Vandalismo dos Fan�ticos Veja 07/03/2001 Mil�cia do Taliban decide destruir rel�quias hist�ricas e apagar todo o rico passado pr�-isl�mico do Afeganist�o
Est�tua no museu de Cabul (� esq.) e o Buda gigante de Bamiyan (� dir.): a ordem � para destruir tudo
Desde que instalaram um regime medieval no Afeganist�o, h� cinco anos, os integrantes da mil�cia do Taliban � nome origin�rio de um movimento de estudantes isl�micos � tomam decis�es de arrepiar os cabelos at� dos mais ferrenhos seguidores de Maom�. Na semana passada, Mohamed Omar, que se autoproclamou emir do Afeganist�o e � o l�der da mil�cia, decidiu que todas as est�tuas do pa�s deveriam ser destru�das. Esse s�bito surto de iconoclastia passaria despercebido se o Afeganist�o n�o tivesse um acervo riqu�ssimo de monumentos budistas, heran�a do per�odo pr�-isl�mico, anterior ao ano 1000, quando a regi�o era centro de peregrina��o. Entre os alvos da maluquice, est�o as duas est�tuas gigantes de Buda, em Bamiyan, nos arredores da capital Cabul. Esculpidas na rocha h� mais de 1 500 anos, elas medem 37 e 53 metros de altura e est�o entre as maiores representa��es conhecidas de Buda. Omar, que por l� � conhecido como "mul�" (professor), deu a ordem, e imediatamente soldados come�aram a circular pelo pa�s com caminh�es carregados de explosivos e lan�a-foguetes � ca�a das imagens. As primeiras est�tuas destru�das foram retiradas das 6.000 pe�as do museu de Cabul. Pa�ses de grande comunidade budista, como o Jap�o, a Tail�ndia, a �ndia, e organismos como a Unesco protestaram em v�o. "Estamos apenas destruindo pedras", Omar justificou.
Desde que se instalou no governo, o Taliban transformou o pa�s num inferno. Execu��es sum�rias, amputa��es p�blicas e festivais de chibatadas acontecem em est�dios de futebol lotados. As meninas s�o obrigadas a parar de estudar aos 8 anos. As mulheres vivem cobertas por um manto, o burqa, que esconde at� os olhos, e chegam a levar uma surra quando s�o apanhadas conversando com estranhos. J� os homens t�m de vestir camisol�es e s�o for�ados a usar barba. O Afeganist�o tornou-se o pa�s da proibi��o. Televis�o, m�sica, fotografia e tudo que desvie a aten��o de Deus � ilegal. Em meio a tantos absurdos, o Taliban acabou abrigando o saudita Osama bin Laden, terrorista acusado de planejar os atentados �s embaixadas americanas na Tanz�nia e no Qu�nia, em 1998. Apesar de pedidos de extradi��o, ele continua como um convidado de honra e, por isso, o pa�s enfrenta um embargo internacional que privou os afeg�os de quase toda ajuda humanit�ria, essencial numa na��o devastada por duas d�cadas de guerra civil. Apesar de o Taliban controlar 90% do territ�rio, a comunidade internacional � � exce��o de Paquist�o, Ar�bia Saudita e Emirados �rabes � ainda n�o o reconhece como governo leg�timo do Afeganist�o. Enfrentando a pior seca das �ltimas tr�s d�cadas, a agricultura do pa�s est� em frangalhos. Mais de 3 milh�es de famintos se espremem em campos de refugiados nos vizinhos Paquist�o e Ir�. Dentro do pa�s, as Na��es Unidas estimam que 1 milh�o de afeg�os estejam � beira de ser dizimados pela fome.
H� duas semanas, numa tentativa desesperada de agradar aos governos ocidentais, o Taliban anunciou o exterm�nio dos campos de papoula � o Afeganist�o produz 75% do �pio mundial que, transformado em hero�na, abastece o mercado europeu e o americano. Acabar com a maior fonte de renda do Estado parece ter sido um suic�dio econ�mico que faz a destrui��o de est�tuas parecer muito mais uma tentativa de chamar a aten��o para a pen�ria do pa�s. Mas transformar o passado em p� n�o vai melhorar a imagem do Taliban e a tend�ncia � isolar ainda mais o Afeganist�o. Rompantes de iconoclastia pontilharam a Hist�ria. Em seus prim�rdios, o cristianismo, por exemplo, fez tudo o que p�de para acabar com toda arte considerada pag�, inclusive a grega. Mais recentemente, os espanh�is arrasaram as culturas pr�-colombianas em nome de Deus e, durante a Revolu��o Francesa, est�tuas da Catedral de Notre-Dame foram decapitadas pelos revolucion�rios. O que d� um tom assustador � turma do Taliban � pulverizar objetos de arte de tamanha import�ncia em pleno s�culo XXI, acabando com a �ltima riqueza do pa�s: seu passado. |