor - talvez o seu principal valor - por causa da grandeza dos objetos que ela contempla, e da liberdade proveniente da vis�o rigorosa e pessoal resultante da sua contempla��o. A vida do homem reduzido ao instinto encerra-se no c�rculo dos seus interesses particulares; a fam�lia e os amigos podem ser inclu�dos, mas o resto do mundo para ele n�o conta, excepto na medida em que ele pode ajudar ou impedir o que surge dentro do c�rculo dos desejos instintivos. Em tal vida existe alguma coisa que � febril e limitada, em compara��o com a qual a vida filos�fica � serena e livre. Situado em meio de um mundo poderoso e vasto que mais cedo ou mais tarde dever� deixar o nosso mundo privado em ru�nas, o mundo privado dos interesses instintivos � muito pequeno. A n�o ser que ampliemos o nosso interesse de maneira a incluir todo o mundo externo, ficaremos como uma guarni��o numa pra�a sitiada, sabendo que o inimigo n�o a deixar� fugir e que a capitula��o final � inevit�vel. N�o h� paz em tal vida, mas uma luta cont�nua entre a insist�ncia do desejo e a impot�ncia da vontade. De uma maneira ou de outra, se pretendemos uma vida grande e livre, devemos escapar desta pris�o e desta luta.

Uma v�lvula de escape � pela contempla��o filos�fica. A contempla��o filos�fica n�o divide, nas suas investiga��es mais amplas, o universo em dois campos hostis: amigos e inimigos, aliados e advers�rios, bons e maus; ela encara o todo imparcialmente. A contempla��o filos�fica, quando � pura, n�o visa provar que o restante do universo � semelhante ao homem. Toda a aquisi��o de conhecimento � um alargamento do Eu, mas este alargamento � melhor alcan�ado quando n�o � procurado directamente. Este alargamento � obtido quando o desejo de conhecimento � somente operativo, por um estudo que n�o deseja previamente que os seus objetos tenham este ou aquele car�cter, mas adapte o Eu aos caracteres que ele encontra nos seus objectos. Esse alargamento do Eu n�o � obtido quando, tomando o Eu como ele �, tentamos mostrar que o mundo � t�o similar a este Eu que seu conhecimento � poss�vel sem qualquer aceita��o do que parece estranho. O desejo para provar isto � uma forma de egotismo, � um obst�culo para o crescimento do Eu que ele deseja, e do qual o Eu sabe que � capaz. O egotismo, na especula��o filos�fica como em tudo o mais, v� o mundo como um meio para seus pr�prios fins; assim, ele faz do mundo menos caso do que faz do Eu, e o Eu coloca limites para a grandeza dos seus bens. Na contempla��o, pelo contr�rio, partimos do n�o-Eu, e por meio de sua grandeza os limites do Eu s�o ampliados; atrav�s da infinidade do universo, a mente que o contempla participa um pouco da infinidade.

Por esta raz�o a grandeza da alma n�o � promovida por aquelas filosofias que assimilam o universo ao Homem. O conhecimento � uma forma de uni�o do Eu com o n�o-Eu. Como toda a uni�o, ela � prejudicada pelo dom�nio, e, portanto, por qualquer tentativa de for�ar o universo em conformidade com o que descobrimos em n�s mesmos. Existe uma tend�ncia filos�fica muito difundida em rela��o � vis�o que nos diz que o Homem � a medida de todas as coisas; que a verdade � constru��o humana; que espa�o e tempo, e o mundo dos universais, s�o propriedades da mente, e que, se existe alguma coisa que n�o seja criada pela mente, � algo incognosc�vel e de nenhuma import�ncia para n�s. Esta vis�o, se as nossas discuss�es precedentes forem correctas, n�o � verdadeira; mas al�m de n�o ser verdadeira, ela tem o efeito de despojar a contempla��o filos�fica de tudo aquilo que lhe d� valor, visto que ela aprisiona a contempla��o do Eu. O que tal vis�o chama conhecimento n�o � uma uni�o com o n�o-Eu, mas uma s�rie de preconceitos, h�bitos e desejos, que comp�em um impenetr�vel v�u entre n�s e o mundo para al�m de n�s. O homem que se compraze em tal teoria do conhecimento humano assemelha-se ao homem que nunca abandona seu c�rculo dom�stico por receio de que fora dele sua palavra n�o seja lei.

A verdadeira contempla��o filos�fica, pelo contr�rio, encontra a sua satisfa��o no pr�prio alargamento do n�o-Eu, em todas as coisas que engrandecem os objectos contemplados, e desse modo, o sujeito que contempla. Na contempla��o, tudo aquilo que � pessoal e privado, tudo o que depende do h�bito, do auto-interesse ou desejo, deforma o objecto, e, portanto, prejudica a uni�o que a intelig�ncia busca. Levantando uma barreira entre o sujeito e o objecto, as coisas pessoais e privadas tornam-se uma pris�o para o intelecto. O livre intelecto ver� assim como Deus poderia ver: sem um aqui e agora; sem esperan�a e sem medo; isento das cren�as habituais e preconceitos tradicionais: calmamente, desapaixonadamente, com o �nico e exclusivo desejo de conhecimento - conhecimento t�o impessoal, t�o puramente contemplativo quanto � poss�vel a um homem alcan�ar. Por isso, o esp�rito livre valorizar� mais o conhecimento abstracto e universal em que n�o entram os acidentes da hist�ria particular, que ao conhecimento trazido pelos sentidos, e dependente - como tal conhecimento deve ser - de um ponto de vista pessoal e exclusivo, e de um corpo cujos �rg�os dos sentidos distorcem tanto quanto revelam.

A mente que se tornou acostumada com a liberdade e imparcialidade da contempla��o filos�fica preservar� alguma coisa da mesma liberdade e imparcialidade no mundo da ac��o e da emo��o. Ela encarar� os seus objectivos e desejos como partes do Todo, com a aus�ncia da insist�ncia que resulta de consider�-los como fragmentos infinitesimais num mundo em que todo o resto n�o � afectado por qualquer uma das ac��es dos homens. A imparcialidade que, na contempla��o, � o desejo extremo pela verdade, � aquela mesma qualidade espiritual que na ac��o � a justi�a, e na emo��o � o amor universal que pode ser dado a todos e n�o s� aos que s�o considerados �teis ou admir�veis. Assim, a contempla��o amplia n�o somente os objectos dos nossos pensamentos, mas tamb�m os objectos das nossas ac��es e dos nossos sentimentos: ela  torna-nos cidad�os do universo, n�o somente de uma cidade entre muros em estado de guerra com tudo o mais. Nesta qualidade de cidad�o do mundo consiste a verdadeira liberdade humana, que nos tira da pris�o das mesquinhas esperan�as e medos.

Enfim, para resumir a discuss�o do valor da filosofia, ela deve ser estudada, n�o em virtude de algumas respostas definitivas �s suas quest�es, visto que nenhuma resposta definitiva pode, por via de regra, ser conhecida como verdadeira, mas sim em virtude daquelas pr�prias quest�es; porque tais quest�es alargam a nossa concep��o do que � poss�vel, enriquecem a nossa imagina��o intelectual e diminuem a nossa arrog�ncia dogm�tica que impede a especula��o mental; mas acima de tudo porque atrav�s da grandeza do universo que a filosofia contempla, a mente tamb�m se torna grande, e se torna capaz daquela uni�o com o universo que constitui o seu bem supremo.

Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia,Cap�tulo XV, 1912, Oxford University Press, 1959, reimpresso em 1971-2. Tradu��o: Jaimir Conte (Tradu��o revista e adaptada  pela redac��o do Espanto).

Texto recolhido no Site: http://www.sociologia.de

 

 
   
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