A Linguagem

 

 

 

 

Introdução

O homem como produto e produtor da cultura

A linguagem e a liberdade

A linguagem humana e a linguagem animal

 

O homem e o animal

 

A natureza do símbolo

 

A estrutura simbólica da linguagem

 

A linguagem e o Pensamento

 

O desenvolvimento do pensamento na criança

 

 

 

 

 

 

 

Introdução

 

     A linguagem simbólica (articulada), é, tanto quanto sabemos, um facto inovador na história da evolução da vida na terra. O homem é a única espécie que conseguiu libertar-se dos mecanismos naturais da evolução (continuando, contudo, sujeito às leis biológicas), condicionando a sua própria evolução através da produção de instrumentos e ferramentas materiais e mentais, que lhe permitiram transformar o mundo e transformar-se ao longo desse processo.

    Assim, a espécie humana pôde adaptar-se a todos os habitats que existem no planeta Terra, desde as zonas gélidas até ao fundo dos oceanos, conseguindo ainda transportar para o Espaço veículos e estações espaciais que permitem a manutenção da vida.

    Tudo isto só foi possível devido à linguagem simbólica, que está na base da  emergência do pensamento e dos instrumentos mentais que permitiram unir os esquemas de acção aos esquemas mentais que são, no seu conjunto, a base da inteligência humana.

     A linguagem é, assim, a base da cultura, sem a qual o homem moderno não existiria.    

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O homem como produto e produtor da cultura

     

      O homem tanto ao nível da espécie, como ao nível do indivíduo é um produto da cultura.

 

      Como vimos, a evolução da espécie humana foi comandada pela evolução da cultura.  

 

      Assim o homem, como vive num universo cultural (simbólico), vive num mundo estruturado pela acção e pelo pensamento do próprio homem, que, por sua vez não existiriam sem a função simbólica da linguagem. Em consequência disto, quando nasce, o homem tem que passar por um longo processo de socialização por forma a adaptar-se à cultura da sociedade em que nasceu. Esse processo molda o indivíduo, tornando diferente do que teria sido se tivesse nascido no seio de outra sociedade ou cultura.

 

      Mas o homem, quer ao nível da espécie, quer ao nível individual, é o produtor da cultura, resultando daqui que o homem é o único animal que se produz a si próprio.

 

       Por fim, podemos definir a cultura como sendo tudo aquilo que é produzido pelo homem.

        

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A linguagem e a liberdade

   O homem é livre: não está sujeito ao determinismo natural. Isto porque pode, graças aos conceitos (dimensão do significado do signo) , representar mentalmente a realidade circundante. Esse poder de representar conceptualmente a realidade, conferiu ao homem possibilidade de planear antecipadamente as suas acções, de se recordar do passado e de antecipar o futuro.

  

   Ao poder  transmitir aos outros informações precisas sobre os seus estados mentais, o homem, progressivamente, desenvolveu uma vontade autónoma, libertando-se dos grilhões do instinto, ao mesmo tempo que a vida social se tornava mais complexa e diversificada.

   Com isto nasceu o sentimento e a consciência da nossa individualidade, complementada pelo sentimento de pertença a grupos sociais que dão sentido e amplitude às nossas acções.

 

   A consciência individual vem acompanhada da vontade, do poder de escolher o que queremos e de rejeitar o que não queremos. E aqui surge algo verdadeiramente importante: esse querer, na sua radicalidade, não é comandado nem pelo instinto, nem pela interacção com os outros homens, ele nasce do nosso eu e é a sua mais espontânea e genuína expressão. 

 

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A linguagem humana e a linguagem animal

       "Um sinal é um facto físico vinculado a outro facto físico por um nexo natural ou convencional; o relâmpago que anuncia a tempestade; a campainha que anuncia a comida; o grito que anuncia o perigo. O animal percebe o sinal e é capaz de lhe reagir adequadamente. Pode-se-lhe ensinar a identificar sinais variados, quer dizer, a unir duas sensações pela relação do sinal. Os famosos reflexos condicionados de Pavlov mostram-no bem. O homem também, embora animal, reage a um sinal. Porém utiliza para além disso o símbolo que é instituído pelo homem;  Para se apreender o sentido do símbolo, deve-se ser capaz de interpretá-lo na sua função significante e não somente de percebê-lo como impressão sensorial, pois o símbolo não tem relação natural com o que simboliza. O homem inventa e compreende símbolos; o animal não. É frequente dizer-se que o animal "ensinado" compreende a palavra humana. Na  realidade o animal obedece à palavra humana porque se lhe ensinou a reconhecê-la como sinal; porém jamais saberá interpretá-la como símbolo. Pela mesma razão, o animal expressa as suas emoções, não pode nomeá-las. Não se pode considerar que os meios de expressão empregados pelos animais são o começo ou uma  aproximação à linguagem simbólica.

 

    Isto porque entre a função sensorio-motora e a função representativa existe uma fronteira que só a humanidade franqueou. Pois o homem não foi criado duas vezes, uma sem linguagem, outra com ela. A emergência de Homo na série animal pode ter sido favorecida pela sua estrutura corporal ou a sua organização nervosa, mas deve-se, antes de mais nada, à sua faculdade de representação simbólica, fonte comum do pensamento, da linguagem e da sociedade. Assim, podemos concluir que o pensamento não é outra coisa que este poder de construir representações das coisas e de operar sobre as ditas coisas. É por essência simbólico"

                    E. Benveniste (Texto adaptado).

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O homem e o animal

 

 

"A linguagem realmente cria um abismo entre o Homo sapiens e o resto do mundo natural. Não há dúvida de que a evolução da linguagem falada como a conhecemos foi um ponto de definição na pré-história humana. Foi talvez o momento de definição. Equipados com uma linguagem simbólica, os humanos foram capazes de criar novos tipos de mundo na natureza: o mundo da consciência introspectiva e o mundo que construímos e dividimos com os outros, o qual chamamos de "cultura". A linguagem tornou-se o nosso meio e a cultura o nosso novo ambiente.

     A habilidade humana de gerar sons articulados, ou fonemas, é apenas modestamente realçada quando a comparamos com a mesma habilidade dos macacos: nós temos cinquenta fonemas; os macacos cerca de 12. Não obstante, a nossa utilização desses sons é virtualmente ilimitada. Eles podem ser arranjados e re-arranjados para dotar o ser humano médio de um vocabulário de uma centena de milhar de palavras, e estas palavras podem ser combinadas numa infinidade de frases. Como consequência, a capacidade de comunicação rápida, detalhada, e a riqueza de pensamento do Homo sapiens não tem rival no mundo da natureza.

 

Em todos os mamíferos, excepto nos humanos, a laringe fica na parte mais ao alto na garganta, o que permite ao animal respirar e beber ao mesmo tempo. Como consequência disso, a pequena cavidade que forma a faringe limita a gama de sons que podem ser produzidos. Portanto a maioria dos mamíferos depende da forma da cavidade oral e dos lábios para modificar os sons produzidos na laringe. Embora a posição mais abaixo na laringe permita aos humanos produzir uma gama maior de sons, isto também significa que nós não podemos beber e respirar simultaneamente. Nós humanos exibimos uma vaga tendência a engasgar. Os bebés humanos nascem com a laringe mais ao alto na garganta, como típicos mamíferos, e podem respirar e beber simultaneamente, como devem fazê-lo durante a amamentação. Depois de cerca de 18 meses, a laringe começa a migrar para a parte mais abaixo na garganta, atingindo a posição que corresponde à de um adulto quando a criança tem cerca de 14 anos."                                                           

                                    Richard Leakey (Texto adaptado)

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A natureza do símbolo

 

 

    O símbolo é o elemento fundamental da comunicação entre seres humanos. Isto deve-se à sua dupla natureza, uma vez que o símbolo tem uma dimensão material (estrutura física) e uma dimensão espiritual ( ou mental ).

 

     A dimensão material do símbolo tem o nome de significante e a dimensão espiritual o nome de significado. Assim, os símbolos permitem-nos expressar materialmente os nossos conteúdos mentais (as nossas ideias, as nossas crenças, os nossos sentimentos, a nossa vontade, o nosso estado de espírito, etc. ).

 

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A estrutura simbólica da linguagem

 

      A linguagem humana é um sistema simbólico que se destaca dos outros (de facto, existem muitos outros sistemas simbólicos ) porque utiliza símbolos específicos e completamente convencionais, uma vez que não têm, pelo menos no caso das línguas alfabéticas, qualquer relação com os objectos que representam, e porque esses símbolos estão interligados num sistema coerente, cujas regras permitem construir um número praticamente infinito de mensagens.

   É por isso que através da linguagem, podemos explicar todos os outros símbolos ou sistemas simbólicos. Por exemplo, como poderíamos aprender os sinais de trânsito (que são símbolos) sem que eles nos sejam explicados por palavras ?

   Ao símbolo linguístico (à palavra) chama-se signo. E o signo tem, por sua vez, enquanto símbolo, duas dimensões: o significante e o significado. O significante corresponde aos sons (fonemas) ou aos sinais gráficos (grafemas) através dos quais  o signo é expresso; o significado corresponde ao conceito que a nossa mente associa aos fonemas ou aos grafemas que constituem a dimensão material do signo.

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A linguagem e o Pensamento

 

 

Levantou-se demasiadas vezes o problema de saber se existe uma linguagem sem pensamento e um pensamento sem linguagem. Além do facto de mesmo o discurso interior ( o ‘pensamento mudo’ ) no seu labirinto se servir da rede da linguagem e não a poder dispensar, parece impossível afirmar a existência de um pensamento independente da linguagem.

    Por isso evitamos afirmar que a linguagem é um instrumento do pensamento. Tal concepção podia fazer crer que a linguagem exprime, como um utensílio, qualquer coisa de exterior a ela. Mas o que são as ideias? Existirão sem ser em forma de linguagem?  Afirmá-lo seria cair no absurdo.

     Se a linguagem é a matéria do pensamento, é também o próprio elemento da comunicação em sociedade. Não há sociedade sem linguagem, tal como não há sociedade sem comunicação. Tudo o que se produz como linguagem tem lugar na troca social para ser comunicado.

    A pergunta clássica: ‘qual é a função primeira da linguagem: a de produzir um pensamento ou a de comunicar?’ não tem qualquer fundamento objectivo. A linguagem é tudo isso simultaneamente, e não pode existir uma dessas funções sem a outra.

    O homem ‘fala’ e ‘o homem é um animal social’, são duas expressões sinónimas.”

                                                 J. kristeva (Texto adaptado).

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O desenvolvimento do pensamento na criança

 

“Assiste-se durante a primeira infância a uma transformação da inteligência que, de simplesmente sensório-motora ou prática que era de início, se prolonga daí em diante em pensamento propriamente dito, sob a dupla influência da linguagem e da socialização. A linguagem, em primeiro lugar, permitindo ao sujeito contar as suas acções, fornece-lhe ao mesmo tempo o poder de reconstituir o passado, e, portanto, de o invocar na ausência de objectos sobre os quais incidiram as condutas anteriores, e de antecipar as acções futuras,

ainda não executadas, até as substituir por vezes unicamente pela palavra, sem nunca chegar a fazê-las. Tal é o ponto de partida do pensamento. Mas a este acrescenta-se logo o facto de que, conduzindo a linguagem à socialização das acções, aquelas que, graças a ela, proporcionam actos de pensamento não pertencem exclusivamente ao eu que as engendra e são de imediato situadas num plano de comunicação que lhes decuplica o alcance. Com efeito, a própria linguagem veicula conceitos e noções que a todos pertencem e que reforçam o pensamento individual com um vasto sistema de pensamento colectivo. É neste que se banha, virtualmente, a criança, logo que consegue manejar a palavra.

    Mas passa-se com o pensamento o mesmo que com toda a conduta: em vez de se adaptar de repente às realidades novas que descobre, e que pouco a pouco constrói, o sujeito deve começar por uma incorporação laboriosa dos dados ao seu eu e à sua actividade e esta assimilação egocêntrica caracteriza os primórdios do pensamento da criança tal como os da sua socialização.

 

Para sermos mais exactos, devemos dizer que, durante as idades dos 2 aos 7 anos, se encontram todas as transições entre duas formas extremas de pensamento, representadas em cada uma das etapas percorridas durante este período e nas quais a segunda pouco a pouco predomina sobre a primeira. A primeira destas formas é a do pensamento por incorporação ou assimilação puras, cujo egocentrismo exclui consequentemente toda a objectividade. A segunda destas formas é a do pensamento adaptado aos outros e ao real, que prepara assim o pensamento lógico. A maioria dos actos do pensamento infantil encontra-se a oscilar entre estas duas direcções contrárias.”

                                  J. Piaget

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