Santo ou Dem�nio?             Veja 22/09/1999
Novo livro diz que o papa Pio XII n�o foi apenas omisso, mas ajudou Hitler

Por mais que o Vaticano tente livrar-se do assunto, a atitude do papa Pio XII em rela��o ao nazismo continua a pairar, como cad�ver insepulto, lan�ando uma sombra sobre a Igreja como um todo. Que ele se omitiu em rela��o aos crimes de Adolf Hitler j� � uma esp�cie de consenso, a ponto de o papa Jo�o Paulo II ter proferido um mea culpa oficial, h� um ano e meio. Agora, a discuss�o entrou em outro patamar: Pio XII teria se aliado a Hitler para destruir a organiza��o pol�tica dos cat�licos alem�es, facilitando assim a consolida��o da tirania nazista? Seu anti-semitismo era t�o enraizado que fez dele quase um colaborador do genoc�dio dos judeus europeus? Com a agressividade de um trator, � assim que o escritor cat�lico ingl�s John Cornwell o descreve em Hitler's Pope: the Secret History of Pius XII (O Papa de Hitler: a Hist�ria Secreta de Pio XII). O livro s� ser� lan�ado nos Estados Unidos e na Europa no dia 27, mas a publica��o de um excerto na revista americana Vanity Fair j� mostrou a que veio. Um te�logo do Vaticano, o padre Pierre Blet, considerou "caluniosas e fict�cias" as acusa��es de Cornwell. Blet tamb�m tem um livro novo na pra�a sobre Pio XII, com enfoque oposto. E seu processo de beatifica��o continua, abrindo a perspectiva de que a Igreja tenha um santo que comungou com o diabo.

Cornwell jura que sua inten��o inicial era ajudar a dirimir as d�vidas sobre a atua��o de Pio XII durante a II Guerra Mundial e, com isso, melhorar a imagem do pont�fice. Conclu�da sua pesquisa, o escritor se disse "em estado de choque moral" diante das "evid�ncias explosivas" da colabora��o do papa com o f�hrer. O pano de fundo hist�rico � conhecido: embora execrasse Hitler, Pio XII o considerava uma amea�a menor, comparada ao comunismo � de resto uma atitude comum na �poca, e n�o s� no �mbito da Igreja. A pesquisa de Cornwell refaz a trajet�ria do papa desde os anos 10, quando era o arcebispo Eugenio Pacelli, n�ncio para a regi�o alem� da Bav�ria. Nessa �poca, Pacelli revelou a vis�o extremamente preconceituosa em rela��o aos judeus. Ao relatar, numa carta, seu espanto com uma manifesta��o de bolcheviques em Munique, o n�ncio se referiu ao l�der do protesto como "russo e judeu; p�lido, sujo, com olhos vazios, vulgar, repulsivo".

Quando o asc�tico e intelectualizado Pacelli se tornou embaixador do Vaticano para toda a Alemanha, surgiram dois personagens importantes em sua vida. Sobre ambos, Cornwell insinua ind�cios de rela��es amorosas com Pio XII, carnais ou plat�nicas. Uma � a freira Pasqualina Lehnert, fidel�ssima governanta que acompanhou o futuro papa at� a morte, chegando a provocar ci�me na irm� de Pio XII. Outro � Ludwig Kaas, padre e l�der do Partido Cat�lico do Centro, completamente obcecado pelo italiano. Segundo a tese de Cornwell, Kaas era o pe�o do futuro papa em sua alian�a maligna: em troca da centraliza��o do poder da Igreja, numa Alemanha que tinha um clero independente demais para seu gosto, os atuantes pol�ticos cat�licos seriam neutralizados. Kaas de fato funcionou como negociador do acordo, ou concordata no jarg�o religioso, de reconhecimento m�tuo entre o Estado alem�o e o Vaticano. A concordata foi assinada por Pio XI em 1933, quatro anos ap�s o retorno de Pacelli a Roma e meses depois da ascens�o de Hitler. A id�ia, por�m, de que Pio XII, por puro maquiavelismo, tenha desarticulado sozinho o Partido do Centro parece claramente exagerada.

Festas para Hitler � O papado de Pio XII come�ou em mar�o de 1939, ano em que a invas�o da Pol�nia � a catolic�ssima Pol�nia, massacrada sem protestos do Vaticano � deu in�cio � II Guerra Mundial. Enquanto isso, na Alemanha, o n�ncio em Berlim, arcepisbo Cesare Orsenigo, organizava uma recep��o de gala para comemorar o anivers�rio de Hitler. Era o auge da agress�o nazista, com a Europa subjugada e uma situa��o pol�tica inteiramente diferente, na qual o l�der da resist�ncia brit�nica, Winston Churchill, defendia um pacto com o diabo � no caso, o ditador sovi�tico Josef Stalin � para derrotar Hitler. Pio XII continuava em sil�ncio. Sob press�o dos pa�ses que combatiam o nazi-fascismo, s� foi pronunciar-se contra as atrocidades no Natal de 1942. Milh�es de pessoas j� haviam sido mortas, mas o papa falou em "centenas de milhares", sem usar as palavras "nazismo" e "judeus". No ano seguinte, tropas alem�s invadiram o gueto judeu de Roma, quase vizinho do Vaticano, prenderam mais de 1.000 pessoas e as deportaram para o campo de concentra��o de Auschwitz.

O padre Blet defende Pio XII com o conhecido argumento de que, se ele tivesse condenado publicamente o genoc�dio, teria provocado a ira do regime nazista contra os cat�licos, a come�ar pelos judeus convertidos, fazendo um n�mero ainda maior de v�timas. Pio XII mandou abrir as portas das ordens religiosas de Roma, salvando assim alguns milhares de judeus. Cornwell n�o contesta isso em seu texto emocional, permeado pela decep��o e pela tend�ncia a passar batido por aspectos que n�o o interessam, como o secreto e arriscad�ssimo apoio de Pio XII a um golpe fracassado contra Hitler. Com todas essas ressalvas, permanece o fato de que Pio XII errou desastrosamente em suas op��es pol�ticas e pecou, sim, ao se acovardar perante o maior crime da hist�ria da humanidade. Mesmo que ele seja beatificado nos pr�ximos meses, como pretende Jo�o Paulo II, s� um milagre limpar� sua imagem.
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