O Inimigo Light Veja 18/03/1998 Pesquisa reconstitui a vida de alem�es em campo de concentra��o de Pernambuco
Em um trabalho para a Universidade Federal de Pernambuco, a jornalista e pesquisadora Susan Lewis, 27 anos, uma brasileira filha de judeu americano, descobriu um curioso peda�o da Hist�ria do Brasil entre os documentos do Departamento da Ordem Pol�tica e Social, Dops. Cartas, telegramas e of�cios revelam que existiu em Pernambuco durante a II Guerra Mundial um campo de concentra��o para nazistas � o �nico de que se tem not�cia al�m de dois outros no Vale do Para�ba, em S�o Paulo. Localizado no munic�pio de Ara�oiaba, a 60 quil�metros do Recife, o Campo Ch� de Estevam foi criado em 22 de novembro de 1942 e funcionou at� 1945, nas terras da F�brica de Tecidos Paulista, da fam�lia Lundgren, fundadora das Casas Pernambucanas. Ao todo, os Lundgren tinham cerca de 100 funcion�rios alem�es e italianos, contratados para operar as m�quinas importadas. Pelos documentos, sabe-se que foram confinados pelo menos trinta estrangeiros e seus familiares, incluindo suas mulheres e filhos brasileiros. O campo de concentra��o pernambucano, contudo, era muito diferente dos campos para judeus na Europa. N�o h� registro de que algu�m tenha morrido ou sofrido maus-tratos por l�. Ao contr�rio, as condi��es de vida eram bastante razo�veis e h� motivos para crer que o lugar era cercado de certa boa vontade.
Para come�ar, at� a entrada do Brasil na guerra, o ent�o interventor federal em Pernambuco, Agamenon Magalh�es, era ferrenho defensor da amizade entre Brasil e Alemanha. Em artigos no jornal A Folha da Manh�, exaltava os v�nculos entre as duas na��es. Ap�s as press�es dos Estados Unidos para que o Brasil declarasse guerra ao Eixo, Agamenon trocou de lado. Chegou a posar para fotografias recebendo um cheque de 50.000 r�is da comunidade judaica como contribui��o ao Aeroclube de Pernambuco. No of�cio 374-C dos arquivos do Dops, datado de outubro de 1942, o Minist�rio da Guerra prop�e a Agamenon que tome precau��es contra os alem�es da Lundgren. A cria��o do campo de concentra��o aconteceu um m�s depois da chegada do of�cio.
Conforto na cadeia � Para os alem�es, foi um al�vio. "Acho que o campo na verdade foi criado para evitar que os funcion�rios dos Lundgren, pessoas bastante influentes na sociedade da �poca, sofressem de verdade na cadeia", diz Franz Joseff Hermann, 79 anos, ex-funcion�rio da Companhia de Tecidos Paulista, um dos poucos que n�o foi enviado ao campo, por ter deixado a empresa onze meses antes da guerra. No campo Ch� de Estevam, os confinados moravam com as fam�lias em pequenas casas de alvenaria, com tr�s c�modos. Recebiam visitas e tinham direito a manter correspond�ncia com parentes na Alemanha. Continuavam at� ganhando metade do ordenado de 2 contos de r�is e iam � feira sem vigil�ncia ostensiva. Deviam pedir permiss�o apenas para consultas m�dicas no Recife. Em suas cartas e telegramas, eles registram o conforto do local e mencionam suas maiores ang�stias � a proibi��o do idioma alem�o e o afastamento do trabalho.
Durante a II Guerra, os Lundgren estavam consolidando o que seriam as Casas Pernambucanas. Em 1904, os filhos mais jovens de Hermann Lundgren, Arthur e Frederico, compraram a Companhia de Tecidos Paulista, que no seu auge chegou a ter 15.000 funcion�rios. Os alem�es eram na maioria ex-integrantes do Partido Nazista, criado no Estado em 1936 e desfeito dois anos depois, quando o Estado Novo extinguiu todos os partidos. Os novos documentos mostram que os Lundgren, de certa forma, protegeram alem�es em Pernambuco da mesma forma que Oscar Schindler salvou judeus da Alemanha. |