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Descartes (1596-1650) |
“Vou imaginar que existe, não um Deus verdadeiro, que é a
soberana fonte de verdade, mas um certo génio maligno, tão manhoso e
enganador quanto poderoso, que utilizou toda a sua inteligência para me
enganar. Então, eu pensaria que o céu, o ar, a terra, as cores, as
figuras, os sons e todas as coisas exteriores que nós vemos, não são mais
que ilusões e enganos, de que ele se serve para surpreender a minha
credulidade. Se assim fosse, poderia ser que eu não tivesse mãos, olhos,
carne, sangue, nem nenhum dos cinco sentidos, mas acreditasse falsamente
ter todas essas coisas. E eu permaneceria obstinadamente preso a essa
ilusão; e se, nessa situação, não me seria possível alcançar o
conhecimento de qualquer verdade, pelo menos estaria em meu poder não
acreditar em nada. É por isso que, nessa situação, eu teria o máximo
cuidado para não acreditar em alguma falsidade, e prepararia tão bem o meu
espírito para resistir a todas as manhas desse grande enganador que, por
mais poderoso e manhoso que ele fosse, ele nunca poderia fazer-me
acreditar fosse no que fosse.”
Descartes ( Texto adaptado ). |