Letra por Letra Veja 05/07/2000 Vaticano divulga original da profecia de F�tima, mantida secreta por meio s�culo
Irm� L�cia e o papa: convite � ora��o
A profecia que a Santa S� guardou a sete chaves durante meio s�culo finalmente veio � luz, na �ntegra, na semana passada. O texto original de trinta linhas do terceiro segredo de F�tima foi distribu�do em seis l�nguas, acompanhado de uma c�pia xerox do original escrito pela irm� carmelita L�cia dos Santos, em 1944 (veja a �ntegra). "Quem estava � espera de impressionantes revela��es apocal�pticas sobre o fim do mundo ou sobre o futuro desenrolar da Hist�ria deve ficar desiludido", disse o cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congrega��o para a Doutrina da F�, que revelou o texto numa transmiss�o ao vivo pela televis�o italiana. Em maio, o Vaticano deu a pr�pria interpreta��o: tratava-se apenas da premoni��o do atentado que o papa Jo�o Paulo II sofrera dezenove anos atr�s. A explica��o, evidentemente, n�o satisfez a expectativa que durante d�cadas cercou o terceiro segredo, revelado numa apari��o da Virgem Maria a tr�s pastores portugueses (a irm� L�cia, hoje com 93 anos, � a �nica sobrevivente), em 1917. Por isso, a Santa S� decidiu divulgar o texto completo.
Durante d�cadas, livros, cultos apocal�pticos e, mais recentemente, sites na internet especularam sobre a profecia. Muitos temiam que fosse o fim do mundo. Os dois primeiros segredos, igualmente escritos em linguagem cifrada e recheados de met�foras, foram revelados nos anos 40. O primeiro era uma vis�o do inferno e da salva��o por interm�dio da devo��o ao Cora��o de Maria. O inferno da vis�o foi associado � II Guerra. O segundo fazia refer�ncia � convers�o da R�ssia. Muitos fi�is interpretam o fim da Uni�o Sovi�tica, em 1991, como o cumprimento dessa profecia. O relato em linguagem simb�lica do terceiro segredo � igualmente de dif�cil interpreta��o. O cardeal Ratzinger diz que as imagens n�o devem ser encaradas de forma literal. "O que permanece � a exorta��o � ora��o como caminho para a salva��o das almas", comenta.
A Santa S� enquadra os acontecimentos de F�tima no campo das "revela��es privadas", que n�o se tornam ensinamentos da Igreja. "Revela��es como as de F�tima nos ajudam a compreender os sinais dos tempos e a encontrar na f� a resposta a esses conhecimentos", explicou Ratzinger. Nesse sentido, as vis�es dos tr�s pastorezinhos s�o diferentes da revela��o divina, que se encerrou com o Novo Testamento e implica um ato de f�. O cat�lico n�o � obrigado a acreditar na mensagem de F�tima. "O cardeal n�o colocou a revela��o como uma quest�o de f�, que deve ser seguida pelos fi�is, o que diminui sua import�ncia", interpreta Eul�lio Figueira, professor de teologia da Pontif�cia Universidade Cat�lica de S�o Paulo. Ele v� os escritos de irm� L�cia como uma amostra do tormento vivido pela Europa no in�cio do s�culo XX e acredita que t�m de ser analisados dentro desse contexto. Essa pode ser uma das raz�es que levaram a Igreja a guardar o segredo por tanto tempo, at� um momento historicamente mais prop�cio para ser revelado.
O texto do terceiro segredo
Escrevo em acto de obedi�ncia a V�s, Deus meu, que me mandais por meio de Sua Exa. Revma. o Sr. Bispo de Leiria e da Vossa e minha Sant�ssima M�e.
Depois das duas partes que j� expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora, um pouco mais alto, um anjo com uma espada de fogo na m�o esquerda; ao centilar, despedia chamas que parecia que iam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da m�o direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro. O anjo, apontando com a m�o direita para a Terra, com voz forte, disse: "Penit�ncia, penit�ncia, penit�ncia!" E vimos numa luz imensa que � Deus: "Algo semelhante a como se v�em as pessoas num espelho quando lhe passam por diante", um bispo vestido de branco � "tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre". V�rios outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas subiram uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande cruz de troncos toscos como se fora de sobreiro com casca; o Santo Padre, antes de chegar a�, atravessou uma grande cidade meia em ru�nas, e meio tr�mulo, com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cad�veres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos p�s da grande cruz, foi morto por um grupo de soldados, que lhe dispararam v�rios tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns atr�s dos outros os bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas e v�rias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de v�rias classes e posi��es. Sob os dois bra�os da cruz estavam dois anjos, cada um com um regador de cristal na m�o, neles recolhiam o sangue dos m�rtires e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus.
Irm� L�cia, Tuy (Espanha), 3 de janeiro de 1944 |