| Todos os Santos Veja 21/10/1998 Com rel�quias preciosas, o Museu do Orat�rio ser� aberto em Ouro Preto O sonho da casa pr�pria j� � uma realidade para todos os santos � do pac�fico Menino Jesus ao rabugento Santhiago Mata Mouros. Essa galeria de cat�licos ortodoxos dividir� o mesmo teto com personagens que t�m um p� na umbanda, como S�o Jorge e Nossa Senhora do Ros�rio. As divindades integram, ecumenicamente, o acervo do Museu do Orat�rio, cujo endere�o � um casar�o colonial do s�culo XVIII, encravado numa ladeira de Ouro Preto, ao lado da Matriz do Carmo. O lugar, que j� foi casa de Ant�nio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, ser� aberto ao p�blico neste dia 30. Com 162 orat�rios e mais de 300 imagens, inclusive uma esculpida em madeira pelo pr�prio Aleijadinho, o museu re�ne uma cole��o preciosa, antes espalhada no tempo e no espa�o. Parte dos orat�rios, criados entre o s�culo XVII e o come�o do XX, de madeira, barro, metal e at� com conchas do mar, saiu das m�os de artistas do quilate de Manuel da Costa Ata�de, o grande pintor barroco brasileiro. Outros tantos foram entalhados por artes�os an�nimos, que muitas vezes contavam apenas com um canivete e um galho de goiabeira como mat�ria-prima. Antes de desembarcar em Ouro Preto, os orat�rios do museu fizeram escala por todo o mundo. A �ltima delas aconteceu numa exposi��o no Museu do Louvre, em junho. Na Fran�a, o acervo foi saudado pelo jornal Le Figaro como uma "magn�fica cole��o de arte brasileira". Orat�rio de alcova, s�culo XIX: ao gosto da f� popular Surgidos na Europa medieval, os orat�rios aportaram no Brasil juntamente com as caravelas de Pedro �lvares Cabral. Esse primeiro exemplar desapareceu sem deixar vest�gios. Tal como a estatu�ria e a arquitetura barrocas, essas pe�as floresceram no s�culo XVIII, durante o auge da minera��o em Minas Gerais. Um de seus grandes art�fices foi Mestre Ata�de, que se tornou c�lebre por pintar forros de igrejas, a quem se atribui a pintura de um orat�rio de madeira, com incrusta��es de madrep�rola. A pe�a traz a excel�ncia dessa t�cnica em policromia, combinando cores vivas com a delicadeza t�pica do artista. Influenciado pela arte portuguesa, o topo do orat�rio exibe a representa��o de uma concha marinha, no estilo dom Jo�o V. Como na �poca a Igreja n�o se importava com os pecadores da col�nia, os brasileiros trataram de "tropicalizar" seus objetos de f�. Esse barroco moreno resultou naquilo que o historiador franc�s Germain Bazin certa vez chamou de "apoteose da civiliza��o ocidental". Nas m�os do povo, a divindade assumiu as mais diversas formas. Em um dos orat�rios, por exemplo, a pomba do Esp�rito Santo se converteu numa ave com o formato de um pato. Os artes�os mais simples trataram de aproximar a religi�o da vida cotidiana. O acervo do museu exibe os chamados orat�rios de algibeira, feitos para ser carregados como amuletos pelos tropeiros em suas andan�as. N�o s�o poucos os orat�rios que t�m adornos feitos na forma de penachos, que lembram folhas de coqueiros, abacaxis e grafismos t�picos da heran�a africana dos escravos brasileiros. Um deles tem o apelido de "Carmen Miranda". Existem, tamb�m, os chamados "orat�rios de bala", que reproduzem a forma de uma ogiva e se fecham, como um cofre, aos olhares de estranhos. O museu, em Ouro Preto: casa do Aleijadinho Mecenato � Por tr�s desse museu est� a colecionadora de arte Angela Gutierrez, uma das herdeiras da empreiteira Andrade Gutierrez. Numa atitude rara no Brasil, terra em que os colecionadores costumam esconder seus bens tanto do p�blico quanto dos fiscais da Receita Federal, Angela resolveu doar sua cole��o de orat�rios reunida em mais de trinta anos. Fez isso sem recorrer a nenhuma esp�cie de incentivo fiscal, como a Lei Rouanet, que permite aos "mecenas" descontar no imposto de renda parte do que investem em cultura. Do bolso de Angela Gutierrez sa�ram n�o s� o acervo como toda a restaura��o do casar�o de Ouro Preto. O im�vel, pertencente � Ordem Terceira do Carmo, foi cedido pela arquidiocese de Mariana. Para restaur�-lo foi gasto 1 milh�o de reais. De agora em diante, o museu integra o patrim�nio hist�rico nacional. Para geri-lo, e principalmente custe�-lo, a colecionadora criou a Funda��o Fl�vio Gutierrez, que leva o nome de seu pai. Orat�rio erudito, s�culo XVIII: enfeitou o quarto do papa Jo�o Paulo II, durante sua vinda ao Brasil, no ano passado Refazer os c�lculos de quanto ela gastou, percorrendo de avi�o, carro, a cavalo e at� mesmo a p� os mais remotos grot�es do pa�s, para juntar seus santos e orat�rios, � uma tarefa imposs�vel. Nessa tarefa, a colecionadora contou com a ajuda de um pequeno ex�rcito de "mateiros", viajantes que cruzavam o pa�s em busca das pe�as. De acordo com especialistas em arte sacra brasileira, a cole��o do Museu do Orat�rio vale, por baixo, cerca de 5 milh�es de reais. � dif�cil avali�-lo porque esse � um acervo �nico no pa�s. Para afugentar os lar�pios, o museu disp�e de um bom sistema de alarme. Al�m disso, cada item da cole��o foi fotografado e catalogado. Esse �ltimo recurso, uma esp�cie de carteira de identidade de uma obra de arte, � uma poderosa arma contra furtos. Orat�rio de sal�o, s�culo XIX: formas e cores brasileiras Para organizar o museu, Angela Gutierrez foi buscar na Fran�a o curador Pierre Catel, um muse�logo em cujo curr�culo constam, entre outros, trabalhos para o Pal�cio de Versalhes. Catel concebeu o museu, que tem 800 metros quadrados de �rea de exposi��o, como v�rios n�cleos tem�ticos. Os orat�rios de algibeira, por exemplo, estar�o localizados no segmento das viagens. Haver� tamb�m uma sala dedicada aos orat�rios feitos para o batismo. Nesse lugar, manequins sem rosto ser�o vestidos com roupas de �poca. Tais detalhes n�o dever�o ofuscar os orat�rios. "Tomei todo o cuidado para n�o fazer uma Disneyl�ndia", diz Catel. "Meu objetivo � ressaltar o esplendor de cada objeto dentro de seu ambiente original." Essas rel�quias do passado tamb�m poder�o ser vistas na Internet, atrav�s do site do museu: www.oratorio.com.br. Orat�rio de sal�o, do s�culo XVIII: pintura de Mestre Ata�de |
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