Ficha 9 FILOSOFIA - 10º ANO

A vida como acto total

 

 

A existência autêntica e a existência inautêntica

“Julgamos ser coisa simples pensar na vida. Muitas vezes, ficamos a pensar no que nos tem acontecido, revemos os nossos actos, fazemos planos para o futuro. Imaginamos um outro caminho, que poderíamos ter seguido, imaginamos o que gostaríamos que nos acontecesse de futuro, E julgamos com isto que pensamos na vida. Pensar na vida, no entanto, não e assim tão simples.

Dizia Platão que o homem vive preso a uma falsa imagem do real. Para ele, não contemplamos em geral a própria realidade, mas apenas as imagens, que estão para o real como a sombra de um objecto para o próprio objecto. Para mostrar este facto, criou a famosa alegoria da caverna: os homens vivem acorrentados, numa caverna, voltados para o seu interior; a luz, que nela penetra, projecta sobre as suas paredes interiores sombras dos objectos reais; desta forma, vemos as sombras projectadas, e julgamos que estas sombras são a realidade; ora, estas sombras têm alguma coisa da forma real, mas são uma imagem pálida e imprecisa da realidade e não a sua visão efectiva e directa. Para Platão, o conhecimento sensível está para o conhecimento intelectual como a sombra está para o objecto de que ela é urna imprecisa projecção. Por isso, para Platão, a missão do filósofo consistiria fundamentalmente em libertar os homens desta visão subalterna, para que eles pudessem contemplar a verdadeira realidade.

Esta concepção de Platão, que nos pormenores poderemos criticar, continua essencialmente válida. A missão fundamental do filósofo consiste em libertar o Homem de um tipo de visão espontânea e superficial, para conduzi‑lo a um outro tipo de visão do mundo. Não podemos reflectir convenientemente sobre os problemas que afligem a existência humana se uma visão imaginativa da vida não for ultrapassada por uma visão conceptual. Esta distinção entre imagem e conceito é fundamental. Sair do plano confuso em que se desenrola espontaneamente o conhecimento humano é, antes de tudo, ter consciência da distinção que existe entre o conhecimento‑imagem e o conhecimento‑conceito.

Também o filósofo alemão contemporâneo Martin Heidegger nos fala de uma existência inautêntica e de uma existência autêntica. Para Heidegger, o homem comum deixa‑se levar por uma série de questões superficiais, por uma curiosidade inconsequente, que se perde no conhecimento das simples notícias, sem maiores exigências: esta curiosidade vã coloca o homem diante de uma existência inautêntica, em consequência dos conhecimentos adquiridos sem profundidade. Só quando o homem substitui esta curiosidade inconsequente pela angústia, que é a expressão de uma percepção dramática da existência humana, em que o homem se vê permanentemente numa encruzilhada, em que lhe cabe decidir a sua vida (como o diria igualmente o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard), é que o homem vive a sua existência autêntica.

Quando pensamos a vida não se trata apenas de recordar o passado ou imaginar o futuro. Trata‑se de julgar a nossa participação na existência, de decidir a nossa vida em função de uma consciência, e de uma responsabilidade assumida, que efectiva a possibilidade de existirmos como seres livres, segundo o que dispõe a nossa natureza.

A prisão ao conhecimento sensível faz‑nos pensar por imagens. As imagens prendem‑nos ao aspecto físico e exterior da existência e impedem‑nos de pensar a existência em termos de vida. Pensamos tudo em categorias de espaço e não atingimos a vida no seu existir no tempo. Para pensar a vida, devemos pensá‑la em categorias de tempo, de qualidade, de intensidade; presos ao conhecimento sensível, presos às imagens, pensamos apenas em termos de espaço, de quantidade, de matéria.

«Na estrada da vida», eis uma expressão que se repete permanentemente. Fosse apenas uma expressão literária, e não haveria problema. Há um problema, no entanto, e grave. É que pensamos a vida como uma estrada. E aí está mais uma consequência desta tendência para pensar em termos de imagem e de espaço físico.

Nascemos, crescemos aprendemos a andar. Andamos por ruas, andamos por estradas, andamos por caminhos, andamos por picadas, andamos por florestas, abrindo trilhas. Ficamos com a ideia de que a vida é como uma estrada por onde passamos, por onde outros já passaram e por onde outros passarão. E aí está porque somos incapazes de pensar convenientemente a vida.

Martin Heidegger propôs que, para pensarmos a nossa existência, nos imaginássemos a despertar no meio de uma floresta sem qualquer estrada ou caminho. A existência de cada um é uma floresta onde jamais um caminho foi aberto. Cada um de nós tem de abrir o seu caminho, cada um de nós tem de construir a sua própria estrada. Com esta imagem, Heidegger procura mostrar que o fundamental para pensar a existência é não a pensar como uma estrada que já está preparada e a qual é suficiente percorrer. Não, os caminhos não estão preparados, e, na verdade, não existem estradas e não existem caminhos. Existe o ser humano, que se desenvolve no tempo. Para o ser humano, do ponto de vista da sua vida, de facto, nem as ruas por onde caminhamos, nem as estradas que percorremos são sempre as mesmas. Na perspectiva da duração interior que é o nosso existir no tempo, que é o nosso existir histórico, tudo é novo.

E, no entanto, viver é ter a consciência de construir a própria vida. Viver é caminhar, certos de que não existe um caminho anteriormente traçado na existência. O caminhar é o caminho, cada passo que damos abre um caminho, cada escolha que realizamos aprisiona‑nos e fortalece‑nos, porque é uma autodeterminação. O modo por que vivemos constrói a expressão do que somos e do que nos fazemos ser. Pensar a vida não é pensá‑la em termos de caminho que percorremos, porque viver não é passar, mas é ser. E, por isso, o que importa é saber como participamos na vida, como sentimos a vida, o que construímos do nosso próprio ser no nosso próprio modo de ser. Desta forma, a vida aparentemente mais simples pode ser a mais heróica, tudo dependendo da intensidade de vida com que o nosso ser se realiza no seu modo de ser.”

E. Prado de Mendonça, 0 Mundo Precisa de Filosofia.

 

 

Actividades:

1.  Explique a distinção, presente no texto, entre existência autêntica e existência inautêntica.

2.  Comente a seguinte afirmação do texto, a partir duma reflexão pessoal sobre o que é a (nossa) vida: “Pensar a vida não é pensá‑la em termos de caminho que percorremos, porque viver não é passar, mas é ser.”

3. Com base no texto, podemos dizer que temos um destino traçado? Justifique a sua resposta.

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