Uma Hist�ria sem Fim             Veja 15/04/1998
Revela��es sobre a ditadura mostram que � preciso abrir todos os arquivos

O regime dos generais no Brasil durou mais de duas d�cadas, de 1964 a 1985, acabou h� treze anos e ainda � um esqueleto no arm�rio do pa�s. At� hoje, n�o se sabe exatamente o que aconteceu naquele tempo que ficou conhecido como "os anos de chumbo". Ainda existem brasileiros desaparecidos, cujos corpos n�o se sabe onde est�o, se foram enterrados, queimados ou jogados no mar. Ainda existem mortes obscuras que n�o se sabe se ocorreram durante um combate armado ou numa sala de tortura. Ainda h� documentos esclarecedores que n�o foram publicados e que poderiam colocar ordem num passado inc�modo para o pa�s. Na semana passada, veio a p�blico uma leva de pap�is j� amarelados pelo tempo que, como sempre, jogaram um pouco mais de luz sobre fatos desse per�odo. Numa ponta apareceu uma parte do arquivo mantido pelo Minist�rio da Justi�a, no Rio de Janeiro. Na outra, revelou-se o conte�do do ba� de mem�rias do general Antonio Bandeira, que comandou o III Ex�rcito e foi um dos militares mais ativos durante a repress�o.

O arquivo do Minist�rio da Justi�a, divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo, confirma como agentes da ditadura, movidos pela paran�ia que se apossou dos militares naquele per�odo, perseguiam maniacamente cidad�os respeit�veis e acima de suspeitas. H� fichas que classificam como "comunistas" e "nocivos � ordem p�blica" duas personalidades pol�ticas opostas: dom H�lder C�mara, que falava pela "ala esquerda" da Igreja, e dom Lucas Moreira Neves, religioso conservador que hoje preside a CNBB, a entidade de c�pula dos bispos. Nesse arquivo tamb�m aparece uma biografia do presidente Fernando Henrique Cardoso, qualificado em 1975 como um "fiel s�dito de Moscou e Cuba". Pode parecer uma manifesta��o do car�ter ciclot�mico brasileiro que um perseguido de vinte anos atr�s hoje seja o presidente da Rep�blica, mas isso � relativamente comum em democracias mais jovens. Na �frica do Sul, com a derrubada do regime racista, o preso mais famoso do pa�s, Nelson Mandela, virou presidente. Na Pol�nia, o sindicalista Lech Walesa, perseguido pelo regime comunista, trilhou o mesmo percurso � da masmorra para a Presid�ncia do pa�s. No Brasil, j� se divulgaram dados que mostram como a repress�o perseguia um punhado de ministros do atual governo, como Jos� Serra, da Sa�de, e Sergio Motta, das Comunica��es, ambos militantes da A��o Popular, um grupo de esquerda da d�cada de 60.

Temor � Os documentos mais curiosos da semana passada s�o os do general Antonio Bandeira, divulgados pelo jornal O Globo. Bandeira, um paraibano de 82 anos que comandou as duas primeiras campanhas do Ex�rcito contra a guerrilha do PC do B no sul do Par�, na regi�o do Araguaia, manteve durante duas d�cadas um ba� em sua Fazenda Bonan�a, em Guarabira, interior da Para�ba. O ba�, agora transferido para o Recife, est� cheio de cartas, discursos, livros e fotografias. Seus pap�is n�o trazem novidades capazes de reescrever a hist�ria, mas desfazem uma parte das sombras que cercam esse per�odo da Hist�ria do Brasil. No ba� do general, h� uma cartilha do DOI-Codi que descreve a pris�o de alguns militantes de esquerda e confirma a vers�o de que Carlos Nicolau Danielli, do PC do B, e Joaquim C�mara Ferreira, conhecido como "Toledo", da A��o Libertadora Nacional, ALN, n�o morreram em combate, mas depois de presos � dado de que j� se suspeitava, tanto que suas fam�lias at� receberam indeniza��o do Estado. Ali se descobre que, antes da guerrilha no Araguaia, o Ex�rcito lan�ou a Opera��o Mesopot�mia, para combater focos de luta armada no Maranh�o e em Goi�s, de 1970 a 1971.

O ba� do general ajuda a entender um pouco melhor as tentativas do Ex�rcito para combater guerrilheiros no Araguaia. Mas, como o general participou apenas da primeira e da segunda campanha do Ex�rcito na regi�o do Araguaia, que foram ambas malsucedidas, o arquivo n�o tem muito a dizer. Foi s� na terceira campanha, que terminou em 1975, mas j� sob o comando do general Hugo de Abreu, que a guerrilha foi inteiramente derrotada. Os documentos de Bandeira ainda contam sobre o suic�dio de um militante do PC do B, em 1972, e revelam uma carta de Maur�cio Grabois, dirigente da guerrilha do Araguaia (veja quadro). "Resolvi divulgar os documentos para cumprir promessa feita a minha m�e, morta h� um ano. Ela queria desfazer a fama de torturador do meu pai", diz M�rcia, 55 anos, filha de Bandeira. Antes, pai e filha fizeram uma triagem e chegaram a queimar pap�is mais reveladores, de modo que n�o comprometessem outros militares. "Tem�amos revanchismo por parte de militantes e familiares", diz.

Em busca de arquivos � Pode-se acreditar em tudo o que dizem os documentos de Bandeira, mas, como foram selecionados, fica-se especulando sobre o que os documentos n�o contam. Em defesa de seu pai, M�rcia afirma que ele jamais participou de tortura e que isso era feito por oficiais de baixa patente. "Eles queriam mostrar servi�o", diz ela. O nome de Bandeira, no entanto, est� nos arquivos do Projeto Brasil: Nunca Mais. Ali, ele � acusado de chefiar sess�es de tortura em 1972, na �poca em que era comandante da II Brigada de Infantaria, em Bras�lia. Hoje, o general � um homem debilitado. Depois da morte da mulher, L�a, que o ajudava a preparar seus discursos, o militar tem passado por crises depressivas constantes. N�o fala mais sobre o passado e tem longos lapsos de mem�ria. "Nas horas de lucidez, meu pai s� repete que n�o se envergonha de nada que fez e que n�o tem nada a esconder." Mesmo assim, n�o mostrou toda a mem�ria de 53 anos de vida militar.

A dificuldade para desenterrar o passado est� a�. Nem o ba� do general nem os arquivos do Minist�rio da Justi�a, pelo menos na parte que j� veio a p�blico, explicam toda a hist�ria. At� hoje, os arquivos do antigo Dops, uma das centrais de informa��o da ditadura, foram abertos em apenas cinco Estados � S�o Paulo, Rio de Janeiro, Paran�, Pernambuco e Goi�s. Em todos, h� sinais de que documentos foram eliminados antes de vir a p�blico. Em Minas Gerais, o governo se recusa a abri-los. Alega que n�o existem, mas j� foi formada at� uma CPI na Assembl�ia Legislativa sobre o assunto. No m�s passado, a CPI recebeu anonimamente um envelope com c�pias de documentos do arquivo do Dops � sinal de que ele ainda existe. Em 1993, o ent�o ministro da Justi�a, Maur�cio Corr�a, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal, enviou uma lista de desaparecidos aos tr�s minist�rios militares. Queria informa��es sobre eles. Em resposta, recebeu tr�s relat�rios distintos, com dados vagos e contradit�rios. Em resumo, de nada ajudaram para esclarecer uma montanha de d�vidas, mas levantam uma quest�o: de onde vieram as informa��es?

"Casa da Morte" � De 1979, data da anistia, at� agora, todos os governos ouviram um pedido dos familiares dos desaparecidos: a abertura dos arquivos do Ex�rcito. Mas o Ex�rcito nega que existam e alega que, com o tempo, acabaram sendo incinerados. "At� agora, n�o houve honradez das For�as Armadas em partilhar com a Justi�a e a sociedade as informa��es sobre onde est�o os restos mortais dos desaparecidos", diz o reverendo Jaime Wright, irm�o de Paulo Wright, morto em 1973 e cujo corpo at� hoje n�o foi encontrado. Na semana passada, com a divulga��o dos documentos de Bandeira, o Ex�rcito colocou-se na defensiva. Informou que "os arquivos que existem j� foram abertos" e que nada tem a dizer sobre "divulga��o de documentos e arquivos organizados por iniciativas pessoais", como foi o caso de Bandeira. De outro lado, o general Oswaldo Gomes, que representa as For�as Armadas na Comiss�o de Desaparecidos, criada pelo Minist�rio da Justi�a com o objetivo de analisar pedidos de indeniza��o dos familiares, d� a entender que ainda h� muita coisa para ser revelada. O general s� faz uma ressalva. Acha que a abertura de arquivos tem de ser gradual "para n�o despertar atitudes revanchistas".

Enquanto n�o se tiver um amplo e detalhado painel do que aconteceu de 1964 a 1985, o pa�s estar� sujeito a viver ondas de descobertas de tempos a tempos. "Se tiv�ssemos acesso aos documentos revelados agora n�o ter�amos gasto fortunas procurando ind�cios de morte", afirma Suzana Lisboa, representante dos familiares na comiss�o do Minist�rio da Justi�a. Suzana, que conseguiu recuperar o corpo de seu marido, militante da ALN morto em 1972, planeja falar com o presidente Fernando Henrique mais uma vez para pedir pelo esclarecimento completo dos fatos. At� hoje, n�o se sabe, por exemplo, do paradeiro do corpo de Rubens Paiva, deputado cassado em 1964 e sumido desde 20 de janeiro de 1971. Em depoimentos, agentes da repress�o chegaram a informar que Paiva morreu na tristemente c�lebre "Casa da Morte", central de tortura localizada em Petr�polis, na serra do Rio de Janeiro. Tamb�m nunca se soube o destino de Maur�cio Grabois, o l�der da guerrilha do PC do B que morreu no Araguaia. O general Hugo de Abreu, falecido em 1979, chegou a dizer que Grabois foi enterrado na Serra das Andorinhas, no Araguaia, mas o corpo nunca foi achado.

Em 1995, quando a Comiss�o de Desaparecidos foi criada, o governo imaginou que, examinando caso a caso e indenizando as fam�lias dos que perderam seus parentes sob a tutela do Estado, o drama desse passado come�aria a ser superado. Mas n�o � isso o que est� acontecendo. A comiss�o j� examinou mais de 300 casos, na maior parte deles concluiu pela responsabilidade do Estado e j� desembolsou quase 25 milh�es de reais em indeniza��o. Ocorre que a maioria das fam�lias n�o est� satisfeita com o valor. Quer saber do destino de seus mortos. A humanidade n�o inventou o ritual f�nebre como um enfeite da dor, mas como s�mbolo do fim da vida. Quem n�o p�de enterrar seus mortos n�o passou por esse ritual de encerramento. � humano que desejem fazer o acerto de contas. � justo que esse acerto lhes seja concedido.
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