Tesouro Guarani Veja 14/10/1998 Ru�nas das miss�es em tr�s pa�ses comp�em o primeiro roteiro tur�stico oficial do Mercosul
Um dos peda�os mais fascinantes da hist�ria da coloniza��o da Am�rica est� come�ando a sair do anonimato. S�o as ru�nas das redu��es jesu�ticas plantadas na fronteira do Brasil com o Paraguai e a Argentina durante os s�culos XVII e XVIII. Durante muito tempo, esse precioso patrim�nio hist�rico ficou abandonado. As ru�nas eram visitadas s� por estudantes das cidades vizinhas, trazidos em excurs�es e pouco interessados na hist�ria do local. A partir do final deste ano, no entanto, pela primeira vez elas ser�o vendidas no mundo todo como roteiro tur�stico integrado por ag�ncias e governos desses tr�s pa�ses. O projeto � um dos primeiros na �rea do turismo feitos em conjunto pelos pa�ses do Mercosul. O novo roteiro, que ser� lan�ado no final deste m�s no congresso da Associa��o Brasileira de Ag�ncias de Viagens, no Recife, e na feira mundial de turismo que acontece em Londres em novembro, inclui as cidades de S�o Miguel das Miss�es, no Rio Grande do Sul, San Ignacio Mini, na Argentina, e Trinidad, no Paraguai, onde est�o as principais ru�nas. Um roteiro mais extenso poder� incluir outras dezenove cidades da regi�o onde existem vest�gios menores do que foram as miss�es, como trechos de muros e restos de constru��es hoje cobertos pela vegeta��o.
O turista que se dispuser a percorrer o roteiro das miss�es preparado pelo Mercosul ver� imponentes catedrais, fachadas e portais de igrejas, est�tuas, moradias de �ndios e padres e at� uma cripta � uma galeria subterr�nea onde eram enterrados religiosos. Os primeiros padres jesu�tas chegaram � regi�o em 1609 com a miss�o de converter os �ndios guaranis ao cristianismo. Um segundo objetivo era garantir a navega��o pelos rios da Bacia do Prata, at� ent�o dificultada pelos ind�genas. Na medida em que os jesu�tas conquistavam a simpatia do povo local, usavam sua m�o-de-obra para edificar as redu��es. A estrutura era sempre a mesma: um p�tio central que unia as casas de padres e de �ndios e as oficinas. Tudo isso dominado por uma vistosa igreja. Eram centros urbanos que chegavam a fazer frente �s cidades coloniais da �poca. Em seu per�odo de maior desenvolvimento, de 1680 a 1730, de 130000 a 150000 pessoas viveram em trinta redu��es jesu�ticas. Cada uma tinha um grupo de at� tr�s padres, orientando a vida de 1.500 a 6.000 �ndios. No final do s�culo XVII, de cada tr�s habitantes da regi�o do Prata dois viviam nas redu��es. Para se ter uma id�ia, Buenos Aires, que hoje concentra 80% da popula��o da Argentina, tinha na �poca apenas 11.960 habitantes. No mesmo per�odo, as redu��es chegaram a ter 67.000 moradores.
Sob a tutela dos jesu�tas, os guaranis chegaram a desenvolver uma cultura praticamente auto-suficiente, paralela � dos colonos portugueses e espanh�is. As redu��es contavam com sider�rgicas e at� observat�rios astron�micos. Nas oficinas, produziam-se de utens�lios dom�sticos a delicados perfumes. Apesar do progresso, as redu��es passaram a declinar a partir de meados do s�culo XVIII, quando os guaranis come�aram a ser atra�dos pelas cidades coloniais. A gota d'�gua foi o Tratado de Madri, de 1750, pelo qual a Espanha entregava a Portugal o territ�rio das redu��es jesu�ticas em troca da Col�nia de Sacramento, no atual Uruguai. Os guaranis se rebelaram contra o tratado e declararam guerra � coroa portuguesa, da qual sa�ram derrotados. Suas cidades florescentes ficaram em ru�nas. A decad�ncia se agravou com a expuls�o dos padres jesu�tas da regi�o do Prata, decretada em 1767 pelo Marqu�s de Pombal. O abandono cuidou do resto.
Hoje, as constru��es mais preciosas est�o nas cidades da Argentina e do Paraguai. "Elas impressionam pela impon�ncia e beleza", diz a fot�grafa ga�cha Edelweiss Bassis, autora de um ensaio fotogr�fico com os detalhes arquitet�nicos das ru�nas. O trabalho de Edelweiss, reunido em 48 fotos, est� exposto no Museu da Rep�blica, no Rio de Janeiro. No territ�rio brasileiro, as redu��es foram alvo de saques e ficaram abandonadas por mais tempo. Come�am, agora, a receber aten��o. "O incentivo do turismo representa um resgate da mem�ria coletiva da regi�o, j� que boa parte das pessoas desconhece esse passado e sua import�ncia hist�rica", afirma Eduardo Neumann, professor de hist�ria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O circuito das miss�es foi declarado, em 1997, um dos quatro roteiros hist�ricos internacionais mais importantes do mundo pela Unesco. Por enquanto, uma dificuldade para o turismo na regi�o � a infra-estrutura prec�ria. S�o Miguel das Miss�es possui um �nico hotel, com apenas 22 vagas, e quatro restaurantes. Na Argentina e no Paraguai n�o � muito diferente. O �nico aeroporto na regi�o, em Santo �ngelo, s� tem v�os para Porto Alegre e S�o Paulo. Vai ser preciso investir. Sen�o, reservas s� com muita anteced�ncia. |