Menina sem Inf�ncia                           Veja 21/10/1998
Uma biografia de Anne Frank revela detalhes de sua personalidade e descreve seus �ltimos dias

Durante cinq�enta anos, a menina judia Anne Frank foi aquela voz liter�ria por tr�s de uma das obras de maior impacto do s�culo XX. Seu di�rio, escrito no per�odo em que esteve escondida numa casa de Amsterd�, na Holanda, durante a II Guerra Mundial, tornou-se um s�mbolo da persegui��o nazista aos judeus, emocionando milh�es de pessoas. A partir de agora, com sua primeira grande biografia, rec�m-lan�ada nos Estados Unidos e na Europa, Anne Frank passa a ser tamb�m uma pessoa de carne e osso. Escrito pela jornalista austr�aca Melissa M�ller, a partir de dois anos de pesquisas e entrevistas, o livro mostra quem era no cotidiano a crian�a de intelig�ncia e talento precoces. Dele brota um perfil de Anne muito mais rico do que aquele que transparece no di�rio. A m�rtir do povo judeu d� lugar a uma adolescente como tantas outras, com sentimentos contradit�rios, de personalidade forte e rebelde. O livro tamb�m mapeia com detalhes a seq��ncia de eventos que levaram Anne a morrer no campo de concentra��o de Bergen-Belsen, de inani��o e tifo, pouco antes de completar 16 anos de idade. Al�m disso, traz uma surpresa. Revela o conte�do de tr�s p�ginas do di�rio de Anne que at� hoje permanecia in�dito (veja trechos ao longo da p�gina).

Esses peda�os do di�rio nunca vieram a p�blico por iniciativa de Otto Frank, pai de Anne, �nico membro da fam�lia a sobreviver ao holocausto e respons�vel pela publica��o dos escritos da filha ap�s a guerra. Ele confiou os originais a um amigo, Cor Suijk, com a recomenda��o de que s� fossem divulgados depois de sua morte, ocorrida em 1980. Suijk foi uma das fontes utilizadas por Melissa M�ller para reconstituir a vida da fam�lia Frank. Ao final de v�rias entrevistas, ele decidiu revelar � autora as p�ginas que guardava. Apesar disso, Melissa foi impedida de transcrever as p�ginas pela Funda��o Anne Frank, que det�m os direitos sobre o di�rio e ir� inclu�-las nas pr�ximas edi��es. Nas tr�s p�ginas, Anne se ocupa de dois temas. Primeiro, manifesta o desejo de que ningu�m leia seu di�rio, que tencionava publicar em forma de livro. Depois, faz uma avalia��o negativa do casamento de seus pais. Para ela, Otto Frank, embora fosse um marido e pai exemplar, nunca amou a mulher, Edith. Segundo as fontes de Melissa M�ller, Anne tinha raz�o.

Amor s� de fachada
"O casamento de seus pais, Edith e Otto, segundo Anne, era feliz na apar�ncia, mas ele n�o a amava. Beijava-a como �s crian�as. A uni�o dos dois era apenas uma quest�o de conveni�ncia. Sua m�e sabia muito bem que jamais ocuparia o primeiro posto no cora��o do marido. Ela se resignou a essa realidade sem reclamar, e se por acaso sentia ci�me jamais o demonstrou. Compreensivelmente, Anne escreve, essa situa��o dolorosa enrijeceu o cora��o de Edith, tornando-a inacess�vel e defensiva. Tal postura, diz Anne � sempre pronta a enxergar as coisas sob a perspectiva do pai �, certamente n�o tornava a esposa mais atraente aos olhos de Otto."

Essas n�o foram as �nicas p�ginas do di�rio suprimidas por Otto Frank. O Di�rio de Anne Frank j� conheceu quatro vers�es diferentes. A pr�pria Anne produziu duas delas. Em 1944, reescreveu o que havia colocado no papel dois anos antes. Para a primeira edi��o do livro, em 1947, Otto Frank fez uma compila��o dos dois manuscritos redigidos por Anne. Aproveitou para deixar de fora as p�ginas que continham duras cr�ticas � m�e e as reflex�es francas de Anne acerca da pr�pria sexualidade. Depois da morte de Otto, a Funda��o Anne Frank, herdeira legal dos manuscritos, lan�ou uma edi��o ampliada do di�rio. Continha 30% mais de material, incluindo muito do que fora suprimido na primeira edi��o. A biografia de Melissa M�ller e as p�ginas rec�m-reveladas fecham o ciclo. A partir de agora, pode-se ter um retrato de corpo inteiro de Anne Frank.

Otto, Edith, Anne e Margot, a irm� tr�s anos mais velha, eram judeus alem�es de Frankfurt. A fam�lia de Otto tinha um banco que praticamente foi � bancarrota com a quebra da Bolsa de Nova York, em outubro de 1929, quatro meses ap�s o nascimento de Anne. Em 1933, quando a escalada anti-semita na Alemanha j� atingia n�veis sufocantes, Otto Frank resolveu mudar-se com a fam�lia para a Holanda. L�, em vez de lidar com investimentos e seguros, passou a trabalhar como representante de uma ind�stria alem� de gelatina. Anne cresceu em Amsterd� e era uma crian�a curiosa, do tipo que faz uma pergunta atr�s da outra e n�o aceita evasivas como resposta. Na escola, tornou-se l�der de sua turma e, por isso, freq�entemente brigava com as colegas. Uma delas, Nanette Blitz Konig, que hoje mora em S�o Paulo, tem lembran�as vivas da Anne Frank dessa �poca e de quando foi prisioneira no campo de concentra��o (veja quadro). Muito cedo Anne come�ou a escrever hist�rias, sempre ilustradas com desenhos de sua colega Kitty � a mesma a quem ela endere�aria tantas p�ginas do di�rio, em forma de carta. Embora no di�rio ela demonstre f� religiosa, na vida familiar resistia �s li��es sobre o assunto.

A censura paterna
"Entre maio e julho de 1944, Anne escreveu em folhas avulsas que tomaria cuidado para ningu�m colocar as m�os em seu di�rio. Essa seria a �ltima de v�rias vers�es da introdu��o a seus relatos. Ela achava que poderia mostrar parte dos textos � fam�lia, mas o di�rio definitivamente n�o era assunto deles. Estaria Anne querendo fazer suspense para os futuros leitores? Ou parte de suas conversas imagin�rias com Kitty lhe parecia muito �ntima para ser divulgada? H� aqui muito material para especula��o, algo que Otto Frank evitou ao encaminhar o di�rio para publica��o, em 1947. Ele deliberadamente omitiu a exist�ncia das folhas avulsas."

Depois da ocupa��o da Holanda pelas tropas de Hitler, em 1940, o cotidiano da fam�lia Frank virou um inferno. Aos 11 anos, Anne, assim como os demais judeus de Amsterd�, era proibida de freq�entar locais p�blicos de divers�o, como teatros e cinemas. Tamb�m n�o podia praticar esportes � nadar, jogar t�nis ou pescar. Sua rea��o foi mergulhar nos livros, o que certamente contribuiu para polir seu talento para as letras. A primeira grande virada de sua vida aconteceu quando sua irm� Margot foi convocada a se apresentar para a "for�a de trabalho", um eufemismo para dizer que seria levada a um campo de concentra��o. Na manh� seguinte, os Frank se mudaram para o esconderijo que ocupariam por dois anos, em companhia de uma outra fam�lia. L�, Anne escreveria seu di�rio.

Dias de horror no campo de concentra��o
"Quando Anne e sua irm� Margot chegaram ao campo de concentra��o de Bergen-Belsen, fracas, tremendo de frio e, pela primeira vez, sem a prote��o de seus pais, tiveram de caminhar 6 quil�metros at� o local onde foram instaladas. O caos reinava no campo. N�o havia espa�o para tantos prisioneiros. Para diminuir a confus�o, os nazistas armaram tendas. Anne e sua irm� foram para uma delas, mas n�o lhes deram comida. V�rias centenas de mulheres se amontoavam sob a lona, na lama. N�o havia banheiros, pias, camas ou luz. Quatro dias depois a situa��o piorou. Uma tempestade destruiu as tendas. Anne e Margot tinham de vagar pelo campo, sob a chuva gelada, procurando algum tipo de alimento."

O esconderijo era um labirinto de cub�culos nos fundos de um armaz�m que pertencia a amigos de Otto. Durante o dia, seus oito ocupantes n�o podiam fazer nenhum ru�do, nem mesmo puxar a descarga do banheiro, para n�o ser ouvidos pelos empregados do armaz�m. S� � noite tinham mais liberdade para circular. Todo esse per�odo foi bem documentado por Anne no di�rio, embora o tom otimista que ela usa com freq��ncia n�o reflita o pesadelo vivido pelas fam�lias. O di�rio de Anne encerra-se tr�s dias antes de a pol�cia nazista invadir o esconderijo, prender seus ocupantes e mand�-los para o campo de concentra��o. Os policiais vasculharam o local, levaram o que havia de valor � j�ias e objetos das fam�lias � e deixaram o que n�o queriam espalhado pelo ch�o. Foi em meio a esses refugos que a secret�ria do armaz�m, Miep Gies, recolheu as p�ginas do di�rio de Anne Frank, entregues a Otto depois da guerra. Os policiais foram alertados sobre o esconderijo por uma voz de mulher ao telefone, mas at� hoje n�o se sabe quem fez a den�ncia. S�o esses epis�dios, contados em detalhes, que fazem da biografia escrita por Melissa M�ller leitura obrigat�ria para quem se emocionou com o di�rio de Anne Frank.

"Anne gostava de mandar"
Nanette hoje e
na adolesc�ncia,
antes de ser presa:
"Em Bergen-Belsen,
chegava a ficar
36 horas de p�.
Sa� com 32 quilos"




A holandesa Nanette Blitz Konig lembra-se muito bem da festinha de anivers�rio de 13 anos de Anne Frank, quando ela ganhou do pai um caderno vermelho e verde, com fecho de metal. Em poucos dias, o presente iria transformar-se em seu di�rio. Nanette foi colega de Anne numa escola de Amsterd� destinada apenas a alunos judeus e freq�entava sua casa. Mais tarde, j� prisioneiras dos nazistas, as duas encontraram-se no campo de concentra��o de Bergen-Belsen, no qual Anne morreu. Nanette conseguiu sobreviver, foi libertada pelas tropas inglesas em abril de 1945 e fixou-se na Inglaterra. L�, conheceu o engenheiro h�ngaro John Frederik Konig, que estava de mudan�a para o Brasil. Depois de dois anos de correspond�ncia, eles se casaram e foram morar em S�o Paulo, onde est�o at� hoje. John Frederik fez carreira executiva em firmas como a Pfizer e a Johnson & Johnson, at� se aposentar. Nanette n�o teme remexer nas lembran�as da guerra e foi uma das fontes de informa��o de Melissa M�ller, autora da biografia de Anne Frank. Na semana passada, Nanette deu a seguinte entrevista a VEJA:

Veja � A senhora era amiga �ntima de Anne Frank?
Nanette � Para entender nossa rela��o, � preciso levar em conta as circunst�ncias em que nos conhecemos. Nenhuma de n�s teve adolesc�ncia, passamos diretamente de crian�as a adultas. Na verdade n�o t�nhamos afinidade porque ela gostava de mandar em todas as suas amigas e comigo n�o conseguia. Anne era rebelde, muito cr�tica, principalmente com as pessoas fora de seu grupo e com aquelas que n�o queriam fazer parte dele. �ramos amigas, mas desconfio que no fundo n�o gostava de mim.

Veja � Como a encontrou no campo de concentra��o de Bergen-Belsen?
Nanette � O campo era dividido em v�rios setores e eu a vi pela primeira vez atrav�s do arame farpado. Ela j� havia passado um tempo em Auschwitz, estava careca e muito debilitada. Anne tamb�m deve ter ficado horrorizada com a minha apar�ncia. N�s nos reconhecemos, por assim dizer. Certo dia, tiraram o arame que dividia nossos setores, mas a� n�s duas j� est�vamos muito fracas para conversar.

Veja � Ela chegou a lhe falar do di�rio que havia escrito?
Nanette � Sim, quando ainda t�nhamos for�as ela me contou que havia ficado escondida por dois anos e que escrevera o di�rio. Disse que queria public�-lo em forma de livro, contando o que os nazistas fizeram, relatando a sua hist�ria.

Veja � Antes de O Di�rio ser publicado pela primeira vez, a senhora soube que o pai dela, Otto Frank, havia suprimido v�rias p�ginas nas quais Anne dirigia ataques � m�e e falava de sua sexualidade?
Nanette � Sim, Otto Frank chegou a me consultar sobre o assunto, se deveria ou n�o suprimir as p�ginas. Disse-me que sua m�e, av� de Anne, ficaria muito constrangida com o seu conte�do. Eu opinei pela supress�o das p�ginas. Naquela �poca o sexo n�o era debatido abertamente como hoje, e os ataques de Anne � m�e s�o t�picos de uma adolescente, n�o interessavam no contexto de um livro sobre a a��o dos nazistas contra os judeus.

Veja � A senhora mantinha um contato freq�ente com Otto Frank?
Nanette � Fal�vamo-nos por telefone e ele dizia sempre: "Venha me ver um dia". Mas meus filhos j� haviam nascido... N�o sei, nunca tive coragem.

Veja � As lembran�as de quem foi para um campo de concentra��o esmaecem com o tempo?
Nanette � N�o. Desci ao n�vel mais baixo a que um ser humano pode chegar. Minha alimenta��o consistia em tomar sopa de casca de batata ou em comer uma esp�cie de beterraba branca que � usada como ra��o de animais. O trabalho era for�ado, n�o havia instala��es sanit�rias nem prote��o contra o frio intenso. Certas vezes, era obrigada a ficar 36 horas de p�. A esqualidez � tanta que a libido desaparece e a menstrua��o se interrompe porque o corpo perde a capacidade de reproduzir. E havia a chamada Besta de Belsen, um oficial que fazia abajures com a pele de quem portava tatuagens bonitas. Ultrapassado certo limite, a pessoa nem liga mais, fica indiferente ao sofrimento. Quando os ingleses chegaram para libertar o campo, deram comida aos judeus, e muitos de n�s morreram depois de comer � o est�mago e os intestinos estavam degenerados demais para processar alimentos. Sa� de l� pesando 32 quilos.

Veja � Como conviver com essas lembran�as?
Nanette � � um aprendizado. Hoje penso que o pior vem depois. O trauma se perpetua na fam�lia. Meus netos sofrem por associa��o, eles sabem o que aconteceu comigo. Quando tinha cerca de 7 anos, um deles me perguntou: "Vov�, � verdade que uma vez os alem�es deram peda�os de sab�o aos judeus dizendo que era para tomar banho, mas na verdade era para faz�-los entrar na c�mara de g�s?" O que dizer nessa hora? Que a estupidez humana n�o tem limites? Na hora fiquei muda. O horror � isso.

Veja � A senhora assistiu ao filme A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, sobre o holocausto?
Nanette � Sim. � um filme fant�stico, mas quando vi aquelas mulheres na c�mara de g�s com bumbum e seios... Ningu�m no campo de concentra��o tinha mais bumbum e seios. Paci�ncia: o que o Spielberg podia fazer � pegar gente de Biafra e pintar de branco? Esse � apenas um detalhe que s� quem esteve l� p�de notar.
  Acontece
Passagens do Cotidiano
Fatos, contos e cr�nicas da rotina di�ria
.
.
A pousada na reserva florestal de Campos do Jord�o
N�o existe oferta melhor na est�ncia mais alta do Brasil! Conforto e sossego a apenas 4,5 km do centro!
Venha desfrutar de um ver�o refrescante, onde as temperaturas jamais excedem a 23 graus!
Fa�a um tour fotogr�fico pela pousada clicando aqui
P�gina Inicial
Hosted by www.Geocities.ws

1