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Ignorar é não saber alguma coisa. A
ignorância pode ser tão profunda que nem sequer a percebemos ou a
sentimos, isto é, não sabemos que não sabemos, não sabemos que ignoramos.
Em geral, o estado de ignorância se mantém em nós enquanto as crenças e
opiniões que possuímos para viver e agir no mundo se conservam como
eficazes e úteis, de modo que não temos nenhum motivo para duvidar delas,
nenhum motivo para desconfiar delas e, consequentemente, achamos que
sabemos tudo o que há para saber.
A incerteza é diferente da ignorância
porque, na incerteza, descobrimos que somos ignorantes, que as nossas crenças
e opiniões parecem não dar conta da realidade, que há falhas naquilo em
que acreditamos e que, durante muito tempo, nos serviu como referência
para pensar e agir. Na incerteza não sabemos o que pensar, o que dizer ou
o que fazer em certas situações ou diante de certas coisas, pessoas,
factos, etc. Temos dúvidas, ficamos cheios de perplexidade e somos tomados
pela insegurança.
Outras vezes, estamos confiantes e seguros
e, de repente, vemos ou ouvimos alguma coisa que nos enche de espanto e de
admiração, não sabemos o que pensar ou o que fazer com a novidade do que
vimos ou ouvimos porque as crenças, opiniões e ideias que possuímos não
dão conta do novo. O espanto e a admiração, assim como antes a dúvida e a
perplexidade, fazem-nos querer saber o que não sabemos, fazem-nos querer
sair do estado de insegurança ou de ilusão, fazem-nos reconhecer a nossa
ignorância e criam o desejo de superar a incerteza.
Quando isso acontece, estamos na
disposição de espírito chamada busca da verdade.
O desejo da verdade aparece muito cedo nos
seres humanos como desejo de confiar nas coisas e nas pessoas, isto é, de
acreditar que as coisas são exactamente tais como as percebemos e o que as
pessoas nos dizem é digno de confiança e crédito. Ao mesmo tempo, nossa
vida quotidiana é feita de pequenas e grandes decepções e, por isso, desde
cedo, vemos as crianças perguntarem aos adultos se tal ou qual coisa "é de
verdade ou é a fingir".
Quando uma criança ouve uma história,
inventa uma brincadeira ou um brinquedo, quando joga, vê um filme ou uma
peça teatral, está sempre atenta para saber se "é de verdade ou fingir",
está sempre atenta para a diferença entre o "fingir" e a mentira
propriamente dita, isto é, para a diferença entre brincar, jogar, fingir e
faltar à confiança.
A criança é muito sensível à mentira dos
adultos, pois a mentira é diferente do "fingir", isto é, a mentira é
diferente da imaginação e a criança sente-se ferida, magoada, angustiada
quando o adulto lhe diz uma mentira, porque, ao fazê-lo, quebra a relação
de confiança e a segurança
A criança não se decepciona nem se
desilude com o "faz-de-conta" porque sabe que é um "faz-de-conta". Ela
decepciona-se ou desilude-se quando descobre que querem que acredite como
sendo "de verdade" alguma coisa que ela sabe ou que ela supunha que fosse
"de faz-de-conta", isto é, decepciona-se e desilude-se quando descobre a
mentira. Os jovens decepcionam-se e desiludem-se quando descobrem que o
que lhes foi ensinado e lhes foi exigido oculta a realidade, reprime a sua
liberdade, diminui a sua capacidade de compreensão e de acção. Os adultos
desiludem-se ou decepcionam-se quando enfrentam situações para as quais o
saber adquirido, as opiniões estabelecidas e as crenças enraizadas nas
suas consciências não são suficientes para que compreendam o que se passa
nem para que possam agir ou fazer alguma coisa.
Assim, seja na criança, seja nos jovens ou
nos adultos, a busca da verdade está sempre ligada a uma decepção, a uma
desilusão, a uma dúvida, a uma perplexidade, a uma insegurança ou, então,
a um espanto e uma admiração diante de algo novo e insólito.
Marilena Chauí (texto adaptado)
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