Mem�rias do Homem do G�s Veja 14/10/1998 M�dico nazista conta com detalhes como se matava em Auschwitz
Na foto abaixo, Hans M�nch, hoje, aos 87 anos, em sua casa, na Alemanha
M�dico aposentado numa apraz�vel cidadezinha do sul da Alemanha, Hans M�nch � um af�vel senhor de 87 anos. Atencioso, preocupa-se com que o rep�rter esteja confort�vel, enquanto explica como era complexo incinerar os judeus. "Eles eram amontoados em camadas para ser carbonizados, por�m n�o se conseguia queim�-los completamente. Mas isso era um problema t�cnico e foi naturalmente resolvido", conta o doutor M�nch, o �nico sobrevivente conhecido da equipe de m�dicos nazistas que usou prisioneiros como cobaia em Auschwitz. As atrocidades nazistas no maior dos campos de exterm�nio, no qual morreram pelo menos 1,5 milh�o de pessoas, a maioria judeus, s�o bem documentadas � por motivos �bvios, contudo, s�o escassos os depoimentos confi�veis dos pr�prios algozes. Duas semanas atr�s, com a publica��o na revista alem� Der Spiegel do depoimento de M�nch ao rep�rter Bruno Schirra, abriu-se a rara oportunidade de ver por dentro a tenebrosa m�quina de exterm�nio montada pela Alemanha nazista.
Na contram�o dos neonazistas atuais, que tentam reescrever a Hist�ria para negar a exist�ncia da "solu��o final" e das c�maras de g�s, M�nch j� havia falado extensamente sobre a "solu��o final". A diferen�a � que agora falou como nunca, com frieza e sem o arrependimento declarado em depoimentos anteriores. O regulamento exigia que as execu��es fossem acompanhadas por um m�dico da SS, a tropa de choque do nazismo, e ele pr�prio cumpriu seu dever assistindo � agonia dos prisioneiros por um visor instalado na c�mara de g�s. "Do peito dos agonizantes, sufocados pelo g�s, sa�a um ru�do abafado, como o zumbido de uma colm�ia", recorda o m�dico. Muitas vezes os corpos eram encontrados amontoados, com as crian�as por baixo, pisoteadas. Outras vezes estavam de p�, como "colunas de basalto".
M�nch ingressou como volunt�rio na SS e passou dezenove meses em Auschwitz, o grande campo da morte na Pol�nia. Quando chegou, em 1943, o servi�o m�dico era comandando por Josef Mengele, que depois da guerra viveu escondido no Brasil at� morrer, nos anos 80. "Aquelas eram condi��es ideais de trabalho", diz. "Tinha a ajuda de acad�micos de reputa��o internacional e pude fazer com seres humanos experi�ncias que, normalmente, s� s�o poss�veis com coelhos." Tradu��o: ele inoculava mal�ria em prisioneiros. Tamb�m tentava provar a exist�ncia de uma rela��o entre reumatismo e inflama��es dent�rias injetando pus na raiz de dentes sadios. Os "acad�micos de reputa��o internacional" eram cientistas judeus capturados nas universidades de toda a Europa. Gra�as a eles, por ironia, M�nch foi absolvido pelo tribunal polon�s que condenou � morte quarenta de seus colegas, depois da guerra. Ele n�o apenas p�de comprovar que mantivera vivos (e alimentados) os judeus de sua "lista", como ajudou dois ou tr�s a escapar no fim da guerra. Meio s�culo depois, M�nch n�o est� mais ligado � reputa��o de "bom nazista". "Acho que ele acredita que est� no fim da vida e que chegou a hora de dizer a verdade", declarou a VEJA o rep�rter Schirra. Com frieza e indiferen�a, o m�dico narrou ao rep�rter como enviava � c�mara de g�s todos os prisioneiros de um barrac�o onde fosse detectado um caso de tifo. "Cham�vamos isso de isolamento por g�s", justifica. "Era o �nico jeito de impedir que atingisse as pessoas fora do campo."
Dep�s a seu favor em 1947 a alega��o de que se recusou a fazer a sele��o dos prisioneiros rec�m-chegados que iriam diretamente para a c�mara de g�s e os que seriam encaminhados ao campo de concentra��o para trabalhar como escravos. Habitualmente, mulheres, crian�as, velhos e doentes eram marcados para a c�mara de g�s. O processo servia tamb�m para identificar as crian�as g�meas enviadas como cobaias para Mengele. O m�dico que o mundo recorda como um monstro era, diz M�nch, "o mais simp�tico dos companheiros". Ele lembra bem que Mengele lhe enviava peda�os de corpos, v�sceras e, certa vez, a cabe�a de uma crian�a de 12 anos para ser examinada. "Isso era trabalho", diz com l�gica burocr�tica. "E trabalho � trabalho."
Consci�ncia tranq�ila � "O senhor tem algum resqu�cio de peso na consci�ncia?", perguntou o rep�rter. "Por ter estado l�? Evidentemente que n�o", respondeu M�nch, indicando sentir saudade daquele tempo, em que era algo al�m de um simples m�dico do interior. "Eu era um rei l�. Viver tranq�ilamente num lugar onde centenas de milhares de seres humanos s�o mortos em c�maras de g�s � algo com que a gente se acostuma bem r�pido. N�o me causou nenhum inc�modo." De fato, segundo conta, n�o havia entre os m�dicos alem�es preocupa��o moral com a matan�a � discutiam com paix�o, contudo, se era prudente exterminar tanta m�o-de-obra escrava que podia ajudar no esfor�o de guerra.
Tr�s anos atr�s, a representante de uma associa��o de g�meos sobreviventes das experi�ncias de Mengele convidou M�nch a visitar Auschwitz. Posando para fotos ao lado de sobreviventes, o m�dico divulgou uma declara��o em que afirmava ter cometido um erro ao entrar para a SS: "Era jovem. Um oportunista. E, uma vez dentro, n�o havia como sair". Na conversa sincera com o rep�rter da Der Spiegel, mudou de tom e demonstrou a velha convic��o nazista de que � preciso exterminar os judeus. Lembra-se com desprezo dos prisioneiros rec�m-chegados do Leste Europeu, chicoteados como animais para fora dos trens: "Uma esc�ria abomin�vel. T�o servis que n�o se podia sequer qualific�-los de seres humanos". O depoimento de M�nch se prolongou por cinco dias e quatro noites, e a Justi�a alem� j� pediu ao rep�rter c�pias das fitas para exame. Mesmo que um improv�vel e tardio julgamento venha a ocorrer, a avan�ada idade e um atestado m�dico questionando a sanidade mental de M�nch dever�o ser suficientes para garantir a morte tranq�ila que seus "pacientes" n�o tiveram em Auschwitz. |