| Possu�dos pelo Fogo de Deus Veja 23/12/1998 O culto ao Esp�rito Santo re�ne 410 milh�es de crist�os e aponta o rumo da f� no pr�ximo mil�nio Os doze ap�stolos recebem a chama sagrada no dia de Pentecostes em Jerusal�m, e momento de �xtase durante missa carism�tica: a par�bola fant�stica alimenta o fervor m�stico h� 2.000 anos Pedro, Jo�o, Tiago, Andr�, Filipe, Tom�, Bartolomeu, Mateus, Tiago, o filho de Alfeu, Sim�o, Judas e Matias estavam reunidos a portas fechadas no terra�o de um pequeno sobrado em Jerusal�m. Eram 9 horas de uma manh� de domingo. A lembran�a de um Jesus crucificado havia apenas 51 dias ainda estava bem viva na cabe�a de cada ap�stolo. Causava muito medo. Qual deles seria o pr�ximo apologista da nova f� a ser sangrado em pra�a p�blica? Foi quando o c�u estremeceu. Um ru�do semelhante ao an�ncio de um violento vendaval ecoou. O estrondo invadiu toda a casa. Do c�u desceram labaredas de fogo que, despeda�adas, foram pousar sobre a cabe�a de cada um dos doze seguidores de Jesus. Como que embriagados de vinho doce, eles come�aram a falar l�nguas estranhas. O rumor atraiu uma multid�o que se reuniu e ficou confusa, porque cada um dos presentes entendia tudo aquilo que era dito. Moradores da Mesopot�mia, da Jud�ia, da Capad�cia, do Egito, da L�bia e de Roma, que haviam chegado a Jerusal�m para a festa de Pentecostes, ouviam aqueles homens contar a hist�ria de Jesus em suas pr�prias l�nguas. Dotados de poderes extraordin�rios, os ap�stolos venceram o medo e sa�ram �s ruas para construir a nova Igreja. Gra�as aos dons do Esp�rito Santo. A fogueirinha na cabe�a dos seguidores de Cristo, as l�nguas estranhas pronunciadas, as curas milagrosas que Pedro e Jo�o passaram a operar no templo de Jerusal�m naquela tarde, algu�m ousaria duvidar do poder do Esp�rito Santo? A f� no poder dessa figura da Sant�ssima Trindade � s� para lembrar, as outras s�o o Pai e o Filho � nunca envolveu tamanha multid�o. S�o 410 milh�es de almas em todo o mundo abra�ando um tipo peculiar de cristianismo. N�o aquele do cordeiro de Deus, que fala dos sofrimentos indiz�veis de Jesus nas m�os de seus algozes. N�o o que privilegia o poder de cria��o do Pai. Esse rebanho fabuloso quer os milagres do Esp�rito Santo. Dividido entre os cat�licos da Renova��o Carism�tica e um colar de denomina��es protestantes, como a Assembl�ia de Deus ou a Igreja Universal do Reino de Deus, para ficar nas vers�es brasileiras do fen�meno, esse cristianismo atende pela denomina��o de pentecostalismo, a �nfase da figura do Esp�rito Santo sobre as demais da Sant�ssima Trindade. Estridentes, os cultos dessa por��o conturbada da f� crist� s�o celebrados aos gritos e cantorias. Contri��o, n�o h� nenhuma. � o que se v� tanto nas missas do padre Marcelo Rossi, de S�o Paulo, o superastro do catolicismo, quanto nos templos do bispo Edir Macedo � transbordamentos de curas, exorcismos, �xtase e j�bilo. Em nome do Esp�rito Santo. N�o h� nada t�o transgressor, sublime e generoso na f� crist� quanto o culto ao Esp�rito Santo Fogo, pomba, �gua, nuvem, luz, selo, m�o, dedo, sopro. Descrita das mais diversas formas em passagens v�rias da B�blia, a figura do Esp�rito Santo povoa a hist�ria do cristianismo desde aquela manh� m�tica de domingo, em que se diz que os ap�stolos come�aram a falar l�nguas estranhas. Desde ent�o, a id�ia de uma faceta divina capaz de alterar o rumo natural dos acontecimentos � como um abalo s�smico ou a erup��o de um vulc�o � � invocada pelos crist�os em momentos de grande desespero, quando tudo parece j� ter dado errado, sem remiss�o poss�vel. Dono de um poder sem limites, o acesso ao Esp�rito Santo � franqueado a todos aqueles que cr�em. N�o h� nada t�o sublime, poderoso e generoso no arcabou�o m�stico do cristianismo. Tamb�m n�o h� nada t�o irracional e, por isso, t�o transgressor do rigor e da disciplina que sempre se exigem dos adeptos das religi�es constitu�das. Jesus � batizado por Jo�o no Rio Jord�o: o c�u se abriu e o esp�rito de Deus pousou sobre ele como uma pomba "A �nfase no Esp�rito Santo ressurge sempre que as institui��es religiosas deixam de oferecer o norte da f�, porque os fi�is podem relacionar-se com essa faceta de Deus individualmente, sem a intercess�o de hierarcas", explica o padre e professor de hist�ria da Igreja Danilo Mondoni. � por isso que tantas seitas her�ticas se formaram no decorrer da Hist�ria com a marca do Esp�rito. Talvez essa tamb�m seja a base de tantas condena��es quantas as que as igrejas evang�licas pentecostais t�m recebido desde que come�aram a se instalar no Brasil, ainda no in�cio do s�culo. O mesmo vale para os ataques �s missas fren�ticas do padre Marcelo Rossi, ainda que ele conte com o benepl�cito do papa Jo�o Paulo II. A pergunta que o mundo cat�lico brasileiro faz o tempo todo �: "At� que ponto o padre Marcelo se submeter� � disciplina da Igreja?" "Meu corpo sorriu com uma alegria inexplic�vel depois que o Esp�rito Santo se apossou de mim" Uma das primeiras heresias de que se tem not�cia, a de Montano, um sacerdote convertido � f� crist�, egresso de uma obscura religi�o de mist�rio no s�culo II, organizou-se em torno do culto ao Esp�rito Santo. Montano, origin�rio da �sia Menor, era um crist�o como havia muitos em seu tempo. Ex-adepto de um culto pag�o, o da deusa Cibele, Montano carregava a experi�ncia m�stica de uma religi�o sangrenta, que implicava a mutila��o do �rg�o genital masculino. Poderia ser apenas mais uma excentricidade dentre as tantas que o cristianismo em sua fase seminal experimentou. Foi mais do que isso. "Montano tamb�m recha�ava as autoridades eclesi�sticas, a hierarquia em torno dos bispos e a estrutura das par�quias. Ele dizia que cabia ao Esp�rito Santo, de quem era emiss�rio direto, fundar a nova Jerusal�m, reino de paz, sabedoria e espiritualidade", conta o padre Danilo Mondoni. Isso era intoler�vel. Segundo as profecias milenaristas de Montano, o mundo acabaria no ano 258 na cidade de Puza, localizada na �sia Menor. Grandes multid�es seguiram para l� � espera do para�so anunciado, mas ele nunca chegou. Montano foi formalmente condenado pela Igreja na virada do s�culo III, 21 anos ap�s a sua morte. Bacanais e assassinatos � Outras manifesta��es irracionais do culto ao Esp�rito Santo apareceram no s�culo XII, XIII e XIV, a Europa atarantada por surtos de fome, guerras e peste. Cada vez mais fi�is engrossavam as peregrina��es penitenciais dos "flagelantes", como o movimento passou a ser denominado. Para esses flagelantes, a viagem tinha uma import�ncia em si mesma. A p�, quase nus, cantando e rezando, autoflagelando-se com chicotadas nas costas, os crentes sa�ram do interior da Fran�a, passaram por Santiago de Compostela, na Espanha, e chegaram a Roma. Sempre granjeando mais adeptos para sua mortifica��o. "A id�ia era que quanto maior a mortifica��o maior a chance de ser perdoado e possu�do, enfim, pelo Esp�rito Santo", diz o frei dominicano S�rgio Lobo de Moura. Para esses iluminados, paradoxalmente, tudo era permitido. Os flagelantes tinham vis�es, �xtases e tamb�m eram dados a estupros, bacanais, roubos e assassinatos. Sua chegada �s aldeias camponesas provocava terror. Casas eram fechadas, mulheres e crian�as transportadas �s pressas para ref�gios distantes. Ca�ados como bestas-feras, os adeptos da heresia flagelante foram dados como extintos apenas no s�culo XVIII. Loucos, ignorantes e retr�grados hoje s�o palavras cada vez mais inadequadas para rotular os movimentos sob inspira��o do Esp�rito Santo. Mas h� pontos em comum entre momentos hist�ricos t�o d�spares. Um deles, e talvez o mais importante, � a cr�tica da hierarquia religiosa constitu�da. Outro � o forte apelo sobrenatural. "Os pentecostais s�o hoje a vanguarda da grande experi�ncia m�stica porque ousam viver, atrav�s da f�, a grande crise da modernidade por que passa hoje a humanidade", tenta explicar o soci�logo americano Harvey Cox, autor do livro O Fogo do C�u, a mais completa hist�ria do pentecostalismo. Exemplos? A racionalidade moderna n�o resolve o problema do jovem que recebe o diploma universit�rio e n�o sabe o que fazer com ele. Nem da m�e de fam�lia que descobre que o marido tem o v�rus da Aids correndo em suas veias. Quando o problema parece insol�vel, o melhor rem�dio continua sendo a f�. "Este s�culo come�ou sob o signo dos monumentais movimentos coletivos, como a Revolu��o Russa, o nazismo ou o facismo, para encerrar-se com um �nico movimento social importante: o pentecostalismo", diz a soci�loga da religi�o Maria das Dores Machado, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Apocalipse now � A grande virada pentecostal teve in�cio ainda em 1906, nos Estados Unidos, sob a lideran�a de William Joseph Seymour, um pastor negro sem educa��o teol�gica criticado por sua igreja por promover cultos no limite da histeria. Os primeiros seguidores de Seymour eram servi�ais pobres, zeladores, trabalhadores diaristas, todos negros, que tiveram a aud�cia de anunciar que um novo Pentecostes estava acontecendo e que eles pr�prios eram os arautos a anunciar esse novo tempo. O poder da prega��o de Seymour logo se espalhou. Brancos, mexicanos e asi�ticos passaram a freq�entar os cultos. O pequeno bangal� de madeira onde passaram a celebrar ficou pequeno e, cinco dias mais tarde, Seymour e seus seguidores alugaram um antigo est�bulo que ainda conservava o cheiro dos cavalos na Rua Azusa, 312, Zona Norte de Los Angeles. Um p�lpito foi improvisado sobre uma pilha de caixas de sapato vazias. O primeiro culto foi celebrado no dia 14 de abril. Quatro dias mais tarde, San Francisco, cidade vizinha de Los Angeles, foi sacudida por um forte terremoto que, junto com o inc�ndio que se seguiu, destruiu a cidade. Foi o desastre mais espetacular ocorrido nos Estados Unidos at� ent�o. A trag�dia evocou sentimentos apocal�pticos. "O terremoto de San Francisco soou como o trov�o de um julgamento que n�o tardaria a chegar", diz o soci�logo Harvey Cox. A voltagem emocional chegou a n�veis estratosf�ricos. Grace Hammore, uma negra analfabeta, contou na �poca que levitou tr�s vezes durante um �nico culto. Outro fiel descreveu com sensualidade o �xtase religioso que vivenciou naqueles dias de horror. "Meu corpo sorriu com uma alegria inexplic�vel depois que o Esp�rito Santo se apossou de mim." O movimento se espalhou por todo o pa�s. Pouco tempo depois, as multid�es n�o podiam ser contidas em gin�sios, est�dios de futebol. A f� eletr�nica encurtou dist�ncias, maximizou as plat�ias e potencializou a prega��o. A Igreja Cat�lica chegou bem depois dos protestantes nos cultos pentecostais, e s� quando conheceu um enfraquecimento sem precedentes, seus fi�is migrando para credos evang�licos. Padres como Marcelo Rossi e outros da Renova��o Carism�tica, o novo alento do catolicismo, v�m conseguindo trazer de volta o rebanho desgarrado. Conta a seu favor, al�m das missas eletrizantes � mas nisso cat�licos e evang�licos est�o muito parecidos �, o culto a Maria, virgem imaculada, tocada pelo Esp�rito Santo. N�o � pouca coisa, afinal Maria � um dos �cones mais populares do cristianismo. "O pentecostalismo � quente, com a participa��o intensa dos fi�is, mais emocional e emotivo. Os cultos s�o terap�uticos e abrem espa�o para a express�o da individualidade dos fi�is", sintetiza a professora Maria das Dores Machado. Num mundo que j� matou Karl Marx e John Lennon, em que Freud foi trocado por umas dr�geas do antidepressivo Prozac, o Esp�rito Santo nunca esteve t�o vivo. Am�m. Trazida dos A�ores para o Brasil, a tradi��o sebastianista portuguesa originou a tradicional Festa do Divino, em alus�o ao Esp�rito Santo. De novo, a �nfase nos poderes milagrosos da f�. Os fi�is preparavam p�es com formatos de partes do corpo humano beneficiadas por gra�as divinas Depois de se alastrar pelos Estados Unidos, o pentecostalismo chegou ao Brasil no in�cio do s�culo trazendo cultos de alta voltagem emocional. Cenas de exorcismo eletrizam grandes plat�ias, alimentam o fervor m�stico e amea�am a hist�rica hegemonia do catolicismo A deusa Cibele inspirou Montano, sacerdote m�stico convertido � f� cat�lica, a desafiar a hierarquia da Igreja que come�ava a se instalar no s�culo II. Montano achava que era o emiss�rio direto do Esp�rito Santo, a quem cabia refundar Jerusal�m |
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