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TEXTO 1 - O homem e o Animal
“Os animais (para já não falar nos
minerais e nas plantas) não podem evitar ser como são e fazer aquilo que
naturalmente estão programados para fazer. Não se lhes pode censurar que o
façam nem aplaudi‑los pelo que fazem, porque não sabem comportar‑se de
outro modo. As suas disposições obrigatórias poupam‑lhes sem dúvida muitas
dores de cabeça.
Em certa medida, de início,
nós, os homens, também estamos programados pela Natureza. Estamos feitos
para beber água, e não lixívia, e tomemos as precauções que tomarmos, mais
cedo ou mais tarde, morreremos. E de modo menos imperioso mas análogo, o
nosso programa cultural, é também determinante: o nosso pensamento é
condicionado pela linguagem que lhe dá forma (uma linguagem que nos é
imposta de fora e que não inventámos para nosso uso pessoal) e somos
educados em certas tradições, hábitos, formas de comportamento, lendas...;
numa palavra, são‑nos inculcadas desde o berço certas fidelidades e não
outras. Tudo isto pesa muito e faz com que sejamos bastante previsíveis.
Com os homens nunca
podemos ter bem a certeza, ao passo que com os animais, ou outros seres
naturais, sim. Os castores fazem represas nos ribeiros e as abelhas favos
com alvéolos hexagonais: não há castores que se sintam tentados a fazer
alvéolos de favos, nem abelhas que se dediquem à engenharia hidráulica. No
seu meio natural cada animal parece saber perfeitamente o que é bom e o
que é mau para ele, sem discussões nem dúvidas.
Por grande que seja a nossa programação
biológica ou cultural, nós, seres humanos, podemos acabar por optar por
algo que não está no programa (pelo menos que lá não está totalmente).
Podemos dizer «sim» ou «não», «quero» ou «não quero». Por muito apertados
que nos vejamos pelas circunstâncias, nunca temos um só caminho,
mas sempre vários.”
Fernando Savater, Ética para um jovem.(Texto
adaptado)
Texto
2 - Nem todos os actos do homem são actos humanos
Deixando de lado alguns usos puramente técnicos da palavra ‘acção’ (por
exemplo, acção como participação no capital de uma empresa), o núcleo
significativo da palavra assenta na produção ou causação de um efeito. A
palavra ‘acção’ emprega-se às vezes para falar de animais não humanos
(diz-se que a acção das cigarras é benéfica para a agricultura) ou,
inclusive, de objectos inanimados (diz-se que a gravitação é uma forma de
acção à distância ou que a toda a acção exercida sobre um corpo
corresponde uma acção igual de sentido contrário). Mas sobretudo usamos a
palavra ‘acção’ para nos referirmos ao que fazem os humanos. Aqui só nos
interessa este tipo de acção, a acção humana.
As nossas acções são (algumas das) coisas que fazemos. Na realidade o
verbo ‘fazer’ cobre um campo semântico bastante mais amplo que o
substantivo ‘acção’. O latim distingue o agere do facere
(aos quais corresponde em português agir e fazer). Ao
substantivo latino actio, derivado de agere, corresponde o
substantivo acção. Assim, até de um ponto de vista etimológico,
‘acção’ só carrega a carga semântica de ‘agir’ e não propriamente de ‘fazer’.
Tudo quanto realizamos é parte da nossa conduta, mas nem tudo o que
realizamos constitui uma acção. Enquanto dormimos realizamos muitas
coisas: respiramos, suamos, damos voltas, apertamos a cabeça contra a
almofada, sonhamos, talvez ressonemos alto ou falemos em voz alta ou
andemos sonâmbulos pela casa. Todas estas coisas as realizamos
inconscientemente, enquanto dormimos. Realizamo-las mas não damos conta
delas, não temos consciência de que as realizamos. A estas coisas que
fazemos inconscientemente não lhes vamos chamar acções. Vamos reservar o
termo ‘acção’ para as coisas que realizamos conscientemente, dando-nos
conta de que as fazemos.
Há, no entanto, coisas que fazemos conscientemente, dando-nos conta delas,
mas sem que à sua realização corresponda uma intenção nossa. Damo-nos
conta dos nossos ‘tiques' e de muitos dos nossos actos reflexos, mas
realizamo-los involuntariamente, constatamo-los como espectadores,
não os efectuamos como agentes. (A palavra ‘agente’ é outra das palavras
derivadas do verbo latino agere). Por algo que sentimos depois de
comer damo-nos conta de que estamos a fazer a digestão. Mas fazer a
digestão não constitui (normalmente) uma acção. Pelos sorrisos dos que nos
observam damo-nos conta de que estamos a ser ridículos. Mas ser ridículo
(praticar actos ridículos) não é uma acção, mas uma reacção, algo que nos
passa despercebido e que lamentamos (a não ser que o façamos de propósito,
como provocação; neste caso já seria uma acção). Também não chamamos acção
a esses aspectos da nossa conduta de que nos damos conta, mas que não
efectuamos intencionalmente. No presente estudo limitar-nos-emos às acções
humanas conscientes e voluntárias, às que daqui em diante
chamaremos acções (sem mais).
Uma acção é uma interferência consciente e voluntária de um homem ou de
uma mulher (o agente) no normal decurso das coisas, que sem a sua
interferência haveriam seguido um caminho distinto do que por causa da
acção seguiram. Uma acção consta, pois, de um evento que sucede graças
à interferência de um agente e de um agente que tinha a intenção de
interferir para conseguir que tal evento sucedesse.
Jesús MOSTERÍN - Racionalidad y Acción Humana.

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