|
“A razão não é simplesmente uma espécie de
tendência automática. A razão está em boa medida baseada no confronto com
os outros, quer dizer, raciocinar é uma tendência natural baseada, ou para
nós fundada, no uso da palavra, no uso da linguagem; e o uso da linguagem
é o que nos obriga a interiorizar o nosso papel social. A linguagem é
sociedade interiorizada, e é curioso que alguns filósofos e outras pessoas
ao longo dos séculos se tenham perguntado (por exemplo, o "penso, logo
existo" de Descartes): Estou aqui?, duvido de tudo, Estarei sozinho no
mundo?, Existe este mundo?, É tudo uma ficção inventada por um deus
maligno?
O elemento racional está em todos os
nossos comportamentos, faz parte das nossas mais elementares funções
mentais. Se alguém nos disser que ao meio-dia comeu uma feijoada e que a
paella estava muito boa, imediatamente dizemos: "não pode ser; ou
feijoada ou paella". O próprio acto de nos darmos conta de que há
coisas incompatíveis, de que as coisas não podem ser e não ser ao mesmo
tempo, ou que as coisas contraditórias não podem afirmar-se
simultaneamente, ou que tudo deve ter alguma causa, supõe exercícios de
racionalidade.
Esse tipo de mecanismos elementares estão
em todos nós e não poderíamos sobreviver sem eles. Há em todos os lados,
em todas as culturas e em todos os tempos algumas disposições naturais
para o desenvolvimento de modelos racionais.
Uma das características da razão é que
serve para se ser autónomo, quer dizer, os seres racionais são mais
autónomos que as pessoas que não desenvolveram a sua capacidade racional.
É evidente que autonomia não quer dizer isolamento, falta de
solidariedade, solipsismo, mas serve pelo menos para cada qual se
auto-controlar, se auto-dirigir, optar entre opções diferentes, proteger
as coisas que se consideram importantes, empreender empreendimentos, etc.
Creio que a autonomia é fundamental, e essa autonomia é exactamente o que
a razão permite. O não desenvolvimento da razão faz-nos dependentes. De
facto, as crianças muito pequenas e as pessoas que, por qualquer desgraça,
perderam alguma das faculdades racionais a primeira coisa de que sofrem é
uma dependência dos outros.
Precaver-se contra explicações racionais, guardar chaves da capacidade
racional é a melhor maneira de manter independência face aos outros. Por
isso há que procurar potenciar a capacidade racional de assumir inclusive
as limitações do nosso próprio conhecimento. Uma das características da
razão é assumir os limites do conhecimento e não acreditar que, por mera
acumulação, se pode estender até ao infinito.
Creio que uma das principais missões
da razão é estabelecer os diversos campos de verdade que existem. É claro
que a razão tem que ver com a verdade. A ideia actual de que nada é
verdade é bastante discutível.
Evidentemente, da verdade absoluta, com
maiúscula e um nimbo de luz à volta, ao facto de que nada seja verdade, e
que portanto qualquer coisa é mais ou menos tão igualmente certa quanto
outra, há um longo percurso. Quer dizer, a razão busca verdades, opiniões
mais reais, mais próximas ao real, com mais carga de realidade que outras.
Não está igualmente próxima da realidade qualquer tipo de forma de ver, de
entender, de operar. A razão é essa busca de verdade, essa busca de maior
realidade, com tudo o que a descoberta da realidade comporta.
É importante estabelecer campos
diferentes de verdade. A verdade que se pode encontrar no campo das
matemáticas não é a mesma do campo da história. Há campos diferentes que é
importante estabelecer. A razão serve para estabelecer esses campos de
verdade diferentes. Às vezes, por exigir a verdade que pertence a um
campo a outro campo diferente, perdemos a substância racional que pode
haver numa proposta explicativa.
Vivemos numa época em que se ouve a opinião, para mim disparatada, de
que todas as opiniões são respeitáveis. Como é que podem ser respeitáveis
todas as opiniões?! Se algo caracteriza as opiniões é o facto de não serem
todas respeitáveis. Se todos tivéssemos acreditado que todas as opiniões
são respeitáveis, ainda não teríamos descido da primeira árvore. Todas as
pessoas são respeitáveis, sejam quais forem as suas opiniões, mas nem
todas as opiniões são respeitáveis. Uma pessoa que diz que dois e dois são
cinco, não pode ser encarcerada, não pode ser objecto de nenhuma
represália, mas o que é evidente é que a ideia de que dois e dois são
cinco não é tão respeitável como a ideia de que dois e dois são quatro.
A mitificação da opinião própria conduz a
considerá-la como algo que se subtrai à discussão, em vez de algo que se
põe sobre a mesa, algo que não é nem meu nem teu mas que temos que
discutir – discutere é, em latim, ver se uma árvore tem raízes, se as
coisas têm raízes –, ver se está enraizada em algo. Quando se propõe uma
opinião, não se propõe como quem se fecha num castelo, como quem se
encouraça, não se supõe que todas as opiniões são igualmente válidas, mas
pelo contrário que estão abertas a confrontar-se com provas e dados.
Se não, não são opiniões, são dogmas.
A ideia de que todas as opiniões valem o mesmo, de que a opinião do aluno
do infantário vale tanto, em questões matemáticas, como a do professor de
aritmética, não é verdade.
A posição autenticamente livre,
aberta e revolucionária é sustentar que é a razão que vale e que as
opiniões devem submeter-se-lhe, e não que são as opiniões que por si
mesmas, por ter uma pessoa por trás, se convertem em invioláveis porque a
pessoa o é. A razão não se nota somente quando alguém argumenta como
também quando alguém compreende argumentos. Ser racional é poder ser
persuadido por argumentos, não apenas persuadir com argumentos. Ninguém
pode aspirar à condição de racional se as suas razões, as vê muito claras,
mas nunca vê claramente nenhuma razão alheia. Ver as razões dos outros faz
parte, necessariamente, da racionalidade. Aceitar ter sido persuadido por
razões costuma ser muito mal visto, como se dar mostras de racionalidade
fosse algo muito mau, quando o facto de alguém mudar de opinião demonstra
que a razão lhe continua a funcionar.
A razão cobre um campo que abarca o
meramente racional, no qual nos entendemos com as coisas o melhor
possível, e o razoável, no qual nos entendemos com os sujeitos. É razoável
incluir na minha própria a razão própria de outro sujeito, a possibilidade
de aceitar os seus fins, de aceitar os seus objectivos, a sua própria
busca da experiência como parte da minha própria razão.
Não vivemos só num mundo de objectos, mas
também de sujeitos. Não entende racionalmente o mundo quem crê que tudo
são objectos, do mesmo modo que a chave do sentido é o que se compartilha
com outros sujeitos.”
Fernando Savater |