D�vidas Filos�ficas

Bertrand Russell (1872-1970)

 

 

  Talvez fosse de se esperar que eu come�asse pela defini��o de "filosofia", mas, certo ou errado, n�o me proponho a tal. A defini��o de "filosofia" variar� segundo a filosofia que adoptarmos; para come�ar, diremos apenas que h� certos problemas, julgados interessantes por certas pessoas, mas que n�o pertencem, pelo menos at� agora, a qualquer uma das ci�ncias especiais. Esses problemas s�o de molde a levantar d�vidas a respeito do que comummente se entende por conhecimento; e se as d�vidas requerem resposta, esta vir� unicamente por meio de um estudo especial, a que denominamos "filosofia." Portanto, o primeiro passo para definir "filosofia" est� na indica��o de tais problemas e d�vidas - e ser� tamb�m o primeiro passo no verdadeiro estudo da filosofia. Entre os tradicionais problemas da filosofia, h� alguns que n�o parecem merecer, em minha opini�o, tratamento intelectual, por transcenderem a nossa capacidade cognitiva; desses problemas n�o cuidarei. Existem outros, por�m, para os quais, embora n�o seja poss�vel encontrar-se solu��o definitiva neste momento, pode-se indicar o rumo para uma busca de solu��o, e o tipo de solu��o que, em tempo oportuno, venha a  revelar-se poss�vel.

A filosofia origina-se de uma tentativa obstinada de atingir o conhecimento real. Aquilo que passa por conhecimento, na vida comum, padece de tr�s defeitos : � convencido, incerto e, em si mesmo, contradit�rio. O primeiro passo rumo � filosofia consiste em nos tornarmos conscientes de tais defeitos, n�o a fim de repousar, satisfeitos, no cepticismo indolente, mas para substitui-lo por uma aperfei�oada esp�cie de conhecimento que ser� experimental, precisa e em si mesmo consistente. Naturalmente, desejamos atribuir outra qualidade ao nosso conhecimento : a compreens�o. Desejamos que a �rea de nosso conhecimento seja a mais ampla poss�vel. Isto, no entanto, � mais da compet�ncia da ci�ncia que da filosofia. Um homem n�o vem a ser necessariamente melhor fil�sofo gra�as ao conhecimento de maior n�mero de factos cient�ficos; s�o os princ�pios e m�todos, e as concep��es gerais, que ele deva apreender da ci�ncia, caso a filosofia seja mat�ria do seu interesse. A miss�o do fil�sofo �, a bem dizer, a segunda natureza do facto bruto. A ci�ncia tenta agrupar factos por meio de leis cient�ficas; estas leis, mais que os factos originais, s�o a mat�ria-prima da filosofia. A filosofia envolve uma cr�tica, do conhecimento cient�fico, n�o de um ponto de vista em tudo diferente do da ci�ncia, mas de um ponto de vista menos preocupado com detalhes e mais comprometido com a harmonia do corpo gen�rico das ci�ncias especiais.

As ci�ncias especiais desenvolveram-se pelo uso de no��es derivadas do senso comum, tais como coisas e suas qualidades, espa�o, tempo e causalidade. A pr�pria ci�ncia tem demonstrado que nenhuma dessas no��es baseadas no senso comum se presta completamente � explica��o do mundo; nenhuma ci�ncia tem atribui��o de empreender a necess�ria reconstru��o de fundamentos. Isto deve ser mat�ria da filosofia. Quero dizer, desde logo, que acredito ser este um empreendimento da maior import�ncia. Acredito que os erros filos�ficos nas cren�as do bom senso n�o somente produzem confus�o na ci�ncia, como tamb�m prejudicam a �tica e a pol�tica, em institui��es sociais, e a conduta de todos na vida di�ria.

N�o faz parte de meu mister, neste volume, apontar os efeitos pr�ticos de uma m� filosofia : a minha miss�o ser� puramente intelectual. Mas, se estou certo, as aventuras intelectuais j� empreendidas t�m efeitos em muitos rumos que parecem, � primeira vista, bastante remotos em rela��o ao nosso tema. O efeito das nossas paix�es nas nossas cren�as constitui assunto favorito dos psic�logos modernos; por�m o efeito inverso, de nossas cren�as sobre nossas paix�es, tamb�m existe, embora n�o admitido por uma psicologia intelectualista antiquada. Ainda que eu n�o pretenda discuti-lo aqui, devemos t�-lo em mente, a fim de convir que os nossos debates podem abranger mat�rias al�m da esfera ao intelecto puro.

Mencionei h� pouco tr�s defeitos das cren�as comuns, a saber, que elas s�o convencidas, incertas e, em si mesmas, contradit�rias. � tarefa da filosofia corrigir esses defeitos na medida de suas possibilidades, sem sobrecarregar o conhecimento. Para ser um bom fil�sofo deve-se ter o desejo forte de saber, combinado � grande cautela em acreditar que se sabe; tamb�m se deve possuir a acuidade l�gica e o h�bito do pensamento exacto. Tudo isso, claro, � uma quest�o de grau. A incerteza, em particular, pertence, at� certo ponto, ao pensamento humano; podemos reduzi-la indefinidamente, embora jamais possamos aboli-la por completo. Em consequ�ncia, a filosofia � uma actividade cont�nua, e n�o uma coisa pela qual podemos conseguir a perfei��o final, de uma vez por todas. A este respeito, a filosofia tem sofrido por causa de sua associa��o � teologia. Os dogmas teol�gicos s�o fixos e encarados pelos ortodoxos como incapazes de aperfei�oamento. Fil�sofos t�m sido tentados com frequ�ncia a produzir sistemas finais id�nticos: n�o se contentam com aproxima��es graduais que satisfa�am os homens de ci�ncia. Nisso, eles me parecem enganados. A filosofia deve ser fragmentada e provis�ria como a ci�ncia; a verdade derradeira pertence aos c�us, n�o a este mundo.

Os tr�s defeitos que mencionei s�o interligados, e a percep��o de um nos leva a reconhecer os outros dois. Ilustrarei os tr�s atrav�s de uns poucos exemplos.

Tomemos, em primeiro lugar, a cren�a em objectos comuns, quais sejam mesas, cadeiras e �rvores. Todos n�s nos sentimos bastante seguros acerca desses objectos na vida comum, e no entanto nossas raz�es de confian�a s�o, em verdade, muito inadequadas. 0 ing�nuo senso comum sup�e serem eles o que aparentam, embora isto seja imposs�vel, uma vez que n�o parecem exactamente iguais a dois observadores simult�neos. Pelo menos isso � imposs�vel se o objecto � uma coisa f�sica, a mesma para todos os observadores. Se admitirmos n�o ser o objecto aquilo que vemos, ent�o j� n�o podemos sentir a mesma seguran�a quanto � exist�ncia de um objecto. Esta � a primeira intromiss�o da d�vida. No entanto, podemo-nos refazer de imediato do golpe e dizer que, naturalmente, o objecto � "realmente" o que a f�sica diz que ele �. Ora, a f�sica diz que uma mesa ou uma cadeira � "realmente" um vasto e incr�vel sistema de electr�es e prot�es em r�pida movimenta��o, com espa�os vazios entre si. Tudo isso est� muito bem. Mas o f�sico, como o homem comum, depende dos seus sentidos para a exist�ncia do mundo f�sico. Se o abordarmos, solenemente, e dissermos : "Quer ter a bondade de me dizer, como f�sico, o que �, em realidade, uma cadeira?", obteremos uma resposta conhecida. Mas se dissermos, sem pre�mbulos : "H� uma cadeira aqui?", ele dir� : "Claro que sim. N�o a v�?" A isso, poderemos responder de forma negativa. Poderemos dizer: "N�o, eu vejo certas extens�es de cor, mas n�o vejo electr�es e prot�es, embora o senhor me garanta que eles formam uma cadeira." Ele talvez replique : "Sim, mas uma quantidade de electr�es e prot�es intimamente unidos assemelha-se a uma extens�o de cor." "Que pretende dizer com 'assemelha-se'?", perguntaremos ent�o. Ele tem a resposta pronta, Dir� que as ondas de luz partem dos electr�es e prot�es (ou, mais provavelmente, s�o reflectidas por eles a partir de uma fonte luminosa) , atingem o olho, produzem uma s�rie de efeitos nos bastonetes e cones, no nervo �ptico e no c�rebro, e finalmente causam uma sensa��o. Mas ele nunca viu um olho ou um nervo �ptico ou um c�rebro, da mesma forma que jamais viu uma cadeira : apenas viu extens�es de cor que, segundo diz, s�o o que esses objectos "parecem ser (se assemelham)" aos olhos. Isto �, ele pensa que a sensa��o que temos ao ver (assim pensamos) uma cadeira envolve uma s�rie de causas, f�sicas e psicol�gicas, mas todas elas, por sua pr�pria observa��o, vinculadas essencialmente e para sempre � experi�ncia externa. Todavia, ele pretende basear a sua ci�ncia na observa��o. � �bvio haver aqui um problema para o l�gico, um problema pertencente n�o � f�sica, mas a outra esp�cie de estudo. Este � o primeiro exemplo da maneira pela qual a busca de precis�o destr�i a certeza.

0 f�sico cr� inferir os electr�es e prot�es do que observa. Mas a infer�ncia nunca est� claramente disposta. em cadeia l�gica, e, se estivesse, n�o pareceria assaz plaus�vel para garantir muita confian�a. Na verdade, a evolu��o global dos objectos, desde o senso comum aos electr�es e prot�es, tem sido governada por certas cren�as, raramente conscientes, mas que existem no homem natural. Estas cren�as n�o s�o inalter�veis, por�m crescem e se desenvolvem como uma �rvore. Come�amos por pensar que uma cadeira � o que aparenta, e que ainda continua no mesmo lugar, quando n�o a olhamos. Mas descobrimos, mediante uma pequena reflex�o, que estas duas cren�as s�o incompat�veis. Se a cadeira persiste, independentemente de ser vista por n�s, ent�o deve ser algo mais que uma mancha de cor o que vemos, porque isso depender� de condi��es extr�nsecas � cadeira, tais como as, diferen�as de luz, se estamos de �culos azuis, e assim por diante. Isso for�a o homem de ci�ncia a considerar a cadeira "real" como causa (ou parte indispens�vel da causa) das nossas sensa��es quando vemos a cadeira. Assim estamos comprometidos com a causa��o como uma cren�a a priori sem a qual n�o ter�amos raz�o de supor que existe absolutamente uma cadeira "real". Ademais, em vista da perman�ncia, n�s introduzimos a no��o de subst�ncia : a cadeira "real" � uma subst�ncia, ou colec��o de subst�ncias, possu�da de perman�ncia e do poder de provocar sensa��es. Esta cren�a metaf�sica tem afectado, de forma mais ou menos inconsciente, a infer�ncia de sensa��es para electr�es e prot�es. 0 fil�sofo deve trazer tais cren�as � luz do dia, e ver se ainda sobrevivem. Muitas vezes descobrir� que elas morrem quando expostas.

Passemos agora a outro ponto. A evid�ncia de uma lei f�sica, ou de qualquer lei cient�fica, envolve sempre mem�ria e testemunho. Temos de confiar no que nos lembramos ter observado em ocasi�es anteriores, e no que os outros dizem ter observado. Nos prim�rdios da ci�ncia talvez fosse poss�vel dispensar, �s vezes, o testemunho; n�o tardaria muito, por�m, e todas as investiga��es cient�ficas come�ariam a ser constru�das sobre resultados previamente testados, e a dependerem, por conseguinte, do que outros haviam registrado. De facto, sem a corrobora��o do testemunho dificilmente ter�amos maior confian�a na exist�ncia de objectos f�sicos. �s vezes pessoas sofrem alucina��es, isto �, julgam perceber objectos f�sicos, mas n�o s�o confirmadas, nessa cren�a, pelo testemunho de outras. Em tais casos, decidimos que elas est�o enganadas. � a similaridade entre as percep��es de pessoas diferentes em situa��es id�nticas que nos torna confiantes quanto � causa��o externa de nossas percep��es; quanto a isso, quaisquer cren�as ing�nuas que tenhamos em objectos f�sicos dissiparam-se h� muito tempo. Em consequ�ncia, mem�ria e testemunho s�o essenciais � ci�ncia. Todavia, cada um deles est� aberto � cr�tica do c�ptico. Ainda que possamos, mais ou menos, desfazer a sua cr�tica, ficaremos, se formos racionais, com uma confian�a menos completa nas nossas cren�as originais do que antes t�nhamos. Uma vez mais, ficaremos menos convencidos � medida que nos aproximamos da exactid�o.

Mem�ria e testemunho  levam-nos � esfera da psicologia. Eu n�o os discutiria, a essa altura, al�m do ponto em que se tornou claro que eles constituem leg�timos problemas filos�ficos a serem resolvidos. Come�arei pela mem�ria.

Mem�ria � uma palavra com v�rios significados. No momento refiro-me � recorda��o de ocorr�ncias passadas. Isto � t�o notoriamente fal�vel que todo o experimentador faz um registro do resultado das suas experi�ncias no instante mais imediato poss�vel: julga que a infer�ncia entre palavras escritas e acontecimentos passados tem menor probabilidade de conter engano do que as cren�as directas que constituem a mem�ria. No entanto, uma frac��o de tempo, embora talvez inferior a poucos segundos, decorrer� entre a observa��o e o registro, a menos que o registro seja t�o fragment�rio que a mem�ria se fa�a necess�ria para interpret�-lo. Assim, n�o escapamos � necessidade de confiar, at� certo ponto, na mem�ria. Al�m disso, sem mem�ria n�o pensar�amos em interpretar registros aplicados ao passado, porque n�o saber�amos da exist�ncia de um passado. <...>

H� motivos de sobra para a relativa desconfian�a na mem�ria. � �bvio que a confirma��o directa de uma cren�a sobre uma ocorr�ncia passada n�o � poss�vel, porque n�o temos acesso ao passado. Podemos encontrar confirma��o de uma esp�cie indirecta nas revela��es de terceiros nos arquivos contempor�neos. Estes, conforme vimos, envolvem certo grau de mem�ria, mas talvez envolvam muito pouco; por exemplo, quando o relato, em primeira m�o, de uma conversa ou discurso foi feito na ocasi�o. Mesmo assim, n�o escapamos inteiramente � necessidade de estender a mem�ria a um espa�o mais longo de tempo. Suponhamos uma conversa de todo imagin�ria, com algum prop�sito criminoso; depender�amos, ent�o, das mem�rias de testemunhas, a fim de estabelecer seu car�cter fict�cio num tribunal. E a mem�ria que abrange longo per�odo de tempo est� muito propensa a erro, segundo demonstrado pelos equ�vocos invariavelmente descobertos em autobiografias. Quem reler cartas que escreveu muitos anos atr�s verificar� a maneira coma sua mem�ria falsificou acontecimentos pret�ritos. Por estes motivos, o facto de n�o podermos  libertar-nos da depend�ncia da mem�ria para construir o conhecimento �, desde logo, uma raz�o para considerar o que chamamos de conhecimento como algo incerto. <...>

0 testemunho levanta problemas ainda mais embara�osos, principalmente por ele participar da forma��o do nosso conhecimento em f�sica, e, inversamente, a f�sica ser convocada a estabelecer a veracidade dele. Al�m disso, o testemunho denuncia todos os problemas ligados � rela��o do esp�rito com a mat�ria, Alguns fil�sofos eminentes, como Leibniz, constru�ram sistemas segundo os quais n�o haveria testemunho, e no entanto aceitaram como verdadeiras muitas coisas que n�o poderiam ser conhecidas sem ele. N�o creio que a filosofia tenha feito justi�a a este problema, por�m umas poucas palavras bastar�o, segundo penso, para mostrar a sua gravidade.

Para os nossos objectivos, podemos definir por testemunho os ru�dos que se ouvem, ou formas que se v�em, an�logos aos que far�amos se desej�ssemos transmitir uma afirma��o, e que o ouvinte ou observador acredita serem causados pelo desejo de outra pessoa de transmitir uma afirma��o. Vamos a um exemplo concreto : pergunto o caminho a um pol�cia e ele diz : "Quarta � direita, terceira � esquerda." Melhor dizendo, eu ou�o esses sons, e talvez veja o que interpreto como o movimento de seus l�bios. Concluo que ele tem uma intelig�ncia mais ou menos igual � minha, e que emitiu aqueles sons com a mesma inten��o que eu os teria emitido, isto �, para dar uma informa��o. Na vida quotidiana, isso n�o constitui, em qualquer sentido adequado, uma interfer�ncia; � uma cren�a que assoma em n�s na ocasi�o apropriada. Mas, se desafiados, temos de substituir a infer�ncia pela cren�a espont�nea, e quanto mais examinada, mais a infer�ncia se mostra incerta.

A infer�ncia a ser feita tem duas etapas, uma f�sica e uma psicol�gica. A infer�ncia f�sica � do g�nero que consideramos anteriormente, no qual passamos de uma sensa��o para uma ocorr�ncia f�sica. Ouvimos ru�dos e pensamos que eles procedem do corpo do pol�cia. Vemos formas movendo-se, e  interpretamo-las como sendo os movimentos f�sicos dos seus l�bios. Esta infer�ncia, como j� vimos, � em parte justificada pelo testemunho; contudo, verificamos agora que ela ter� de ser feita antes que tenhamos raz�es para crer na exist�ncia de algo como o testemunho. E essa infer�ncia, �s vezes, est� errada. H� loucos que ouvem vozes que ningu�m mais ouve; em vez de lhes reconhecer uma audi��o anormalmente aguda, n�s os prendemos em asilos. Mas se n�s mesmos, ocasionalmente, ouvimos frases que n�o procedem de um corpo, por que n�o se daria, ent�o, o mesmo caso? Talvez a nossa imagina��o tenha conjurado todas as coisas que pensamos ouvir dos outros. Isto, por�m, � parte do problema geral de inferir objetos f�sicos de sensa��es, o qual, dif�cil como pare�a, n�o constitui a parte mais dif�cil dos enigmas l�gicos relativos ao testemunho. A mais dif�cil ,� a infer�ncia da exist�ncia do corpo do pol�cia para a exist�ncia da sua mente. N�o pretendo  insultar os pol�cias; diria o mesmo dos pol�ticos, e at� dos fil�sofos.

A infer�ncia da mente do pol�cia certamente pode estar errada. Est� claro que um fabricante de objectos de cera seria capaz de fazer um boneco quase id�ntico a um pol�cia de carne e osso, e de  p�r dentro dele um gramofone que o habilitaria, periodicamente, a informar os visitantes de uma feira onde monta guarda sobre o caminho at� a sec��o mais interessante. Os visitantes teriam a mesma evid�ncia do seu estar vivo que encontrariam diante de outros pol�cias. Descartes acreditava que os animais n�o t�m esp�rito, n�o passando de complicados aut�matos. Os materialistas do s�culo XVIII estenderam esta doutrina aos homens. Mas n�o estou preocupado agora com o materialismo; o meu problema � bem diferente. At� um materialista deve admitir que, quando fala, pretende transmitir alguma coisa, isto �, usa palavras como signos, n�o como simples ru�dos. Talvez seja dif�cil decidir exactamente o que est� contido nesta declara��o, mas � claro que ela significa algo, e que isso constitui as observa��es de uma pessoa. A quest�o � : estamos certos da realidade das observa��es que ouvimos, bem como das que fazemos? Ou as observa��es que ouvimos talvez n�o passem de outros tantos ru�dos, meros dist�rbios do ar, sem significa��o? O principal argumento contra isto � a analogia, : as observa��es que ouvimos s�o t�o iguais �s que fazemos que julgamos terem elas causas similares. Mas embora n�o possamos prescindir da analogia como forma de infer�ncia, ela n�o �, de maneira alguma, demonstrativa, e n�o raramente nos conduz ao erro. <...>

A quest�o sobre o que queremos exprimir quando falamos  leva-me a outro problema, o da introspec��o. Muitos fil�sofos sustentam que a introspec��o tornou o conhecimento mais indubit�vel; outros afirmam n�o existir o que se chama introspec��o. Descartes, depois de tentar duvidar de tudo, chegou a esta conclus�o : "Penso, logo existo", como base para o conhecimento restante. O behaviorista dr. John B. Watson diz, ao contr�rio, que n�o pensamos, mas apenas falamos. O dr. Watson, na vida real, d� tantas provas de pensar como qualquer outro; portanto, se ele n�o est� convencido que pensa, estamos todos em maus len��is. De qualquer modo, a mera exist�ncia de uma opini�o como esta, da parte de um fil�sofo competente deve bastar para mostrar que a introspec��o n�o � t�o certa quanto alguns pensam. Examinemos, por�m, a quest�o um pouco mais de perto.

A diferen�a entre introspec��o e o que chamamos percep��o de objetos externos parece-me ligada, n�o com o que � fundamental no nosso conhecimento, mas com o que � inferido. Pensamos, numa ocasi�o, estar a ver uma cadeira; noutra feita, pensamos acerca de filosofia. Ao primeiro caso, chamamos percep��o de um objecto externo; ao segundo, chamamos introspec��o. Nesse ponto j� encontramos motivo para duvidar da percep��o externa, no sentido vigoroso em que o senso comum a admite. Examinarei mais adiante o que h� de indubit�vel e de primitivo na percep��o; por enquanto, anteciparei as minhas conclus�es dizendo que o indubit�vel quando se "v� uma cadeira" � a ocorr�ncia de um certo esquema de cores. Mas essa ocorr�ncia, segundo verificamos, est� vinculada tanto a mim quanto � cadeira; ningu�m, a n�o ser eu mesmo, pode ver exactamente o modelo que vejo. Existe, portanto, algo de subjectivo e particular no que entendemos por percep��o externa. <...>

Suponha que, em consequ�ncia da introspec��o, voc� chega a uma cren�a expressa em palavras : "Agora acredito que o esp�rito � diferente da mat�ria." O que voc� sabe, fora as infer�ncias, nesse caso? Primeiro de tudo, deve eliminar a palavra "Eu" : a pessoa que acredita � uma infer�ncia, n�o � parte do que voc� pensa de imediato. Em segundo lugar, deve ter cuidado com a palavra "acredito". N�o estou preocupado com o que esta palavra significaria em l�gica ou teoria do conhecimento; estou preocupado com o que pode significar quando usada para descrever uma experi�ncia directa. Em semelhante caso, parece que ela s� pode descrever um certo g�nero de impress�o. E quanto � declara��o de que pensa algo em que acredita, ou seja, que "o esp�rito � diferente da mat�ria", � muito dif�cil dizer o que na verdade ocorre quando voc� pensa acreditar nisso. Talvez sejam meras palavras, pronunciadas, visualizadas e ouvidas, ou imagens motoras. Talvez sejam imagens do que as palavras "significam", mas, nesse caso, n�o seria absolutamente uma representa��o exacta do conte�do l�gico da declara��o. Voc� pode ter a imagem de uma est�tua de Newton "viajando por estranhos mares s� de pensamento", e outra imagem de uma pedra rolando pela encosta, combinada com as palavras "como � diferente!" Ou poder� pensar na diferen�a entre preparar uma confer�ncia e comer o seu jantar. Somente quando se chega a exprimir o pensamento em palavras � que ocorre a aproxima��o com a exactid�o l�gica.

Na introspec��o e tamb�m na percep��o externa, tentamos exprimir o que sabemos por PALAVRAS.

Chegamos aqui, como na quest�o do testemunho, ao aspecto social do conhecimento. O objectivo das palavras � dar ao pensamento o mesmo g�nero de publicidade reclamado pelos objetos f�sicos. Numerosas pessoas podem ouvir uma palavra falada ou ver uma palavra escrita, porque ambas s�o ocorr�ncias f�sicas. Se eu lhe digo "o esp�rito � diferente da mat�ria", haveria apenas leve semelhan�a entre o pensamento que tento exprimir e o pensamento despertado em voc�, mas esses dois pensamentos t�m apenas isto em comum : poderem ser expressos pelas mesmas palavras. Igualmente, haver� grandes diferen�as entre o que voc� e eu vemos quando, por exemplo, olhamos a mesma cadeira; todavia, ambos podem exprimir nossas percep��es pelas mesmas palavras.

Um pensamento e uma, percep��o n�o s�o, por conseguinte, muito diferentes na sua pr�pria natureza. Se a f�sica est� correcta, eles divergem nas suas correla��es : quando vejo uma cadeira, outros t�m percep��es mais ou menos id�nticas, e acredita-se que estas percep��es est�o associadas �s ondas de luz provenientes da cadeira, enquanto que, quando eu formulo um pensamento, outros talvez n�o estejam pensando em algo id�ntico. Mas isso  aplica-se tamb�m a uma sensa��o de dor de dentes, o que normalmente n�o seria considerado um caso de introspec��o. Em resumo, portanto, parece n�o haver raz�o para considerarmos a introspec��o um g�nero diferente de conhecimento em rela��o � percep��o externa. Mas a quest�o voltar� a ocupar-nos outra vez em etapa posterior deste livro.

Quanto � veracidade da introspec��o, h� novamente um completo paralelismo com o caso da percep��o externa. O dado verdadeiro, em cada caso, � impec�vel, mas as extens�es que fazemos instintivamente s�o question�veis. Em vez de dizer "Acredito que o esp�rito � diferente da mat�ria", voc� deveria dizer : "Certas imagens  processam-se com uma certa rela��o m�tua, acompanhadas de um certo sentimento." N�o existem palavras para descrever a verdadeira ocorr�ncia em toda a sua particularidade; todas as palavras, inclusive os substantivos adequados, s�o gen�ricas, com a poss�vel excep��o de "isto", que � amb�guo. Quando voc� traduz a ocorr�ncia em palavras, est� a fazer generaliza��es e infer�ncias, da mesma forma que quando voc� diz "existe uma cadeira." N�o h�, em verdade, diferen�a vital entre os dois casos. Em cada caso, � inexprim�vel o que viria a ser realmente um dado, e o que se pode p�r em palavras envolve infer�ncias que estariam erradas.

Quando digo que h� "infer�ncias" envolvidas, estou dizendo uma coisa n�o suficientemente precisa, a menos que fosse cuidadosamente interpretada. Ao "ver uma cadeira", por exemplo, n�o apreendemos logo um esquema colorido, para em seguida inferirmos uma cadeira: a cren�a na cadeira surge espontaneamente ao vermos o esquema colorido. Mas esta cren�a tem causas n�o s� no est�mulo f�sico presente, mas tamb�m, em parte, na experi�ncia passada, e em parte nos reflexos. Nos animais, os reflexos desempenham parte consider�vel; nos seres humanos, a experi�ncia � mais importante. A crian�a aprende devagar a correlacionar tacto e vis�o, e a esperar que os outros vejam o que ela v�. Os h�bitos que, em consequ�ncia, n�o formamos tornam-se essenciais � nossa no��o adulta de um objecto igual a uma cadeira. A percep��o de uma cadeira por interm�dio da vista tem um est�mulo f�sico que afecta s� directamente a vis�o, mas que estima ideias de solidez e assim por diante, na experi�ncia inicial. A infer�ncia poderia chamar-se "fisiol�gica". Uma infer�ncia de tal natureza � prova de correla��es passadas, por exemplo, entre tacto e vis�o, mas podem estar equivocadas neste caso. <...>

Chegamos um momento atr�s ao que chamei "infer�ncia fisiol�gica" como ingrediente essencial na no��o elo senso comum de um objecto f�sico. A infer�ncia fisiol�gica, na sua forma mais simples, significa isto: dado um est�mulo S, para o qual, mediante um reflexo, reagimos por um movimento corporal R, e um est�mulo S' como uma rea��o R', se os dois est�mulos s�o frequentemente experimentados em conjunto, S produzir�, com o tempo, R'. O que equivale a dizer que o corpo agir� como se S' estivesse presente. A infer�ncia fisiol�gica � importante na teoria do conhecimento, e terei observa��es a acrescentar mais adiante. Por enquanto, mencionei-a parcialmente para evitar que ela fosse confundida com a infer�ncia l�gica, e tamb�m a fim de introduzir o problema da indu��o, sobre a qual devemos dizer algumas palavras preliminares nesta fase da nossa exposi��o.

A indu��o prop�e talvez o mais dif�cil problema em toda a teoria do conhecimento. Toda a lei cient�fica � estabelecida por seu interm�dio, e no entanto � dif�cil ver porque a julgar�amos um processo l�gico v�lido. A indu��o, no seu fundamento, consiste do seguinte argumento : j� que A e B t�m sido encontrados juntos muitas vezes, e jamais separados, quando A for encontrado outra vez, B provavelmente o ser� tamb�m. Isto ocorre, primeiro, como "infer�ncia fisiol�gica", e como tal � praticado por animais. Quando come�amos a reflectir, n�s  descobrimo-nos a fazer indu��es no sentido fisiol�gico; por exemplo, � espera de que o alimento que vemos possua um certo gosto. Com frequ�ncia: s� nos damos conta dessa expectativa quando ela nos desaponta., isto �, se provamos sal julgando ser a��car. Ao abra�ar a ci�ncia, a humanidade tentou formular princ�pios l�gicos justificadores desse g�nero de infer�ncia. <...>

Estou convencido de que a indu��o deve ter alguma validade, at� certo grau, mas o problema de mostrar como ou porqu� ela pode ser v�lida continua insol�vel. Enquanto isso n�o for resolvido, o homem racional duvidar� se o alimento o nutrir�, e se o Sol se erguer� amanh�. N�o sou um homem racional nesse sentido, mas, neste momento, pretenderia ser. E mesmo que n�o possamos ser completamente racionais, far�amos o poss�vel, sem d�vida alguma, para sermos mais racionais do que somos. Na pior das hip�teses seria uma aventura interessante ver at� onde a raz�o nos conduzir�.

Nenhum dos problemas que levantamos s�o novos, bastam para indicar que nossas opini�es quotidianas sobre o mundo e as nossas rela��es com ele s�o insatisfat�rias. Estivemos a indagar se conhecemos isto ou aquilo, mas ainda n�o pergunt�mos o que � "conhecer". Talvez descobr�ssemos ter ideias erradas a respeito do conhecimento, e que as nossas dificuldades crescem menos quando dispomos, neste particular, de ideias mais correctas. Penso que dever�amos iniciar a nossa jornada filos�fica pela tentativa de compreender o conhecimento como parte da rela��o do homem com a sua ambi�ncia, esquecendo, por enquanto, as d�vidas fundamentais que estivemos a considerar. Talvez a ci�ncia moderna nos capacite a ver problemas filos�ficos sob uma nova luz.

In Russell, B. (1977): Fundamentos de Filosofia, Rio de Janeiro: Zahar, pgs. 7-20.(Texto adaptado).

Texto recolhido no Site: http://www.sociologia.de

 

 
   
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