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Ficha 14 | FILOSOFIA - 10º
ANO
O que são os valores? |
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CARACTERIZAÇÃO DOS VALORES
“O homem percebe em torno de si um sem‑número de coisas boas e más, um sem‑número de objectos belos e feios, grandiosos e mesquinhos, nobres e vulgares. O nosso mundo não consta apenas, nem principalmente, das coisas, mas dessas atracções e repulsões que a realidade circundante exerce sobre a nossa alma. O mundo real e concreto, o mundo que efectivamente vivemos, não é o que a física, a química, a matemática, nos descrevem, mas um imenso arsenal de bens e de males, com os quais edificamos a vida. A noção do valor tem sido objecto de muitos estudos na mais recente filosofia. Não posso expor em todos os seus pormenores os descobrimentos que se fizeram no campo dos valores, durante as últimas décadas. Para o objecto que neste estudo me proponho bastarão proposições gerais. 1. Os valores não são coisas. Não podem perceber‑se como se percebem as coisas, o modo de perceber os valores não consiste em os vermos com os olhos da cara ‑ o que não obsta a que os valores sejam tão clara e autenticamente vividos por nós como as coisas e os objectos matemáticos. Os valores, pois, são qualidades que as coisas têm, mas que não estão nas coisas de modo real e sensível, como estão a figura, o peso, a cor, etc. 2. O ser dos valores não é, portanto, o mesmo ser que o da realidade material. Se quisermos ser rigorosos, devemos distinguir vários modos de ser; um deles é o ser sensível, outro o ser ideal (como, por exemplo, o dos objectos matemáticos) e um terceiro modo de ser é o valer, e é este que precisamente corresponde aos valores. Em sentido próprio, os valores não existem nem são, mas valem. 3. Assim, os valores não são conhecidos, como são conhecidas as coisas físicas e os objectos ideais, mas são estimados. 4. O valor não se caracteriza pelo prazer que produz, se o produz. É erróneo dizer que as coisas são valiosas, porque nos produzem prazer. Na realidade, os valores valem independentemente do prazer que produzem. 0 prazer é valioso; é preferível à dor. Porém, do prazer ser um valor não se infere legitimamente que todo o valor seja prazer. 5. O valor não se caracteriza também pelo desejo. Quando desejamos uma coisa é porque percebemos valor nela, o que, todavia não quer dizer que inversamente todo o valor seja desejado. Ocorre frequentemente percebermos um valor numa coisa e não a desejarmos. 6. Os valores têm matéria, polaridade e hierarquia. A matéria do valor é o que distingue uns valores dos outros. Por directa apreensão do significado que damos às palavras, distinguimos a santidade da beleza, a elegância da justiça. Todos eles são valores; mas cada um distingue‑se do outro pelo seu conteúdo próprio, pela sua própria consistência. A polaridade é a propriedade que têm todos os valores de se contraporem num pólo positivo e num pólo negativo. À beleza contrapõe‑se a fealdade, à generosidade a mesquinhez, à santidade a profanidade. A hierarquia é a propriedade que possuem os valores de se subordinarem uns aos outros, isto é, de serem uns mais valiosos que outros. A justiça é, em hierarquia, superior à elegância; e é‑o com a mesma evidência com que a soma dos dois lados do triângulo é maior que o terceiro lado. Poderíamos dizer que todos os valores valem, mas que uns valem mais que os outros. 7. Os valores podem classificar‑se também em valores‑meio e valores‑fim. Os valores‑meio são aqueles cuja valia consiste em servir para a obtenção de outros valores; os valores‑fim são os que valem por si e sem necessidade de servirem à obtenção de outros valores. 8. Não podem definir‑se os valores. Conhecê‑los é estimá‑los, e estimá‑los é percebê‑los, intuí‑los. Para revelar um valor cumpre colocá‑lo intuitivamente perante a pessoa; mas como os valores não são coisas, é preciso, para que se percebam estimativamente, perceber coisas e imaginar coisas (objectos, acções, etc.) em que os valores estejam realizados, efectivados. Para dar a conhecer uma cor, temos que a exibir; para dar a estimar um valor, temos que o apresentar numa coisa.” G. Morente A realização dos valores
“Os valores podem tornar‑se realidade. Uma obra científica, uma obra de arte, uma acção moral representam realizações de valores. Toda a cultura é isto, e o seu respectivo conceito não tem, nem pode ter, outro sentido. A cultura humana é, na sua íntima essência, uma realização de valores. Examinemos, porém, agora, mais de perto, este fenómeno da realização dos valores. A primeira coisa que se nos depara é esta: os valores, que começam por ser algo de ideal, por pertencer a uma esfera de ser ideal e de valer, como vimos, penetram em certo momento na esfera do real. 0 valor irreal torna‑se real, isto é, assume existência, encarna. Mas como se passa isto? Evidentemente não no sentido de o valor se tornar real em si mesmo, de passar a ser aquilo que era, de passar a existir independentemente, como uma coisa, ou de assumir uma força de ser substancial. Não consiste num ser em si mesmo, mas num ser que está noutro ser. Assim, por exemplo, um valor estético converte‑se em existencial no quadro do pintor; o valor ético, na acção do homem virtuoso. 0 quadro do pintor passa então a chamar‑se 'belo', a acção do homem, a chamar‑se 'boa'. Isto é: os valores, portanto, só podem tornar‑se existenciais sob a forma de qualidades, características, modos de ser. Não possuem um ser independente, mas são de certo modo 'trazidos', sustentados' pelos objectos nos quais se realizam; estes objectos tornam‑se seu 'suporte', as coisas são então 'portadoras' dos valores."
Johannes Hessen Conclusão
Os valores são regras que orientam a conduta humana, servindo de padrão à deliberações dos indivíduos e dando coerência à sua vida social. Os valores são, em grande medida, colectivos, havendo, no entanto, ocasiões em que indivíduos ou grupos restritos de indivíduos propõem novos valores, que passam a ter a adesão de sociedades inteiras. Há valores que são partilhados por um grande número de sociedades, não havendo, contudo, provas da existência de valores universais, ou seja, valores aceites por todas as sociedades humanas. No entanto, há valores cuja universalização seria desejável, uma vez que isso se traduziria num progresso efectivo da civilização: é o caso dos Direitos Humanos. Os valores são históricos, surgem, disseminam-se e morrem, acompanhando a vida das sociedades em que nascem, mas enquanto estão em vigor, a sua valia é incondicional, ou seja, os valores, não sendo eternos, valem como se o fossem, fazendo lembrar o conhecido verso de Vinícius de Morais: “que o nosso amor seja eterno enquanto dure”. Os valores valem incondicionalmente enquanto são aceites, só assim podem servir de padrão às nossas preferências. Não há valores estritamente individuais, pelo que os valores terão sempre alguma objectividade: a sua valia não varia de indivíduo para indivíduo. Mas a valoração é sempre subjectiva, exprime sempre uma apreciação pessoal da realidade. Dois indivíduos podem estar de acordo sobre o que é o belo, mas podem discordar sobre a beleza de um quadro, por exemplo. ©Esp@nto
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| Actividades: |
1. Tendo por base os textos apresentados nesta ficha, caracterize os valores. Nessa caracterização deverá identificar as três características dos valores que considera mais importantes, justificando a sua escolha. 2. Comente o texto: "a realização dos valores".
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