Um Her�i Brasileiro                              Veja 14/03/2001
Surge finalmente a biografia de Souza Dantas,o Oskar Schindler do Brasil


Souza Dantas: por piedade,
passou por cima das regras do
Estado Novo para salvar 800
pessoas do nazismo









No in�cio da d�cada de 40, desafiar as mais banais orienta��es do governo do Estado Novo era uma temeridade. Dependendo do caso, o destino inevit�vel era a pris�o. Foi um per�odo muito pior na Europa, onde o avan�o da ocupa��o nazista impunha o clima de terror. Pois foi esse o cen�rio para o cap�tulo mais intenso da vida do embaixador Lu�s Martins de Souza Dantas, que durante vinte anos chefiou a miss�o diplom�tica brasileira na Fran�a. Movido pelo que chamou mais tarde de "sentimento de piedade crist�", desafiou ao mesmo tempo as duas ditaduras. Concedeu vistos diplom�ticos para entrada no Brasil a centenas de pessoas que, do ponto de vista da pol�tica de imigra��o brasileira, eram consideradas indesej�veis. Eram judeus, comunistas e homossexuais que fugiam dos horrores do nazismo. Com seu gesto, Souza Dantas salvou cerca de 800 pessoas do exterm�nio. Tornou-se o equivalente brasileiro do industrial alem�o Oskar Schindler, que salvou do holocausto 1.200 pessoas, conforme retratou o cineasta Steven Spielberg em seu A Lista de Schindler. A mem�ria dos atos do diplomata ficou durante d�cadas esquecida. Somente agora se come�a a reservar seu verdadeiro lugar na Hist�ria. Em abril, inicia-se o processo de reconhecimento do embaixador como um "Justo entre as na��es". Ser� um dos poucos a receber tal honraria do Museu do Holocausto, em Israel, concedida somente aos que, sob o jugo nazista, se arriscaram pelo bem de outras pessoas.

Os feitos de Souza Dantas ainda n�o est�o nos livros escolares. Ficaram durante d�cadas restritos � mem�ria das fam�lias que ajudou a salvar. Parte importante dessa hist�ria ficou confinada aos documentos da burocracia do Estado, guardados em forma de memorandos nos arquivos hist�ricos do Itamaraty e do Arquivo Nacional. Juntando principalmente essas duas fontes de informa��o, o historiador carioca F�bio Koifman construiu a biografia mais n�tida do embaixador. O resultado � sua disserta��o de mestrado, que defende no pr�ximo m�s na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Os mais de 7.500 documentos que reuniu ajudaram a erigir a lista nominal dos 425 judeus salvos por Souza Dantas, que � a base do processo de reconhecimento pelo Museu do Holocausto. Dos depoimentos, colhidos ao longo de quatro anos de trabalho, surgem hist�rias impressionantes e at� agora in�ditas, como a do diretor teatral polon�s Zbigniew Ziembinski, considerado um dos maiores revolucion�rios das artes c�nicas no Brasil. Foi gra�as a Souza Dantas que ele aportou no Rio de Janeiro em 1941, depois de perambular pela Europa em busca de uma sa�da do inferno da guerra. "Tinha gente deitada no ch�o, na frente das embaixadas, pedindo, esperando, submetida aos maiores esc�rnios, �s maiores torturas", lembrou Ziembinski, anos mais tarde, num registro in�dito de suas mem�rias. "At� que, de repente, se ouve que existe um dom Quixote... o famoso embaixador Dantas."

Ziembinski, cuja origem judaica nunca foi provada, estava entre as centenas de pessoas que vieram para o Brasil nos vapores que faziam a travessia do Atl�ntico. A viagem n�o constitu�a o maior problema. O grande obst�culo para os refugiados n�o era conseguir um navio, embora fossem raros. Dif�ceis eram os vistos necess�rios � entrada nos pa�ses de destino. Como � comum at� hoje, o �xodo dos refugiados era um fantasma para muitas na��es. No Brasil, somava-se � lista de dificuldades a orienta��o contr�ria � imigra��o de judeus. Mesmo sabendo do risco de contrariar Vargas, Souza Dantas mandou abrir as portas de sua embaixada, em Vichy, para onde se transferiu a representa��o diplom�tica ap�s a ocupa��o da Fran�a pelos nazistas. Sua coragem, no entanto, lhe rendeu problemas, como um inqu�rito, aberto pelo departamento administrativo do servi�o p�blico a mando de Vargas. Foi acusado de dar vistos irregulares. Em telegrama ao Itamaraty, Souza Dantas afirmou em sua defesa que, depois de proibido, n�o deu "um visto sequer". Era mentira. Descumprindo ordens expressas, salvou ainda dezenas de pessoas. A prova viva do destemor do diplomata chegou para Koifman por meio do depoimento da polonesa Chana Strozemberg, cujo visto foi obtido em janeiro de 1941, um m�s ap�s a proibi��o, mas com data falsificada.

Para dar curso a sua a��o solid�ria, Souza Dantas usou os mais diversos expedientes. Concedeu vistos diplom�ticos a portadores de passaporte comum, para tornar mais garantida a aceita��o. Alguns nem sequer tinham o documento. Escrevia normalmente em franc�s nos passaportes para facilitar a leitura no porto de embarque. A reprodu��o abaixo mostra um exemplo em que, al�m de usar idioma estranho � o franc�s � num papel destinado �s autoridades de imigra��o brasileiras, nem ao menos utilizou o carimbo de rotina para o preenchimento. Koifman acredita que esse foi um dos muitos casos de visto dado �s pressas. Em outros, ele oficiou aos colegas de outras embaixadas pedindo por brasileiros. E o mais precioso da mem�ria do embaixador � que, num tempo em que muitos diplomatas vendiam vistos e aceitavam j�ias como pagamento, ele nunca se corrompeu. O marido de Chana Strozemberg, por gratid�o, chegou a insistir com Souza Dantas para que aceitasse um presente. Como resposta ouviu a sugest�o para que o doasse � Cruz Vermelha Internacional. A lista de bens deixados pelo diplomata, recolhida em seu quarto no Grand Hotel de Paris, onde morava quando morreu, em 1954, registra como objeto mais valioso um cord�o de ouro com a medalha do bar�o do Rio Branco. Do trabalho cuidadoso de Koifman brota uma das mais dignificantes biografias brasileiras.
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