| A Rota do Perd�o Veja 23/06/1999 Atra�dos pela aventura e pela f�, peregrinos agitam o Caminho de Santiago no �ltimo jubileu do mil�nio A chegada: ao fundo as torres da Catedral de Santiago de Compostela Uma das romarias mais tradicionais do catolicismo, o Caminho de Santiago de Compostela atrai fi�is h� mais de 1.000 anos. A peregrina��o de 1999, ainda assim, � duplamente especial. Trata-se de um jubileu, um ano santo comemorado apenas se o dia do ap�stolo Tiago (25 de julho) coincide com o domingo, refor�ado desta vez pela imensa carga m�stica gerada pela virada do s�culo. N�o pode haver melhor ocasi�o para viajar at� a Gal�cia, no noroeste da Espanha, pois quem visita a Catedral de Santiago num jubileu � recompensado com a absolvi��o de todos os pecados, como determina uma bula papal do s�culo XII. Tanto � assim que a cidade conta receber 10 milh�es de visitantes, quatro vezes o contingente de um ano normal. A rigor, n�o � necess�rio dar um s� passo fora da zona urbana para usufruir a absolvi��o. Basta ao penitente cruzar a porta santa, que a catedral s� abre nessas ocasi�es especiais, rezar pelo papa, confessar-se e comungar � mas s� aquele que percorre o caminho a p�, a cavalo ou de bicicleta tem direito � Compostelana, o atestado em latim de que a peregrina��o foi feita com esp�rito crist�o. Pelo menos 75 000 pessoas colocaram realmente o p� na estrada, de mochila �s costas e cajado na m�o (veja quadro), nos primeiros cinco meses do ano. O n�mero pode parecer pequeno se comparado ao total de visitantes, mas est� longe de desprez�vel. Demonstra, ao contr�rio, o crescente prest�gio m�stico do Caminho de Santiago. A diocese da cidade galega calcula que a peregrina��o tradicional cresceu mais de 900% nos �ltimos dez anos. O caminho mais percorrido, que come�a na Fran�a, tem 760 quil�metros. Por sorte, o peregrino pode optar por andar ou cavalgar apenas os �ltimos 100 quil�metros. Ou, um modernismo, pedalar numa bicicleta o trecho final de 300 quil�metros. Para obter a Compostelana � preciso carimbar em pontos determinados uma esp�cie de passaporte, a Credencial do Peregrino, que ser� rigorosamente examinada em Santiago de Compostela. No Brasil, a credencial s� pode ser fornecida pela Associa��o de Amigos do Caminho de Santiago, que re�ne peregrinos veteranos e tem a aprova��o oficial da diocese galega. Um dos respons�veis pelo crescente interesse no Caminho de Santiago � o escritor brasileiro Paulo Coelho, com seu O Di�rio de um Mago, em que relata suas experi�ncias m�sticas na rota dos peregrinos. Lan�ado em 1986, o livro tornou-se um best-seller mundial, com 7,5 milh�es de c�pias. "Quando eu percorri o caminho, poucas pessoas tinham ouvido falar dele", diz Coelho. "Nunca pensei que fosse despertar tanto interesse." Apenas doze brasileiros conseguiram a Compostelana em 1996. No ano passado, j� foram 823. A expectativa deste ano � de pelo menos 1 500. "O Ano Santo foi o empurr�o que faltava para enfrentar a caminhada", diz a psic�loga paulista Jana�na Fernandes de Carvalho, que na quarta-feira passada embarcou para a Espanha. Chuva de estrelas � O caminho de Santiago nunca esteve abandonado � mas bem que o alento de Paulo Coelho ajudou nos anos 80 (agradecido, o governo da Gal�cia vai condecorar o escritor durante as festividades, no pr�ximo m�s). Na Idade M�dia, a import�ncia dessa peregrina��o s� encontrava rival na de Roma e na de Jerusal�m. S�o Tiago, decapitado na Palestina, por ordem de Herodes Agripa I, rei da Jud�ia, em 44, � o �nico dos ap�stolos cujo mart�rio � descrito no Novo Testamento. Segundo a tradi��o, o corpo do santo foi levado � Pen�nsula Ib�rica de barco. Oito s�culos mais tarde seus restos mortais foram milagrosamente descobertos por um eremita na Espanha e agora repousam em seu santu�rio, a Catedral de Santiago de Compostela. O pr�prio nome, derivado de "campo de estrelas", em latim, diz respeito ao milagre: Pelayo, o eremita, foi surpreendido por uma chuva de estrelas que ca�a do c�u. A tempestade de luz o conduziu at� o corpo do santo, espetacularmente bem conservado. Foi a partir do s�culo X que S�o Tiago ganhou import�ncia entre os cat�licos. A Igreja usou sua imagem para unir os crist�os do norte da Pen�nsula Ib�rica contra o avan�o do islamismo. Convertido num s�mbolo da resist�ncia crist�, o santu�rio serviu de cimento para a forma��o nacional espanhola. Com o tempo, a estrutura montada �s margens do Caminho de Santiago de Compostela para atender os peregrinos transformou a rota em uma das mais importantes da Europa. Reis e rainhas de todo continente e at� S�o Francisco de Assis penitenciaram os pecados percorrendo o Caminho de Santiago. "A id�ia de pecado e absolvi��o por meio de duras penit�ncias tinha uma import�ncia enorme naquela �poca", explica o historiador Hil�rio Franco J�nior, da Universidade de S�o Paulo. Bolhas nos p�s e calor de 40 graus � A influ�ncia do livro de Paulo Coelho contribui para duas confus�es freq�entes entre os brasileiros. A primeira: a de que existe apenas um tra�ado no Caminho de Santiago. H� v�rios (veja mapa), pois eles foram criados de acordo com a origem dos viajantes em tempos medievais. O Caminho Portugu�s, por exemplo, � um trecho curto vindo do sul. O Caminho Ingl�s � a rota natural para aqueles que v�m do Mar do Norte. O Caminho Franc�s, descrito em O Di�rio de um Mago, � atualmente o mais utilizado pelos peregrinos. Apresenta, em conseq��ncia, melhor sinaliza��o e oferece boas op��es de hospedagem. A contribui��o mais not�vel do escritor foi transferir o come�o da jornada para a cidadezinha francesa de St-Jean-Pied-de-Port, cerca de 20 quil�metros antes de Roncesvalles, o ponto de partida mais tradicional. Come�ar por St-Jean-Pied-de-Port tornou-se artigo de f� para os brasileiros. "Mas isso significa acrescentar uma subida de quase 20 quil�metros pelos Pireneus", diz o paulista Danilo Brandani Tiisel, da Associa��o de Amigos do Caminho de Santiago, que fez sua peregrina��o h� seis anos. O percurso � repleto de subidas e descidas, terrenos irregulares por estradas rurais e trilhas antigas. As dificuldades aumentam durante o m�s de julho, alto ver�o europeu, devido � temperatura, que pode chegar a 40 graus. N�o � � toa que os peregrinos, carregando suas mochilas, sapatos gastos nos p�s, disp�em de pequenas farm�cias durante todo o percurso. As bolhas s�o inevit�veis, e os farmac�uticos espanh�is vendem pomadas e rem�dios que aceleram a cicatriza��o dos machucados e aliviam as dores das les�es nas costas, pernas e tornozelos. "No final da caminhada, meu melhor amigo foi um antiinflamat�rio", conta o administrador de empresas Gilberto Pedreira, 26 anos, que andou 700 quil�metros em 23 dias em setembro do ano passado. Carregando bagagem al�m da conta e sofrendo de tendinite nos joelhos, ele percebeu que uma forma de resistir at� o fim era desfazer-se de alguns objetos no come�o da viagem. "Conforme avan�ava, ia arrancando at� as p�ginas do guia para aliviar o peso." Apesar do forte apelo religioso e m�stico, o Caminho de Santiago tamb�m atrai visitantes por raz�es simplesmente tur�sticas. O designer paulista Marcelo Calusa, de 29 anos, por exemplo, pedalou 780 quil�metros em dezoito dias apenas pela oportunidade de ver os castelos medievais que est�o por toda parte. Quem gosta de Hist�ria se encanta com os vest�gios da presen�a moura e com os s�tios arqueol�gicos celtas, que habitaram a regi�o h� mais de 2.000 anos e foram dominados pelos romanos. Em Astorga, a meio caminho, pode-se visitar o Pal�cio Episcopal, obra do festejado arquiteto catal�o Antonio Gaud�. O roteiro tem paisagens deslumbrantes que se alternam entre a aridez do planalto castelhano e os vales verdes da Gal�cia. A regi�o de La Rioja � a principal produtora de vinhos do pa�s e n�o faltam restaurantes com comida t�pica. A pr�pria cidade de Santiago de Compostela, com 100.000 habitantes, � agitada pelos estudantes de sua universidade. A extraordin�ria mistura de sacro e profano pode ser constatada no show dos Rolling Stones, que faz parte do calend�rio de comemora��es do ano santo. "Acho que show de rock num lugar procurado por sua for�a m�stica passa um pouco dos limites", lamenta Paulo Coelho. Visto com menor severidade, n�o deixa de constituir novo atrativo. Nada mais moderno que rock seguido de absolvi��o de todos os pecados. N�o � coisa para desperdi�ar. A pr�xima chance de absolvi��o total em Santiago de Compostela s� acontecer� no jubileu de 2004. |
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