|
|
“Para compreendermos o
que é a acção, e para a podermos distinguir dos outros actos do homem,
temos que ter em conta os diversos elementos que a constituem.
Graças a eles podemos
compreender porque é que alguém agiu de determinada forma, o que é que
essa pessoa queria efectivamente realizar com a sua acção, quais as
consequências dessa acção e qual a sua responsabilidade face a essas
consequências. É isso que acontece, por exemplo, na investigação criminal,
mas não é preciso ir tão longe: em qualquer situação em que nos deparemos
com uma acção, se não conhecemos todos os seus contornos, somos levados a
levantar as seguintes questões:
1. Quem agiu (‘quem
fez isto?’)?
2. Porquê? Com que
motivo?
3. Para quê? Com que
intenção? Com que finalidade?
4. Quais as
consequências dessa acção? Todas elas foram ponderadas pelo agente?
A primeira questão
remete-nos para o autor da acção, para o agente. Ora para
que alguém seja agente de uma acção, é necessário que estejamos perante um
ser dotado de consciência racional e de uma vontade livre. Assim, o agente
é responsável pelas acções que pratica, porque estas são actos
voluntários que resultam de uma deliberação. Podemos então concluir que
todos os actos que nascem da nossa liberdade são da nossa
responsabilidade. E responsabilidade, a este nível, significa que é o
agente quem responde pelas suas acções e pelas respectivas
consequências (sejam elas boas ou más), porque não há ninguém acima da sua
liberdade: o agente age porque quer, ele é dotado de uma vontade soberana,
ele é senhor das suas acções.
A segunda questão
refere-se ao motivo da acção. Toda a acção é motivada, ou
seja tem que existir uma causa, interna ou externa, que leve o agente a
tomar a decisão de agir. Se não tivermos uma motivação para fazermos algo,
não o fazemos. Assim, o motivo é a causa que suscita no agente a vontade
de agir, que o leva, num dado momento, a preferir fazer uma coisa e não
outra. Uma pessoa pode estar confortavelmente sentada a ouvir música, mas
se sentir fome, pode decidir ir à cozinha fazer um lanche, por sentir
fome. Pode, também, decidir ir estudar, por ter que realizar testes de
avaliação na escola. Ou pode decidir desligar a aparelhagem por começar a
sentir dores de cabeça.
A terceira questão tem
a ver com a intenção do agente. Há quem considere que a intenção é
a chave para a compreensão de uma acção. De facto, se nos situarmos num
ponto de vista moral, para sabermos se uma acção é boa ou má, temos que
conhecer a intenção do agente, temos que saber o que é que ele queria
alcançar com a sua acção, quais os fins que ele queria atingir, enfim, o
que é que ele projectou quando decidiu agir daquela forma. Por exemplo, se
acontecer um incêndio de grandes proporções, e se as autoridades
descobrirem que esse incêndio começou devido à acção de um determinado
indivíduo, só poderão saber se esse indivíduo, que é responsável pelas
suas acções, é criminalmente responsável pelo incêndio, depois de
descobrirem qual a intenção desse indivíduo. Se ele acendeu uma pequena
fogueira para assar sardinhas, e se uma rajada de vento espalhou as brasas
ateando o incêndio, esse indivíduo não é criminalmente responsável pelo
incêndio, apesar de, em última instância, ser o causador do mesmo, podendo
ainda ser responsável pelo seu descuido, se o houver. Mas se se apurar que
esse indivíduo agiu com a intenção de, através do incêndio, provocar danos
a terceiros, motivado pelo ódio, então ele é duplamente responsável: ele é
responsável por ser o causador do incêndio, e é criminalmente responsável,
porque a sua intenção era criminosa.
Por fim, em relação à
quarta questão, temos as consequências da acção. E elas existem
porque todas as acções têm um impacto sobre o real, o agente interfere com
a realidade, a sua acção é um acontecimento que dá origem a outros
acontecimentos que, por sua vez, podem ter efeitos positivos ou negativos
na vida das outras pessoas. O agente é, directa ou indirectamente,
responsável pelas consequências das suas acções, mas a sua
responsabilidade moral, só pode ser aferida tendo em conta a intenção que
presidir a cada uma dessas acções. Isto faz com que o agente tenha o dever
de pensar nas consequências das suas acções, antes de as pôr em prática.
E, mesmo assim, podem acontecer resultados imprevistos, porque nós temos o
poder de decidir fazer algo, mas não controlamos a forma como a realidade
se vai comportar em relação às nossas acções.”
|
|