Livro Negro do Comunismo              Veja 04/02/1998
Balan�o de oitenta anos de regimes comunistas aponta entre 80 e 100 milh�es de mortos

Oitenta anos depois da Revolu��o Bolchevique na R�ssia e sete depois de a Uni�o Sovi�tica ter virado fuma�a, a trajet�ria do comunismo pode ser tra�ada sob variadas perspectivas  mas nenhuma delas � mais dram�tica e ilustrativa que a contabilidade pura e simples do n�mero de v�timas. A tr�gica transposi��o para a vida real de uma ideologia carregada de promessas de igualdade e justi�a custou entre 80 e 100 milh�es de vidas, com a esmagadora maioria de v�timas nos dois gigantes do marxismo-leninismo, a Uni�o Sovi�tica e a China. Essa conta de arrepiar est� em Le Livre Noir du Communisme (O Livro Negro do Comunismo, editora Robert Laffont, sem previs�o de publica��o no Brasil), lan�ado h� tr�s meses na Fran�a justamente para coincidir com o octog�simo anivers�rio da Revolu��o Bolchevique. A obra, com massivas 846 p�ginas escritas por onze historiadores, � o mais completo estudo existente do comunismo sob o prisma de suas atrocidades. N�o � por outra raz�o que, desde que o primeiro exemplar chegou �s livrarias de Paris, os autores e a obra estejam mergulhados num turbilh�o de controv�rsias e disputas azedas.

Os comunistas n�o foram os �nicos respons�veis pelas cat�strofes humanas de um s�culo conturbado. Os nazistas adotaram o mesmo exerc�cio frio do terror como instrumento de Estado e foram especialmente cru�is ao tentar moldar a geografia humana e pol�tica segundo crit�rios raciais. O terror comunista, contudo, prolongou-se por maior tempo e foi mais bem-sucedido na conserva��o do poder pol�tico como o objetivo era erradicar classes sociais inteiras, os dirigentes comunistas escolheram a maioria das v�timas entre seus pr�prios compatriotas. Foi o que aconteceu na China, com presum�veis 65 milh�es de mortos, a maioria dizimada pela fome desencadeada a partir do Grande Salto para a Frente, o desastroso projeto de auto-sufici�ncia implantado por Mao Ts�-tung em meados dos anos 50. Tratou-se da pior fome da Hist�ria, acompanhada de ondas de canibalismo e de campanhas de terror contra camponeses acusados de esconder comida. Na URSS, de 1917 a 1953, ano da morte de Stalin, os expurgos, a fome, as deporta��es em massa e o trabalho for�ado no Gulag mataram 20 milh�es de pessoas. S� a grande fome de 1921-1922, desatada em grande parte pelo confisco de alimentos dos camponeses, ceifou mais de 5 milh�es de vidas. Na Cor�ia do Norte, comunista de carteirinha que ainda perdura, a execu��o de "inimigos do povo" contabiliza pelo menos 100.000 mortos. Em termos proporcionais, contudo, o maior genocida comunista � o Khmer Vermelho do Camboja: em tr�s anos e meio (1975-1979), com sua pol�tica inclemente de transfer�ncia for�ada dos moradores das cidades para o campo, matou de fome e exaust�o quase 25% da popula��o.

L�gica do genoc�dio  Fosse s� um levantamento da matan�a e da repress�o cometidas em nome de uma ideologia, o Livro Negro provavelmente n�o despertaria tantas controv�rsias  at� porque os crimes do stalinismo, a matriz da pol�tica de terror empregada por outros regimes comunistas, j� s�o conhecidos desde o XX Congresso do Partido Comunista Sovi�tico, em 1956. A semente da disc�rdia foi implantada na introdu��o da obra por seu organizador, St�phane Courtois. Um ex-mao�sta convertido em cr�tico feroz do marxismo, ele argumenta que o crime � intr�nseco ao comunismo e n�o apenas um instrumento de Estado ou um desvio stalinista de uma ideologia de princ�pios humanit�rios. Courtois tamb�m sugere a equipara��o do comunismo ao nazismo, com base na id�ia de que ambos partilham a mesma l�gica do genoc�dio. "Os mecanismos de segrega��o e de exclus�o do totalitarismo de classe s�o muito parecidos com os do totalitarismo de ra�a", escreve Courtois.

As teses do organizador irritaram a tal ponto os outros autores que por pouco a publica��o da obra n�o foi suspensa. Courtois foi acusado de sensacionalista e de "obcecado" em atingir a cifra de 100 milh�es de mortos com o objetivo de causar impacto publicit�rio. N�o h� d�vida de que ele realmente abusou do chut�metro para esticar o m�ximo poss�vel a contagem de mortos, sobretudo em rela��o � Am�rica Latina, onde foram juntados no mesmo balaio as v�timas de Cuba, �nica experi�ncia efetivamente comunista do hemisf�rio, com as do sandinismo na Nicar�gua e as do grupo terrorista Sendero Luminoso no Peru. Os 150.000 mortos latino-americanos encontrados por Courtois significam um n�mero injustificado e estapaf�rdio, sob qualquer ponto de vista. Pode-se dizer que Fidel Castro provocou um �xodo significativo de seus conterr�neos (20% dos 11 milh�es de cubanos vivem no ex�lio), mas em mat�ria de mortos seu desempenho � relativamente modesto. No auge do pared�n, nos anos 60, quando o regime podia alegar que enfrentava resist�ncia armada � revolu��o, entre 10.000 e 17.000 cubanos teriam sido executados. Mais recentemente, foi em 1994, quando 20.000 balseros se lan�aram ao mar para fugir de Cuba em embarca��es precar�ssimas, que se teria registrado um n�mero expressivo de mortos, a maioria afogada na tentativa desesperada de vencer o Estreito da Fl�rida.

Diferen�as na conta de chegada n�o invalidam o debate mais amplo proposto por St�phane Courtois a respeito dos crimes do comunismo e de seu parentesco com o nazismo. Ambos, notou a fil�sofa e escritora alem� Hannah Arendt, beberam na mesma origem totalit�ria. Compartilhavam da mesma cren�a no partido �nico, na ideologia incontest�vel e no dom�nio total do aparato estatal pelo partido. E ambos recorrem maci�amente � pol�cia pol�tica e � repress�o implac�vel de dissidentes. "Comunismo e nazismo s�o primos-irm�os", concorda o cientista pol�tico Le�ncio Martins Rodrigues, da Unicamp. Existem tamb�m diferen�as cruciais, observa o historiador Nicolas Werth, autor da primeira parte, e de longe a melhor, de O Livro Negro, na qual esmi��a a g�nese e os desdobramentos do terror na Uni�o Sovi�tica. Werth nota que no nazismo sempre houve uma adequa��o perfeita entre a teoria e a pr�tica, ambas malignas, ao passo que no comunismo a caracter�stica b�sica � justamente um enorme hiato entre o ideal e a realidade.

Se for julgado n�o por suas teorias mas pelas pr�ticas que inspirou, o comunismo deve sua viol�ncia � experi�ncia fundadora do Estado sovi�tico  foi quando Lenin implantou o chamado "Terror Vermelho" para quebrar a resist�ncia do campo ao bolchevismo. Segundo Werth, a coletiviza��o for�ada do campo, na virada dos anos 20 para os 30, equivaleu a uma declara��o de guerra do Estado sovi�tico contra toda uma na��o de pequenos e m�dios produtores rurais. A �ltima etapa dessa guerra terminou com a terr�vel fome de 1932-1933, deliberadamente provocada pelos bolcheviques e que deixou um saldo de 6 milh�es de mortos. A viol�ncia exercida contra o campo gerou o modelo que Stalin aperfei�oaria em seguida contra outros grupos sociais  modelo calcado numa "ideologia desp�tica genocida", segundo a defini��o de Ruy Fausto, um brasileiro que ensina filosofia na Universidade de Paris.

"Grande Terror"  O paroxismo da viol�ncia chegou sob a forma de um expurgo apelidado de "Grande Terror", na segunda metade dos anos 30. As p�ginas nas quais Werth descreve essa fase do terror s�o de tirar o f�lego: todos os segmentos da sociedade foram castigados pela sanha criminosa do regime, da velha guarda bolchevique (submetida a uma farsa de Justi�a e depois executada) aos oficiais do Ex�rcito Vermelho. Em tr�s anos, foram expurgados tr�s dos cinco marechais, oito dos nove almirantes e 154 dos 186 generais-de-divis�o. A repress�o n�o poupou nem os cidad�os comuns, ca�ados nas ruas para que fosse cumprido o regime de cotas de "elementos contra-revolucion�rios" a reprimir. Organizada e fiscalizada pela sinistra NKVD, a antecessora da KGB, a repress�o est� ilustrada em documentos que reproduzem o interrogat�rio e a condena��o dos "inimigos do povo" e dos "trotskistas", outros dos ep�tetos cunhados pelo regime para designar seus inimigos  reais ou imagin�rios. Um certo e infeliz Vassili Sidorov, por exemplo, preso em Moscou em 1938, apesar de uma ficha limp�ssima na pol�cia, foi executado porque tinha dito, numa conversa de botequim, que "Stalin e sua turma n�o querem deixar o poder".

Durante d�cadas, os horrores do regime stalinista permaneceram desconhecidos  at� hoje, gra�as � propaganda comunista e a uma id�ia rom�ntica da revolu��o, muitas experi�ncias comunistas dolorosas continuam a ser tratadas com condescend�ncia. A Uni�o Sovi�tica de Stalin contou ainda com o benef�cio de ter sua imagem associada � luta contra o nazismo durante a II Guerra, a partir de 1941. O engajamento sovi�tico na guerra e a vit�ria sobre o nazismo fez dos comunistas s�mbolos da luta antifascista. Nenhuma palavra, ent�o, foi dita sobre a roupa suj�ssima que o regime sovi�tico tratou de ocultar, como o pacto com a Alemanha nazista em 1939 ou a chacina, no ano seguinte, de mais de 4.000 oficiais poloneses capturados pelo Ex�rcito Vermelho na Pol�nia e transportados a pris�es no interior da R�ssia. O epis�dio ficou conhecido como o massacre de Katyn, a floresta onde os corpos estavam enterrados em fossas, todos com um tiro na nuca. Em 1943, quando a matan�a foi descoberta, o regime sovi�tico tratou de jogar a culpa nos alem�es. Hoje se sabe, gra�as aos arquivos abertos, que Stalin assinou a ordem para que fossem executados.

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No final do s�culo XIX, o Czar Alexandre III ordenou a constru��o do sistema ferrovi�rio mais extenso, caro e complexo sobre a Terra. Atrav�s dele, pretendia unificar o pa�s e assim salvar seu decadente imp�rio. Mas o que ele n�o sabia, � que al�m de atravessar territ�rios inimigos esta maravilha da engenharia daria in�cio a uma guerra sem precedentes.
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