Como eu vejo a exposição de Sandra? Como uma afirmação
de que o artista se relaciona duplamente com o mundo que o cerca:
de maneira individual, em função da sua vida perceptiva,
do seu corpo, daquilo que se pode denominar a sua "encarnação"
e, de maneira universal, em função da metamorfose que
nele ocorre e que o torna, ao mesmo tempo, passivo e ativo, capaz
de se moldar aos aspectos naturais e culturais do universo e, simultaneamente
agir sobre o mundo, modifica-lo e emprestar-lhe significação.
O movimento incessante e contínuo do ator que sobe e desce
a escada parece também ter dupla significação.
Pode-se ver nele o indivíduo anônimo, que repete mecanicamente
os atos que a cultura lhe impõe, alguém que teve seu
corpo possuído pelo poder do social e se encontra desprovido
de individualidade, de sexo, de emoção e de desejo...
Veja-se aí então uma denúncia.
O mesmo movimento repetitivo pode, no entanto, ser interpretado como
um pulsar que significaria vida, criação, e também,
como a tentativa de afirmar que a experiência que o público
tem diante do ator, determinaria a experiência compreensiva
da existência do outro, uma vez que, estamos todos sempre em
constante relação, com a terra, o céu, a sala
e os objetos que nela estão, compartilhando um mundo ambiente
comum. O comportamento de alguém visto nesse contexto, leva-nos
a pensar que as pessoas se comunicam de maneira "fundamental"
e que o fazem por meio da analogia que estabelecem entre seu corpo
e o dos outros. É por meio do "corpo próprio"
que o indivíduo se comunica com a corporeidade de outrem, e
com a corporeidade das coisas.
Esta performance pode ser compreendida como um campo de presença,
um sistema de conexão vivo, idêntico ao existente entre
as partes de um corpo e, no caso, "um corpo sem órgãos",
que poderia ter por modelo o conceito de "Sistemas Rhizomáticos"
introduzido por Deleuze/Guattari e que é definido como uma
rede em que a comunicação flui de uma conexão
para a outra sem que canais ou caminhos pré-existentes, dirijam
o seu movimento.
Retomando Deleuze, não se perguntará o que esta exposição
significa, deve-se perguntar como ela funciona, em conexão
com o que ela faz passar intensidades, em que multiplicidades ela
se introduz e metamorfoseia a sua, com que corpos sem órgãos
ela faz convergir o seu. Um rizoma não cessaria de conectar
cadeias semióticas, organizações de poder, ocorrências
que remetem às artes, às ciências, às lutas
sociais; nem por isso ele deixaria de cortar estruturas demasiado
significantes, porque é atributo dele construir linhas de desterritorialização
pelas quais foge sem parar.
A exposição faz rizoma com o mundo; sendo assim, o movimento
do ator no meio das pessoas assegura a desterritorialização
da exposição, ou seja, as pessoas transitam e se relacionam
com a performance e a comunicação se dá de um
espectador a outro qualquer, como uma rede infinita e independente
de uma instância central.
Rosa
Werneck