O que é a filosofia?

 
 

Esta é, sem dúvida, a pergunta que todos os jovens se colocam, quando se deparam com a disciplina de Introdução à Filosofia. Introdução a quê? Para quê?

O que é estranho é o facto de terem completado o ensino básico sem terem estudado esse tema. De facto, parece que a Filosofia é uma saber que não tem rosto na nossa sociedade, ninguém lhe dá importância no círculo das nossas relações quotidianas, não aparece nos jornais ou na televisão…

Onde estão os filósofos e o que fazem? Mais perguntas que vão ficando sem resposta…

É muito estranho. É o mínimo que se pode dizer. Mas o mais estranho é que os alunos do secundário não só têm que frequentar aulas de Introdução-a-essa-coisa-de-que-ninguém-quer-saber, como serão avaliados no âmbito dessa disciplina. Estranho? Então esperem pelo que vem a seguir…

O que vem a seguir:

A filosofia não é mais do que gostarmos da vida e sabermos que gostamos da vida, com tudo o que esse saber acarreta: a procura da compreensão do porquê e do para quê de estarmos vivos; a responsabilidade de nos sabermos vivos e, por isso, termos que fazer algo com a nossa vida, de forma a gostarmos cada vez mais dela e ajudarmos os outros a gostarem da nossa vida e, por esse meio, da sua própria vida.

Simples demais?

Talvez não: é que essa coisa de gostar da vida parece ser (e de facto é) muito subjectiva. O gostar, e nisso reside a sua beleza, é sempre subjectivo. Mas o viver ainda é mais, porque a minha vida é o que há de mais irredutivelmente meu, é algo que nunca poderá ser inteiramente dos outros, embora eu a possa partilhar sem que, com isso, a diminua, antes pelo contrário: quanto mais a partilho mais ela é minha, mais valor tem, maior e mais intensa se torna…

Então, por que razão essa disciplina não se chama, simplesmente, Introdução à Vida?

Não será isso que todas as disciplinas são (ou deveriam ser)?

É que a Filosofia não é uma reflexão sobre como viver. Não se esgota nisso, não é um conjunto de instruções, tipo livro de culinária, para nós aprendermos a viver. Só se aprende a viver vivendo, não há outra solução.

O que a filosofia ensina é outra coisa: ela ensina o gostar da vida. E gostar é o mesmo que saborear, é sentir intimamente o valor da vida, a sua crepitação, a sua textura, a sua frescura e os seus cambiantes.

Mas para que isso aconteça, temos que nos apaixonar pelo nosso objecto de estudo: temos que nos apaixonar pela vida, a sério.

Temos que a conhecer, temos que nos sentir atraídos por ela e temos que sentir que somos correspondidos no nosso interesse. É que só se apaixona pela vida quem se interessa por ela. O amor não nasce do desinteresse.

Por isso é, por vezes, tão difícil aprender Introdução à Filosofia: muitas pessoas não se interessam pela vida, ou porque não têm ainda maturidade suficiente para tal, ou porque acham a vida qualquer coisa de banal e insignificante. Estas últimas estão numa posição mais desconfortável, a sua imaturidade pode não ter remédio, porque podem já não estar numa fase de crescimento. Há que notar que todas as fases da nossa vida podem e devem ser fases de crescimento.

Também pode haver pessoas que não sabem bem o que é a vida, embora a esmagadora maioria pense que sabe. Ponto final. Parágrafo.

Ora o que a filosofia nos mostra é que só conseguimos amar a vida se reconhecermos que não sabemos o que ela é.

Só ama a vida aquele que, de repente, ou não tão de repente, depende da vida de cada um, descobre que a vida é espantosa: “Olha, afinal não sei o que é a vida!”

Lorpa! Podemos ser tentados a dizer se ouvirmos alguém dizer tal coisa. Mas será?

 

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