Guerra �mpia Veja 10/02/1999 Discriminados por sua cren�a, crist�os s�o v�timas de atrocidades em tr�s pa�ses da �sia
Uma menina de 7 anos � estuprada por quatro vizinhos e quem termina na cadeia � o pai dela. O caso aconteceu numa regi�o pobre do norte do Paquist�o. A pequena Nagina voltava da escola quando quatro homens a cercaram, arrastando-a para uma estrebaria. Os gritos da menina chamaram a aten��o dos moradores da aldeia de Shekhupura, inclusive de seu pai, Ghulam Masih. Ele chegou a ver os agressores, filhos de um vizinho, em volta da menina deitada com as pernas cobertas de sangue. Os criminosos fugiram enquanto Ghulam levava a filha para um hospital, onde ela ficou semanas internada com graves ferimentos internos e t�o traumatizada que n�o conseguia falar. Horrorizadas, muitas testemunhas se dispuseram a denunciar os quatro irm�os. Eles passaram seis semanas na cadeia e foram libertados. Hoje, dois anos depois do brutal ataque a Nagina, seu pai est� preso, sujeito a pena de morte. Nesse per�odo, ele foi torturado, mantido em cativeiro sem direito a defesa e acusado de um assassinato cujas �nicas testemunhas s�o nada menos que os estupradores de Nagina. A l�gica que liberta os agressores e prende a v�tima � simples: Ghulam � crist�o e os estupradores, mu�ulmanos.
Por mais absurda que pare�a no mundo contempor�neo, a persegui��o religiosa existe e est� aumentando. Em contextos pol�ticos distintos, minorias cat�licas ou protestantes est�o sendo v�timas de agress�es variadas que se intensificaram nos �ltimos meses em tr�s pa�ses asi�ticos: �ndia, Indon�sia e Paquist�o. Em comum entre eles, a mis�ria, a superpopula��o e a ferocidade dos confrontos. Em Ambon, uma ilha da Indon�sia, o auge dos conflitos entre mu�ulmanos e crist�os h� duas semanas deixou uma paisagem de pra�a de guerra e 65 mortos, a maioria v�tima de linchamentos � e a matan�a est� longe de ter chegado ao fim. No final do m�s passado, na �ndia, um mission�rio australiano e dois filhos, de 6 e 10 anos, morreram quando uma gangue de fundamentalistas hindus ateou fogo ao carro onde dormiam. O mission�rio protestante prestava assist�ncia aos leprosos indianos desde 1965. Em dez meses, mais de 100 crist�os foram espancados e dezenas de casas e igrejas foram queimadas por fundamentalistas hindu�stas, o dobro do total de casos registrados nos �ltimos cinq�enta anos.
Viol�ncia legalizada � Fanatismo n�o � novidade no Paquist�o. Ao contr�rio, a Indon�sia, embora abrigue a maior popula��o mu�ulmana do mundo, nunca havia sido marcada por sectarismo religioso flagrante. A crise econ�mica transformou o pa�s num caldeir�o de �dios variados. Diante da escalada da intoler�ncia dos �ltimos meses, h� quem suspeite at� que os conflitos venham sendo incitados por agentes do ditador Suharto, deposto em maio do ano passado. Um padre de Jacarta tem uma explica��o mais plaus�vel: "Nesses tempos de desespero e exaust�o, a sociedade est� perdendo a capacidade de lidar com o pluralismo". Na �ndia, o extremismo religioso do tipo que custou a vida ao pai da independ�ncia, Mahatma Gandhi, ganhou impulso renovado com a elei��o do governo liderado pelo Bharatiya Janata, um partido que prega a preponder�ncia do hindu�smo h� onze meses.
Mais pr�speros, os crist�os indon�sios t�m condi��es melhores para se defender e revidar os ataques. Miser�veis ao extremo, os paquistaneses s�o os mais desprotegidos. L�, a viol�ncia anticrist� se escora na lei. Em julho de 1992, os tribunais do Paquist�o perderam independ�ncia e credibilidade internacional com a aprova��o de uma lei contra blasf�mia que assim se enuncia: "Qualquer pessoa que, por meio de palavras, ditas ou escritas, ou por representa��o vis�vel, ou por qualquer acusa��o, alus�o ou insinua��o, direta ou indiretamente, insulte o Santo Profeta Maom� deve ser punida com a morte". Uma lei que prev� o cadafalso at� por causa de insinua��es se presta a todo tipo de arbitrariedade, desde vingan�as pessoais at� a rapina dos bens dos acusados por vizinhos cobi�osos.
Filhas roubadas � Uma discuss�o sobre a posse de alguns pombos, por exemplo, acabou com a condena��o a morte de tr�s crist�os em 1994. A acusa��o, de que tinham escrito ofensas ao profeta nas paredes de uma mesquita, ruiu quando o juiz constatou tratar-se de analfabetos. Soltos, os tr�s foram metralhados por fan�ticos mu�ulmanos. "As coisas come�aram com leis de prote��o ao nome do profeta e terminaram num massacre institucionalizado", diz a escritora paquistanesa Shazia Alam. Seu pai, o pastor presbiteriano Noor Alam, foi assassinado dentro de casa por tr�s mu�ulmanos. A igreja que havia terminado de construir virou p� em um inc�ndio criminoso.
Numa demonstra��o de que a persegui��o aos crist�os � semi-oficial no Paquist�o, a pol�cia trabalhou em conjunto com uma fam�lia mu�ulmana para tirar tr�s filhas adolescentes de um casal de crist�os, Sima e Khushi Masih (o sobrenome � comum entre os crist�os paquistaneses). Atra�das por presentes, as garotas haviam-se convertido ao islamismo e foram entregues � fam�lia vizinha contra a vontade delas. Os pais levaram o caso � Justi�a, e as meninas acabaram num reformat�rio, pois o juiz n�o aceitou que mu�ulmanas fossem criadas por crist�os. Sima e Khushi, que t�m outros tr�s filhos, resignaram-se. As filhas convertidas e roubadas pelo menos est�o mais protegidas do que o resto da fam�lia. |