O Nazista que Fingiu ser Judeu Veja 10/01/2001 A vida do oficial da SS que passou quarenta anos como ser fosse uma de suas v�timas
A saga de Hans-Georg Wagner pouco difere da de tantos judeus-alem�es que sobreviveram �s atrocidades nazistas na II Guerra. Ap�s a derrocada do Reich e a divis�o da Alemanha, esse engenheiro nascido em Dresden estabeleceu-se em territ�rio da Alemanha Oriental. Em 1957, fugiu para a Alemanha Ocidental e mudou-se no final dos anos 60 para Israel. L�, casou-se com uma judia e foram tentar a vida na Venezuela. Morreu em 1988, aos 70 anos, como membro influente da comunidade judaica de Caracas. A hist�ria s� n�o � banal porque Hans-Georg Wagner se chamava na verdade G�nter Reinemer, n�o era judeu e sim um oficial das SS, a tropa de choque do Partido Nazista. Amea�ado de ser levado a julgamento por sua atua��o no campo de exterm�nio de Treblinka, na Pol�nia, no qual morreram 800.000 judeus, Reinemer disfar�ou-se de judeu para escapar � Justi�a.
A impressionante hist�ria desse criminoso de guerra tornou-se p�blica na semana passada, quando sua confiss�o, gravada em v�deo, foi exibida em um document�rio da TV alem�. No fim da guerra, conta Reinemer, ele foi recrutado pela CIA, o servi�o secreto dos Estados Unidos, num campo de prisioneiros na Fran�a. A id�ia de disfar��-lo de judeu foi dos agentes americanos, que providenciaram documentos falsos e at� mesmo a circuncis�o. Ele primeiro ajudou a identificar nazistas foragidos. Depois foi enviado como espi�o � Alemanha Oriental. Por fim, viveu quarenta anos na pele do judeu Hans-Georg Wagner.
Sua verdadeira identidade s� foi descoberta por acaso, pouco antes de sua morte. Em 1988, ele foi contratado como consultor pela Venergia, uma ind�stria venezuelana de baterias para submarinos. Suspeitando que Wagner estava vendendo segredos da empresa, os donos da Venergia (ali�s, judeus) chamaram um especialista alem�o em seguran�a industrial, Klaus- Dieter Matschke. Ele vasculhou a vida de Wagner sem nada encontrar. Numa manh�, irritado, convocou o engenheiro e, assim que ele entrou na sala, gritou, em voz de comando: "Nome, patente e local da �ltima miss�o militar". Acreditando que seu passado finalmente havia sido desvendado, Wagner se entregou: "Reinemer, Divis�o de Morte da SS, Treblinka".
Desmascarado, Reinemer, que abandonou a mulher e dois filhos ao se transformar no judeu Wagner, contou sem emo��o sua hist�ria, incluindo as atrocidades em Treblinka. Em agosto de 1943, os prisioneiros selecionados para o trabalho escravo � e que portanto viveriam um pouco mais � revoltaram-se ao saber que suas mulheres e filhos estavam sendo mortos nas c�maras de g�s. Quando tomou conhecimento do motim, o comandante do campo foi claro: "Restabele�am a ordem, sem se importarem com as conseq��ncias", disse a seus soldados. Depois de controlada a rebeli�o, 630 sobreviventes foram levados para um bosque pr�ximo e fuzilados. Reinemer ajudou a selecionar e comandou a execu��o de 110 deles. Ele chegou a ser preso e torturado pela pol�cia venezuelana, mas morreu na cama, de ataque card�aco. Sua vi�va, uma judia de origem polonesa, n�o o perdoa por t�-la enganado. "Se soubesse de seu passado, talvez eu mesma o tivesse matado", ela diz no document�rio. E acrescenta: "Talvez". |