O Pa�s das Estranhezas                     Veja 29/09/1999
Um lugar nos confins do Pac�fico, a Nova Zel�ndia foge do t�dio inventando esportes cada vez mais radicais

A Nova Zel�ndia tinha tudo para ser um pa�s esquecido no mapa. O long�nquo arquip�lago no Pac�fico Sul, no entanto, chama a aten��o justamente por suas singularidades. Localizado nos confins do mundo, tem quase o tamanho da It�lia e uma popula��o infinitamente menor. S�o apenas 3,7 milh�es de habitantes espalhados em suas duas ilhas principais. � uma na��o de descendentes de ingleses numa vizinhan�a polin�sia. � tamb�m um pa�s isolado: seu vizinho mais pr�ximo, a Austr�lia, est� a 2.000 quil�metros de sua costa. Mais: pode ser considerado o fim do mundo at� no sentido temporal, j� que est� no limiar da chamada Linha Internacional da Data. Essa linha imagin�ria corta o planeta de um p�lo a outro e regula a mudan�a dos dias. Significa que a poucos quil�metros a leste do territ�rio neozeland�s se volta para o dia anterior. A n�o ser pelas extravag�ncias, ningu�m daria uma segunda olhada na Nova Zel�ndia. N�o fosse a mesmice atroz do cotidiano, talvez esses ilh�us n�o se tivessem tornado ases do esporte radical.

Quem, sen�o um povo imerso no t�dio da vida sem desafios, teria tido a id�ia de se jogar da ponte mais alta amarrado apenas pelos p�s? Estava inventado assim o bungee-jump, uma das mais arrepiantes modalidades radicais. A pr�tica esdr�xula de se lan�ar ao vazio atrai legi�es de jovens a Queenstown, uma pequena cidade na Ilha Sul do pa�s, considerada a capital mundial da aventura. Ali, concentram-se quatro plataformas para o esporte, entre elas a lend�ria ponte Kawarau, palco do salto inicial. At� o assessor econ�mico do presidente Bill Clinton, Gene Sperling, rendeu-se recentemente � experi�ncia. Foram os neozelandeses tamb�m que inventaram a propuls�o a jato nos motores n�uticos � o que permite aos enlouquecidos pilotos de hoje conduzir jet boats em rios pedregosos a toda a velocidade. No pa�s, o rafting, a aloprada descida de corredeiras em botes infl�veis, ganhou milhares de adeptos. A lista das fa�anhas neozelandezas n�o p�ra por a�. S�o de l� tamb�m os veleiros mais velozes do mundo. Auckland, porta de entrada do turismo na Ilha Norte, � considerada a cidade com o maior n�mero de barcos per capita do mundo.

Pode-se dizer que a Nova Zel�ndia se tornou lugar de tanta excentricidade gra�as � diversidade de suas paisagens. Concentradas num territ�rio t�o pequeno e in�spito, elas s�o um prato cheio para estimular a ousadia dos nativos. Montanhas nevadas, fiordes, vulc�es ativos e extintos, exuberantes campos verdes, praias virgens e lagoas de �gua cor de esmeralda sucedem-se ao longo dos 1.600 quil�metros que separam o extremo norte do sul. "� como se, em poucas horas, o visitante saltasse da Europa para a Patag�nia", diz Mauro Chwarts, diretor da Highland Adventures, operadora especializada em turismo de aventura. Para quem passeia pelo pa�s, a possibilidade de se arriscar em alguma experi�ncia audaciosa � uma tenta��o. "Num mero passeio, enfrentam-se situa��es de muita adrenalina quase sem querer", afirma o neozeland�s Craig Bavinton, dono da ag�ncia de viagens Canguru Tours, de S�o Paulo. � o que acontece no centro da Ilha Norte, onde fica o Parque Nacional de Tongariro. As atra��es do lugar s�o literalmente explosivas: os vulc�es Ngauruhoe e o Ruapehu, pico culminante dessa parte do pa�s com 2.297 metros. Ao chegar ali, os desavisados levam um duplo susto. Al�m do iminente risco de erup��es, nas encostas do vulc�o � pasmem � os neozelandeses constru�ram um badalado complexo tur�stico, com esta��o de esqui e dezenas de hot�is, lojas e restaurantes.

Exceto pelos extremos que a natureza oferece ou pelo que os neozelandeses inventam, a vida na ilha � um t�dio. No �ltimo ano, a popula��o festejou a queda no �ndice internacional de corrup��o como se fosse o fim da caretice. Tudo isso porque a Nova Zel�ndia caiu do primeiro para o segundo lugar no ranking dos pa�ses mais honestos do mundo. Com padr�o de vida de Primeiro Mundo e sem os desafios das grandes metr�poles industriais, os neozelandeses cuidam dos jardins e cultivam h�bitos ingleses que os pr�prios ingleses j� abandonaram h� d�cadas. Tudo � de impec�vel "politicamente correto". Preocupado com a perda de identidade cultural dos 500.000 maoris, descendentes da popula��o original da ilha, o governo elegeu um representante nativo para saudar os visitantes ilustres com o hongi, tradicional cumprimento da tribo. Trocando em mi�dos, significa esfregar o nariz maori no nariz visitante. Os neozelandeses tamb�m se preocupam com o dano que a flatul�ncia de 47 milh�es de ovelhas, espalhadas pelas paisagens irretoc�veis do pa�s, causa � camada de oz�nio. O lado bom disso � que, se n�o fosse esse talento especial para coisas estranhas, certamente esse pa�s de gente bem de vida e indiscut�vel n�vel de civilidade jamais chamaria a aten��o do resto do mundo.
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