| Quem Foram os Amigos de Hitler? Veja 21/02/2001 Livro acusa a IBM de ajudar os nazistas e reacende a pol�mica sobre a ascens�o de Hitler Hitler (� esq.) ao lado do chef�o da IBM, Watson: simpatia e condecora��o A ascens�o e o triunfo dos nazistas na Alemanha � um dos momentos mais tenebrosos da Hist�ria recente da humanidade. E um dos menos compreendidos. Quando se v� o filme de tr�s para a frente, como � o mais comum ao se analisar um fato hist�rico, tudo faz mais sentido. Os nazistas eram monstruosos, colocaram fogo no estopim das latentes tens�es europ�ias na primeira metade do s�culo passado, desencadearam uma guerra mundial que levou � morte 60 milh�es de pessoas. Enquanto combatiam, montaram uma m�quina mort�fera paralela que assassinou 6 milh�es de judeus. Mas como, antes da guerra, os nazistas puderam firmar seu poder na Europa e montar a estrutura para o holocausto dos judeus sem serem incomodados pelas pot�ncias daquele per�odo? Eis um tema cujo interesse nunca diminui. Na semana passada, mais um cap�tulo dessa intermin�vel obra chegou ao p�blico pelas m�os do jornalista americano Edwin Black. O lan�amento mundial de seu livro IBM e o Holocausto acirrou as discuss�es em torno do holocausto anti-semita perpetrado pelos alem�es. Segundo o autor, gra�as � tecnologia da Dehomag, a subsidi�ria da IBM na Alemanha, os nazistas puderam mais facilmente localizar, identificar e assassinar os judeus. "Quem acreditar que de algum modo o holocausto n�o teria ocorrido sem a IBM est� redondamente enganado", escreve Black. "Mas h� raz�es para examinar os fant�sticos n�meros atingidos por Hitler na matan�a de tantos milh�es de seres humanos com tanta rapidez e analisar o papel crucial da automa��o e da tecnologia no genoc�dio." Segundo ra que a m�quina de morte engendrada por Hitler funcionasse, era preciso primeiro catalogar suas v�timas, tarefa nada f�cil. Afinal, para come�ar, havia enorme quantidade de judeus e era preciso primeiro identific�-los e registr�-los em listas. A� teria entrado a IBM. A poderosa corpora��o n�o dispunha ainda dos PCs que ajudaram a promover sua expans�o, mas dominava uma tecnologia adequada para a tarefa: as m�quinas Holleriths de cart�es perfurados. Black tenta provar que os equipamentos desenvolvidos para uso no censo americano foram instrumentais na tarefa de dizimar o povo judeu empreendida pelos nazistas. Precursora dos computadores modernos, a tecnologia consistia na perfura��o de cart�es em pontos espec�ficos que serviam para a identifica��o das caracter�sticas de um determinado indiv�duo. Com colunas e linhas numeradas, havia centenas de combina��es poss�veis. As colunas relacionavam diferentes categorias e as linhas tratavam de particularizar o indiv�duo. As colunas 3 e 4, por exemplo, enumeravam dezesseis categorias de cidad�os. O furo na linha 3 identificava o homossexual. A linha 12 indicava um cigano e a linha 8 identificava os judeus. Quando se passou da persegui��o ao exterm�nio, as m�quinas da IBM continuaram fazendo seu trabalho. Algumas delas, segundo o autor, instaladas em campos de concentra��o. Mesmo durante a guerra, ocasi�o em que empresas americanas ficaram proibidas de negociar com a Alemanha, a IBM usou suas subsidi�rias europ�ias, principalmente a su��a e a alem� Dehomag, para continuar faturando alto com as demandas nazistas, sustenta Edwin Black. O fundador da IBM, Thomas J. Watson, acabou sendo condecorado por Hitler em 1937 pelos servi�os prestados. Em 1940, pressionado, Watson, que n�o escondia sua simpatia pelo l�der nazista, devolveu a comenda. Isso � o que descreve Edwin Black. Os que examinaram o livro com experi�ncia no tema acham que sua descri��o for�a demais nas cores e nos fatos. "� rid�culo imaginar que o holocausto ocorreu gra�as � IBM. A maioria dos planos e sua execu��o foram desenhados a m�o mesmo, com l�pis e papel", rebate Efraim Zuroff, diretor do Simon Wiesenthal Center, de Israel, um dos maiores centros de estudo do holocausto no mundo. "N�o h� novidade nessas revela��es. Acho que est�o fazendo uma tempestade em copo d'�gua para vender livro", diz Zuroff. Um dos mais controversos estudiosos do assunto, o historiador americano Norman Finkelstein, lembrou imediatamente do argumento de seu livro The Holocaust Industry (A Ind�stria do Holocausto), lan�ado no ano passado, no qual condena as tentativas de responsabiliza��o de empresas e governos pelo genoc�dio com o prop�sito de auferir vantagens. Ele se recusou a comentar as acusa��es � IBM, por n�o ter lido o livro de Black, mas disse que o lan�amento da semana passada pode estar inclu�do na categoria ca�a-n�quel. Especialista em temas relacionados ao holocausto, a ge�grafa Solange Terezinha Guimar�es, da Universidade Estadual Paulista, lembra que n�o foram apenas a IBM e suas subsidi�rias que colaboraram com o regime de Adolf Hitler. "Se vamos falar de responsabilidades, temos de citar outras empresas, como a IG-Farben, que deu origem � Basf e foi a principal fornecedora do g�s usado nas c�maras dos campos de concentra��o", diz. A IG-Farben era o principal conglomerado industrial da Alemanha nazista e, com o fim do conflito, teve v�rios de seus executivos condenados por crimes de guerra pelo Tribunal de Nuremberg, que julgou as atrocidades cometidas no per�odo. A empresa se dividiu em companhias menores, hoje t�o famosas quanto a IBM, como � o caso de Basf, Hoescht e Bayer. A farta documenta��o que o sustenta n�o livra o trabalho de Edwin Black de um equ�voco fatal: a falta de perspectiva hist�rica. Black avalia principalmente acontecimentos ocorridos entre 1933 e 1939, �poca da ascens�o do nazismo na Europa, com a vis�o atual do fen�meno. Diferentemente da percep��o que se tem hoje do nazismo, uma ideologia contr�ria � pr�pria humanidade, o conceito que se tinha na �poca n�o era t�o n�tido nem t�o clara a informa��o sobre seus atos. Hitler era chefe de um governo leg�timo e democraticamente eleito, que estava promovendo a recupera��o econ�mica da Alemanha e suscitava simpatias mesmo nos Estados Unidos e na Europa democr�tica. As atrocidades do nazismo contra os judeus, que j� estavam ocorrendo, n�o eram amplamente conhecidas e, de certa forma, batiam com o largamente disseminado anti-semitismo que grassava em toda a Europa, da R�ssia at� a Fran�a. Assim, muita gente acima de qualquer suspeita acabou aderindo ao fasc�nio do f�hrer alem�o. Henry Ford, fundador da maior fabricante de carros dos Estados Unidos, nunca escondeu sua admira��o por Hitler. A simpatia era correspondida e Hitler cita o nome do empres�rio americano em Mein Kampf, livro autobiogr�fico do l�der nazista. A exemplo de Watson, Ford tamb�m foi condecorado por Hitler em 1938. As boas rela��es com os nazistas renderam � Ford alem� uma encomenda de 100.000 caminh�es para o Ex�rcito alem�o em 1942. A imagem rom�ntica e combativa da resist�ncia francesa tamb�m n�o corresponde � realidade. At� meados de 1941, os nazistas foram muito bem tratados na Fran�a ocupada. Paris fez uma festa com a dinheirama dos soldados e oficiais nazistas. Pelas salas suntuosas do Hotel Ritz, onde morava, a famosa estilista Coco Chanel exibia seu amante, um oficial nazista atl�tico, jogador de t�nis, bom bebedor de champanhe. Depois da guerra, Chanel tentou minimizar o caso. "Na minha idade, quando um homem quer dormir com voc�, n�o d� para pedir seu passaporte", disse. Documentos revelados na Fran�a, em 1999, mostram seu envolvimento pol�tico com oficiais alem�es. Chanel teria inclusive sido incumbida pelo alto comando da Wehrmacht, o Ex�rcito nazista, de sondar o primeiro-ministro ingl�s, Winston Churchill, sobre a possibilidade de a Inglaterra assinar um acordo de paz em separado com a Alemanha. Colabora��o mais direta teve Ferdinand Porsche, um dos mais talentosos designers de autom�veis da �poca. A admira��o de Hitler por Ford levou-o � id�ia de produzir na Alemanha um carro popular. Encarregado da tarefa, Porsche inventou o Volkswagen ("carro do povo") em 1935. Com o in�cio da guerra, passou a desenhar tanques para o Ex�rcito alem�o. Com o lusco-fusco ideol�gico que caracterizou a �poca, fica dif�cil tra�ar a fronteira entre o colaboracionismo expl�cito com o regime nazista e a presta��o de servi�o a um cliente. Essa confus�o atingiu seu grau mais dram�tico na Fran�a ocupada pelos nazistas em 1940. Ao dominar o pa�s, os alem�es instalaram um governo na cidade de Vichy, de onde o pa�s seria governado pelos pr�prios franceses mas a servi�o do f�hrer. Coube ao marechal Henri-Philippe P�tain o servi�o sujo. Mas ele n�o estava sozinho. A Fran�a de Vichy s� sobreviveu gra�as ao anti-semitismo latente entre os franceses, que aumentou ainda mais ap�s a ocupa��o. A febre do colaboracionismo acabou levando Louis Renault a colocar suas f�bricas de autom�vel a servi�o do advers�rio. Ao contr�rio de Ford e Porsche, Renault foi preso em 1944. Acusado de trai��o, morreu na cadeia no mesmo ano. O ataque alem�o foi avassalador, a derrota francesa humilhante e qualquer rea��o � ocupa��o parecia rid�cula. O pr�prio general Charles de Gaulle desaconselhava enfrentamentos, o que permitiu aos alem�es se acomodarem confortavelmente atr�s de um governo subserviente em Vichy. O pacto de n�o-agress�o entre a Alemanha de Hitler e a Uni�o Sovi�tica de Stalin garantia a vida boa aos alem�es, livrando-os de uma resist�ncia armada dos comunistas. Intimamente ligada ao Partido Comunista franc�s, a resist�ncia francesa s� passou a ser efetiva depois que Hitler, em 1941, invadiu a Uni�o Sovi�tica, como assinala o historiador franc�s Marc Ferro, em sua Hist�ria da Segunda Guerra Mundial, outro livro que procura ver os epis�dios dentro de uma �tica do seu tempo. A ordem de reagir ao dom�nio estrangeiro partia assim muito mais de Moscou que de Londres, onde De Gaulle passava seus dias de exilado com muito mais medo dos comunistas que dos pr�prios nazistas. A d�vida sobre qual era o verdadeiro inimigo, se o nazismo ou o comunismo, persistiu mesmo depois que as tropas de Hitler invadiram a R�ssia em 1941 e lan�aram os sovi�ticos nos bra�os dos aliados. Mas era muito mais forte dois anos antes, quando Hitler e Stalin assinaram um tratado de n�o agress�o enquanto trocavam amabilidades. O Projeto Avalon, da Universidade de Yale dos Estados Unidos, levantou uma vasta documenta��o, dispon�vel em seu site na internet desde 1998, que comprova as rela��es incestuosas entre o regime de Hitler e o de Stalin. H� documentos com for�a de martelada, como um telegrama enviado pelo chanceler sovi�tico Molotov a seu colega alem�o Ribbentrop, logo depois da invas�o da Pol�nia pelos alem�es, que detonou a II Guerra Mundial. Diz a mensagem de Molotov: "Recebi sua comunica��o a respeito da entrada das tropas alem�s em Vars�via. Por favor, aceite minhas congratula��es e meus cumprimentos ao Governo do Reich Alem�o". Com os aliados nazistas atacando por um lado, os russos aproveitaram e tomaram a outra metade da Pol�nia. Al�m da cumplicidade de Stalin, Hitler contava com a coniv�ncia ou a indiferen�a das pot�ncias ocidentais. Hitler foi recebido como her�i nacional em Viena depois da incorpora��o da �ustria, em 1938, e ningu�m moveu uma palha quando a Alemanha anexou a Checoslov�quia no ano seguinte. Foi somente no final de 1942 que o mundo, atordoado, come�ou a tomar conhecimento da pol�tica de exterm�nio do governo alem�o, mas at� o fim da guerra n�o se tinha plena consci�ncia das dimens�es da trag�dia. O livro de Black, se erra em focar no papel de uma �nica empresa, a IBM, tem o m�rito de lembrar que sem a ajuda de comunistas e capitalistas o veneno de Hitler talvez pudesse ter sido contido antes de espalhar destrui��o pelo mundo. |
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