O que é o mundo?

   
   
 

 

O ser humano vive num mundo. Isto parece óbvio.

Mas o que devemos começar por ver é o que é isso que queremos designar através da palavra mundo.

O mundo, para o homem, não é o ambiente natural onde os demais seres vivos vivem, pois é composto por uma multiplicidade de objectos que foram criados pelo próprio homem.

Mas o mundo não se compõe apenas de objectos, de coisas materiais, como os animais, as plantas, os minerais, os instrumentos que utilizamos na nossa vida, etc.

O mundo compõe-se também de relações que, conscientemente ou não, estabelecemos com e entre esses elementos tão diversos: há coisas que são minhas, há seres que me agradam, há objectos de que necessito para viver a minha vida quotidiana, pois para me alimentar tenho que ingerir alimentos, para me vestir tenho que usar vestuário, penso que é fácil perceber de que é que estou a falar…

Mas o mundo onde vivemos, no qual nos inserimos e do qual somos inseparáveis, também é habitado (essa é a palavra correcta) por outros seres humanos, iguais a nós, também eles dependendo desse mundo, como nós. Ora, nós vivemos sempre em relação com os outros homens, porque somos seres sociais.

Isto leva a que o mundo em que vivemos também se componha de regras de conduta, que não são seres materiais, de valores que orientam as nossas acções, quer em relação às coisas materiais, quer em relação aos outros homens. Essas regras são fundamentais para que possamos viver em sociedade, uma vez que permitem que os indivíduos se relacionem de uma forma integrada e não conflituosa. Por esse motivo, as regras mais importantes estão codificadas sob a forma de leis, havendo sanções para quem não as cumpra.

Podemos agora compreender uma verdade que muitas vezes nos escapa por não prestarmos muita atenção às coisas básicas da vida: o mundo em que vivemos também se compõe de comportamentos (nossos e dos outros homens). Não será abusivo dizer que o que move o mundo é a acção humana, na sua conjugação com os processos naturais. Se os homens resolvessem parar de fazer aquilo que habitualmente fazem, o nosso mundo entraria em colapso: a simples acção da Natureza não seria suficiente para nos alimentarmos, nos vestirmos, nos distrairmos…

Podemos, então, concluir que a nossa existência é dependente de uma circunstância, está radicada num aqui e num agora (ver Texto 1) que limitam e possibilitam a nossa liberdade.

A nossa circunstância corresponde ao mundo em que nos inserimos e dentro do qual encontramos, quer queiramos quer não, os materiais para nos construirmos e darmos sentido à nossa existência.

Vivemos, portanto, inseridos num contexto histórico-social (histórico-cultural) que confere sentido às nossas inquietações e à nossa busca de resposta para o problema que somos para nós próprios.

 

Texto 1

Viver é viver aqui e agora

 «Mas agora convém deixar um pouco mais avançada a definição da "nossa vida". Ela é um encontrar‑se ocupando‑se nisto ou naquilo, um fazer. Mas todo o fazer é ocupar‑se de alguma coisa para alguma coisa. A ocupação que somos agora radica‑se em e surge por um propósito em virtude de um para, do que vulgarmente se chama uma finalidade. Esse para em vista do qual faço agora isto e neste fazer vivo e sou, o decidi eu: isto é, a minha vida antes de simplesmente fazer é decidir um fazer ‑é decidir a minha vida.

A nossa vida não nos é dada feita como a trajectória da bala. Mas consiste em decidir‑se porque viver é encontrar‑se num mundo não hermético, mas que oferece sempre possibilidades. O mundo vital compõe‑se em cada instante para mim de um poder fazer isto ou aquilo, não de um ter que fazer por força isto e apenas isto.

Por outro lado, essas possibilidades não são ilimitadas nesse caso não seriam possibilidades concretas e, num mundo em que tudo é igualmente possível, não é possível decidir‑se por nada. Para que haja decisão tem que haver ao mesmo tempo limitação e largueza, determinação relativa. Exprimo isto com a palavra "circunstâncias".

A vida encontra‑se sempre em certas circunstâncias, numa disposição em torno – circum - das coisas e demais pessoas. Não se vive num mundo vago, já que o mundo vital é constitutivamente circunstância, é este mundo, aqui, agora. E circunstância é alguma coisa determinada, fechada, mas ao mesmo tempo aberta e com largueza interior: a circunstância é um curso que a vida se vai fazendo dentro de um leito inexorável. Viver é viver aqui, agora o aqui e o agora são rígidos, impermutáveis, mas amplos. Toda a vida se decide a si mesma constantemente entre vários possíveis. A vida é, ao mesmo tempo, fatalidade e liberdade, é ser livre dentro de uma fatalidade dada. Esta fatalidade oferece‑nos um repertório de possibilidades determinado, inexorável, isto é, oferece‑nos diferentes destinos.”

Ortega y Gasset

 

 

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