- Est�s amarga...
- Achas?
- Nota-se... sente-se...
- Faz parte do processo... digo eu...


Fiquei a pensar no que o Rui me disse. O Rui � um dos meus melhores amigos e conhece-me bem, topa-me � dist�ncia.

Amarga...

Sempre achei que num processo de separa��o existem v�rias fases: a tristeza, o desespero, a solid�o, a culpabiliza��o, o conformismo. A m�goa, a raiva, o �dio. Finalmente, acabamos por ignorar, por esquecer ou por guardar as mem�rias num qualquer canto de n�s que sabemos que nunca mais ser� mexido.

Dei por mim a querer que esta fase chegasse o quanto antes. Estava a ficar saturada da fase lamechas em que se chora muito, em que temos muita pena de n�s pr�prios por termos sido abandonados, em que questionamos tudo o que fiz�mos e diss�mos para tentarmos perceber onde falhamos.

Agora estou amarga...

N�o sinto mais pena de mim. Quanto muito, sinto pena daquele a quem eu um dia dei tudo o que tinha porque, afinal, quem ficou a perder foi ele. J� nem sequer acho que falhei ou se o fiz foi por excesso.

Tamb�m deixei de chorar. Chorar lava-nos a Alma e foi para isso que serviram todas as minhas l�grimas. Agora tenho uma Alma limpa, serena...

N�o consigo deixar de esbo�ar um sorriso sarc�stico quando escrevo sobre esse algu�m que n�o me merece. Sorrio porque sei que dificilmente ele encontrar� algu�m que o trate como eu tratei. Presun��o minha?! N�o! Sei bem aquilo que fiz por ele, tenho consci�ncia do meu valor.

Por uma quest�o de orgulho, gostava de conseguir perceber se ele tamb�m sabe o que perdeu. Mas espero que um dia j� nem isso me interesse saber porque � sinal que passei � fase pela qual tanto anseio agora: a fase de esquecer qualquer tipo de sentimento, bom ou mau, de tudo me ser j� indiferente.

Agora estou amarga...

Demorei quase 1 ano a atingir este est�dio de raiva, de desprezo, de revolta. Mas consegui! Cada um tem o seu tempo e eu sabia que mais cedo ou mais tarde conseguiria falar dele sem chorar com saudades, sem sentir a sua falta. Sabia que havia de conseguir dizer o seu nome sem os �inhos�... sem o �meu�...

Confesso que ainda fraquejo, ainda sinto o cora��o bater mais forte quando, por algum motivo, sinto a sua presen�a. Estou amarga mas n�o estou morta...

Mas em breve espero escrever sobre a �ltima fase do processo de separa��o. Espero conseguir chegar aqui e dizer que n�o lhe desejo nem bem, nem mal; que n�o sei nada da vida dele e que isso em nada me afecta; que ele pertence ao passado e tudo o que � passado � para enterrar.

Por enquanto, estou amarga... amarga, descrente, revoltada, magoada, insens�vel, sofrida...

I chose you... you chose yourself... we "died"

Patr�cia Lousada � 9 de Maio de 2002
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