Esta D� Ibope Veja 04/10/2000 Tolerante na �rea dos costumes, igreja evang�lica atrai ricos e famosos
Culto dominical em Bras�lia da Sara Nossa Terra: padr�es de comportamento muito mais liberais e met�foras com imagens cient�ficas
O que pode reunir figuras t�o distintas quanto a ex-modelo Monique Evans, o jogador de futebol Marcelinho Carioca, o deputado federal Paulo Oct�vio e a cantora Baby do Brasil? Resposta: um culto da Comunidade Evang�lica Sara Nossa Terra. Fundada em 1992, a igreja neopentecostal � o mais novo fen�meno no campo das religi�es brasileiras. Al�m de reunir uma penca de famosos (veja quadro), tem o maior crescimento proporcional entre as igrejas evang�licas do Brasil. Dobra seu rebanho a cada dois anos, desempenho que nem denomina��es mais conhecidas, como a Universal do Reino de Deus ou a Assembl�ia de Deus, conseguiram em t�o pouco tempo. Hoje, a Sara Nossa Terra possui quase 100.000 fi�is no pa�s, cerca de 300 templos em todos os Estados e j� fincou sua cruz em Portugal, Paraguai, Bol�via e at� nos Estados Unidos. "Ela vem conseguindo crescer exatamente no fil�o em que essas igrejas s�o mais fracas: a classe m�dia", diz Andr�a Damacena, soci�loga do Centro de Estat�stica Religiosa e Investiga��es Sociais (Ceris), do Rio de Janeiro.
Atualmente, 45% dos fi�is da Sara Nossa Terra s�o considerados de classe m�dia, n�mero dez vezes maior que nas outras neopentecostais. "Acreditamos que a melhor maneira de transformar o Brasil � evangelizando as classes privilegiadas. Atrav�s delas � que se dar� a verdadeira mudan�a", prega o bispo Robson Lemos Rodovalho, o fundador da igreja, que abandonou sua c�tedra de f�sica na universidade para entregar-se a Cristo. Da� por que um culto da Sara Nossa Terra � original se comparado ao de outras neopentecostais. Ali, n�o aparece s� gente com roupas recatadas, mulheres de saia comprida e cabelo longo. Tolerante, a igreja pode ter fi�is como a ex-modelo Monique Evans, que n�o precisou renunciar � minissaia e ao topless na praia, ou a cantora Gretchen, a rainha do bumbum, que continua aceitando convites para posar nua. Tamb�m n�o exige de homossexuais mudan�a de comportamento. Nos cultos, sintonizados com as agruras da vida moderna, os pastores falam de cuidados com o corpo e stress. "� uma combina��o sedutora. Eles conjugam tudo com a presen�a do Esp�rito Santo", diz a pesquisadora Regina Novaes, do Instituto Superior de Estudos da Religi�o (Iser), tamb�m do Rio.
El�trons e �tomos � Nos cultos da Sara Nossa Terra, � comum ver os fi�is chegando em carros importados e vestindo roupas da moda. Aos s�bados, os jovens fazem a celebra��o com m�sica tecno ou rock. Al�m da liberalidade, seu crescimento se explica pela robustez do cofre. Impulsionada pelo d�zimo de fi�is abastados, a igreja acaba de concluir a constru��o de sua embaixada mundial em Bras�lia: um templo para 5.000 pessoas, no valor de 4 milh�es de reais. J� possui um canal numa TV por assinatura, uma revista, um jornal e estuda a compra de uma r�dio e uma emissora de TV. Na Universal ou na Assembl�ia de Deus, os fi�is costumam contribuir com 10% de seu sal�rio, que, na esmagadora maioria, n�o passa de dois sal�rios m�nimos. Na Sara Nossa Terra, o d�zimo vale ouro. O deputado Paulo Oct�vio, do PFL, um dos empres�rios mais ricos de Bras�lia, d� 700 reais mensais para os cofres da igreja. Em mat�ria de d�zimo, um Paulo Oct�vio vale por 24 membros t�picos da Universal.
A expans�o da Sara Nossa Terra pode se justificar pelos fi�is famosos, que ajudam a populariz�-la, pela generosidade do d�zimo ou pela liberdade de costumes que permite a seus seguidores. Ainda assim, � um fen�meno intrigante no cen�rio da f�. At� agora, os estudiosos do assunto sempre atribu�ram o grosso do crescimento das denomina��es evang�licas � sua capacidade de receber as camadas mais pobres, marginalizadas. Os templos da Universal, por exemplo, est�o sempre abertos a mendigos, prostitutas, drogados e at� travestis e costumam crescer na periferia das grandes cidades. Dessa forma, acabam sendo um alento �s parcelas da popula��o exclu�das e abandonadas pelo Estado. Mas a Sara Nossa Terra faz o caminho inverso e, ainda assim, apresenta um desempenho not�vel em sua expans�o. "Isso sugere que a classe m�dia tamb�m tem uma demanda por esse tipo de espiritualidade. O que a Sara Nossa Terra fez foi adaptar seu discurso a esse p�blico", diz Regina Novaes, do Iser.
Faz sentido. A pr�pria origem da Sara Nossa Terra � distinta. Seu embri�o nasceu dentro da Universidade Federal de Goi�s. Um grupo de estudantes e professores se reunia todas as semanas para ler a B�blia e orar. A turma inicial n�o tinha mais de vinte adeptos. Depois de alguns anos, o l�der dessas reuni�es, o professor de f�sica Robson Rodovalho, resolveu fundar uma igreja. Largou a universidade, mudou-se para Bras�lia e batizou sua cria��o inspirado numa passagem b�blica em que Jesus Cristo teria dito que retornaria para "sarar a terra". A outra diferen�a � o corpo de pastores. Boa parte dos 900 pastores e bispos possui diploma de curso superior. S�o m�dicos, psic�logos, assistentes sociais. S�o comuns met�foras inesperadas sobre a f� baseadas em imagens cient�ficas. O pr�prio Rodovalho gosta de dizer que as pessoas est�o para Deus assim como os el�trons est�o para os �tomos. "Uns est�o mais pr�ximos, outros mais longe, mas todos giram a seu redor", prega ele. |