O sentido da vida

Fernando Savater

 

 

 

Os filósofos pretendem competir com a religião na procura redentora do sentido da vida. É que a pergunta por esse «sentido» é já por si religiosa e a única coisa que a filosofia pode fazer quanto a essa questão é mostrar essa religiosidade e tentar reposicionar a pergunta de outra forma para que fique filosoficamente válida. Quando se diz estar a procurar ‑ ou ter encontrado! ‑ o sentido da vida, a que tipo de «sentido» nos estamos a referir? Dizemos que tem «sentido» aquilo que significa algo por meio de outra coisa ou que foi concebido de acordo com determinado fim. O sentido de uma palavra ou frase é o que ela quer dizer, o sentido de um objecto é aquilo para o que se pretende que sirva (comer a sopa, matar o inimigo, falar com alguém afastado, etc.); o sentido de uma obra de arte é o que o seu autor quer expressar (uma forma de beleza, a representação do real, a insatisfação diante do real, a ilusão do ideal, etc.).

O que interessa para determinar o sentido de qualquer coisa é a intenção que o anima. Os símbolos, obras, condutas e instituições humanas estão cheios do sentido que as nossas intenções lhes conferem, do mesmo modo que os comportamentos dos animais. Em todos os casos, a intenção está ligada à vida, a conservá‑la, reproduzi‑la, diversificá‑la, etc. Onde não há vida deixa também de haver intenção e portanto deixa de haver sentido: podemos explicar as causas de uma inundação, de um terramoto ou de um amanhecer, mas não o seu «sentido». Portanto, se as intenções vitais são a única resposta inteligível à pergunta pelo sentido, como poderia ter «sentido» a própria vida? Se todas as intenções remetem como última referência para a vida, que «intenção» poderia ter a própria vida no seu conjunto?

O que é próprio do «sentido» de alguma coisa é que remete intencionalmente para outra coisa que não ela própria: para os propósitos conscientes do sujeito, para os seus instintos e, em último caso, para a autoconservação, auto‑regulação e propagação da vida. Para encontrar o sentido da vida devemos procurar «outra coisa», algo que não seja a vida, algo para além da vida.

O que caracteriza a mentalidade religiosa (por oposição directa à filosófica) não é responder «Deus» à pergunta sobre o sentido ou intenção do universo: o que é propriamente religioso é acreditar que, depois de dada tão sublime resposta, já está justificado deixar de perguntar. Graças a Deus as coisas têm sentido, mas seria ímpio perguntar que sentido tem então Deus. E, no entanto, de um ponto de vista filosófico, a pergunta sobre o sentido de Deus é tão razoável e urgente como a que pretende revelar o sentido do mundo ou o sentido da vida. Se essa pergunta não se pode fazer ou, em nome do Grande Enigma Divino, é suportável não responder a ela ( «Deus é o sentido e a pequenez humana nada mais pode saber d'Ele para além disso», etc.) então teria valido o mesmo ficarmos conformados muito antes.

Aceitar que Deus seja o Sentido Supremo, o que dá Sentido a todos os Sentidos, é um acordo com a obscuridade ainda mais conformista do que responder que o sentido de todos os sentidos é a intencionalidade vital ou a intenção humana. Pelo menos existem razões filosóficas para não ampliar para além da vida a pergunta sobre o sentido, isto é, para lá do uso habitual da palavra «intenção»: depois de ultrapassada essa barreira já não há porque se deter nem porque se contentar nunca. O religioso não é tanto querer ir para além como acreditar que depois está justificado «travar». Alguns filósofos tentaram com grandes respostas sistemáticas justificar também uma «travagem» semelhante à da religião, quer seja recorrendo ao sobrenatural ou sem chegar a isso. E habitualmente encararam as suas respostas de modo tão dogmático como qualquer pontífice ou inquisidor.

Se a vida não tem «sentido» (pelo mesmo motivo que todos os outros «sentidos» remetem mediata ou imediatamente para a vida), deveremos concluir desoladamente que a vida é absurda? Nem pouco mais ou menos. Chamamos «absurdo» ao que deveria ter sentido mas não tem, não ao que ‑ por cair fora do âmbito do intencional ‑ não «tem de» ter um sentido. Não é absurdo que a vida no seu conjunto não tenha sentido, porque não conhecemos intenções fora das vitais, e para lá do campo do intencional a pergunta pelo sentido... não tem sentido!

    A procura de um «sentido» para a vida não se preocupa pela vida em geral nem pelo «mundo» em abstracto, mas pela vida humana e pelo mundo em que nós habitamos e sofremos. Ao perguntar se a vida tem sentido, o que queremos saber é se os nossos esforços morais serão recompensados, se vale a pena trabalhar honradamente e respeitar o próximo ou se será o mesmo entregar‑se a vícios criminosos, em suma, se nos espera algo para là e fora da vida ou apenas o túmulo, como parece evidente. Um dos pensadores que levantou a questão com maior crueza é precisamente alguém habitualmente tão pouco cruel como Kant. No fim da Critica da Razão fala do homem recto (apresenta como exemplo, nada por acaso, a Espinosa) que está convencido de que não existe Deus nem vida futura. Como fará então para justificar o seu próprio compromisso moral? Por muito boa vontade que desenvolva, os seus sucessos serão sempre limitados e nunca evitarão completamente que o engano, a violência e a inveja continuem a agir à sua vontade sem olhar a nada entre os homens. Tanto ele como os restantes homens justos com que se encontrar ‑ por muito dignos que sejam de obter a felicidade ‑serão tratados pela imparcial natureza do mesmo modo que os malvados e estarão submetidos «a todos os males da miséria, das doenças, de uma morte prematura, tal como os outros animais da Terra, e continuarão a está‑lo até que a Terra profunda os guarde a todos (justos ou não, que isso aqui vale o mesmo) e os volte a fazer desaparecer, a eles que podiam julgar ser o fim final da criação, no abismo do caos informe da matéria de onde foram tirados». Ao constatar este panorama tão pouco animador, a única defesa ‑ segundo Kant ‑ que resta à pessoa decente para salvaguardar a sua rectidão e não a considerar uma preocupação estéril é aceitar a existência de um Deus que seja o criador moral do mundo, garantindo assim um «sentido» ultramundano feliz para a boa vontade, cá em baixo tão mal retribuída.

No entanto, há a realçar a possibilidade de uma linha de reflexão alternativa, que também conta com defensores ilustres (maioritários na filosofia posterior a Kant). De facto, não é por se comportar eticamente e por lutar para que exista mais solidariedade e justiça no mundo humano que nenhum homem ou nenhuma mulher consegue escapar ao destino comum que a nossa condição mortal nos reserva.

Mas implicará isto necessariamente que o projecto moral seja sem sentido e supérfluo, a não ser que alguma sanção sobrenatural o avalize contra a própria morte? O homem sabe‑se mortal e é esse destino que o desperta para a tarefa de pensar. A sua primeira reacção diante da certeza da morte (no caso de optar por não a negar e renunciar a refugiar‑se na ilusão de algum tipo de existência no além) é de desespero angustiado, pelas razões bem expostas mais atrás por Kant

Quando se consegue sobrepor ao desespero, o ser humano constata que é tão verdade que vai morrer como que agora está vivo. Se a morte consiste em não ser nem estar de modo nenhum em parte nenhuma, todos já derrotamos a morte uma vez, a decisiva. Como? Nascendo. Não haverá morte eterna para nós, visto que já estamos vivos, ainda vivos.

O ser humano, quando constata a sua presença na vida, exalta‑se. E essa constatação exaltada é o que constitui a alegria. A alegria afirma e assume a vida face à morte, face ao desespero.

Mas a alegria não é puro êxtase, mas actividade e vai ainda mais além: luta contra o mal‑estar desesperado da morte que nos contagia de medo, de avidez e de ódio. A alegria nunca poderá triunfar completamente sobre o desespero (dentro de cada um de nós coexistem o desespero e a alegria) mas também não se renderá diante dela. Baseando‑nos na alegria, procuramos «aligeirar» a vida do peso opressor e nefasto da morte. O desespero só conhece o nada que ameaça cada um, enquanto que a alegria procura apoio e estende a sua simpatia activa aos nossos semelhantes, os mortais vivos.

Em si mesmo, o mundo em que nós, humanos, nos movemos não tem qualquer sentido ou significado próprios. Como se prova? Que resiste a todos, por mais diferentes que sejam.

O sentido é algo que nós, humanos, damos à vida e ao mundo face ao abismo insignificante do caos, que vencemos aparecendo e ao qual nos submetemos morrendo. É uma grande vitória e uma derrota insignificante, porque o indivíduo morre, mas o sentido que ele quis dar à sua vida não morre... Esse fica para nós, seus companheiros de humanidade. Mas o abismo caótico também está oculto em todos os nossos significados, como o seu reverso, como a sua espessura. Vivemos sobre o abismo e conscientes dele. Por isso a razão humana não é simples fábrica de instrumentos nem se contenta em encontrar soluções para perguntas ainda não definitivas. E também é por isso que a filosofia não é apenas razão mas também imaginação criadora: «É a mediação do imaginário, do inverificável (o poético), são as possibilidades da ficção (mentira) e os saltos sintácticos para manhãs sem fim que transformaram homens e mulheres em charlatães, em censuradores, em poetas, em metafísicos, em planificadores, em profetas e em rebeldes diante da morte». 

A religião promete salvar a alma e ressuscitar o corpo. Pelo contrário, a filosofia nem salva nem ressuscita mas apenas pretende levar até onde for possível a aventura do sentido do humano, a exploração dos significados. Nem rejeita a realidade da morte nem se deixa imbuir desesperadamente pelo medo e pelo ódio que dela brotam: procura pensar os conteúdos da vida e os seus limites... como se a própria vida dependesse disso. E fá‑lo com tanto afinco que às vezes provoca a troça e o sorriso.

                        Fernando Savater, As Perguntas Da Vida ,Publicações Dom Quixote

 

 

 
   
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